Alguns sintomas da deseducação
O Brasil é mesmo o país das maravilhas. Temos uma educação progressista e libertadora, mas nossos alunos saem da escola na condição de analfabetos.
Para entendermos como é que se faz essa mágica, a de se ensinar sem que se aprenda, imaginemos como seria uma simples ida ao médico, se o bom exemplo das escolas de Ensino Fundamental e Médio (dessas que engordam as entusiasmantes estatísticas) fosse seguido por todas as instituições de ensino, inclusive as faculdades de Medicina.
Numa cidadezinha pacata, no recém-instalado consultório do único médico do município, o paciente aguarda a sua chamada. Trata-se de um desses tipos ligeiramente hipocondríacos, leitores vorazes das bulas de remédio, e que encaram cada tosse atravessada como o prenúncio da Grande Pandemia.
O médico finalmente o chama:
– Sr. Lopes?
– Sou eu, Doutor.
– Pode entrar. Sente-se.
– Obrigado, Doutor. Nossa, como o senhor é jovem…
– Ora, agora a gente se forma bem mais cedo, depois que a Reforma do Ensino cortou a Residência… O que o senhor tem?
– Olha, Doutor, desde ontem que estou com uma tosse seca, e uma pontada nas costas. Será que é pulmão?
– Bem, o senhor vai ter que me desculpar, mas na faculdade eu colei em todas as provas da cadeira de Pneumo. Infelizmente, não posso ajudá-lo nessa área…
– Ah… Bom, mas eu também ando me sentindo meio mal depois do almoço. Umas náuseas, vômitos. O que será, Doutor?
– Ai, Sr. Lopes, nessa área eu também não sou muito forte, pois naquele semestre tinham baixado a média pra cinco, e como a gente fez um trabalho em grupo e eu já tava com cinco e meio na cadeira de Gastro, eu nem quis estudar pra prova, pois com essa nota já tinha passado…
– Tudo bem, a Maria me faz um chá de boldo, então… Doutor, e o que será que é essa descamação que tá começando no meu braço esquerdo?
– Bah, Sr. Lopes… Eu rodei em Dermato, mas como muita gente também repetiu naquele semestre, eles decidiram aprovar os que só tinham sido reprovados nessa cadeira…
– Doutor, o senhor não entende de doença nenhuma? E essas erupções aqui? Elas me aparecem de vez em quando. A Maria diz que é sangue sujo. O que eu posso tomar, Doutor?
– Bem, o senhor me desculpe, mas eu não pude estudar pra prova sobre sangue, e só passei porque o professor deixou fazer com consulta. Acabei não aprendendo nada.
– Olha, Doutor, isso é um absurdo! O senhor não pode atender pacientes num consultório, se não sabe nada de Medicina! Vou agora mesmo ao advogado, saber como posso denunciá-lo!
– Que advogado? O Freitas, do outro lado da rua?
– Esse mesmo!
– Ih, o senhor se deu mal. O Freitas se formou em Direito lá na minha Faculdade. Como ele era um terror e bagunçava muito, os professores o empurraram direto pro último semestre, pra se livrarem dele…
[texto publicado originalmente em 2006, no meu primeiro blog]







