Sangue do meu sangue

Uma das histórias que minha mãe contava na minha infância, e à qual eu devia ter prestado mais atenção, é que temos uma antepassada “bugra” que teria sido caçada no mato, com uso de cães perdigueiros, para se casar (ou ser casada) com seu futuro marido, que não lembro se é avô ou bisavô do meu avô materno.

Sou descendente direto, portanto, do sequestro, do estupro, do roubo de terras, do assassinato e do esmagamento cultural dos povos indígenas – tanto dos autores quanto das vítimas. Um pedaço de mim estava apanhando da polícia ontem, em Brasília. Outro pedaço de mim estava jogando as bombas e empunhando os cassetetes.

Tenho vergonha da parte de mim que agride, rouba terras e nega à outra parte o direito de existir. Desejo que a parte oprimida se afirme e ganhe força – e isso começará, em mim, pelo resgate dessa ancestralidade que deixei tanto tempo esquecida, na memória nebulosa das histórias que ouvi na infância.

Estou falando de mim, mas também posso estar falando do Brasil. Até porque o Brasil também sou eu.

(a foto é da Mobilização Nacional Indígena)