Arquivos para Fevereiro, 2011

Quem via esse rapaz na Escolinha já sabia que ele iria longe

Causou um certo estardalhaço, no fim da semana passada, a notícia de que o nobre deputado Tiririca foi indicado pelo seu partido, o PR, para ocupar uma vaga na Comissão de Educação e Cultura da Câmara.

Como sempre, pessoas conscientizadas ou nem tanto xingaram muito no Twitter, esbravejando ou ridicularizando a decisão do PR. Eu mesmo disse, na ocasião, que merecemos um bombardeio nuclear.

Merecemos mesmo, mas não exatamente por esse episódio. Nenhum absurdo protagonizado por Tiririca durante o mandato superará o absurdo-mor de ele ter sido eleito e, depois de eleito, diplomado, a despeito da prova de que é tão alfabetizado quanto os avós do Jeca Tatu.

E, convenhamos, a presença de um analfabeto na comissão de Educação talvez ajude um pouco. Afinal, todos os que até hoje ditaram os rumos do ensino no Brasil eram graduados, pós-graduados etc e a nossa educação é certamente uma das piores do mundo – apesar das sucessivas comemorações de bons resultados por parte do governo.

O assassinato do ensino brasileiro

A atual educação brasileira, vivo dizendo, é tão ruim por ser boa demais. A pedagogia reinante no MEC e nas secretarias estaduais e municipais é linda, poética, emocionante. As bandeiras principais são a inclusão dos pobres excluídos na sociedade, a formação do ser humano integral, a conscientização para a leitura crítica do contexto em que se vive.

[Pausa para pegar o lenço e enxugar as lágrimas]

Sabe quando essas diretrizes se tornaram norteadoras de rumos, leitor? Foi no fim da década de 80, quando a ditadura brasileira se rendeu e os “progressistas” assumiram o controle da educação.

A partir daí, os pedabobos e antropólogos trataram de “mudar o Brasil” implantando as teorias que tinham defendido com tanto ardor em suas monografias e poemas.

Aquela escola que tínhamos no Brasil (professoras ensinando, alunos aprendendo e sendo reprovados quando não aprendiam) antes de 1990 foi satanizada e associada à ditadura. A partir de então, muitos pedabobos passaram a denunciar os crimes da educação: a reprovação que exclui, a padronização do ensino, o “tecnicismo” etc.

Para eles, educação de verdade é a que liberta, a que inclui, a que forma o “ser humano integral”.

Eles conseguiram. Eles mudaram o Brasil.

Hoje, o bê-a-bá, os ditados, a memorização da tabuada, a repetição de palavras desconhecidas e a exaltação do mérito dos que aprendem foram banidos da grande maioria das escolas públicas.

Essas técnicas, identificadas com o “autoritarismo da ditadura”, foram substituídas por paternalismo, lazer, artesanato com material reciclado, brincadeiras de roda e atividades destinadas a desenvolver a afetividade e a “INCLUSÃO”.

Hoje, graças a esses pedabobos “progressistas” e suas teorias de m.i.e.r.d.a, nossas escolas públicas concedem, todos os anos, diplomas e certificados a analfabetos. Milhões de pessoas sem condições de entender esse post ou de resolver um problema matemático de 4ª série estão aí, jogadas na selva de pedra do capitalismo selvagem sem um canivete sequer para se defender.

Eis o “ser humano integral” almejado pelos pedabobos: um semi-analfabeto. Aqui reside o grande paradoxo da educação brasileira: preocupados em libertar o ser humano, em prepará-lo para a vida, em incluí-lo na sociedade, os educadores “progressistas” o condenaram à escravidão da falta de qualificação, o excluíram da competição por bons empregos e por um lugar ao sol.

Vamos importar escravos para fazer o trabalho intelectual

Um dirigente de empresa brasileira em formação

Já virou lugar-comum dizer que o Brasil vai se tornar uma das grandes potências mundiais nos próximos anos. Mas todos fazem uma ressalva: para isso, será preciso investir em educação.

E não estamos falando no salto da educaçao sonhado pelos pedabobos “progressistas”. A educação que o Brasil precisa ter para crescer e se desenvolver é a educação de antigamente: aquela voltada para o conhecimento de verdade. E por “conhecimento”, entenda-se: leitura e escrita, matemática, ciências, história e geografia, e não blá-blá-blá masturbatório.

Já dizia um antigo slogan da Unisinos: “Só o conhecimento garante a sua liberdade”.

Se lessem isso, os “progressistas” e “libertadores” me acusariam usando seus adjetivos detratórios favoritos. Me chamariam de “tradicional”, de “conteudista”,  de “utilitarista”, de “tecnicista”. Ora, considero tais epítetos um elogio.

Sou tecnicista, com orgulho. É a técnica que nos distingue dos gibões e dos lêmures. Também sou libertador, por saber que só os resultados libertam.

A revolução educacional de que necessitamos é uma que forme pessoas aptas a assumir os postos de comando de uma potência, mais ou menos como a protagonizada pela Coreia do Sul: um ensino técnico, voltado para a eficiência e os resultados, como bem lembrou o Cardoso neste post.

Se não dermos esse salto, o nosso crescimento econômico só será possível se mandarmos uma frota de aviões cargueiros à China, à Índia e à Coreia, para importar mão-de-obra qualificada a granel.

Para que nos preocuparmos em formar pessoas com conhecimento se é mais barato importar nerds indianos já formados?

No fim do ano passado, em uma mesa de bar, meu amigo equatoriano Andrés Lasso previu, erroneamente, que em breve o Brasil estará importando trabalhadores de outros países para fazer os serviços mais abjetos, como ocorre com os latinos nos EUA.

Olhei pra ele e disse:

— É o contrário, Andrés. O Brasil vai importar estrangeiros para os melhores empregos e os brasileiros ficarão com os cargos mais baixos.

Entraremos para os anais de economia e de educação mundiais: seremos o primeiro país do mundo a se tornar uma superpotência com os nativos virando boias-frias e os imigrantes se tornando gerentes.

Defender a formação do “ser humano integral” em detrimento do aprendizado de verdade deveria dar cadeia.

A educação brasileira só será séria e eficaz quando for dirigida por pessoas que não considerem “eficaz” um xingamento.

E quando a máxima  mais citada nos fóruns de educação for aquela de Rob Lowe em The West Wing, também citada pelo Cardoso:

Escolas deveriam ser palácios. A competição pelos melhores professores deveria ser selvagem; eles deveriam ganhar salários de  6 dígitos. Escolas deveriam ser incrivelmente caras para o Governo e absolutamente gratuitas para os cidadãos, como a Defesa Nacional.

O rock and roll, a despeito de ter bebido em fontes americanas como o blues, o country e o folk, é uma invenção inglesa.

Ponto.

Ao contrário do futebol, uma criação dos bretões que foi roubada por outros povos com mais jeito para a coisa, no rock os ingleses são imbatíveis.

As melhores bandas de todos os gêneros (e os próprios gêneros, é claro) foram fundadas por súditos da Rainha — com exceção de nichos muito específicos como, por exemplo, o metal melódico, típico dos países nórdicos.

Os Estados Unidos, o maior mercado consumidor de rock, têm, incrivelmente, poucas bandas aptas a figurar em um Top 50 roqueiro. Claro que eles têm bandas incensadas pela mídia, como Guns N’ Roses, Nirvana e Aerosmith, mas a qualidade de tais ícones é deveras discutível.

O Nirvana, por exemplo, tornou-se famoso por inaugurar um gênero (o grunge) que é justamente a celebração da própria tosquice: a ruindade elevada a virtude, como bem diz o meu amigo Demétrio.

Falando de música de verdade, quais seriam as melhores bandas dos Estados Unidos?

#5 – Creedence Clearwater Revival

Não há quem não conheça o clássico Have You Ever Seen The Rain. Você pode fazer a enquete. Todos os 6 (ou já são 7?) bilhões de habitantes do planeta conhecem essa música, com exceção, talvez, dos norte-coreanos.

Mas a banda liderada pelos irmãos John e Tom Fogerty é muito maior que essa canção. Seu rock visceral, tão típico da década de 60, produziu outras obras de arte, como Travelin’ Band, Proud Mary, a melhor versão de Susie Q. e a fantástica Fortunate Son:

#4 – Van Halen

OK, eles são posers, eu sei.

Sabe aquela história toda de Guns N’Roses, Skid Row, Mötley Crue e outras bichices? Pois é, a culpa é dos caras acima. O Van Halen praticamente inventou o rock pesado dos anos 80, tanto a sonoridade quanto a pose.

A sonoridade se deve, principalmente, ao guitarrista Eddie Van Halen, um dos mais importantes de todos os tempos. O mundo da música mudou depois que isso foi ouvido pela primeira vez:

Já a pose deve ser creditada a Dave Lee Roth, o vocalista-protótipo do showman oitentista: acrobático, teatral e ligeiramente gay. Para entender do que estou falando, veja o vídeo abaixo:

Roth podia não ter tanta técnica e alcance vocal quanto Sammy Hagar, que o substituiu na banda depois do rompimento em 1984, mas tinha, no palco e no estúdio, um desempenho muito mais rock and roll que o sucessor.

A saída de Roth custou ao Van Halen 90% do seu “mojo” (ouça isso e entenda). Eles até fizeram coisas legais depois, como a bonitinha Right Now, mas perderam algo que nunca mais foi encontrado.

#3 – The Doors

Peraí, quem são esses caras e por que estão com o Jim Morrison?

Os “conhecedores amadores” de The Doors costumam ter três choquesquando se aprofundam um pouco mais na história da banda e descobrem que

a) O Jim Morrison não é o Val Kilmer.

b) Eles têm outras músicas além de Light My Fire.

c) Tem outros caras na banda além do Jim.

O preconceito c) é uma puta falta de sacanagem. Pô, a grandeza do Doors vai muito além da aparência e do talento do Jim Morrison. Muito da beleza da música desta banda se deve ao tecladista Ray Manzarek e ao guitarrista Rob Krieger.

O Doors tem uma sonoridade única, que marcou uma época. O que seria do começo do filme Apocalypse Now se não fosse a canção The End?

Entre outros clássicos que colocam a banda no panteão do rock, minhas preferidas são Roadhouse Blues, People Are Strange e Break On Through:

#2 – Lynyrd Skynyrd

Os embaixadores do Redneck Pride

O Lynyrd Skynyrd é o expoente máximo do Southern Rock, gênero de bandas sulistas que fundem o hardão setentista com o country.

Um verdadeiro cabide de empregos, foi a primeira grande banda a ter três guitarristas. No currículo, eles têm clássicos conhecidíssimos como Free Bird, Sweet Home Alabama e Simple Man.

Outras músicas que servem como uma boa amostra do estilo e da qualidade dos caras são What’s Your Name, Call Me The Breeze, Gimme Three Steps e a fabulosa That Smell:

O Lynyrd Skynyrd é outra daquelas bandas profundamente marcadas pela tragédia. Em 1977, um acidente aéreo matou o vocalista Ronnie Van Zant, o guitarrista Steve Gaines e sua irmã, a backing vocal Cassie Gaines, além de membros da equipe técnica.

Em 1987, o irmão de Ronnie, Johnny Van Zant, assumiu os vocais e a banda voltou a fazer turnês, tocando principalmente os clássicos dos anos de ouro.

#1 – Grand Funk Railroad

A melhor das bandas de rock americanas é hoje, paradoxalmente, uma das menos conhecidas do grande público.

O power trio formado em 1968 pelo guitarrista/vocalista Mark Farmer, pelo baterista/vocalista Don Brewer e pelo magnífico baixista Mel Schacher produzia um som à  frente do seu tempo, na linha de outros power trios como Jimi Hendrix Experience e Cream. Eles já eram setentistas desde antes dos anos 70.

Clique aqui, veja o vídeo e concorde.

O peso absurdo para a época ajudou a definir os rumos do hard rock da década seguinte. No circuito roqueiro americano, que começava a receber as gigantescas turnês de supergrupos britânicos como Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, o Grand Funk era um dos principais expoentes nativos.

O vídeo abaixo expressa muito bem o espírito da melhor banda americana de todos os tempos:

O seu lugar no universo

Escrito por Eduardo Nunes 1 Comentário

No segundo livro da saga O Guia do Mochileiro das Galáxias, o personagem Zaphod Beeblebrox, o presidente da Galáxia foragido, é levado a uma câmara de tortura (ou melhor, de execução) que aniquila a alma de qualquer um que nela entrar: o Vórtex da Perspectiva Total.

A temida engenhoca é capaz de mostrar à vítima toda a grandiosidade do universo, em contraste com a sua pequenez e insignificância diante de tal vastidão.

Recebi, por e-mail, o link para algo bem parecido: A Escala do Universo, simulação feita por Cary Huang que mostra a proporção de tudo que existe, desde o menor tamanho (as teóricas espuma quântica e supercordas) até a extensão do universo inteiro.

No meio de tudo isso, a escala humana, das coisas com que nossos sentidos estão acostumados e que compõem o mundo que vivenciamos diariamente. Com apenas duas setas direcionais, você pode navegar entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, numa experiência fantástica.

Para acessar, clique aqui.

Não aniquila a alma, mas mostra que minha avó  está certa quando diz que “a gente não é nada nesse mundo”…

Ontem, representantes das Nações Unidas protestaram contra possíveis “crimes contra a humanidade” na Líbia.

Parece que os diplomatas não gostaram de saber que o Kadafi mandou a sua força aérea bombardear manifestantes indefesos.

Desde o começo de janeiro, ditadores do mundo árabe (e de outras partes do mundo) têm matado manifestantes e atacado jornalistas. Muitos desses déspotas passaram décadas matando ou prendendo dissidentes, cerceando a imprensa, humilhando as mulheres, e é preciso um bombardeio de MiGs para que a ONU detecte crimes contra a humanidade?

Então, a noção de crimes contra a humanidade é meramente uma questão de números? Quantos exatamente precisam morrer para que a matança seja considerada crime contra a humanidade? Será que só os genocídios merecem ser enquadrados nesta definição?

Eu gosto da expressão “crime contra a humanidade” e acredito que ela deveria ser empregada com mais frequência.

Antes de qualquer coisa, é preciso definir o próprio conceito de “humanidade”.

O que é a humanidade? Só o conjunto das populações de Homo sapiens? Não creio. A humanidade é mais do que um grupo de animais da mesma espécie.

Odeio concordar com Sartre, mas aprecio a sua noção de homem como “projeto”.

“O homem deve ser inventado a cada dia”, disse o Jean-Paul. Perfeito. Nesse sentido, nem todos os Homo sapiens podem ser chamados de “humanos”, só aqueles que fazem por merecer a definição.

A humanidade é uma ideia abstrata, uma construção. É a superação da condição animal, a assunção de uma nova natureza, o que é permitido pela racionalidade e pela vontade – uma nova natureza em que as determinações genéticas e os instintos animais continuam presentes, mas são domados pela vontade racional.

Se adotarmos essa noção de “humanidade”, a ideia de “crime contra a humanidade” se alarga consideravelmente. Crime contra a humanidade passa a ser tudo que impede o ser humano de desenvolver plenamente a sua nova natureza.

Nesse sentido, Kadafi e outros ditadores de opereta cometem crimes contra a humanidade em vários graus, além do genocídio: perseguição de opositores, manipulação de eleições, proibição de partidos políticos, tolerância com doutrinas religiosas que oprimem a mulher, apropriação do Estado por uma família ou uma casta etc.

Mas a ampliação do conceito também desmascara outros criminosos contra a humanidade que atuam bem além dos muros do clube dos ditadores caricatos.

Governantes democraticamente eleitos de nações poderosas que se usam do próprio poderio bélico e econômico para empobrecer ainda mais os países pobres também são criminosos contra a humanidade.

São criminosos contra a humanidade os gestores de empresas que exploram mão-de-obra semi escrava em países pobres e depois superfaturam os preços de produtos que custaram a eles os poucos cents pagos por peça a crianças famintas.

São criminosos contra a humanidade os gestores cujas companhias desmatam, provocam a extinção de espécies inteiras e poluem em nome do lucro, bem como o FDP que joga o seu lixo nas ruas das cidades e transforma o seu habitat e o dos seus filhos numa pocilga.

Os políticos que desviam recursos ou que aumentam astronomicamente os próprios salários enquanto falta dinheiro para a saúde e a educação são criminosos contra a humanidade, tanto quanto o eleitor que os elege e depois reclama da imoralidade na política.

Os manipuladores da informação, os intelectuais e tecnocratas que compactuam e fomentam o desmonte da educação pública brasileira, os que operam e comandam uma Justiça que não funciona, todos eles deveriam ser acusados de crimes contra a humanidade.

Vai faltar espaço  no Tribunal de Haia.

Passei uns dias, nessas férias, na chácara onde vivem meus pais, lá no interior de São Sebastião do Caí.

Pertinho da idílica morada paterna, fica a entrada da não menos idílica (pelo menos, segundo os folders promocionais) Reserva Natural do Caí, um condomínio fechado que se vende, o nome já diz, como um residencial integrado com a natureza.

O site do empreendimento até propagandeia que o condomínio é “o primeiro projeto de desenvolvimento urbano a adotar o ISO 14001 voltado ao sistema de gestão de qualidade e à gestão ambiental”.

Não sei o que raios isso significa, mas os meus olhos e a câmera do meu celular testemunharam como a coisa funciona na prática:

Esta é a placa que indica a entrada do residencial:

A alguns metros da placa, eis o que se vê:

De quem é esse lixo? Ao que tudo indica, pode ser dos moradores da Reserva, pois as casas das imediações têm seus próprios cestos de lixo.

Como foi parar no chão?

Por que diabos é colocado em um depósito tão vagabundo, feito de tábuas mal pregadas?

Será que o ISO 14001 só tem validade do portão para dentro?

Pelo visto, os moradores do condomínio não se importam muito com isso.

A partir de hoje, esta seção manterá o e-leitor informado sobre as desventuras do deputado Tiririca (PR-SP) no Plenário da Câmara dos Deputados. O  nível de excremento na folha corrida do distinto parlamentar será constantemente atualizado, pelos próximos quatro anos.

16.02.2011 – Fogo amigo na votação do salário mínimo

Na votação do salário mínimo na Câmara, o nobre deputado Tiririca votou a favor do destaque dos tucanos que elevava o valor para R$ 600, agindo contra a determinação do seu partido, que compõe a base aliada de Dilma e queria R$ 545.

Estaria Tiririca se rebelando contra a liderança partidária? Teria ele, lembrando-se de suas origens humildes, assumido o compromisso de nunca defender qualquer proposta que não seja a melhor para o trabalhador?

Não. Ele se enganou na hora de votar. A explicação foi dada pela assessoria do parlamentar.

Parece que a diferença entre os botões de SIM e NÃO é sutil demais para ser percebida pelo representante dos paulistas, que foi considerado alfabetizado em exame da Justiça Eleitoral.

Segundo matéria publicada em zerohora.com, o líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira, chegou a agradecer o apoio do deputado mais votado do Brasil.

Os 1.353.820 eleitores conscientes que o elegeram também agradecem. Ainda que sem querer, Tiririca apertou o botão que a maioria deles provavelmente apertaria.

[Imagem: Agência Câmara]

Imagem: Agência de Fotos da Secretaria da Educação do RS

Guarde bem o rosto dos caras acima. Especialmente o do meio, ministro Fernando Haddad, e o da direita, secretário José Clovis de Azevedo. Eles estão ajudando a destruir a educação do Brasil e do Rio Grande do Sul, respectivamente.

No fim do ano passado, na calada da noite do governo Lula, o Ministério da Educação, comandado há anos por Haddad, homologou uma rec0mendação do Conselho Nacional de Educação para que as escolas não reprovem alunos até o 3º ano do Ensino Fundamental. Nesta semana, foi a vez da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul fazer o mesmo.

Antes de qualquer coisa, fica a pergunta: por que diabos dizemos “3º ano” e não mais “3ª série”?

Quando você e eu, pessoas bem alfabetizadas, obrigado, estávamos na escola, o Ensino Fundamental (que na época se chamava “1º grau”) ia da 1ª  à 8ª série. Talvez você seja ainda mais velho e tenha estudado nos áureos tempos em que havia “Primário” e “Ginásio” e nossos estudantes aprendiam Latim e Grego na escola pública…

Pois bem, agora, diante da catástrofe da educação, os nossos tecnocratas concluíram que um ano é pouco para alguém ser alfabetizado e acrescentaram mais uma série ao Ensino Fundamental, um ano antes da antiga 1ª série. Por isso, agora esse nível tem nove “anos”, sendo o 2º ano equivalente à antiga 1ª série, o 3º ano equivalente à antiga 2ª série etc.

Ora, leitor alfabetizado, de quanto tempo você precisou para aprender a ler? Eu, que tive a sorte de entrar na 1ª série de uma escola pública em 1988 e não em 2008, fui alfabetizado em menos de um ano, assim como 99% dos meus amigos e colegas. Naquela época, a possibilidade de alfabetização em um ano era um credo inabalável graças ao trabalho competente de professoras comprometidas com métodos que funcionam e não com quimeras e devaneios de gurus “progressistas”.

Os anos passaram e as crianças começaram a ter mais dificuldade para aprender a ler na escola. Sabe por quê? Eu vou dizer por quê. Hoje, nossas crianças não aprendem a ler na escola porque passam a maior parte do tempo fazendo coisas que pouco ou nada têm a ver com alfabetização.

Fui professor de escola pública por sete anos, trabalhei em quatro escolas de realidades diferentes e o que se via em todas elas era sempre o mesmo: o que os alunos dos primeiros anos mais fazem é recortar e colar figurinhas, colar palitinhos e pedaços de EVA, pintar desenhos que ganham prontos (no meu tempo, pelo menos, nós desenhávamos antes de pintar), aprender a cantar e dançar musiquinhas de programas infantis, fazer artesanato e brinquedos com material reciclado.

Eles não escrevem mais; recebem fotocópias de textos prontos. Eles não fazem ditados nem exercícios de repetição de grafia de palavras: isso “deforma a consciência”, segundo os educadores “progressistas”.

Resultado: não se aprende mais a ler. E quase todos os que aprendem viram analfabetos funcionais, incapazes de entender 10% deste post. Fui professor de História e Geografia nas séries finais do Ensino Fundamental e constatei, assombrado, que eu não podia usar os livros didáticos enviados pelo MEC porque os alunos eram incapazes de entender os textos. E isso, como você bem sabe, é um fenômeno recente, pois você e eu entendíamos o que estava nos livros do Ensino Fundamental.

Acreditem, ministro e secretário, o problema da educação não é o índice de reprovação, que, aliás, é irrisório. Se se reprovasse todos os alunos que não atingem os objetivos da sua série, o percentual de reprovados ficaria acima de 70%, com certeza. Hoje, por pressão dos órgãos governamentais, faz-se com esses alunos algo muito pior: eles são aprovados sem que tenham aprendido.

Em entrevista à Zero Hora, o secretário Azevedo, que, aliás, é meu conterrâneo de São Sebastião do Caí, disse:

— Quem tem vivência em escola pública sabe que o investimento na criança por mais tempo permite que ela siga em frente. Reprovar no início afasta o aluno.

A frase final traduz o espírito do nosso tempo na educação: “reprovar afasta”. A palavra da moda, nos círculos “progressistas”, é INCLUSÃO. É preciso incluir. Reprovar, para eles, é feio, é exclusão. Aprovar inclui, dizem. O objetivo desses caras é manter o aluno na escola, mesmo que ele nada aprenda. O importante é estar lá, de corpo presente.

O que o secretário e os progressistas não percebem é que a verdadeira exclusão é aprovar um analfabeto funcional. Dar um certificado de conclusão de Ensino Fundamental ou de Ensino Médio para alguém sem as mínimas condições, isso é a verdadeira exclusão.

Quer incluir os pobres na sociedade competitiva, secretário? Quer fazer com que todos tenham chances de competir por um lugar ao sol? Então, certifique-se de que eles não sairão da escola sem aprender o máximo.

Facilitar o avanço de alunos sem base de aprendizado servirá apenas para marginalizá-los ainda mais. Inclusão de verdade é ser aprovado em uma seleção de emprego, é passar no vestibular, é ter condições de entender os papéis que se assina, é saber ler a vida e não ser passado pra trás.

O saudoso Fausto Wolff dizia que a imensa maioria de tudo que ele sabia tinha sido aprendido nos cinco anos do primário, nos longínquos anos 40, quando as professoras eram mulheres distintas e respeitadas e os alunos não eram aprovados se não aprendessem.

A alfabetização, a interpretação de um texto, as quatro operações matemáticas, a capacidade de raciocínio lógico e de compreensão são (ou eram) objetivos próprios dos primeiros anos do Ensino Fundamental (que não é chamado de “fundamental” por acaso).

A recomendação de acabar com a reprovação nestes anos, ao invés de incluir, vai aprofundar ainda mais a exclusão de alunos condenados a viver do lado de lá do abismo da qualificação.

AVISO: Este post contém spoilers, o que significa que, se continuar lendo, você poderá descobrir acidentalmente que o Kevin Spacey é o Keyser Söze em “Os Suspeitos”, entre outras coisas.

2012

Num dia ligeiramente fora do comum, pelo menos para os limitados padrões dos habitantes do Himalaia, o mar revolto inunda quase todos os picos da cordilheira – e uma arca transportando 400 mil pessoas é jogada contra o Monte Everest pela força das águas. De repente, na ponte de comando da colossal embarcação, um nerd gordo solta um urro de regozijo, só porque um par de hélices minúsculas (em termos relativos) conseguiu reverter, em segundos, o movimento de uma massa metálica de centenas de milhares de toneladas, evitando a colisão e salvando todos a bordo.

Nesse momento, você suspira e

a) fica feliz e toma mais um gole de refrigerante, pois, afinal de contas, é só mais um filme-catástrofe; ou

b) fica puto da cara e vai embora do cinema, jurando nunca mais ver um filme-catástrofe, pelo menos não um do Roland Emmerich.

De qualquer modo, aquelas deviam ser mesmo boas hélices.

Filmes-catástrofe, como 2012, de onde foi recortada a sequência acima descrita, são sempre um bom programa para quem gosta de cenas grandiosas, roteiros bobinhos e finais felizes.

Depois de analisar exaustivamente as mais representativas obras do gênero, desenvolvi uma receita simples para que você possa fazer os seus próprios filmes-catástrofe.

INGREDIENTES

- ROLLAND EMMERICH NA DIREÇÃO

Filme-catástrofe que se preze tem que ser dirigido por este alemão que introjetou muito bem o american way of cinema. No currículo, ele tem 2012, Godzilla, O Dia Depois de Amanhã e Independence Day. Emmerich é tão bom nisso que, até quando não faz um filme-catástrofe, o resultado acaba sendo… uma catástrofe. Vide O Patriota.

Se este ingrediente estiver em falta, você pode substituí-lo pelo Michael Bay, sem grandes prejuízos.

- UM ORÇAMENTO DE PELO MENOS NOVE DÍGITOS

A textura e o sabor inconfundíveis dos filmes-catástrofe se devem principalmente aos efeitos especiais computadorizados, e o preço de qualquer tornado mixuruca feito nos servidores da Industrial Light & Magic está pela hora da morte. Imagine então o trabalho dos engenheiros de som da THX. Tempestades, ondas gigantes, explosões solares e terremotos de 10 graus na escala Richter custam muita grana. Prepare-se para abrir a carteira.

- ATORES DE SEGUNDA LINHA

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Não adianta. Você não conseguirá fazer um bom filme-catástrofe se quiser escalar Anthony Hopkins e Meryl Streep para os papéis principais. A receita EXIGE canastrões, ex-astros decadentes, talentos que nunca engrenaram ou, no máximo, iniciantes promissores. Bruce Willis é sempre uma boa pedida. Se ele não puder, ligue para o Dennis Quaid.

- BUROCRATAS MALVADOS

Teoria da conspiração e filmes-catástrofe andam juntos. O governo dos EUA (com exceção do presidente) sempre sabe de tudo que vai acontecer e muitas vezes esconde informações que poderiam ser valiosas nas mãos certas. O vilão do filme geralmente é um alto funcionário ou político do governo.

- UM PRESIDENTE AMERICANO BONZINHO

O presidente dos EUA, nesse tipo de filme, é sempre bondoso, correto, incorruptível, justo e nobre – e, se for negro, melhor. Na condição de líder mundial, ele sempre faz de tudo para salvar a Terra e/ou a civilização (e sempre consegue, mesmo que às vezes morra como mártir).

- UM PROTAGONISTA LOSER

O herói do filme-catástrofe nunca será aquele musculoso capitão das forças especiais que consegue matar 10 terroristas com um único tiro e que pega a Megan Fox (a de verdade) nas horas vagas. Será sempre um fracassado genial que tem um cargo de subalterno numa agência de segundo escalão. Eventualmente, ele até pode pegar a Megan Fox no filme, mas só se ela estiver intepretando uma cientista linda e genial que tem uma quedinha por losers. Via de regra, o protagonista é divorciado e aproveita a destruição iminente da Terra pra se reconciliar com a ex-mulher, que está sempre casada com um yuppie bem-sucedido. O herói também é um mau pai e salva a relação com os filhos ao mesmo tempo em que salva o mundo (mas há um problema: eles sempre adoram o padrasto).

A mensagem é óbvia: os protagonistas são losers para que o espectador, geralmente loser, se identifique com eles e pense: “Eu também poderia salvar o mundo!”

- UM INIMIGO INVENCÍVEL

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Não teria graça fazer um filme em que o inimigo pudesse ser vencido por qualquer Jack Bauer. Os heróis precisam necessariamente lutar contra algo grande e poderoso de verdade – uma mudança climática global, um meteoro do tamanho do Texas, um bombardeio de neutrinos oriundos das últimas explosões solares, naves gigantes que não podem ser destruídas, etc.

- MUITAS BANDEIRAS DOS EUA

Como se diz na minha terra, “quem paga a conta do filme tem o direito de levar o crédito pela salvação do mundo”. E os americanos são muito bons nisso (levar o crédito).

MODO DE PREPARO

- PRIMEIRO LOUVE A CIÊNCIA. DEPOIS, CUSPA NA CIÊNCIA

armageddon SPLASH

Não se faz filme-catástrofe místico, a não ser que você seja adventista-do-sétimo-dia e queira assustar os seus fiéis mostrando o que vai acontecer quando o Chefe voltar pra acertar as contas. As premissas são sempre rigorosamente (mesmo que sem muito rigor) científicas e racionais.

Mesmo em 2012, baseado em uma profecia maia, a destruição tem causa cientificamente comprovada: os neutrinos que bombardeiam a Terra se transmutaram em microondas (what the fuck?) e estão aquecendo demais o núcleo do planeta. Outros títulos seguem a tendência cientificista: em Armageddon e Impacto Profundo, o inimigo é um asteróide ou um cometa. Em Independence Day e Guerra dos Mundos, ETs bons de briga. Em Godzilla, um monstro engordado por explosões nucleares. Em O Dia Depois de Amanhã, o derretimento das calotas polares mudou a dinâmica das correntes marinhas e a Gulfstream parou de levar água quentinha para as cercanias da Europa. Você assobia e diz: “Uau, faz sentido!”

O problema é que, depois de usar a ciência para justificar as causas, os roteiristas desdenham do bom senso do espectador e fazem coisas absurdas. O que dizer de 2012, por exemplo, em que os protagonistas estão no parque de Yellowstone no momento em que o supervulcão explode e… sobrevivem? O escritor Bill Bryson dedica a este supervulcão um capítulo inteiro de Breve História de Quase Tudo. Se os cientistas estiverem certos, a explosão seria tão poderosa que dificilmente alguém que estivesse a alguns milhares de quilômetros poderia sobreviver – muito menos fugir calmamente em um avião bimotor.

E o que dizer de pessoas usando celulares num momento em que a magnetosfera certamente estaria em frangalhos?

Mudando de filme, que tal Armageddon, em que um bando de perfuradores de poços de petróleo doidões se tornou uma eficiente tripulação de astronautas em menos de duas semanas de treinamento?

Outros absurdos são vistos em todas as obras do gênero. É só procurar.

- O ALTO COMANDO É UMA CASA DA MÃE JOANA

O protagonista, como vimos acima, é um loser. No entanto, esse loser sempre consegue entrar de penetra na sala dos generais, na ponte de comando, no avião presidencial, etc, e SEMPRE É OUVIDO PELOS MANDA-CHUVAS.

Em Independence Day, Jeff Goldblum e o pai conseguem embarcar no Air Force One e depois entrar na Área 51 – e o nosso herói diz aos generais o que fazer.

Em 2012, John Cusack, um autor de livros semi-esotéricos que venderam 500 cópias, acaba na ponte de comando de uma das poucas arcas de salvação e dá ordens a alguns dos homens mais poderosos do mundo.

Seja qual for o filme, o protagonista loser e seus amigos sempre conseguem se infiltrar no Alto Comando e dar as cartas.

- EM DISCURSO, O PRESIDENTE AMERICANO ABENÇOA O MUNDO

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O discurso televisionado do presidente americano é um dos pontos altos do filme. O bom líder explica ao mundo as dificuldades e jura fazer o que puder para salvar a humanidade – sempre com uma trilha comovente ao fundo. O discurso é transmitido para todos os países e todas as pessoas de todas as culturas param o que estiverem fazendo para acompanhar a empolgante retórica do comandante-em-chefe.

- TODO MUNDO OPTA POR FUGIR NA ÚLTIMA HORA

Não importa se as autoridades emitiram o alerta há duas semanas, um mês, duas horas. As pessoas sempre evacuarão as cidades a poucos minutos do fim.

Uma onda gigante provocada pela queda de um cometa vem em sua direção? Tudo bem, tome seu café com calma, jogue um pouco de GTA, tire uma soneca e só depois pegue a estrada. Afinal, ela estará vazia, não é mesmo? Não! TODOS os seus vizinhos e conterrâneos fizeram a mesma coisa que você e todos tentam fugir ao mesmo tempo, parando o trânsito e impossibilitando a fuga.

- DESTRUA O MÁXIMO POSSÍVEL DE SÍMBOLOS DA CULTURA OCIDENTAL

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Desde que o Charlton Heston achou uma Estátua da Liberdade semi-enterrada em O Planeta dos Macacos (ou desde antes, quando o King Kong original escalou o Empire State Building), Hollywood percebeu que as pessoas adoram ver símbolos da civilização sendo destruídos.

Por isso, mesmo que a humanidade vença no final (e nós sempre vencemos!), é de bom tom destruir a Casa Branca, derrubar um ou dois arranha-céus em Nova York, jogar um meteorito na Champs-Élysées. Pra dar um tom de espetáculo, sabe?

- ALGUÉM IMPORTANTE TEM QUE MORRER

Seria ótimo se apenas anônimos morressem, mas algum membro da casta de protagonistas sempre precisa morrer no seu filme-catástrofe. Se for uma morte heróica pra salvar o mundo, melhor ainda.

- NO FINAL, A HUMANIDADE TRIUNFA

É isso aí, parece que somos mesmo uns motherfuckers de difícil extermínio.

RENDIMENTO

Muitas porções. Sua receita será vista por milhões de pessoas em todo o mundo. Eventualmente, seu filme poderá ser indicado a um Oscar de efeitos visuais ou de efeitos sonoros. Mas cuidado, pois também é possível que ele conquiste várias Framboesas de Ouro.

[Postei este texto há muito tempo, numa galáxia muito distante, em um blog que deixou de existir]