E então você acessa, em 2011, o blogue de uma jornalista de vinte e poucos anos e lá ela diz que é de esquerda.
Ou dá uma olhada na BIO do Twitter de outra jovem jornalista, e ela, mais precisa, se define como socialista.
Isso não é de forma alguma uma caça às bruxas macarthista no meio jornalístico; o fato de serem ambas jovens jornalistas do sexo feminino e se dizerem de esquerda é pura coincidência. Esquerdistas, os encontramos em quase todos os ramos da atividade humana. Direitistas, mais ainda, a diferença é que eles raramente usam a palavra “direita” quando definem a si mesmos.
A pergunta que faço é: ainda faz sentido usar tais expressões?
O que é, hoje, ser “de esquerda” ou “de direita”? Como saber em qual dos lados nos encaixamos? Só há dois lados possíveis?
A origem dos rótulos, como bem lembram os que prestavam atenção às aulas de história da 7ª série, está na Revolução Francesa, no século 18. Na época, os que sentavam à direita na assembleia dos Estados Gerais eram os girondinos, grupo conservador e comprometido com a defesa dos privilégios dos ricos. À esquerda ficavam os jacobinos, anticlericais e reformistas identificados com as classes trabalhadoras e que almejavam garantir aos mais pobres os direitos mais básicos. E no centro se sentava o equivalente da época ao PMDB.
As expressões se imortalizaram e os partidários de cada seita tornaram-se rivais praticamente inconciliáveis desde então, principalmente depois que Karl Marx deu à distinção entre esquerda e direita estatuto científico.
A dicotomia viveu seu período mais maniqueísta e evidente entre 1917 e 1991, quando ser de direita era defender o capitalismo, a livre iniciativa e o direito de enriquecer e ao mesmo tempo pregar a destruição da União Soviética, enquanto ser de esquerda era basicamente assumir-se como socialista e lutar pela implosão do capitalismo ou, no mínimo, pela distribuição da renda dos mais ricos entre os mais pobres.
A União Soviética entregou os pontos, a China descobriu que ganhar dinheiro é bom para o moral, a bússola ideológica de todo mundo se desregulou… mas os soi disant esquerdistas e direitistas continuam travando seu duelo de morte na arena das ideias.
Às vezes, tenho uma ligeira crise de identidade: sou de esquerda ou de direita?
Difícil dizer.
Em algum ponto da adolescência, vemos como é cool e romântico ser de esquerda, subir na mesa e improvisar um comício, criticar a opressão dos povos e da Natureza pelas corporações malvadas, defender a igualdade das gentes e a liberdade irrestrita.
Nos aprofundamos nos estudos e entramos em contato com autores vanguardistas e chiquérrimos que desconstroem e denunciam como errado tudo em que a civilização ocidental sempre acreditou. Nesse ponto, nós também queremos ser vanguardistas, também queremos ser chiquérrimos, ainda que em nossos círculos o termo “chiquérrimo” tenha uma conotação bem mais minimalista, roots e às vezes feia e malcheirosa.
Por isso, abraçamos e assumimos o papel de desconstrutores pós-tudo e usamos nossa retórica de botequim francês para questionar todo e qualquer determinismo opressor, todo e qualquer vínculo com uma modernidade que consideramos ruim e digna de destruição apenas por ter vindo antes de nós. E acreditamos que isso é ser de esquerda.
Mais tarde, alguns de nós acabam tendo que trabalhar e alguns dos que têm que trabalhar precisam trabalhar para alguém e por isso acabamos nos dando conta de que o nosso emprego e o nosso salário e tudo que ele pode comprar — incluindo livros de autores que desconstroem as relações de trabalho ou caras cervejas artesanais em bares feios e vanguardistas — dependem da aceitação de certas regras.
Acostumamo-nos a seguir essas regras. E a defender a necessidade de termos um emprego que pague nosso direito de morar e de ir e vir e de ter um blogue para falar mal do sistema que nos nutre – e passamos a crer que a manutenção desse emprego depende, também, da saúde financeira da empresa que nos emprega e do patrão que assina nossos contracheques.
E, quando menos esperamos, estamos afirmando em voz alta que o nosso patrão é um empreendedor que faz milagres para manter a empresa competitiva em um país de leis retrógradas e impostos escorchantes e em um mundo globalizado de concorrência voraz. E é então que nossos amigos de esquerda, empregados ou não, dizem que traímos o movimento e nos tornamos direitistas execráveis e porcos capitalistas e lacaios do capital espoliativo internacional.
E de repente aquela nossa ideia de que a esquerda é boa e a direita é ruim se dissolve em multidirecionalismos e em nuances sem fim, e transitamos entre um lado e outro da balança dependendo das circunstâncias e do que está em jogo.
E nos damos conta de que às vezes ser conservador é necessário, dependendo da questão. E que nem tudo precisa ser questionado, negado ou implodido. E que certas coisas que nossos pais nos obrigavam a fazer eram mesmo para “o nosso bem”.
E que o mundo é um lugar muito mais complicado do que nos parecia quando acreditávamos que pichar palavras de ordem em um muro resolveria todos os problemas da sociedade.
Mas é claro que isso não quer dizer que devemos nos tornar o PMDB.


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