Anos

29 de dezembro de 2016 Blogue,

Anos

Estamos malhando e lamentando os horrores de 2016, quando perdemos Carrie Fisher e Umberto Eco e David Bowie e Dom Paulo Evaristo Arns – e tivemos a tragédia da Chapecoense e a tragédia dos governos criminosos de Temer e Sartori e um bispo da Igreja Universal se elegendo prefeito na capital cultural do país e Trump nos EUA etc.

Mas, olhando pra trás, talvez estejamos melhor do que em muitos outros anos. Eu, por exemplo, nasci em 1981, ano em que o mundo perdeu Bob Marley e Glauber Rocha e Jacques Lacan e até o Mazzaropi. Reagan iniciava o primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos e havia o risco bem real de ele e o líder soviético Brejnev se desentenderem em conversa no telefone vermelho e explodirem o mundo inteiro por isso.

E, naquele ano, tinha um general comandando o Brasil e milicos lunáticos planejando explodir uma bomba em um show no Riocentro e muita gente morrendo de fome e diarreia por esse país afora – e não se podia nem postar textão pra reclamar, primeiro porque era proibido reclamar, segundo porque não existia internet e terceiro porque, mesmo se existisse, éramos pobres e não teríamos computador.

E o que dizer do começo dos anos 1990, quando eu ia com minha mãe ao supermercado no dia seguinte à chegada dos cheques-salário do meu pai e corríamos pro caixa torcendo pra que os preços não fossem reajustados antes que tivéssemos tempo de descarregar o carrinho no balcão? Época em que tínhamos que voltar a pé da “Faixa Nova” (a RS-122) carregando sacolas pesadas porque éramos de uma comunidade pobre em que quase ninguém tinha carro e onde o sonho de ascensão profissional dos meninos era ser caminhoneiro.

Vivo hoje em um Brasil e em um mundo bem melhores e, mesmo com as tentativas de retrocesso promovidas pelos governos com o apoio do empresariado e da imprensa, vejo um povo com muito mais força e instrumentos pra resistir e construir alternativas.
E, se reclamamos das mortes de ídolos das artes em 2016, lembremos que nossos heróis roqueiros dos anos 60, 70 e 80 estão todos ficando septuagenários e a mortandade MAL COMEÇOU.

E eu, particularmente, ando cheio de razões pra sorrir em 2016, ano em que me tornei pai de um filho lindo, que me enche de esperança e de vontade de melhorar o mundo.

Pode vir, 2017. Seguiremos caminhando.