Notas aleatórias sobre o trabalho

28 de abril de 2017 Blogue, ,

Em tempos de discussão sobre que é “ser trabalhador”, duas notas aleatórias sobre a relação dos brasileiros com o trabalho:

1. Minha mãe conta que tinha primas que, quando crianças/adolescentes (interior de São Sebastião do Caí-RS, anos 1960), iam trabalhar na roça vestindo casacos, mesmo no verão. O motivo: elas queriam conservar a pele branquinha e evitar o bronzeado que era a marca de quem mourejava sob o sol. Bronzeado era coisa de trabalhador braçal, era coisa de pobre.

(O curioso é que, hoje, a relação se inverteu e há ampla demanda por bronzeamento, inclusive artificial. Ter a pele bronzeada virou indicativo de status, de praia, piscina e ócio – mas, ainda, o importante é: não parecer trabalhador.)

2. Em 2002, eu e a vida seminarística estávamos “dando um tempo” e fui morar e trabalhar numa paróquia da zona norte de Porto Alegre. Num dia de evento no salão da igreja, vieram uns trabalhadores entregar uns materiais e equipamentos.

Eu, que estava lá como “anfitrião”, abri o salão pra eles montarem os trecos e decidi dar uma ajudinha. Cheguei pra um cara bem vestido e que, aparentemente, estava chefiando a equipe e disse, apontando pra uma mesa desmontada: “Tu pega aí nesse lado e eu pego aqui?” Ele fez uma cara de ofendido e me respondeu: “Cara, EU NÃO VOU BOTAR A MÃO!” Dei de ombros, me afastei e ofereci ajuda a um dos trabalhadores braçais.