A fortuna que perdi e pretendo reaver

Depois de passar trinta e quatro anos dizendo que não gostava de abacate sem nunca ter sequer provado o fruto, provei, gostei e tô numas de comer com alguma frequência, seja puro (de colher) ou do meu jeito preferido: como base para um delicioso guacamole.

Dia desses, comprei um único abacate no súper aqui de perto de casa, para o guacamole da janta, e reparei no preço da etiqueta: R$ 2,00 exatos. “Só dois pila por um abacate! Que barato pra algo que serve de base pra um jantar pra duas pessoas”, pensei.

Aí lembrei do abacateiro que tínhamos em casa, lá em São Sebastião do Caí, quando eu era criança e dizia que não gostava desse fruto, e quando todos os anos ganhávamos da Mãe Natureza,  de graça, dezenas de abacatões orgânicos.

Tínhamos um quintal mui pródigo nesse sentido. Só em volta da nossa velha casa de madeira, havia três grandes laranjeiras de variedades diferentes: uma do tipo que chamávamos de “laranja de suco”, muito doce e que dava mais frutas do que conseguíamos espremer; outra que chamávamos de “laranja branca”, por ser mais clara mas também muito doce; e um pezão de “laranja de umbigo” (que hoje encontro no Zaffari com o nome de “laranja Navelina”), frutas que chupávamos em família após o almoço, meu pai, minha mãe e eu de pé sob a árvore, cada um com uma faca para descascar laranjonas recém apanhadas. Eram laranjeiras autênticas, naturais (não eram árvores de enxerto, que vivem menos, como a quase totalidade das mudas hoje comercializadas), que deram laranjas a nossa família por uns vinte anos, no mínimo.

Nos fundos, perto do nosso picadouro de lenha, havia um gigantesco (pelo menos para mim, que era pequeno na época) pé de limão siciliano e outro, menor, de limão taiti. Entre esses limoeiros e nossa casa, dois grandes pés de pêra, mas não dessas pêras macias que encontramos na feira, e sim uma variedade um pouco mais dura e ácida, mas também deliciosa, que chamávamos de “pêra-pau”. Fato curioso sobre essas árvores de pêra-pau: durante anos não deram frutos e meus pais chegaram a achar que fossem estéreis, mas um dia começaram a produzir e assim continuaram, ano a ano. Próximo das pereiras, algumas bananeiras e, ao longe, perto do velho açude, umas três ou quatro goiabeiras. Eu nunca fui fã da goiaba in natura, mas adorava as chimias que minha mãe sempre preparava com as frutas.

Caminhando em outra direção, por detrás das casas dos coelhos e do pátio do galinheiro, quase na encosta do grande barranco, eu chegava ao meu pé de laranja-lima (que, ao contrário daquele do livro, não falava comigo) e, ao lado dele, tínhamos umas ameixeiras. Entre o galinheiro e a laranjeira de suco, grandes pés de figo, frutos que minha mãe usava para fazer o tradicional doce-de-figo em calda. E, subindo pelas árvores, sempre havia baraços de maracujá que cresciam “gaudérios” (espontâneos), sem que precisássemos plantar.

Para o lado sul, rente à cerca de tela, ficavam os pés de mamão, que eu considerava árvores bem estranhas, não só por seus caules macios e fibrosos, mas também porque eram as únicas que exigiam cuidados específicos: no inverno, era preciso proteger os mamões verdes para que não fossem queimados pelas geadas.

Do outro lado dessa cerca, entre o nosso pátio e o pátio onde ficavam as casas da tia Teresa e do Tio Pedro, havia um pomar de uso coletivo da família, que chamávamos de “Arvoredo”. O Arvoredo tinha dois enormes pés de caqui e várias bergamoteiras de tipos diferentes (afinal, São Sebastião do Caí é conhecida em todo o Estado como “a Terra da Bergamota”). Descendo um pouco mais ao sul e passando a casa da Tia Teresa, eu comia com meus primos, quando chegava o inverno, deliciosas nêsperas (que chamávamos de “ameixas amarelas”) dos dois grandes pés lá plantados.

E, nos fundos da casa da Tia Teresa, ficava um dos maiores tesouros da família, que na época eu não sabia que era um tesouro, pois para uma criança lá criada aquilo era trivial: uma gigantesca nogueira, que anualmente jogava no chão mais nozes do que podíamos comer. Entre uma brincadeira e outra, andávamos em torno da árvore catando nozes caídas, quebrando e comendo na hora.

Dando a volta por trás da nogueira, chegávamos ao lugar que chamávamos de “Sanga”, mas que não era uma sanga de verdade; era apenas um terreno baixo e mais úmido, onde havia mais algumas laranjeiras (das quais praticamente só os passarinhos se alimentavam, pois nós não dávamos conta) e, na encosta, alguns pés de abacaxi que raramente davam um fruto que valesse a pena apanhar e descascar. Meu pai usava a Sanga para plantar nas horas de folga (ele era operário da indústria calçadista), mas quase nunca plantava frutas, e sim verduras, leguminosas, tubérculos, temperos e legumes. De vez em quando ele cultivava morangos e melões, mas não era sempre.

Se eu fosse até a casa dos meus avós maternos, que ficava a meia hora de caminhada, podia comer mais frutas das bergamoteiras, dos meus amados pés de laranja-do-céu ou das bananeiras, mas a grande estrela do pátio era a Parreira, que merecia a deferência da inicial maiúscula porque todos os anos nos presenteava com deliciosos cachos de uvas da preta e da branca.

E, nas roças que pertenciam sei lá a quem e onde meu avô obtinha permissão para plantar, colhíamos (ou melhor, o Vô colhia e eu, que era pequeno, assistia e dava apoio moral) grandes e suculentas melancias. Meu pai nunca teve sorte com as melancias que plantava; colhia, quando muito, os frutos anões (mas também saborosos) que chamávamos de “bugaios”; mas meu avô sempre conseguia melancias enormes, que nos domingos eram saboreadas pela família inteira no pátio da sua casa, à sombra daquele grande cinamomo que, hoje, não existe mais – assim como as degustações comunais de frutas em família.

Olhando em retrospecto, lembro com saudade e nostalgia dessa fortuna que tive e perdi. Éramos pobres, o dinheiro era sempre contado e mal dava para as necessidades básicas, mas quanto vale ter tantas frutas diferentes, 100% orgânicas, ao alcance da mão (ou, quando o braço não era comprido o suficiente, ao alcance de uma longa taquara com um gancho de metal na ponta)?

E não penso só na questão do preço dessas frutas em dinheiro, mas no que elas representavam na nossa vida. As frutas e seus pés nos ensinavam a conviver com as estações e com os ciclos da Mãe Terra, a lidar com a longa espera pela maturação; nos ensinavam que para apanhar a fruta mais doce às vezes é preciso coragem para trepar no galho mais alto; nos inseriam numa ética do cuidado e da partilha. Por exemplo, quem já apanhou um cacho de bananas inteiro sabe que esta não é uma fruta para egoístas: ou você divide com outras pessoas, ou verá a maioria do cacho apodrecer antes que você consiga comê-lo.

E, sobretudo, ter tantas árvores frutíferas no pátio de casa me ensinou a ver as frutas como dádivas de uma Natureza que alimenta, com fartura, as pessoas e os animais – e gratuitamente.

Hoje, moro numa caixa de concreto e tijolos, longe de São Sebastião do Caí, e quase todas as frutas que consumo são compradas – e a um preço não muito baixo. Tenho, do ponto de vista econômico, um “padrão de vida” muitíssimo mais alto que o que meus pais me deram quando eu era criança, mas não posso criar meu filho em meio aos tesouros naturais com que meus pais me criaram.

Um dos meus objetivos de vida é recuperar pelo menos parte da fortuna que perdi. Uma casa numa cidade menor e mais calma, um pátio grande e com uns pés de fruta em que meu pequeno possa trepar para colher pessoalmente os presentes que a Mãe Terra nos dá, e com eles se fartar de doçura e saúde.

Um dia…