O cardeal e o marqueteiro

20 de outubro de 2017 Blogue,

Eu cresci dentro da igreja; era um ratinho de sacristia. Vivi a experiência católica dos anos 80 e 90, com o legado das Comunidades Eclesiais de Base, da resistência à ditadura e da “opção preferencial pelos pobres” ainda bem fresco no imaginário da assembleia que se reunia – e as músicas que cantávamos nas missas e encontros citavam diversas vezes as palavras “opressão”, “povo”, “repartir”, “irmãos”, “pão”, “caminhar”, “comunhão”, “participar”.

Fui seminarista por seis anos e pude ajudar a planejar e participar de diversas ações que enfatizavam o coletivo, o desprendimento, a melhoria das condições materiais das pessoas que viviam à margem do sistema.

Mas, lá pelo início dos anos 2000, escuras sombras começaram a surgir no seio da igreja, grupos uniformizados (que, no Seminário, chamávamos jocosamente de “os homens de preto”) passaram a ganhar cada vez mais espaço – com as bênçãos do ultraconservador João Paulo II e do seu general Joseph Ratzinger – e uma mudança de visão de mundo tanto dos seminaristas e padres quanto dos fiéis das paróquias tornou-se paulatinamente perceptível.

Hoje, cada vez menos se canta as palavras “opressão”, “nós”, “irmãos”, “povo” e “pão”; estas foram substituídas por “adorar”, “louvar”, “eu”, “meu”, “cura”, “coração”. A ideia de “Povo de Deus” foi substituída por “Deus e Eu”. Tipo um neopentecostalismo fiel a Roma e bem aceito nos círculos dominantes.

E vemos, cada vez mais, aqueles grupos organizados que vestem preto elegerem políticos.

E vemos o cardeal arcebispo de São Paulo, um homem que ocupa a cadeira que já foi do saudoso Dom Paulo Evaristo Arns, aliar-se a um pulha como João Dória em um nebuloso esquema que usa a desumanização dos pobres para transferir recursos públicos para amigos do prefeito.

Tempos sombrios.