Arquivos para Agosto, 2011

22 de agosto de 2011

O ex-colega de magistério Ivalino, comentando minha postagem anterior, apresentou algumas questões interessantes sobre o caos na educação, que merecem, mais que uma resposta na caixa de comentários, um novo post.

Vamos por partes:

Salas de aula abarrotadas

Ivalino lembra que a universalização obrigatória da educação básica trouxe às salas de aula uma torrente de crianças e jovens que antes estava fora da escola. Isso levou a uma superlotação das salas , o que sobrecarregou os professores e piorou muito a qualidade das condições de trabalho.

Certíssimo.

Já trabalhei em turmas de quase 40 alunos e em turmas pequenas, e constatei que a possibilidade de se fazer um bom trabalho é inversamente proporcional ao número de alunos por sala.

Turmas com mais de 20 alunos deveriam ser proibidas em todo o país. Até existe um movimento pela fixação do teto de 25 estudantes por classe. Claro que tal medida implicaria na construção de mais salas de aula e na contratação de mais professores. Isso explica por que a regra não é adotada. Para maracutaias, sobra dinheiro no governo. Para melhorar as condições de trabalho nas escolas, sempre falta.

OBS.:

Sempre surge um gaiato para citar o exemplo de turmas grandes, gigantescas, onde o trabalho funciona -  em outros países, em outro nível de ensino, em outra época.

Meu amigo gaiato, se você aparecer para levantar essa ideia, experimente encher uma sala pequena com 40 alunos sem referenciais de valores e normas de conduta, quase todos eles indo para a escola empurrados pelos pais, por medo do Conselho Tutelar, e coloque nessa sala um professor com apenas um quadro negro e uma barra de giz para se defender, sem qualquer respaldo legal para coibir as agressões verbais e às vezes físicas que sofre, e ainda sujeito a ser réu de um processo judicial se disser qualquer coisa que possa ser interpretada pelos alunos e/ou seus pais como uma “humilhação”.

Um professor contra o mundo

Ivalino também pergunta como foram meus resultados nas turmas em que lecionei.

Ele sabe que foram, na maioria dos anos, um desastre.

Em outros artigos, citei as dificuldades para trabalhar os conteúdos num universo em que 90% dos alunos sequer estavam alfabetizados. Consegui alguns bons resultados com alguns alunos de  algumas turmas, mas na maioria dos casos, eu era impotente para lutar sozinho contra a estrutura. Melhorar a situação só será possível com um pacto que comprometa professores, pais, direção, alunos e governo…

Imagine se lá na escola eu decidisse, por minha conta e risco, adotar os “padrões de excelência” que proponho e aprovar apenas os que tivessem alcançado os objetivos… Eu seria contrariado e desautorizado pela direção, escorraçado pela Secretaria de Educação, demonizado pelos alunos e apedrejado pelos pais.

No ano em que deixei de ser professor (2010), eu estava matutando umas ideias de mudança. Cansado de ter de ensinar Geografia e História a alunos que sequer estavam alfabetizados, eu estava bolando um plano para alfabetizá-los.

Em suma, eu pretendia fazer, por conta própria, nas séries finais do ensino fundamental, o que as professoras das séries iniciais deviam fazer e não faziam. Como? Trabalhando com textos mais simples, me focando mais na forma (escrita e na leitura) do que no conteúdo, fazendo “ditados” sobre as palavras estudadas, treinando a formação de frases básicas sobre os assuntos abordados, etc. Coisa de 1ª e 2ª séries, como você vê.

Acabei mudando de profissão antes de conseguir implementar essas ideias, mas agora penso, distante da escola no tempo e no espaço, que eu não teria sucesso. Aposto que a equipe diretiva me questionaria sobre tal prática e exigiria que eu parasse de fazer isso para ministrar os conteúdos previstos no plano de ensino. Não sei. Talvez essa minha ideia seja um caminho a ser tentado por professores que queiram lutar contra os moinhos de vento.

A Reprovação, esse demônio

Meu ex-colega também diz que a minha cruzada pela reprovação dos alunos que não aprendem está longe de ser a saída para a educação.

Concordo com ele. Reprovar não resolve nada. Pelo contrário, só a APROVAÇÃO é sinônimo de aprendizado… desde que os aprovados realmente tenham aprendido.

Não acho que a reprovação, sozinha, resolva qualquer coisa. A reprovação dos que não atingem os objetivos é, antes, um símbolo da excelência que proponho: a escola deve consolidar a cultura de que lá o conhecimento é levado a sério. E que o conhecimento é condição para a aprovação.

Quando eu estudava no ensino fundamental, entre o fim dos anos 80 e a metade da década de 90, morríamos de medo da reprovação. Naquela época, nossos professores só aprovavam quem atingisse, pelo menos, 60% dos objetivos, e atingir esses 60% não era tão fácil como hoje. Por isso, por saber que para ser aprovado era preciso saber, estudávamos muito mais do que hoje estudam os alunos das escolas onde lecionei.

De uns tempos pra cá, a aprovação tornou-se quase automática. Já vi alunos atingirem menos de 40% dos objetivos em Português E em Matemática e serem empurrados para a série seguinte pelo conselho de classe.

Em que a falta de reprovação transformou a escola? Na Casa da Mãe Joana. Não há mais seriedade no trato com o conhecimento. A maioria dos alunos está pouco se importando com os conteúdos estudados porque sabe que será aprovada mesmo que não aprenda.

Num Seminário de Educação, o então secretário de Educação de Viamão, que também era vice-prefeito, cobrou dos professores uma redução no índice de reprovação, que ele considerava muito alto. A justificativa dele: reprovação implica em gastos para o município. É essa a visão dos burocratas.

O absurdo da situação é que ele considerava o índice alto, enquanto nós, professores, sabíamos o quão baixo era. Se reprovássemos todos os alunos que não tinham atingido os objetivos naquele ano, a porcentagem de reprovação bateria na casa dos 90%.

Claro que esses 90% cairiam nos anos seguintes, pois a inércia da falta de interesse e de respeito pelo conhecimento certamente diminuiria na medida em que as escolas acabassem com essa suruba e parassem de dar diplomas a analfabetos.

18 de agosto de 2011

O professor, músico e blogueiro Conrado escreveu um post (para ler, clique aqui) criticando meu artigo sobre “má escolaridade”, publicado na Zero Hora e também postado neste blogue.

Postei, na caixa de comentários do Conrado, algumas ideias que reproduzo aqui, pois elas contêm muito do que eu devia ter dito em outros artigos e não disse:

Conrado

Acho que cometi um erro ao definir o que aqui se estabelece como “disputa retórica”.

Vamos deixar a retórica de lado.

O nosso objetivo aqui não é, ou não deveria ser, apenas vencer uma disputa, no sentido da disputatio que se travava na Idade Média ou dos embates entre oradores na Grécia Antiga.

O nosso objetivo deveria ser, mais do que derrotar quem conosco debate, buscar juntos um diagnóstico e um tratamento para um problema crônico da nossa educação.

Vamos falar de problemas concretos e verificáveis, que estão aí, gritantes, nas nossas escolas?

1) As crianças estão saindo da escola (formadas) sem aprender quase nada. Isso é grave. Gravíssimo. Nem sempre foi assim. Acredito que esse problema deve ser encarado e resolvido. Alguns pedagogos dizem que reprovar não resolve. Pode ser. Mas hoje quase não se reprova e o aprendizado está cada vez pior.

Vou contar uma história real: uma vez, passamos o ano inteiro tentando fazer com que um aluno da sétima série estudasse. Envolvemos os pais, tentamos conscientizá-lo, não adiantou. Dissemos que se ele continuasse sem interesse pelo estudo, acabaria perdendo o ano, etc. No fim do ano, ele foi empurrado para a série seguinte, mesmo sem aprender – porque a secretaria de educação nos pressionava, sempre, a reduzir o índice de reprovação a qualquer custo, mesmo que no canetaço. No ano seguinte, lá estava esse aluno na oitava série, e novamente sem qualquer interesse. Dissemos que, se ele pretendia se formar, teria de aprender o que estávamos ensinando. Sabe o que ele disse? “Foi isso que vocês me disseram no ano passado, e eu tô aqui”.

Não sei se a reprovação é o melhor caminho para evitar a diplomação de analfabetos funcionais. Talvez não seja. Mas aprovar qualquer um, de qualquer jeito, como se faz na maioria das escolas gaúchas, NÃO TEM FUNCIONADO. Temos de achar uma outra solução.

Uma das saídas que proponho é tratar o conhecimento e o aprendizado  com mais seriedade. Aprovar todo mundo, independente do aprendizado, demonstra grave desrespeito, por parte da escola, pelo conhecimento. O que fica, na mente do aluno? Ao ver colegas que não aprenderam e não se interessaram serem aprovadas, a criança percebe que a própria escola não se importa muito com o conhecimento.

2) Você dizer que tem dúvidas quanto ao fato de a interpretação de textos ser uma habilidade que se deva aprender no ensino fundamental me deixa deveras chocado. Claro que não espero que um aluno de primeiro grau tenha como livro de cabeceira a Crítica da Razão Pura de Kant. Mas estou falando em interpretação mínima, em raciocínio lógico, em saber perceber o fio da meada em um texto minimamente inteligível…

É isso que os alunos de hoje não aprendem mais. É verificável. Pegue uma turma de oitava série dê um texto. Como disse no artigo, eu não podia usar os livros didáticos porque os alunos não conseguiam entender os textos. Isso nem sempre foi assim… quando eu estudava no primeiro grau, em uma escola pública, de 1988 a 1995, nós éramos capazes de entender os textos, porque tivemos uma alfabetização sólida e efetiva.

Sei que a minha querida professora Roseana, que me alfabetizou, seria hoje queimada como herege nas faculdades de Pedagogia. Mas ela conseguiu, isso é FATO, nos alfabetizar. E bem. Devo a ela boa parte da minha capacidade de interpretar e de construir um texto.

Quando eu entrei nas duas faculdades que concluí, eu sabia pontuar um texto. Aprendi já no ensino fundamental, e aperfeiçoei no ensino médio. Não que todos devam fazer o mesmo caminho. Nunca é tarde para se aprender, nada impede que se aprenda em qualquer momento da vida. Mas o nosso sistema educacional não tem gerado condições para que isso aconteça, simplesmente porque está se disseminando a cultura de que isso (saber ler e escrever BEM) sequer é necessário.

3) Seus calafrios ao ouvir a expressão “mercado de trabalho” me enchem de calafrios. Me entristece saber que ainda temos essa visão negativa da preparação para o trabalho. Sim, nossa sociedade neoeuropeia (como lembraste) tem no trabalho um de seus pilares, e não precisamos (nem podemos) fugir disso. Aliás, os próprios alunos têm uma opinião bem séria sobre isso. Eles SABEM que terão de se integrar à ciranda do mercado de trabalho. Nem todos têm a consciência de que os conhecimentos obtidos na escola poderiam lhes ser muito úteis nessa ciranda, mas o que vamos lhes dizer se há até setores da pedagogia e do magistério reforçando essa descrença na preparação para o trabalho?

Já ouvi muitos dizerem que não devemos preparar os alunos para o trabalho e sim para a vida. Como se fosse possível separar uma coisa e outra. O que vejo é que muitos querem “libertar os oprimidos” mas não percebem que esse é um discurso retrógrado, de um tempo em que as teorias pedagógicas progressistas eram feitas com o objetivo de conscientizar o povo contra a a opressão da ditadura.

Hoje, ser oprimido é não ter condições de lutar por um lugar ao sol. Lembra daquele aluno que nós empurramos para a oitava série e que jogou isso na nossa cara? Nós o condemamos à falta de qualificação. Nós, professores, com a nossa conivência, o condenamos a não poder ser mais do que servente de pedreiro. Claro que ele poderá fazer um EJA, estudar à noite, se dedicar e conseguir algo melhor. Mas ele não fez isso. Talvez nunca faça. Porque, quando ele estava com o caráter em formação, quando deveria estar aprendendo que o conhecimento é coisa séria e de muito valor para a vida, as pessoas que deveriam lhe ensinar isso apenas lhe deram um certificado de conclusão, sem que ele tivesse aprendido sequer um terço do que deveria aprender para merecê-lo.


Acredito que aquela historinha, tão repetida, de que somos um povo honesto e trabalhador oprimido por uma classe política cretina já foi superada.

Pelo menos em círculos mais esclarecidos, todos parecem concordar que só temos um Congresso com alto percentual de corruptos porque somos um povo com alto percentual de trambiqueiros. A ideia, aliás, foi muito bem sintetizada pela Letícia Duarte em um artigo na Zero Hora.

Ontem, ao voltar do trabalho, dei-me conta, muito tardiamente, de mais uma dimensão da engrenagem que reproduz e legitima o tortuoso “sistema ético” que compõe nosso imaginário popular (digo tardiamente porque não gosto de samba e, por isso, nunca tinha reparado nas letras desse gênero musical tão arquetipicamente brasileiro, tão definidor da identidade nacional).

Madrugada chuvosa em Porto Alegre. No  carro da firma, cinco pessoas semi-silenciosas e um aparelho de GPS tocando uma playlist de samba escolhida pelo motorista. Em silêncio, comecei a reparar no que cantavam aqueles artistas populares, alguns desconhecidos para mim, assim como algumas das canções.

A primeira das músicas, que eu nunca tinha ouvido, se dedicava a falar mal do “caguete”, o cara que dedura à polícia os contraventores do morro, tanto os grandes contraventores (traficantes) quanto os pequenos contraventores (os usuários de drogas ilícitas). Repare, leitor, na ética por trás disso. A contravenção da lei é exaltada; o cara que denuncia a contravenção é o vilão da história.

Depois dessa, vieram duas músicas que eu conhecia, e lá estavam os intérpretes falando mal, outra vez, do caguete.

Assim cantou Bezerra da Silva, no GPS do motorista da firma:

“Mas você não está vendo que a boca tá assim de corujão? Tem dedo de seta adoidado, todos eles a fim de ferrar os irmãos. Malandragem, dá um tempo. Deixa essa pá de sujeira ir embora. E é por isso que eu vou apertar, mas não vou acender agora.”

Encarnando o personagem que aperta um baseado mas tem medo de fumá-lo na frente dos policiais e dos caguetes, o artista se refere aos agentes da lei e aos seus informantes como “pá de sujeira”.

O debate sobre a criminalização do uso de drogas é, por si só, tema para vários outros posts. Aqui, me restrinjo a dizer que não posso apoiar um hábito que, além de ser prejudicial à saúde e ao sistema público de saúde, sustenta (e, por isso, implica em cumplicidade com) uma rede criminosa responsável por milhares de pequenas e grandes atrocidades perpetradas todos os dias.

Voltando ao carro da firma…

Depois de Bezerra apertar seu baseado, foi a vez de Diogo Nogueira repetir, exaustivamente, que “malandro é malandro e mané é mané”. A certa altura, os caguetes voltaram a “sofrer bullying”:

“Já o Mané, ele tem sua meta. Não pode ver nada, que ele cagueta. Mané é um homem que moral não tem.”

Percebemos aqui a inversão moral: na ética do malandro, o vilão não é quem burla a lei estabelecida, mas quem denuncia os que burlam a lei estabelecida.

Todos já passaram por isso na escola ou no trabalho. Existe um código ético tácito, que todos assimilam rapidamente ao começar a participar dos grupos sociais, que diz que não se deve dedurar os colegas que desobedecem às normas de conduta.

A ideia é: não devemos ser leais ao Estado, à empresa ou ao grupo formal de que fazemos parte, mas ao grupo informal formado por nós e nossos iguais. As instituições são vistas como  inimigas, como entidades opressoras, que podem e devem ser ludibriadas pelo malandro e seus amigos.

E todos querem ser malandros ou amigos dos malandros, como me ensinou Diogo Nogueira:

“Malandro é o cara que sabe das coisas. Malandro é aquele que sabe o que quer. Malandro é o cara que tá com dinheiro e não se compara com um Zé Mané. Malandro de fato é um cara maneiro que não se amarra em uma só mulher.”

A riqueza de significado dessa estrofe é impressionante. Renderia teses de Antropologia e Sociologia.

O malandro “tá com dinheiro”. Como um malandro, por definição, não é muito afeito ao trabalho, o que ele faz para conseguir dinheiro? A ideia, tão cara aos políticos corruptos, de se ganhar muito dinheiro sem esforço, mesmo que isso signifique (e quase sempre significa) cometer crimes, está entalhada no DNA do malandro arquetípico, o herói da nossa mitologia, o tipo de pessoa que todo brasileiro quer ser.

Além disso, o malandro “não se amarra em uma só mulher”. Mas as mulheres se amarram nele. Nas canções, nos filmes, nas novelas e na vida real, o malandro sempre se dá muito bem com as mulheres. O verso citado acima, além de fazer apologia ao adultério, retrata uma das recompensas que o malandro ganha por agir com malandragem.

Que homem não lembra do início da adolescência, quando começa a sua “caçada” pelos melhores espécimes do sexo oposto? Na escola ou nas festinhas do seu grupo de amigos, quem eram os preferidos das gurias, leitor? Os malandros.

Nós, homens, aprendemos desde o início da puberdade que ser malandro (com tudo que isso implica) é um dos pré-requisitos para ser bem sucedido no sexo – e até nas amizades.

Já o mané, o vilão da canção de Diogo Nogueira (sim, eu sei que não é ele o compositor nem o primeiro intérprete, mas não faz diferença), sempre se dá mal com as mulheres:

“Mané é um homem que moral não tem. Vai pro samba, paquera e não ganha ninguém“.

Mas a desgraça do mané não se restringe à falta de sorte no amor:

“Está sempre duro. É um cara azarado. E também puxa o saco pra sobreviver.”

Ao contrário do malandro, que sempre dá um jeito de conseguir dinheiro com a sua esperteza e moral flexível (para usar um eufemismo), o mané está sempre duro. E tem de puxar o saco para sobreviver.

Mais uma vez, voltemos à escola, leitor, para exemplificar outro pilar do imaginário brasileiro.

Lembra daquele seu colega que estudava, fazia o dever de casa, prestava atenção às explicações do professor e lhe fazia perguntas? Como esse aluno era chamado pelos colegas? Um dos seus epítetos, certamente, era “Puxa-saco”. E o Puxa-saco é um dos vilões de qualquer grupo, na ética do malandro.

Mais tarde, na empresa, você começou a conviver com alguns colegas de trabalho que cumprem os horários, fazem as tarefas que lhes são pedidas e até algumas que não são pedidas, dão sugestões ao chefe, se oferecem para participar de forças-tarefa e para fazer horas-extras quando necessário. Como eles são chamados? Puxa-sacos, Caxias, Baba-ovos, etc.

Num sistema ético em que, na visão do malandro, a instituição (seja a escola, a empresa, o governo) o oprime, os que agem com honestidade são considerados vilões, são imbecilizados, viram motivo de piada.

E, no contexto da produção artística brasileira “de raiz”, não é só o samba que retrata essa adesão em massa à ética do malandro.

Tomemos, por exemplo, as telenovelas.

Em novela, os mocinhos, manés, que são honestos, trabalhadores, sinceros e abnegados, passam o tempo todo se ferrando. O vilão, malandro, sem escrúpulos, desonesto, se dá bem a maior parte do tempo, e só é punido (e às vezes sequer é punido) no fim. Mas será que essa punição tem impacto sobre a opinião do espectador a respeito de certo e errado?

Numa novela que se desenrole por, digamos, seis meses, o vilão, malandro, passa cinco meses e três semanas ganhando dinheiro, obtendo os melhores cargos no trabalho, ficando com as melhores mulheres, angariando simpatias e rindo das desgraças do mocinho. Tudo parece dar certo para o malandro, como no samba.

Já o mocinho, mané, sofre por cinco meses e três semanas. Perde oportunidades profissionais, sexuais, é vítima de armações, é ridicularizado por todos, em especial pelo malandro. Na semana final, o mané dá a volta por cima, mas será que, aos olhos do espectador, uma semana de felicidade tem mais peso que 23 semanas de infortúnios?

Será que ser mocinho compensa, segundo as telenovelas, o samba e a vida real?

No país do jeitinho, da ética do malandro e da Lei de Gérson, parece que não. É desanimador viver num lugar assim.

Na próxima vez, vou levar um fone de ouvido e ouvir rock and roll no carro da firma.

[O post sofreu ajustes na formatação]

Atualização:

- O amigo jornalista Demétrio Pereira me lembra que não adianta ouvir rock and roll para escapar da apologia à desobediência das leis. Sim, ele tem razão. A opção pelo rock, no texto, funciona apenas como recurso estilístico. A transgressão das leis e a afronta ao “sistema” está presente no rock até mais que no samba – e é um tema recorrente em todas as formas de arte.

- Não estou, como insinuou o Demétrio em seu e-mail, propondo uma “censura artística”. Concordo com ele quando, citando a Escola de Frankfurt, me diz que toda manifestação artística é também política e os produtos culturais influenciam, de um modo ou de outro, os seus consumidores. A saída para evitarmos a sujeição das “massas” (termo tão démodé) aos ditames da indústria cultural está na educação. Só com instrução, “esclarecimento” e consciência crítica as pessoas poderão discernir entre valores benéficos e nocivos e fazer suas escolhas éticas com liberdade e racionalidade.

- De Roma, o padre Luciano Motti escreve que o malandro e o caguete estão no mesmo nível, e que a minha defesa do “dedo-duro” está equivocada. Reconheço que o texto dá margem a essa interpretação. De fato, há indivíduos que usam a “caguetagem” como meio de obter favorecimentos e vantagens pessoais. Estes seres nada mais são que malandros que se valem desse artifício para “se dar bem”. Obviamente, não é desse tipo de pessoa que estou falando quando defendo que se denuncie a contravenção.

- Demétrio e Pedro Heberle tocma em outro ponto interessante: a postura da polícia nos morros cariocas, nascedouro do samba, e nas periferias brasileiras em geral, não é exatamente um exemplo de retidão moral e dá vazão a uma resistência por parte dos moradores dessas comunidades. Mais uma vez, concordo com meus críticos, em parte. Ao defender os policiais como “defensores da lei”, eu estava me referindo apenas aos que realmente agem como tal, e não aos malandros que usam a farda para obter vantagens.