Arquivos para Março, 2011

O drama do (possível) desastre nuclear japonês, a que o mundo assiste com a respiração suspensa, é, de certo modo, o drama da humanidade.

Nenhum país – com exceção, talvez, de Israel – representa tão bem a condição atual da espécie humana quanto o Japão.

A área do arquipélago japonês não chega a 380 mil quilômetros quadrados. Se excluirmos as montanhas e os vulcões inabitáveis, talvez reste um território menor que a soma das extensões de Rio Grande do Sul e Santa Catarina – mas no Japão se espremem quase 130 milhões de habitantes, uma densidade de mais de 330 pessoas por quilômetro quadrado. Não é à toa que lá tem gente dormindo em cápsulas pouco maiores que caixões.

O Japão não tem recursos naturais dignos de nota. Nem minérios, nem petróleo, nem grandes rios com grandes quedas d’água para a construção de hidrelétricas. A rigor, o único recurso abundante no país, e que garante a sua riqueza, é o seguinte: japoneses.

Mas, para tocar a terceira maior economia do mundo, até os japoneses são impotentes quando falta o mais importante dos recursos: energia elétrica. Aliás, é impossível tocar qualquer economia moderna sem energia.

Maior arranha-céu japonês, num mundo sem eletricidade

A energia elétrica, como já escrevi alhures, é o que nos separa da Idade Média. Sem eletricidade, o mundo como o conhecemos acaba e voltamos a ser membros sujos e malcheirosos de clãs tribais com horizontes que se estendem apenas até onde os olhos alcançam ou até aonde as pernas nos podem levar em um dia de caminhada.

Os japoneses, mesmo que não queiram ter uma das maiores economias do mundo, mesmo que queiram apenas viver, no mínimo, no século XX, precisam de energia elétrica. E como diabos vão obtê-la? Com energia solar? Eólica? Ora, vamos falar sério.

As tais energias “limpas”, mesmo hoje, no século XXI, ainda engatinham. Experimente abastecer de energia um país de mais de 100 milhões de habitantes dependendo apenas dos caprichos do vento e da luz solar. É inviável hoje e era ainda mais inviável no fim dos anos 60, quando o Japão já despontava como potência industrial e Fukushima começou a ser construída.

A rigor, o Japão tem duas alternativas energéticas viáveis a curto prazo: usinas nucleares ou usinas termelétricas.

A energia nuclear é uma das mais limpas, desde que não haja nenhum acidente que provoque vazamento de combustível – o que é quase um sonho impossível num país que fica sobre a junção de três placas tectônicas e que está condenado a sumir do mapa mais cedo ou mais tarde.

Quanto às termelétricas, nem preciso dizer nada – elas já foram demonizadas o bastante desde que se começou a falar em aquecimento global. Basear uma matriz energética em combustíveis fósseis está (ou deveria estar) fora de questão para qualquer governo minimamente preocupado com a sobrevivência da humanidade.

Aos japoneses (e, até que se descubra uma tecnologia viável, à humanidade), acabam restando quatro opções:

1) Construir suas centrais nucleares nos locais menos propensos a terremotos (de preferência, bem longe do litoral)

2) Investir toda a grana do país para produzir energia com a queima de lixo (filtrando a fumaça, claro), painéis solares e cataventos em cima de todos os prédios, além do uso de dínamos em milhares de bicicletas ergométricas operadas 24h por dia por crianças importadas de Bangladesh.

3) Abandonar o país e ir viver em um lugar onde o chão se comporte como chão.

4) Desistir dessa história de civilização, jogar fora todos os celulares e tamagochis, restabelecer o sistema de castas, fabricar espadas (artesanalmente), jurar lealdade ao Imperador e ressuscitar os samurais.

Letargia seletiva

Escrito por Eduardo Nunes 2 Comentários

A citação abaixo, sobre a escolha de Tiririca para a Comissão de Educação e Cultura a Câmara,  é da escritora Lya Luft e está na coluna da Rosane de Oliveira na Zero Hora desta sexta, 4 de março:

Nos meus 72 anos de vida, assisti a muitas coisas tristes, sombrias ou bizarras neste país. O deputado Tiririca, mais votado do Brasil, declarado alfabetizado depois de errar 80% do ditado a que foi submetido, passou a membro da Comissão de Educação. O Tiririca pode até ser um cara legal, mas se fôssemos um país sério todos os escritores, editores, jornalistas e professores brasileiros entrariam em greve até se resolver o escárnio. Mas não faremos nada disso. Vai haver até quem ache graça. Pêsames.

Tens razão, Lya. Nada será feito, tal é a letargia que acomete o povão e até as classes mais esclarecidas da sociedade brasileira.

Mas estamos falando de uma letargia seletiva, pois esse mesmo povo que faz ouvidos moucos aos absurdos que ocorrem na política sabe ser veemente nas críticas à escolha das garotas-propaganda da cerveja Devassa ou ao comportamento de alguns débeis mentais que estrelam reality shows.