Arquivos para Junho, 2009

Minha vida de mestre

Escrito por Eduardo Nunes 2 Comentários

(onde são narrados catorze minutos da rotina diária de um trabalhador da Educação – com nomes fictícios)

Entro na sala. Dou o “bom dia” mais cordial de que sou capaz. Ponho o caderno de chamadas na minha mesa e fico de pé, observando – só observando. Mais da metade da turma parece nem ter notado a minha presença. A balbúrdia duraria a manhã inteira, se os mais puxa-sacos não começassem a gritar: “Senta, senta, o Eduardo taí!”.

Quando há condições mínimas de me fazer ouvir, sento pra fazer a chamada. Na minha cadeira desenharam um pênis bem grande, e não posso deixar de notar uns sorrisinhos sacanas em alguns rostos, como se fosse uma grande coisa fazer o professor sentar num cacete.

Sempre fui contra as chamadas, pois acredito que as aulas deveriam ser para quem quisesse aprender, mas quem sou eu pra contrariar a Direção, os pais e a Secretaria de Educação? Alguns nomes já estão nessa mesma lista há anos. Muitos vêm à escola só pra ter direito às Bolsas do governo federal, ou para evitar problemas com o Conselho Tutelar. Maldito Conselho Tutelar… Eu queria que um conselheiro tutelar ficasse só uma hora tentando ensinar as Grandes Navegações pra minha sexta série.

Levanto e vou pro quadro. Lá encontro um coração desenhado, enorme, com o texto “Jéssica y Maurício: 100% Amor Eterno”. Amor eterno… Logo a Jéssica, que já amou tanta gente desde o início do trimestre…

Mando abrirem os cadernos. Alguns abrem. Tenho que ensinar a essas crianças que os burgueses precisavam de especiarias pra poderem vender carne estragada, aromatizada artificialmente. Eu pretendia também mostrar como desde aquela época os comerciantes fazem de bobos os consumidores; mas não consigo, pois primeiro tenho que mandar o Jéferson parar de chamar o Thiago (com TH) de Dumbo. Ele pára, mas aí tenho que correr pra evitar que a Cíntia e o Jonatan se matem. Que guriazinha insuportável! E o Jonatan é pior ainda. Mando os dois pra Orientação, onde não acontecerá nada com nenhum deles, a menos que desta vez a Orientadora faça algo que não seja passar um sermão inócuo.

Bem, vamos ao conteúdo. Vocês lembram onde os europeus buscavam especiarias? Como ninguém ouviu, peço silêncio e pergunto mais alto. Continuam não ouvindo. Só o Fernando, o nerd da turma, sabe a resposta. Os demais esqueceram, ou então acham que não precisam aprender essas coisas. E talvez tenham razão. Pra que mesmo eu aprendi isso? No fim das contas, só pra passar no vestibular e depois tentar ensinar esse mesmo conteúdo a pessoas que não querem aprendê-lo.

Olho o relógio, com medo do que vou ver. Faltam trinta e um minutos para o recreio. Como o tempo passa devagar na sexta série! Bem, o jeito é apertar o botão de “Foda-se”, dar as costas para a turma, pegar o giz e escrever, escrever, escrever, até que toque o sinal ou que eu morra de exaustão, o que vier primeiro.

[Texto publicado originalmente no meu blogue antigo, em dezembro de 2006. É triste dizer, mas de lá para cá as coisas só pioraram]

O Brasil é mesmo o país das maravilhas. Temos uma educação progressista e libertadora, mas nossos alunos saem da escola na condição de analfabetos.

Para entendermos como é que se faz essa mágica, a de se ensinar sem que se aprenda, imaginemos como seria uma simples ida ao médico, se o bom exemplo das escolas de Ensino Fundamental e Médio (dessas que engordam as entusiasmantes estatísticas) fosse seguido por todas as instituições de ensino, inclusive as faculdades de Medicina.

Numa cidadezinha pacata, no recém-instalado consultório do único médico do município, o paciente aguarda a sua chamada. Trata-se de um desses tipos ligeiramente hipocondríacos, leitores vorazes das bulas de remédio, e que encaram cada tosse atravessada como o prenúncio da Grande Pandemia.

O médico finalmente o chama:

– Sr. Lopes?

– Sou eu, Doutor.

– Pode entrar. Sente-se.

– Obrigado, Doutor. Nossa, como o senhor é jovem…

– Ora, agora a gente se forma bem mais cedo, depois que a Reforma do Ensino cortou a Residência… O que o senhor tem?

– Olha, Doutor, desde ontem que estou com uma tosse seca, e uma pontada nas costas. Será que é pulmão?

– Bem, o senhor vai ter que me desculpar, mas na faculdade eu colei em todas as provas da cadeira de Pneumo. Infelizmente, não posso ajudá-lo nessa área…

– Ah… Bom, mas eu também ando me sentindo meio mal depois do almoço. Umas náuseas, vômitos. O que será, Doutor?

– Ai, Sr. Lopes, nessa área eu também não sou muito forte, pois naquele semestre tinham baixado a média pra cinco, e como a gente fez um trabalho em grupo e eu já tava com cinco e meio na cadeira de Gastro, eu nem quis estudar pra prova, pois com essa nota já tinha passado…

– Tudo bem, a Maria me faz um chá de boldo, então… Doutor, e o que será que é essa descamação que tá começando no meu braço esquerdo?

– Bah, Sr. Lopes… Eu rodei em Dermato, mas como muita gente também repetiu naquele semestre, eles decidiram aprovar os que só tinham sido reprovados nessa cadeira…

– Doutor, o senhor não entende de doença nenhuma? E essas erupções aqui? Elas me aparecem de vez em quando. A Maria diz que é sangue sujo. O que eu posso tomar, Doutor?

– Bem, o senhor me desculpe, mas eu não pude estudar pra prova sobre sangue, e só passei porque o professor deixou fazer com consulta. Acabei não aprendendo nada.

– Olha, Doutor, isso é um absurdo! O senhor não pode atender pacientes num consultório, se não sabe nada de Medicina! Vou agora mesmo ao advogado, saber como posso denunciá-lo!

– Que advogado? O Freitas, do outro lado da rua?

– Esse mesmo!

– Ih, o senhor se deu mal. O Freitas se formou em Direito lá na minha Faculdade. Como ele era um terror e bagunçava muito, os professores o empurraram direto pro último semestre, pra se livrarem dele…

[texto publicado originalmente em 2006, no meu primeiro blog]

Ainda sobre Jackson e Twitter

Escrito por Eduardo Nunes 0 Comentário

Vídeo no Youtube mostra como a morte de Michael Jackson influenciou o surgimento de trends nos tweets:

(via @andrelemos)

Apesar do esperneio de gente que ainda não entendeu como o Twitter funciona (ou de quem entendeu mas não sabe/não quer se expressar em 140 caracteres), não dá mais para pensar o compartilhamento de informações em tempo real sem o auxílio do nosso querido pássaro azul.

A cobertura da morte de Michael Jackson é um exemplo paradigmático.

No fim da tarde do dia 25 de junho, eu estava no trabalho quando ouvi, de relance, alguém perguntar:

- ‘Tão dizendo que o Michael Jackson morreu! Será que é verdade?

Minha reação foi automática, reflexa: corri para o Twitter. Milhares (quiçá, milhões) de pessoas ao redor do mundo fizeram a mesma coisa, pois o nome e/ou as iniciais de Michael Jackson já apareciam nos Trending Topics.

Naquele momento, a cascata de updates (tanto na timeline do Twitter quanto nos resultados de busca no Twiterfall) trazia, como de praxe, mais perguntas que respostas. A grande dúvida era: ele tinha mesmo morrido ou não? Aparentemente, todos os que noticiavam a morte do cantor se baseavam em UMA ÚNICA FONTE: o site TMZ.

MJ3

Comecei a acessar sites de notícias do Brasil e dos EUA. Todos eles citavam o TMZ e adotavam aquela clássica postura defensiva: manchetes do tipo “Michael Jackson teria morrido, segundo site”.

Busquei ajuda, então, nas agências de notícias, esses bastiões do jornalismo, tão amadas pelos defensores do jornal impresso. Veja só em quem a Reuters se baseou para redigir o seu primeiro despacho:

MJ4

Impossível, nessa hora, não estabelecer um paralelo com o episódio da  “morte de Sílvio Santos”, boato que, após uma invasão hacker n’O Fuxico,  se espalhou via Twitter e ganhou espaço nos sites de notícias. Não seria a “notícia” da morte de Jackson uma pegadinha de proporções globais? Foi aí que o pássaro azul do Twitter mostrou, mais uma vez, a que veio.

As updates relacionadas a Michael Jackson dominaram a timeline do Twitter e quase monopolizaram os Trending Topics:

MJ9

O Twitter se converteu, por força da auto-organização, num fórum global sobre o estado de Michael Jackson. As informações e opiniões eram tuitadas e retuitadas em tempo real, e pelos links postados se podia ter uma noção geral da apuração dos sites de notícias, jornais e TVs. Além disso, os tweets eram a expressão de como os membros da twittosfera assimilavam a morte do cantor e refletiam as impressões de cada um sobre a vida e a obra de Jackson. Observemos, por exemplo, toda a riqueza de informação e significado deste pequeno segmento da timeline:

MJ11
Temos, aí, compartilhamento de links mostrando em tempo real o progresso da apuração (3, 4 e 5), a indicação de que a grande mídia havia endossado a notícia (4 e 5), a expressão de opiniões sobre a vida e obra do artista e o que elas representaram para o imaginário individual e coletivo (6 e 7), encadeamento de mídias (1 e 3), tentativa de transformação do twitter em meio de entrega direta da notícia (8) e até a expressão de indiferença em relação ao tópico mais em voga no momento (o número 2, em que o tuiteiro convoca a twittosfera a falar de outra coisa… será que alguém topou?).

Numa palestra da semana acadêmica da Fabico, o Alex Primo falou sobre a inserção do Twitter no encadeamento midiático. Observem, neste tweet, como até os participantes ativos da twittosfera usam a informação da mídia tradicional como “voto de Minerva“, como veredicto: “se a CNN confirmou, então é verdade”.

MJ8

Well, a verdade é que “Michael Jackson morreu na CNN 45 minutos depois de ter morrido no Twitter”, para usar uma frase que foi tuitada e retuitada à exaustão:

MJ12