Arquivos para Setembro, 2010

Concluí, em 2010/1, o curso de Jornalismo.

Meu trabalho de conclusão, orientado pela prof. Virgínia Fonseca e aprovado pelas generosas Marcia Benetti e Barbara Nickel, que compunham a banca de avaliação, discute o uso jornalístico do Twitter no contexto da inteligência coletiva.

No decorrer da pesquisa, precisei matar alguns leões e responder algumas perguntinhas básicas, não necessariamente nessa ordem:

- Como fazer jornalismo na Web?

- Complicando um pouco a situação, como fazer na Web um jornalismo que promova a inteligência coletiva?

- Aliás, o que é inteligência coletiva e por que ela precisaria ser promovida?

- Por que diabos o Twitter pode ser usado como exemplo de ferramenta jornalística adequada a esse contexto?

- Como convencer a Barbara Nickel de que o hipercórtex é uma bela metáfora para descrever a fase atual da cibercultura?

Muitas perguntas, como você vê. Este post expõe algumas das conclusões a que chegamos ao longo da pesquisa – e algumas das novas perguntas que surgiram no decorrer do percurso…

O Contexto

neurônios são legais

Cibercultura. Aquela configuração social que se estabelece a partir da popularização do acesso às redes de computadores e que é fortemente marcada pela interconexão. Redes conectadas, computadores conectados, pessoas conectadas.

Tudo é instantâneo, tudo é agora, tudo é aqui. A ideia não é nova. Já na década de 60, McLuhan preconizava a aldeia global, ideia então possibilitada pelos meios de comunicação via-satélite e via cabo.

A invenção e a popularização do microcomputador e o posterior advento da internet hiperbolizaram a coisa toda. Hoje, a interconexão propiciada pelas redes de computador torna muito mais próximos os limites desta aldeia e nos permite dizer em voz alta que formamos uma única comunidade humana, cidade planetária.

A pesquisa em cibercultura já atingiu a maioridade. Em cerca de 20 anos de estudo, surgiram diversas linhas de pensamento e concepções teóricas. Hoje, se você balança uma árvore, caem cinco “pesquisadores da cibercultura”.

As teorias da cibercultura podem ser divididas, a grosso modo, em duas vertentes principais (e rivais), que o bom Chico Rüdiger define como a dos tecnófilos e a dos tecnófobos. O leitor familiarizado com o idioma de Platão já percebeu que os pensadores de uma das correntes celebram as inovações técnicas e seus efeitos, enquanto os adeptos da outra morrem de medo dos monstros tecnológicos que vivem no armário e embaixo da cama.

Utilizo como arcabouço teórico (seja isso o que for) as teorias de um tecnófilo da gema, o francês Pierre Lévy, autor de livros como A Inteligência Coletiva: Por uma Antropologia do Ciberespaço e Cibercultura.

Lévy desenvolve, nestas e em outras obras, a teoria da inteligência coletiva, descrita pela metáfora do hipercórtex, segundo a qual a humanidade, ao se conectar a si mesma e realizar trocas simbólicas em diversos níveis, converte-se num gigantesco organismo inteligente. A inteligência desse mega cérebro ou hipercórtex aumenta na medida em que aumentam os fluxos comunicacionais entre os neurônios do sistema (ah, e nós somos os neurônios).

Neste contexto, há práticas sociais que aumentam a inteligência do sistema e são essas práticas que devem ser incentivadas e disseminadas.

A teoria de Lévy é, geralmente, achincalhada pelos tecnófobos, que consideram o francês um bobo alegre e otimista. Às vezes, ele parece mesmo, como nos momentos em que divaga sobre a emergência do amor e da espiritualidade como fatores de integração da comunidade humana a partir das redes de computador.

Mas, se pensarmos um pouco melhor, veremos que a sua inteligência coletiva não é tão simplória e ingênua quanto pregam os revoltados. Os neurônios do hipercórtex não estão conectados por boa vontade ou altruísmo; estão conectados porque é da nossa natureza buscar a conexão.

Essa conexão nem sempre é motivada por causas nobres, mas mesmo as iniciativas egoístas podem ter resultados positivos para a coletividade. Se nos conectamos para melhorar a coletividade ou para tentar atender apenas aos nossos interesses particulares, ambas as posturas resultam em conhecimento produzido e partilhado, já que as experiências comunicacionais são sempre socializadas.

Não há maniqueísmo na ciranda de impulsos elétricos do hipercórtex. A inteligência coletiva aumenta na medida em que aumentam as formas de interconexão e o conteúdo partilhado (ou vendido, pois ninguém é de ferro) nos diversos ambientes de interação.

Veja só: depois de concluir a monografia, encontrei argumentos a favor da hipótese de Lévy em um livro de estratégias de negócio para Web 2.0… Ou seja, o próprio Lado Negro da Força reconhece que práticas motivadas por interesses individuais enriquecem o hipercórtex formado pelo coletivo. Falando sobre como o Flickr se tornou um negócio rentável, a autora, Amy Shuen, afirma que

Toda vez que alguém rotula uma foto com palavras-chave ou metadados – ex., Turquia, bolhas, fofo – o conjunto de conhecimentos do Flickr aumenta.  (…) Tornar todo conhecimento e imagens explicitamente públicos ajuda a comunidade a aprender a fotografar, selecionar imagens, construir, projetar ou codificar com mais eficiência, dessa forma, criando um resultado melhor. Toda vez que os usuários colaboram não apenas o conhecimento novo é produzido, mas a produtividade individual aumenta sempre que alguém se une à comunidade e acrescenta seu conhecimento e suas habilidades. (pp. 5-7)

Esta bela e clara descrição do funcionamento do hipercórtex, que Lévy não formularia melhor (OK, ele formularia melhor, com belas metáforas e prosa poética), não foi escrita por um hippy, nem por um cyberpunk, nem por um libertário e nem por um sonhador, mas por uma autora de livros de negócios, para um público formado por pessoas pragmáticas que querem usar a internet para ganhar dinheiro.

Neste contexto de inteligência coletiva, em que trocas simbólicas constantes enriquecem a inteligência do coletivo, um sem-número de práticas e funcões sociais ganha novo estatuto – entre elas o jornalismo, cerne da pesquisa que resultou na monografia.

Webjornalismo

é preciso vigiar o portão...

O jornalismo que se pratica na internet não é uma forma totalmente nova de jornalismo. Não entraremos a fundo nesta discussão, pelo menos não neste post. Cabe apenas, aqui, frisar que há algumas características fundamentais do jornalismo que são compartilhadas pelo webjornalismo (e por todas as outras formas possíveis):

- a distinção entre a notícia e os seus comentários

- a distinção entre produtores de notícias e consumidores de notícias (embora esta barreira seja muito, muito tênue na fase atual do webjornalismo)

- o compromisso com a verdade dos fatos (e as rotinas produtivas necessárias a todo perseguidor da verdade que se preze: apuração, revisão, uso de fontes confiáveis)

OK, você pergunta, se o jornalismo é sempre jornalismo, desde que respeite esses cânones, o que diferencia o jornalismo tradicional do jornalismo de internet?

As características que fazem do webjornalismo uma variante do jornalismo tradicional são, basicamente, as seguintes:

Hipertexto

O texto impresso é bidimensional. Não consegue romper as barreiras impostas pela superfície em que foi aprisionado. Está preso aos ditames inexoráveis da Física.

O texto eletrônico é multidimensional. Permite o uso de portas para outros mundos, de túneis para outras dimensões. Essas portas são os hiperlinks, hoje abreviados para “links”. Recurso metalinguístico: para saber o que é um link, clique aqui. :P

Com o hipertexto, o texto pode ter várias entradas diferentes (o que já era possível, mas de forma limitada, nas páginas do jornal), pode remeter a outros textos e a outras mídias, como fotos, vídeo, áudio, gráficos. Permite ao leitor navegar por onde quiser, com alcance muito maior do que o possibilitado pelo texto impresso.

Interatividade e “participação”

Interatividade é uma das palavras da moda… mas, o que significa, para o jornalista? Significa que o público, que antes era uma entidade disforme, distante, quase imaginária, agora está logo ali.

No webjornalismo, a relação entre produtores e consumidores de notícias é muito próxima (e às vezes a diferenciação entre uns e outros inexiste).

A possibilidade de os leitores postarem comentários nas notícias, de etiquetarem catalogarem os conteúdos  com tags (explicação aqui)  da sua preferência, de publicarem seus próprios textos (seja nos seus próprios blogues e páginas de redes sociais, seja em espaços concedidos em sites jornalísticos tradicionais)  faz com que o feedback recebido pelos jornalistas seja instantâneo, direto, à queima roupa. E faz com que os antes consumidores de conteúdo se tornem também produtores.

Isso coloca em xeque a própria existência da profissão de jornalista. Ora, pensa o cidadão, se agora qualquer mané, incluindo eu mesmo, pode ter o seu próprio blogue e postar notícias, porque eu deveria ler os conteúdos produzidos por jornalistas e por empresas de jornalismo?

Em nosso socorro, vem a pesquisadora Christa Berger. Ao analisar a teoria dos campos sociais do sociólogo francês Pierre Bourdieu e aplicá-la no âmbito do jornalismo impresso, ela oferece uma possível resposta, válida também para o webjornalismo:

A nossa hipótese é que o Campo do Jornalismo detém, privilegiadamente, o Capital Simbólico, pois é da natureza do Jornalismo fazer crer. O Capital do Campo do Jornalismo é, justamente, a credibilidade. É ela quem está constantemente em disputa entre os jornais e entre estes e os demais campos sociais. E está constantemente sendo testada, através de pesquisas, junto aos leitores. A credibilidade é construída no interior do jornal assim como um rótulo ou uma marca que deve se afirmar, sem, no entanto, nomear-se como tal. Credibilidade tem a ver com persuasão pois, no diálogo com o leitor, valem os “efeitos de verdade”, que são cuidadosamente construídos para servirem de comprovação, através de argumentos de autoridade, testemunhas e provas. (BERGER, Christa. Campos em confronto: a terra e o texto. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998 – p.21)

Os portões da informação estão aí, com um cadeado de fácil abertura. Antes, o jornalista era o “gatekeeper”, o porteiro, o único com a chave para abrir os portões e deixar passar as torrentes de informação.

Com a internet, o cadeado pode ser aberto por mais pessoas. Mas o jornalista passa a ser o “gatewatcher”, o vigia do portão, aquele que, investido da credibilidade que é o capital do seu campo social, tem legitimidade para nos mostrar quais são, dentre as torrentes de informação características do nosso tempo, os conteúdos mais relevantes e que atendem aos critérios de veracidade e exatidão.

(Eu juro que a minha solução para esse problema é um pouco menos simplória do que aqui aparenta ser, mas para ter acesso a toda essa sabedoria você precisa ler o meu trabalho de conclusão)

O Twitter como ferramenta jornalística

twitter

Nesse contexto cibercultural marcado pela inteligência coletiva, que ferramentas podem ser usadas para fazer um webjornalismo que promova o aumento e a otimização das trocas simbólicas entre os neurônios do hipercórtex?

Minha pesquisa investiga o uso do Twitter para esses fins. Porque a ferramenta, híbrido de microblog, rede social e mesa de boteco, tem várias funcionalidades que permitem o seu uso jornalístico inteligente.

Já tratei dessas funcionalidades em outros posts (para lê-los, clique aqui). Portanto, passemos à análise dos perfis usados no trabalho.

Acompanhei, por uma semana, os tweets dos perfis de três veículos jornalísticos de peso: Estadão, Terra e Zero Hora.

Precisei, por se tratar de uma pesquisa num campo recente (e, ainda por cima, sob uma perspectiva, para todos os efeitos, inédita), criar os meus próprios critérios de análise dos tweets.

Decidi levar em conta, principalmente, a interação dos perfis jornalísticos estudados com o seu público na timeline (o que é, em suma, o cerne de qualquer atividade twíttica que se preze).

Para isso, dividi as postagens nas seguintes categorias:

  • Tweets conversacionais diretos: aqueles que estabelecem uma conversação e são direcionados a um interagente específico ou grupo de interagentes, mediante o uso de uma ou mais arrobas.
  • Tweets conversacionais indiretos: os que, apesar de conversacionais, não se dirigem a um interlocutor em particular, mas ao conjunto de usuários. Podem aparecer na forma de perguntas aos seguidores ou do uso de imperativos do tipo “Leia”, “Saiba mais”, “Confira”, etc.
  • Tweets não-conversacionais: aqueles que não estabelecem uma conversação, mas visam apenas a noticiar um fato, divulgar links ou transmitir uma informação em sentido unilateral, como uma manchete de jornal impresso. Sua linguagem é impessoal e dá a impressão de que o tuiteiro que a postou está falando sozinho.

Além da participação em conversações, analisei também a rede de usuários seguidos pelos veículos e o uso de outras funcionalidades do Twitter: a repercussão de tweets de outros usuários via retweets (seja de outras contas pertencentes à mesma empresa jornalística, seja de usuários comuns), a utilização de hashtags para se inserir na dinâmica de social bookmarking da timeline e o uso de listas para categorização de perfis seguidos.

Com isso, verifiquei se os administradores desses perfis jornalísticos sabem ou não usar o Twitter como ferramenta jornalística que promova a inteligência coletiva. Para ter acesso aos resultados, dê uma olhadinha rápida no último capítulo do trabalho (um teaser: o Estadão ganhou o jogo de goleada):
O uso jornalístico do Twitter no contexto da inteligência coletiva – Eduardo Nunes

Escrevi, em 2008, no meu blogue antigo, um post sobre a obrigatoriedade do voto no Brasil. O tema, é claro, não se esgotou nesses dois anos que se passaram.

Mais uma vez, às vésperas das eleições, partidários do voto facultativo e do voto obrigatório digladiam na arena das ideias, e republico o referido post com as minhas opiniões sobre a questão , acrescido de algumas bonus tracks no fim do texto…

O período eleitoral e o pós-eleitoral são  sempre as ocasiões em que mais se ouvem manifestações contrárias ou favoráveis à obrigatoriedade do voto.

Creio que, se se fizesse um plebiscito para decidir a questão, os partidários do voto facultativo teriam uma vitória esmagadora nas urnas – e esse seria, muito provavelmente, o último voto de muita gente.

Para o brasileiro médio, votar é uma obrigação das mais chatas, uma imposição autoritária e opressiva que só se cumpre por medo das consequências legais. Isso é, no mínimo, estranho, se levarmos em conta que esse mesmo povo estava, há pouco mais de 20 anos, ocupando ruas e praças para exigir o direito de votar.

É assim que vejo o voto: como um direito, antes de ser um dever. Um direito que nossos antepassados não tiveram, que a geração pré-1989 teve tolhido, um direito que hoje nos é assegurado pela Constituição, mesmo que não saibamos valorizá-lo.

Afinal, por que diabos o voto é obrigatório no Brasil?

Essa história de democracia, como você bem sabe, é invenção dos gregos. Mas a democracia grega era um pouco diferente da nossa. Como disse certa vez o grande Renato Janine Ribeiro, o estado grego era como um barco em que todos remam (pelo menos, todos os cidadãos livres do sexo masculino, o que já é um avanço “evolutivo”). Já o estado brasileiro é um barco com poucos remadores e muitos passageiros. No barco Brasil, onde não se obriga ninguém a remar, o mínimo que se exige dos passageiros é que elejam os remadores.

Isso, não há como discordar, é “para o bem” (no sentido usado pelas nossas mamães) dos próprios passageiros do barco.

Como o cinto de segurança. A obrigatoriedade do uso de cinto de segurança nos automóveis é um absurdo descomunal. É como se criassem uma lei proibindo a ingestão de veneno.

Ora, as pessoas deveriam querer muito, e por conta própria, usar o cinto – que serve, como todo mundo sabe, para protegê-las. A população deveria fazer passeatas, ocupar praças e ruas exigindo o direito de usar cinto de segurança. Mas não. Para que os brasileiros usem cinto, é preciso obrigá-los. É preciso obrigá-los e cobrar multa dos desobedientes, como se criancinhas fossem.

Isso porque a tal democracia, aquela invenção dos gregos, só funciona de verdade quando os cidadãos são conscientes o bastante para saber a importância do seu voto (diga-se de passagem, a própria Filosofia-como-a-conhecemos surgiu, com Sócrates, para educar os jovens para o exercício da cidadania).

Será que tornar o voto facultativo melhoraria os resultados das nossas eleições? Os americanos não são obrigados a votar e elegeram Bush. Duas vezes (ou uma, se o Michael Moore estiver certo na sua contagem).

Será que tornar o voto facultativo melhoraria a compreensão da cidadania pelos boçais que ainda não entenderam o alcance e a necessidade do seu voto? Com certeza, não.

Acredito que o menos pior seja continuar obrigando os passageiros do barco a escolher seus remadores, e fazer o que for preciso para que eles entendam que esse dever é “para o seu bem” – mas que se faça isso de um modo realmente eficaz, e não com essas propagandas excessivamente abstratas e pretensamente artísticas da Justiça Eleitoral, que só são compreendidas por aqueles que menos precisam ser conscientizados.

BONUS TRACKS:

Um dos argumentos usados pelos partidários do voto facultativo é o de que o fim da obrigatoriedade moralizaria os pleitos e reduziria a corrupção. Pois eu digo que o voto facultativo poderia, em se tratando de Brasil, facilitar e incentivar a corrupção.

Os candidatos precisariam de menos votos para se eleger. Isso, para começo de conversa, baixaria os preços do mercado de compra e venda de votos. Além disso, com menos gente votando, ficaria mais fácil para os corruptos fiscalizar os votos dos eleitores que lhes vendessem a alma. Bastaria colocar um jagunço cabo eleitoral em cada seção, anotando o número de votantes (ou até os nomes) e depois conferir a quantidade de votos computados em cada urna.

Petistas também costumam defender o voto facultativo por acharem que a mobilização dos seus militantes e simpatizantes lhes garantiria vitórias esmagadoras nas urnas.

Isso poderia não ser bem assim, primeiro porque o entusiasmo pelo PT decaiu muitíssimo depois que se viu que o partido é apenas um PSDB melhorado.

Segundo, porque a direita e o centrão não são tão desmobilizados quanto imaginam os esquerdistas. Que o diga o socialista Lionel Jospin, que perdeu a chance de ser presidente da França (onde o voto é facultativo) porque os seus eleitores preferiram curtir um feriadão de sol a comparecer às urnas.

Terceiro, porque sempre cabe a perguntinha: o que é maior, a capacidade de mobilização dos bons ou a verba de campanha dos maus?