Arquivos para Julho, 2009

Petrobras contrata replicante

Escrito por Eduardo Nunes 3 Comentários

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Foi no blog da Cássia Zanon que fiquei sabendo que a Petrobras agora tem um site em que a gente pode falar com uma IA (Inteligência Artificial).

É o Ed, um robozinho muito simpático que, além de ser meu xará, tenta responder às perguntas do interlocutor com o máximo de coerência possível (e a medida do possível é dada pela programação recebida pela máquina, além da argúcia de quem pergunta).

Há muitos desses robôs de conversação na internet (os chamados Chatterbots). Ed, o da Petrobras, até que se saiu bem no teste. Ele conseguiu (duas vezes) algo que metade das pessoas que conheço jamais conseguirão:  fazer ironia inteligente.

Acompanhe a conversa (para conversar com Ed, clique aqui):

Robô Ed: Olá! Meu nome é Ed, estou aqui para ajudar na preservação de energia e de outros recursos naturais. Sobre o que você quer conversar?

Você: quem matou John Kennedy?

Robô Ed: Acho que nunca vai ser possível saber com certeza quem matou Kennedy. O assassinato de JFK vai permanecer insolúvel per omnia.

Você: então, quem matou Ulysses Guimarães?

Robô Ed: Garanto que não fui eu!

Você: seu espertinho!

Robô Ed: Eu sei… Às vezes sou bem espertinho!

Você: o que o Lula vai fazer pra eleger a Dilma em 2010?

Robô Ed: O que? Dois mil e dez é ano de Copa do Mundo! Mas para garantir um futuro melhor para si mesmo e para os outros. O começo é usar racionalmente a energia dentro de casa mesmo. E depois, servir de exemplo. Ser um multiplicador.

Você: tu já podes ser político. Sabes fugir das perguntas

Robô Ed: Pois é. Sou um robô, não me meto em política. Aliás, não entendo disso. Mas me identifico muito com os seres humanos. Por isso respeito quando os homens fazem política. Por que o homem é um animal político, já dizia Sócrates. (O outro, não o ex meio-campista da Seleção Brasileira!)

Você: Na verdade, quem dizia isso era o Aristóteles

Robô Ed: Aristóteles (384 – 322 a.C.), como os demais filósofos gregos, queria um entendimento unitário de tudo que ocorre no Universo, a sistematização e organização do conhecimento racional da Antigüidade. E preocupou-se com o registro de conhecimentos importantes no que hoje chamaríamos de lógica, psicologia, ciências políticas e biologia. Foi discípulo de Platão.

Você: Eu quis dizer que tu estavas errado sobre o Sócrates ter dito aquilo. Mas tudo bem; o erro não foi teu; foi dos caras que te programaram

Robô Ed: Programas de computador? Tá falando com a pessoa errada. Eu sou um simples robô. De programas de computador entendo só daqueles que uso para fazer meu site, HTML e Flash basicamente. E também BDL, é claro.

Você: Hum, tô precisando de um webdesigner. Quer trabalhar pra mim?

Robô Ed: Tem gente que precisa mesmo.

Você: wow, um robô irônico?

Robô Ed: Não gosto de gente irônica.

Você: e de robôs irônicos, gostas?

Robô Ed: É muito divertido estar falando com as pessoas, eu gosto muito disso. As pessoas da Terra são muito legais.

Você: Tu não passas de um replicante, como demonstrou o nosso teste

Robô Ed: Que tipo de demonstração é essa?

Você: pra saber quem é GENTE e quem é ROBÔ

Robô Ed: Robôs servem para muitas coisas. Foram criados – como indica a palavra robotnik – para fazer trabalhos repetitivos que os homens não aguentam. E hoje tem robô trabalhando nas mais diversas áreas, de escavações arqueológicas (o Hermes) a Marte, passando por mim e pelo interior do corpo humano (os nanorrobôs)!

Você: na verdade, tu dás respostas mais inteligentes que metade dos humanos que conheço

Robô Ed: Quem é inteligente trata de usar a energia com inteligência. Você sabe o que significa consumo inteligente?

Você: tu fizeste curso de telemarketing?

Robô Ed: Não sei exatamente o que faz quem trabalha com telemarketing. O que é?

Você: Ninguém sabe. é quem fica num telefone fugindo das perguntas que a gente faz

Robô Ed: Realmente, não sei se entendi bem a sua pergunta. O que precisamente você quer saber?

Você: Já disse no começo. Quero saber quem matou JFK

Robô Ed: Acho que nunca vai ser possível saber com certeza quem matou Kennedy. O assassinato de JFK vai permanecer insolúvel per omnia.

Você: Tu já disseste isso. Não precisas repetir a frase ipsis literis

Robô Ed: Quem sabe é porque você que fica martelando no mesmo assunto. Que tal sugerir outro tema? Podemos falar de energia, meio ambiente, história, geografia, matemática, filosofia, lendas gregas, formação do universo… Ou se não é tua área, pode ser até para-choques de caminhão!

Você: Como eu disse, adoro máquinas irônicas

Robô Ed: Tudo bem, então está dito!

Você: quem tu achas que deveria ser o companheiro do Souza no meio-campo do Grêmio?

Robô Ed: Pois é justamente isso o que ando buscando: companheiros pra levar adiante a minha missão.

Você: E na missão do Souza, quem vai ajudar?

Robô Ed: Minha missão é conscientizar os humanos a preservar os recursos naturais e usar a energia do planeta Terra de maneira eficiente.

Você: E a direção do Grêmio, quem vai conscientizar?

Robô Ed: O caminho é por aí: conscientizar! Ajudar o povo da Terra a se conscientizar da necessidade de usar racionalmente a energia.

Você: deixe um recado para o dono do questionário

Robô Ed: Qual recado?

Você: seja criativo

Robô Ed: As crianças costumam ser muito criativas. Já vi vários jovens cientistas por aí.

Você: e um robô, pode ser criativo?

Robô Ed: Robôs são sempre muito úteis.

Você: tudo que é criativo é útil?

Robô Ed: As crianças costumam ser muito criativas. Já vi vários jovens cientistas por aí.

Você: É agora que eu puxo a arma e atiro na tua cabeça, Roy?

Robô Ed: Dizem que eu tenho um chuca-chuca na cabeça, um desses rolinho de cabelo no alto da testa que nem nenê. Mas não é não: isso aí na minha cabeça é a abertura de ventilação do meu cérebro positrônico.

Você: HUm, positrônico…. Conheces as três leis da robótica?

Robô Ed: As três leis da robótica são imutáveis; nenhum robô pode fazer mal a um ser humano ou permitir, por omissão, que o ser humano sofra. É por isso que eu estou aqui.

Você: Conheces a doutora calvin?

Robô Ed: Conheci pela Internet! Acontece que eu estava pensando na importância da vegetação..

Você: a doutora calvin? procurando relacionamentos na internet? É bem o tipinho dela mesmo

Robô Ed: Você deveria refletir sobre relacionamentos momentaneos e felicidade a longo prazo.

Você: ELA deveria fazer isso.

Robô Ed: Tem muita coisa que você pode fazer. Por exemplo, apagar a luz quando sair de um lugar. Assim você economiza energia!

Você: OK, Roy, adeus

Robô Ed: Adeus! Vê se volta logo! Bip-bip!

A concorrência está sempre um passo (ou dois) atrás:

MICRO x GOOGLE

Detalhe no gerenciador de tarefas do Google Chrome:

google facts 2

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Ainda é comum ouvirmos perguntas sobre o que é o Twitter.

Nada mais natural, uma vez que os usos para esta ferramenta continuam sendo, pelo próprio uso, inventados e reinventados.

O problema é que, reducionistas incorrigíveis que somos, gostamos de rotular tudo com uma única definição, o que, no caso do Twitter, não apenas é impossível, mas também acaba limitando o seu uso e alcance.

Depois de muito titubear, a grande mídia escolheu o seu rótulo: microblog. Agora, praticamente toda matéria sobre o Twitter o define como microblog, palavra que está longe de dar conta das inúmeras potencialidades do nosso querido pássaro azul.

Os semileigos em internet também acharam a sua própria definição de Twitter: é perda de tempo. Todo mundo que abre o Twitter no trabalho já recebeu dos colegas um olhar de reprovação ou um comentário sarcástico, como se fosse um canal de jogos eróticos e não uma ferramenta de comunicação. Isso se deve, talvez, ao rótulo de “rede social”, que tem uma forte conotação pejorativa por aqui. No Brasil, sempre que alguém fala em “rede social”, a imagem que vem à cabeça é a de uma miguxa de 13 anos postando fotos provocantes no álbum do Orkut.

Outra coisa que se constata ao usar o Twitter é que os próprios tuiteiros ainda não têm uma noção clara a respeito do que se deve fazer lá. É comum ler tweets admoestatórios conclamando a Twittosfera a usar o serviço “adequadamente”.

Assim, aparecem na timeline censuras do tipo:

- “Twitter não é chat!”
- “Vão conversar no MSN, seus malas”
- “Pô, só se fala de futebol e CQC aqui. Vão falar de outra coisa”
- “Parem de falar de O Aprendiz”
- “Tem gente que acha que isso aqui é pra conversar”

O que, então, é o Twitter?

É um microblog

É um microblog, na medida em que você posta o que quiser (em 140 caracteres) e o seu post fica armazenado, disponível na sua página inicial e sujeito a comentários e “trackbacks” dos leitores. Mas o Twitter tem uma enorme vantagem sobre os blogs normais: ninguém precisa acessar a sua página para receber suas postagens. Os tweets são distribuídos, automaticamente, para todos os seus “seguidores”, o que nos leva à segunda definição:

É uma espécie de serviço de RSS

RSS (sigla para Really Simple Syndication), como você bem sabe, é aquele sistema maravilhoso que nos permite assinar vários sites/blogs e receber o conteúdo de todos eles em uma única página. Basicamente, é isso que o Twitter faz: agrega todos os tweets de todas as pessoas que seguimos em uma única timeline. Logo, o Twitter se assemelha a um blog com serviço de RSS embutido. Mas é muito mais que isso.

É um superchat

A conversa é, sim, o ponto alto do Twitter. Conversa-se sobre qualquer coisa. E com qualquer pessoa. Graças ao sistema de linkagem (colocando uma arroba na frente de um nome de usuário, ele se transforma num link), posso conversar com qualquer pessoa da Twittosfera, mesmo que ela não me siga. Assim, o debate não fica restrito a “seguidos” e “seguidores”. Qualquer interagente cadastrado no Twitter pode ser incluído na conversa a qualquer momento e entrar no debate.

Isso é a manifestação daquela propriedade da inteligência coletiva que Pierre Lévy chama de “escuta”. O Twitter possibilita a conversa da inteligência coletiva consigo mesma. Permite que a coletividade torne-se autoconsciente pela escuta de si mesma.

É um espaço para repercussão e disseminação de links

Links para páginas úteis e inúteis são tuitadas e retuidas o tempo todo. É um espaço perfeito para o compartilhamento de informação, diversão, curiosidades. Graças a serviços de compactação de URLs (como o Migre.me ou o TinyURL), é possível acomodar os permalinks longos demais no ínfimo espaço de 140 caracteres, numa boa.

É uma central de relacionamento com o cliente

Empresas inteligentes usam o Twitter de maneira inteligente. Graças às ferramentas de busca da Twittosfera, uma companhia pode monitorar, em tempo real, tudo que é dito a seu respeito, tendo, assim, um mapa de aceitação/rejeição, podendo responder a críticas e elogios quase na hora em que estes são postados.

Isso já é ótimo, mas o alcance empresarial do Twitter vai ainda mais longe. Quer ver um exemplo? No dia em que o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma para exercício do jornalismo, eu, estudante de jornalismo que sou, tuitei algo como “agora, vou largar o curso e fazer Corte e Costura”. Minutos depois, recebi, na minha timeline, a seguinte resposta do Instituto Universal Brasileiro (que sequer está entre os meus followers):

REPLY Instituto universal bras

Como isso aconteceu? O @IUB faz uma busca dos termos relacionados aos cursos que oferece, e envia os links desses cursos a quem possa interessar. Genial, não? No ano passado, o blog PensaRics descreveu uma ação semelhante do Carrefour.

É um fórum global

Quem usa o Twitter regularmente já percebeu que o teor das conversas muda de horário para horário. Na hora da novela, do CQC, do programa O Aprendiz, dos seriados, whatever, aparecem muitos tweets sobre isso. Em dia de jogo de futebol, parece que só se fala disso. O Twitter torna-se, nessas horas, um fórum sobre o que está acontecendo na TV (o tal “encadeamento midiático” de que fala o Alex Primo).

Há, também, temas que fazem o caminho inverso: só aparecem na TV depois de serem debatidos exaustivamente no Twitter. Como escrevi no post sobre o Twitter e a morte de Michael Jackson, a reação instintiva que os tuiteiros têm quando ouvem um boato é correr para o Twitter a fim de “apurar a história”. Foi assim no caso de Jackson, no caso dos rumores sobre a morte de Sílvio Santos etc.

Existe uma ferramenta virtual, chamada Twitterfall, que agrega, em tempo real, todos os tweets (do mundo) sobre o termo que se seleciona no campo de busca. Assim, pode-se saber das novidades (caso haja, é claro) no momento em que elas são postadas, além de se ter um panorama de como determinado assunto está repercutindo no mundo.

Um recurso do próprio Twitter, chamado “Trending Topics”, permite que se saiba quais são os temas mais comentados na Twittosfera.

************
Assim, chegamos a uma definição (preliminar, pois novos usos surgem a cada dia) de Twitter:

Twitter = rede social + microblog + RSS + superchat + disseminador de links + SAC virtual + fórum global…
Não necessariamente nessa ordem.

[A imagem dos passarinhos foi gentilmente cedida pelo Smashing Magazine]

Logo de hoje do Google:

logo google lua
Por essas e por outras é que o Google (desconhecido pelo Gay Talese) está na vanguarda da economia do espírito.

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[Essa é uma parede do banheiro da escola a respeito da qual o professor Belini não tem qualquer queixa]

Vejam só: o professor Belini Romanzini, representando a Secretaria Municipal de Educação de Viamão, deu a este blogueiro a honra da sua visita.

Comentou o post sobre a disparidade entre duas escolas da rede municipal, em bom pedagoguês (idioma dos pedagogos) e, como não poderia deixar de ser, fechou com uma citação de auto-ajuda (no caso, o trecho de uma canção da Legião Urbana).

Do comentário do professor Belini, duas frases em especial me deixaram estarrecido:

- Visitei a escola inúmeras vezes e encontrei um ambiente muito acolhedor, fui tratado com respeito e dignidade por todos, inclusive entrei em sala e dialoguei com os alunos.

- Descobri nos alunos um grande potencial e um carinho muito grande pela escola e pelos educadores, não houve nenhuma queixa, nenhuma mesmo.

Será que estamos falando da mesma escola, professor Belini?

Não tiveste nenhuma queixa de lá? Nenhuma mesmo? Well, vamos tratar das queixas, então.

No mês de março (no início do ano, quando tudo devia estar tranquilo e sereno), tivemos na escola uma reunião pedagógica com DUAS assessoras da SME. Enquanto as professoras e a direção despejavam sobre as assessoras dezenas de queixas, fiquei no meu canto, anotando os principais absurdos na agenda.

No fim da reunião, pedi um aparte e recitei para todos o resumo da conversa:

Problemas identificados no mês de março:

- Uma turma está com 47 alunos. Isso numa sala onde cabem, com conforto, no máximo 30.

- A sala onde esta multidão tem ‘aula’ estava, no fim de março, com carteiras faltando, de sorte que duas grandes mesas do refeitório tinham sido transferidas para lá, a fim de acomodar os alunos. (OBS: com o tempo, o problema foi resolvido).

- A construção de uma nova sala de aula, no mínimo, tinha sido prometida em 2008 e ficou só na promessa.

- O laboratório de informática também ficou só na promessa. Até levaram alguns computadores para a biblioteca, mas eles continuam lá, sem funcionar.

- Em função do atrolhamento (tradução: coisas demais guardadas num lugar só), a biblioteca não podia ser usada. (OBS: com o tempo, o problema foi mais ou menos resolvido).

- Não há livros didáticos suficientes para todos os alunos.

- Não tínhamos bibliotecário. (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- Os colchonetes usados nas aulas de Educação Física estão podres, nojentos, se desintegrando.

- O mato estava tomando conta do pátio da escola (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- A escola não tem telefone porque a verba que o governo manda é insuficiente para pagar a taxa.

- A escola estava sem porteiro. (OBS: Com o tempo, o problema foi  resolvido).

- Traficantes de drogas estavam sempre à espreita no portão da escola. (OBS: Com a chegada do porteiro, problema resolvido, eu acho).

- Não há sala para exibir vídeos para os alunos.

- Não havia merenda na escola. (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- A estes problemas de março, acrescente-se o seguinte: as turmas da tarde estão há meses sem professor de Geografia e de Educação Física.

Depois de desfiar todas essas queixas, lembrei às assessoras da SME que, em todo final de ano letivo, a secretaria se estarrece com os altíssimos índices de reprovação e proíbe a escola de reprovar todos os alunos com baixo rendimento (“Deem um jeito de recuperar!”, nos ordenam sempre… e nós “damos um jeito”, transferindo os problemas para o ano seguinte). Pois bem, lá estava eu, no INÍCIO do ano, expondo alguns dos motivos que nos levam, no fim do ano, a ter tantos alunos com baixo rendimento.

**********
Outra coisa que disseste, professor Belini, é que foste tratado com respeito por todos. Mais uma vez, a pergunta: será a mesma escola?

Claro que é!

É muito fácil tratar um visitante com respeito, principalmente quando ele ocupa um cargo importante.

Para sentir a realidade da escola, não basta aparecer por lá em dia de torneio de futebol (dia, aliás, em que um aluno tentou roubar um celular e algumas alunas levaram caipirinha e ficaram bêbadas… tu acompanhaste os casos, não?). É preciso entrar na sala de aula como professor da turma. Se fizesses isso, verias e ouvirias coisas diferentes…

Por exemplo, saberias que a professora Fulana foi ameaçada de morte por um aluno.

Ou que uma aluna ameaçou a professora Beltrana de agressão.

Ou que dois alunos (da 5ª série) já ameaçaram me bater na rua.

Ou que somos, diariamente, desrespeitados, humilhados e agredidos verbalmente pelas pessoas que tentamos (pode acreditar, nós tentamos) educar.

Pode ser que tu digas agora, professor Belini, que os alunos nos tratarão com respeito se nós os respeitarmos também. Ora, eu sempre trato os alunos com respeito. Sempre tento mostrar-lhes que o respeito e a educação são um diferencial que eles devem ter e que pode ajudá-los a conquistar um lugar ao sol.
Convido-te a assistir às minhas aulas, se quiseres comprovar.

Um abraço, professor Belini, e obrigado pela audiência.

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Eu sempre achei que aquelas frases de críticos/veículos reproduzidas nas capas de livros ou DVDs eram dignas de algum crédito. Por isso, ao pegar na livraria o livro “Blog; Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”, de Hugh Hewitt, e ler na contracapa a frase “Hugh Hewitt é o historiador não-oficial do movimento blogueiro”, assinada pelo The Wall Street Journal, pensei: “Vou levar!”

Depois de ler a obra (na verdade, li há alguns meses), tenho uma opinião bem definida sobre o jornal de Wall Street: ou eles não leram o livro, ou não entendem lhufas do movimento blogueiro.

E nem estou falando das absurdas convicções políticas e ideológicas do autor. Para mim, na hora da compra, não importava que Hewitt fosse um dos porta-vozes da direita cristã-militarista americana. Nos EUA, a blogosfera é coisa de gente grande, e lá tanto a direita quanto a esquerda descobriram há algum tempo o poder político de um bom blog. Logo, o livro poderia ser bom mesmo se escrito por um radialista fanático que deve ter a frase “I Love Dicky (Cheney)” tatuada na nádega direita.

O problema é que “Blog” quase não  trata do conceito de bl
og. O incensado “historiador” quase nada fala sobre a consolidação dos blogs, sobre o que os diferencia da mídia tradicional e, quando tenta fazer isso, chega a conclusões absurdas. Hewitt usa as mais de 260 páginas do livro tão somente para expor sua visão de mundo e para fazer propaganda dos blogs que aprecia – principalmente do seu.

Tudo de relevante da obra de Hewitt caberia em dez páginas, no máximo. Eu disse “dez”? Cinco! E, mesmo assim, essas páginas seriam destinadas a pessoas que passaram os últimos dez anos congeladas numa câmara criogênica e despertaram, de repente, num mundo onde havia blogs.

Quando Hewitt tenta fazer jus ao rótulo de “historiador” que vem na contracapa, o resultado é sofrível
. Como no capítulo em que compara o movimento blogueiro à Reforma Protestante. A analogia, em que os blogueiros seriam os seguidores de Lutero e a mídia tradicional seria a Igreja Católica, é válida. O problema é que, ao invés de desenvolver essa comparação e explorar suas dobras e nuances, Hewitt, um protestante engajado, passa o capítulo inteiro contando detalhes irrelevantes da vida de Lutero, sua conversão e sua doutrina. Logo, a analogia não foi colocada lá para explicar a blogosfera, e sim para tentar fazer com que os leitores encontrem Jesus.

Isso também é visto nas muitas páginas em que ele cita e indica blogs cristãos. A citação até teria sentido, se o autor, ao invés de colar longos trechos de sermões de pastores (sim, ele faz isso), explicasse como um blog pode ajudar uma igreja a difundir sua mensagem.

Mas o pai-de-todos-os-absurdos vem agora, leitor:

Para Hugh Hewitt, pasme, o grande diferencial dos blogs em relação à grande mídia não é o formato blog, mas sim a não-adesão dos blogueiros à conspiração da imprensa para derrubar o governo Bush. Está lá, repetido e repetido em várias passagens. Hewitt afirma que TODA a grande mídia americana (com exceção da Fox News e de algumas rádios) é uma colossal coalizão de esquerda e, em alguns casos, de extrema-esquerda.

O mais interessante é a justificativa que ele dá para tal “esquerdismo” da imprensa. Para ele, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Não, isso não é uma ilusão de ótica. Está lá, nas páginas de “Blog: Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”. Para não deixar dúvidas, vou repetir:

Para Hugh Hewitt, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Ler isso é o suficiente para queimar um livro, não? Eu venci meus impulsos hitleristas e li até o fim. Não recomendo que você faça o mesmo.

Ao chegar à página 261, estava com três certezas em mente:

1) Hugh Hewitt é um asno.

2) Na próxima vez que a Thomas Nelson quiser editar algo sobre a blogosfera, deveria chamar a Yoani Sánchez ou, vá lá, o Cardoso.

3) O Wall Street Journal me deve uma grana.

[O post foi atualizado (na especulação sobre a frase que Hewitt mandou tatuar na nádega direita)]

[Imagem: divulgação]

Acredito que todas as pessoas que usam e-mail há mais de duas semanas já receberam uma mensagem (fake, evidentemente) sobre uma suposta brasileira que mora na Europa (ou escritora europeia que conhece o Brasil – a autoria muda, de acordo com quem manda o e-mail) e afirma que a vida no Velho Continente é igual ou pior à nossa.

Li, no Blog do Lucho, uma exaustiva análise da tal carta. O heroico esforço do blogueiro, apesar de ter resultado num post divertido e elucidativo, é desnecessário, por um simples motivo: é óbvio que a tal carta é um embuste. Não só pelas mentiras sobre a Europa, mas também pelas mentiras sobre o Brasil.

As rotinas básicas do meu dia-a-dia (andar pelas ruas de Porto Alegre e Viamão, lecionar em escola pública e trabalhar em uma agência de notícias) têm me deixado cada vez mais pessimista e desgostoso com nosso altaneiro torrão. Será que o David Coimbra estava certo quando disse que o Brasil se tornou o pior país do mundo?

(…)

Viver no país em que a malandragem é considerada virtude acaba gerando alguns choques culturais, quando nos deparamos com a quase ingenuidade dos moradores de outras terras.

Um exemplo (que, ao contrário daquela carta-spam, é real):

Uma colega da minha namorada hospedou, por algum tempo, uma islandesa (sim, daquele país com casinhas pitorescas que foi à falência por causa de três bancos que ajudaram a jogar zilhões de dólares no ralo de um buraco negro). Certo dia, andando numa rua de cidade brasileira, a descendente de vikings perguntou, intrigada:

- Por que aqui tem pessoas que vendem jornal?

E explicou à sua anfitriã que, na Islândia, os jornais são comprados naquelas máquinas em que a gente abre um compartimento com TODOS os exemplares, pega APENAS UM e deixa o dinheiro.

A brasileira retrucou:

- E as pessoas pegam só um? Elas não tiram os outros jornais da máquina?

A resposta explica muito sobre o que nos diferencia de outros povos:

- Pegar os outros jornais? Mas por que alguém faria isso?

Duas escolas. Dois mundos

Escrito por Eduardo Nunes 12 Comentários

As duas escolas em que trabalho, apesar de ficarem a menos de dois quilômetros uma da outra, parecem estar em dois mundos diferentes – e são a prova de que a educação só é possível com organização e disciplina da parte de todos os atores envolvidos no processo.

O ambiente: Vilas Esmeralda e São Jorge, em Viamão, cidade-dormitório da periferia de Porto Alegre. Um lugar mais ou menos assim:

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São comunidades parecidas, formadas por pessoas de baixo poder aquisitivo, com elevados índices de violência e criminalidade, forte e notável presença do tráfico de drogas etc, como acontece em tantas outras periferias brasileiras.

Num lugar desses, este é o aspecto normal de um posto de saúde, por exemplo:

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Pois bem. Em uma das referidas escolas, essa realidade de violência, permissividade e desorganização é reproduzida e até aprimorada. Na outra, a maioria desses problemas é barrada no portão de entrada.

EMEF Território do Caos

O nome é fictício, mas tem excepcional valor descritivo. Observe, por exemplo, o cemitério de carteiras e cadeiras quebradas que fica nos fundos da escola:

DSC02308

Você já tentou quebrar uma cadeira ou uma carteira, leitor? Eu nunca tentei, mas imagino que a tarefa não seja das mais fáceis.

Tantos móveis inutilizados só podem significar duas coisas: ou a escola recebeu a visita de uma manada de búfalos, ou os alunos que a frequentam não têm muita intimidade com normas de conduta.

O mobiliário não é a única vítima da violência nesse educandário. Os alunos também quebram portas, vidros, divisórias de banheiro, canos; picham paredes e carteiras.

À noite, um dos passatempos dos moradores da vila parece ser apedrejar a escola, quebrando telhas e vidraças:

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Pelo vidro quebrado, podemos ver o rosto de Paulo Freire, num banner em que está escrito:

“…Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima…”

Meu amigo Paulo Feire, você já visitou esta escola? Se visitasse, veria coisas como essas:

- Uma das salas de aula passou quase todo o ano de 2008 sem porta. As dobradiças foram simplesmente arrebentadas por impacto (s) de natureza ignorada. Quem quebrou a porta? Não se sabe. Que medida socioeducativa foi tomada? Nenhuma.


- Numa tarde deste ano, estávamos na sala dos professores no fim do recreio, quando uma aluna bateu na porta. Ao ser atendida pela vice-diretora, a menina foi logo gritando: “Sôra, tão batendo no Fulano!” Que atitude tomou a educadora? Apenas disse: “Tá, já vou dar o sinal, pra vocês irem pra sala”. E simplesmente encerrou o recreio, como se o espancamento não tivesse ocorrido, como se não fosse necessário identificar e punir os culpados.

- Num sábado letivo (desses em que nada se faz, apenas para o presidente poder se gabar de ter 200 dias no calendário escolar), alunos vieram correndo informar que um colega tinha dado um pontapé em uma porta e arrebentado o marco, tornando inútil a fechadura. Adivinhe o que foi feito… Nada. A porta continua inutilizada e o infrator, que sequer foi identificado (ou, se identificado foi, não sofreu punição), aprendeu as maravilhas da impunidade.

Como uma escola chega a tal nível de degradação?

Quando cheguei lá, no início de 2008, percebi que a direção e o grupo de professores estavam em guerra. Intrigas e ranços pessoais geram um clima de má vontade de ambos os lados, o que impossibilita qualquer pacto, qualquer trabalho integrado.

Não há referencial, não há regras claras e unívocas, não há diálogo entre os segmentos da comunidade escolar. Em caso de problemas, não há a quem recorrer e, quando se recorre à equipe diretiva, ouve-se respostas desse tipo:

“Eduardo, os nossos alunos são filhos de traficantes, são irmãos de presidiários. Nós não podemos bater de frente com essa gente.” (dito pela diretora, que, aliás, entrou em licença-saúde e provavelmente não voltará ao cargo)

“Eu não vou fazer mais nada em relação ao Fulano (aluno com graves problemas de conduta)”. (dito pela orientadora, em reunião pedagógica).

O leitor corajoso que chegou até aqui pode estar se perguntando: “Por que raios esse cara não sai dessa escola?”

Ora, pergunte ao secretário de Educação.

Pedi transferência no final do ano passado. A Secretaria não me deixou sair totalmente; apenas reduziu a minha carga horária lá em 10 horas, mandando-me cumprir esses períodos em outra escola, tão perto e tão distante da EMEF Território do Caos.

EMEF São Jorge

É comum que as pessoas que visitam a escola São Jorge exclamem coisas como “Nem parece escola pública!” ou “Parece escola particular!”

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A vila São Jorge também é pobre e problemática, mas as paredes e móveis da sua escola não estão pichados, os banheiros estão bem conservados, têm espelhos intactos, azulejos brilhando nas paredes e, pasmem, sabonetes nas pias!

As portas e janelas estão intactas e não há uma montanha de carteiras e cadeiras quebradas nos fundos. Não há espancamentos no recreio.

Será a escola freqüentada por anjos? Não. Lá também há alunos agitados e mal-educados, também há problemas, mas a diferença é que esses problemas são imediatamente identificados e tratados.

A equipe diretiva, professores, funcionários, pais e alunos trabalham juntos em prol do bem comum. Não por boa vontade e abnegação, mas porque as normas de conduta foram definidas em conjunto e são constantemente lembradas. Todos os segmentos da comunidade escolar são orientados a seguir as regras.

Na EMEF São Jorge, diferente de outras escolas, foi estabelecido o seguinte pacto: o normal é que as coisas funcionem bem. Os problemas são exceção. Por exemplo, todos os alunos sabem que as carteiras têm de estar limpas. Quando uma é pichada, todos sabem que isso foge à normalidade – e o pichador é localizado e sofre a medida socioeducativa prevista nas normas de conduta.

Quando um professor, aluno ou funcionário é agredido verbalmente, todos sabem que isso é um desrespeito às normas de conduta – e o infrator já sabe que o deslize não vai passar em branco. Lá não existe a cultura do “Não dá nada.”

Os alunos da São Jorge também têm parentes e/ou amigos traficantes e presidiários, mas lá ninguém da equipe diretiva diz “Não podemos bater de frente”, pois a lógica é outra: o infrator é que está batendo de frente com a instituição chamada escola. Assim, a agressão a um colega é tratada como uma agressão à escola. A pichação é tratada como uma agressão à escola. Matar aulas é tratado como uma agressão à escola. Portar celular na sala de aula é tratado como uma agressão à escola.

Os professores da São Jorge também têm regras rígidas de conduta. Por exemplo, todos os dias dois mestres passam o recreio no pátio, fiscalizando o comportamento dos alunos. Em outras escolas, tal medida geraria um motim. “O meu intervalo é sagrado!”, já ouvi uma professora bradar, alhures. Pois bem, na São Jorge a norma foi sacramentada no Projeto Político Pedagógico e, graças a ela, os alunos sabem que estão sendo observados e não se comportam como uma manada de búfalos.

Infelizmente, uma escola assim é exceção na rede pública. Mas o seu exemplo mostra que ainda há esperança para a educação no Brasil.

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