Arquivos para Dezembro, 2010

Battisti x L

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Você já ficou sentado, de cabeça baixa, em estado de semi-torpor, como se esperasse acordar de um sonho tétrico e surreal?

Bem-vindo ao País da Maravilhas.

Um lugar onde, apesar do nome, as maravilhas se escondem e muito raramente mostram o rosto, envergonhadas e ruborizadas que estão, autoexilando-se nas sombras de escândalos e obscenidades de toda sorte.

A imagem acima, recortada do site do jornal italiano Corriere Della Sera, é um recorte da headline da entrevista concedida àquele veículo pelo ministro da Defesa da Itália, o senhor Ignazio La Russa.

Indignado com a recusa de Lula em libertar o ex-terrorista e assassino condenado Cesare Battisti, La Russa disse que “haverá consequências” e propôs um boicote ao Brasil, alegando que ninguém gostaria de visitar “um país onde você pode, no ônibus, se sentar em frente a um assassino”.

La Russa, seu tolinho, você não viu nada.

Battisti é café pequeno.

A nossa conivência com assassinos é muito mais ampla, geral e irrestrita (com trocadilho) do que você imagina.

Deixamos impunes assassinos de farda que, durante quase 30 anos, mataram alegremente a soldo do governo, pois puni-los prejudicaria o processo de “reconciliação” nacional – mais ou menos como se O Conciliador Max Gehringer colocasse na mesma mesa Champinha e os pais da menina que ele esculachou e o encontro resultasse em um acordo amigável e um convite para almoçar no domingo.

Por falar em Champinha, recentemente rendeu audiência a notícia de que um outro monstro pobre adolescente, um carinha legal que confessou 12 homicídios* (sim, o guri admitiu ter matado 12 pessoas), será solto em março no RS, apenas três anos depois de ir pro xilindró.

Ou melhor, não podemos falar em “prisão” ou em “xilindró”. Aqui, de acordo com o belo e poético Estatuto da Criança e do Adolescente, uma lei amplamente utilizada para acobertar e/ou gerar criminosos, menores de idade não podem ser presos, apenas “apreendidos”, nem ir pra cadeia, apenas para instituições correcionais sem muitas regras nem pesares, apenas medidas socioeducativas, socializantes e recreativas.

E não venham me dizer que aquelas unidades da Fase ou Case são “um inferno” por si. Elas só são um inferno porque estão cheias de delinquentes. Até o Jardim do Éden seria horrível se fosse frequentado por gente (sic) desse tipo.

É por isso que os deuses de todas as religiões fecham as portas para gente da laia de Champinha e de “L.” (aqui, monstros com menos de 18 anos têm a identidade preservada, para que não os reconheçamos quando forem soltos e vierem nos matar). No Brasil, eles recebem todas as honrarias, pois são tratados como vítimas e mimados com a impunidade.

Mesmo depois de crescidos, nossos delinquentes continuam mimados. Nossos presídios, apesar de horríveis, não parecem tão ruins quanto um bom presídio deveria ser. Lá, aparentemente, líderes do crime fazem o que querem, matam quem querem matar, fazem sexo com quem lhes apraz, despacham nos seus escritórios, pedem telentrega de comida, bebida, celulares e armas, e saem facinho facinho.

Na Itália, não exatamente uma Suécia, Battisti foi condenado à prisão perpétua. Aqui, seria nomeado ministro.

Mesmo assim, o senhor La Russa está mal acostumado.

Ministro, mande pra cá todos os seus Battistis! Trocamos pelos nossos menores infratores a 10 por 1!

Todos os seus terroristas perigosos não chegam aos pés de um único pivete de Novo Hamburgo.

[*O número de pessoas que o carinha que vai ser solto confessou ter matado estava errado. O post foi atualizado]

’ACUSE!

Escrito por Eduardo Nunes 0 Comentário

Recebi nesta manhã, por e-mail, o manifesto abaixo transcrito, assinado pelo advogado e professor Igor Pantuzza Wildmann.

Não sei onde ele vive e leciona e, francamente, não faz diferença. Sua crítica e sua indignação são universais e podiam ser de qualquer brasileiro, de qualquer habitante deste país que está sendo devorado por uma monstruosa inversão de valores que se faz sentir em muitos lugares, mas principalmente na escola.

Antes de reproduzir o texto do professor Igor (cujas ideias, ipsis literis, eu subscrevo e ecoo), acrescento que a inversão de valores denunciada pelo texto desse advogado indignado é perpetuada e incessantemente reproduzida, basicamente, por quatro (ou cinco) tipos de pessoas:

a) políticos e burocratas que buscam prestígio e votos por meio da manipulação de dados e estatísticas educacionais, sem se importar em saber se os milhões de analfabetos funcionais que todos os anos  saem das nossas escolas com certificados embaixo do braço realmente aprenderam alguma coisa;

b) pedagogos e antropólogos que se dizem de esquerda, que se dizem humanistas, que se dizem libertadores e, em nome disso, vivem na mais absoluta cegueira (voluntária) ante o fato de que suas lindas e poéticas teorias pedagógicas não funcionam na prática e não libertam ninguém; pelo contrário, escravizam milhões de pessoas condenadas ao antes referido analfabetismo funcional;

c) pedagogos e professores semi-analfabetos (sim, o círculo se fechou!) que, por não terem tido uma boa formação na Educação Básica e nas faculdades caça-níqueis que frequentaram, acabam caindo na conversa de qualquer guru “libertador” e/ou não sabem ensinar e avaliar os próprios alunos. Convém apontar, também, os professores acomodados, que, por causa dos baixos salários e más condições de trabalho, desistem de buscar uma boa práxis e continuam, por anos a fio, desempenhando a função no piloto automático, à espera da aposentadoria longínqua;

d) mercadores e vendilhões que transformaram a educação em produto (e produto barato) e deformam mentes apenas para ganhar uns trocados, a granel, por atacado.

Agora, vamos ao texto do professor Igor:

(Eu acuso !)

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.
(Émile Zola)

Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (…)
(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que… estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando…

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente…

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente, deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos” e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos-clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.

Ana Pellini

Parece que Tiririca não será o único político brasileiro com dificuldades para ler a papelada oficial.

Saiu, na Zero Hora de ontem, uma matéria sobre um “mal entendido” provocado por um documento assinado pela secretária-geral de Governo do RS, Ana Pellini, a senhora da foto acima.

O ofício que recebeu a assinatura da secretária reduzia drasticamente o número de serviços públicos oferecidos pelo governo nas praias gaúchas durante o veraneio. Parece que o Piratini investiria apenas em segurança, e não nos outros serviços tradicionalmente oferecidos.

O texto, que ela aparentemente não entendeu, é de uma clareza singela:

“ (…) por decisão governamental, o Verão Legal 2010/2011 será realizado somente com a participação dos órgãos de Segurança Pública — Brigada Militar e Polícia Civil (…)”

Os integrantes da equipe de transição do futuro governo de Tarso Genro, que assumirá o Estado em meio às férias de verão, levaram um susto e trataram de preparar um plano emergencial para atender a população que se desloca para o Litoral. Repercutiu mal e o governo voltou atrás.

Depois da caca feita, qual foi a resposta da secretária? Assumiu a posição e disse que é assim mesmo, sem arrego pros veranistas? Disse que não tinha nada a declarar? Culpou o WikiLeaks?

Não.

A resposta dela foi ainda mais assombrosa:

Essas coisas a gente responde na correria e, às vezes, não lê o ofício que assina com a devida calma. Mas nunca houve intenção de reduzir os serviços. Foi um equívoco.

Vou repetir, em negrito:

Essas coisas a gente responde na correria e, às vezes, não lê o ofício que assina com a devida calma.

Agora, colorido:

Essas coisas a gente responde na correria e, às vezes, não lê o ofício que assina com a devida calma.

Agora, em fonte aumentada:

Essas coisas a gente responde na correria e, às vezes, não lê o ofício que assina com a devida calma.

OK, a gente já desconfiava que os nossos parlamentares, governantes e funcionários do governo assinavam coisas importantes sem ler .

A revista Piauí até publicou, certa vez, uma reportagem que conta como alguns requerimentos de projetos e CPIs obtêm o número necessário de assinaturas na Câmara: os gabinetes pagam “recolhedores profissionais de assinaturas”, geralmente mulheres de notórios atributos físicos, que têm trânsito livre pelos corredores do Congresso e recebem para interpelar deputados, com pranchetas em mãos e decotes generosos saltando aos olhos, dizendo:

— Assina aqui, deputado?

Muitos deputados, que não resistem a uma alça de soutien aparecendo, assinam sem sequer saber de que se trata o requerimento – e a gostosa encarregada de recolher as assinaturas ganha por cabeça.

É, meu amigo, é em coisas assim que são gastas as polpudas “verbas de gabinete” dos nosso congressistas: pagamos gostosas pra recolher assinaturas de parlamentares que, por sua vez, são (bem) pagos por nós para assinar documentos que nos dizem respeito sem antes lê-los.

A gente já desconfiava de tudo isso. Mas ver alguém do primeiro escalão do governo do Estado admitir, assim, que lê os ofícios que assina “sem a devida calma” é sempre um soco no estômago.

Deve ser por isso que o Tiririca foi absolvido tão facilmente da acusação de falsidade ideológica, mesmo tendo acertado tão pouco da prova a que foi submetido: pra que saber ler, se não é preciso mais que desenhar a própria assinatura, como fez a secretária-geral de Governo do RS?

[Foto: Paula Fiori / Agência de Notícias do Palácio Piratini]