Arquivos para Julho, 2011


A baixa escolaridade média dos aspirantes ao mercado de trabalho é apontada como um entrave ao desenvolvimento do Brasil, uma economia em ascensão e cada vez mais carente de mão de obra qualificada. Mas, se fizermos uma criteriosa avaliação dos jovens que saem das nossas escolas, veremos que a falta de alguns anos a mais de estudo está longe de ser o principal problema a retardar o crescimento do país. Muito pior que a baixa escolaridade é a má escolaridade.

A má escolaridade é tão nociva porque incapacita até mesmo aquelas pessoas que alcançam, pelo menos no papel, uma alta escolaridade. Um exemplo significativo é a tragédia dos exames da Ordem dos Advogados do Brasil, em que a imensa maioria dos postulantes, todos bacharéis que passaram pelo menos 15 anos em bancos escolares, é reprovada. E a “culpa” pelo fracasso não pode ser imputada apenas às faculdades de Direito. As raízes do problema só serão desenterradas se retrocedermos alguns anos no histórico escolar dos candidatos até chegarmos ao ensino fundamental, quando eles certamente deixaram de aprender muitas coisas que deviam ter aprendido.

O saudoso jornalista Fausto Wolff, homem de erudição e argúcia notáveis, costumava dizer que devia quase todo o conhecimento que tinha a suas queridas professoras do primário, com quem aprendeu a ler, escrever e pensar, em sua infância pobre na Porto Alegre dos anos 40. Ele estava certo. A base de tudo o que sabemos, as fundações sobre as quais edificamos nosso conhecimento são estabelecidas nos primeiros anos de escola, com a alfabetização, com as quatro operações matemáticas, com o desenvolvimento do raciocínio lógico. Esses alicerces, se bem trabalhados, garantem aprendizado efetivo e maduro pelo resto de nossas vidas. Se mal trabalhados, fazem com que todo o aprendizado posterior seja carente e incompleto.

Fui professor da rede pública por sete anos, nas séries finais do ensino fundamental, e testemunhei a gritante falta de preparo com que os alunos saem dos anos iniciais. Eu não podia usar a maior parte dos textos dos livros didáticos enviados pelo MEC, simplesmente porque os alunos eram, quase todos, incapazes de entender o que estava escrito. A capacidade de interpretação de texto e de escrita vem decaindo ano após ano.

As professoras de matemática da quinta série também não podiam trabalhar os conteúdos próprios dessa etapa, porque eram obrigadas a ensinar as quatro operações básicas, que seus alunos deviam ter aprendido pelo menos três anos antes.

E o que fazíamos com esses estudantes? Éramos pressionados, pela secretaria de educação e pelos pais, a aprovar o maior número possível, independente do desempenho. Aprender, para eles, não é importante. O importante é o avanço.

Uma das causas da disseminação da praga da má escolaridade, além do já conhecido sucateamento da rede escolar e da falta de suporte do Estado, é o nível dos professores das escolas públicas, que está cada vez mais baixo.

Em parte, porque a carreira no magistério, tão mal remunerada, atrai principalmente aquelas pessoas que não conseguem colocação melhor, em parte pela proliferação de cursos de licenciatura caça-níqueis sem qualquer excelência, em parte porque o ciclo da má escolaridade se fechou:  empurrado pelo regime de aprovação quase automática, aquele aluno que saiu da escola sem aprender já concluiu seu curso superior, voltou à escola como professor e hoje é (mal) pago para fazer de conta que ensina.

Além disso, há docentes que ensinam mal por opção, fundamentados em teorias pedagógicas messiânicas formuladas por gurus que se dizem progressistas e acreditam que ministrar “conteúdos” é “obedecer à lógica utilitarista e tecnicista do mercado”. Ouvi, em um seminário de educação, um palestrante dizer que, na sala de aula, o conteúdo é o menos importante. Para ele, o importante é “ensinar o aluno a se fazer a pergunta que liberta”. Com isso, ele queria dizer que a formação crítica e política deve preceder o ensino dos conhecimentos básicos. Com ideias assim sendo (mal) implementadas nas escolas, é fácil saber por que diplomamos, ano após ano, tantos analfabetos funcionais.

Enquanto isso, os secretários de educação e a sociedade comemoram o progressivo aumento da escolaridade média e a redução da evasão escolar, mas poucos parecem notar que as crianças e jovens que estão na escola não estão aprendendo.

Crianças, ouçam o Professor Balboa

Eu via filmes legendados na escola, quando estudava no ensino fundamental e no ensino médio.

(Eu ainda não sabia o que só fui descobrir ao me tornar professor: levar um filme para os alunos é um dos recursos que o educador usa quando está de saco cheio e não quer dar aula)

Alguns filmes que nos passavam tinham objetivos elevados, mas outros eram apenas para diversão, mesmo.

Lembro, por exemplo, de quando a professora Cláudia, de matemática, organizou uma”sessão de cinema” para a minha 5ª série, em 1992, e chegou à sala com a fita de VHS (sou do tempo do VHS) de O Exterminador do Futuro 2. Legendado. Toda a turma viu e acompanhou a história sem pestanejar. Aliás, aquele foi, por muitos anos, o meu filme preferido.

Os anos passaram, eu virei professor e chegou a minha vez de ficar de saco cheio e matar três períodos exibindo um filme para os alunos. Ou, de vez em quando, de levar filmes para ilustrar os conteúdos estudados (o que era relativamente fácil, pois eu lecionava História).

Na hora de exibir os filmes, notei que os alunos sempre pediam para ver a versão dublada, o que não acontecia no meu tempo de estudante (o DVD facilitou as coisas, pois é possível selecionar áudio e/ou legendas em português).

No começo, por julgar que se tratasse de simples preguiça de ler os diálogos, eu resistia à vontade deles e os obrigava a ver os filmes legendados. Em pouco tempo, desisti. Percebi que eles não pediam filmes dublados por comodismo, mas por serem incapazes de ler todas as legendas.

Isso mesmo: os alunos das escolas públicas onde trabalhei não conseguiam acompanhar um filme legendado. Eram incapazes de ler e ainda mais incapazes de compreender o texto das legendas.

Comentei a minha “descoberta” com uma colega que lecionava em outras escolas e ela me disse que costumava, todos os anos, passar para os alunos o filme Sociedade dos Poetas Mortos e depois fazer uma reflexão com a turma. Nos últimos anos, os resultados foram tão desastrosos que ela decidiu parar de levar o filme. Os alunos da “nova geração” não conseguiam mais entender a história, mesmo em cópia dublada.

Sabendo disso, não estranhei o dado apontado nesta semana por uma matéria do Segundo Caderno de Zero Hora que mostra o aumento da procura por filmes dublados nos cinemas.

O que estranhei é que, em meio às discussões sobre as causas do fenômeno, nenhuma das fontes ouvidas na matéria tenha mencionado o que considero a principal razão da rejeição às legendas: a geração que saiu da escola pública na condição de analfabetismo funcional está com grana para ir ao cinema, mas é incapaz de acompanhar um filme se os atores não falarem português.

Tristes tempos.