Sobre a Friboi e uma noite em Cabeceira de Tocas

Ter vivido por seis anos no Seminário me permitiu experimentar algumas coisas que, provavelmente, não teria conseguido de outro modo. Duas delas foram:

– conhecer grotões escondidos nas entranhas do Rio Grande.
– me hospedar nas casas de inúmeras pessoas desconhecidas.

Dos cafundós (sem qualquer intenção de ser pejorativo) em que já me meti, acho que o que tinha mais cara – e nome – de cafundó era  Cabeceira de Tocas, interior do município de Progresso. Era 1997 (ou 1998?) e estávamos numa localidade vizinha para acompanhar os festejos e celebrações da Ordenação Presbiteral do Frei Isnar.

Como é praxe, os seminaristas foram distribuídos entre as casas dos moradores da região para o pernoite de sábado para domingo. E eu fui levado para Cabeceira de Tocas, para ficar na casa simples de um jovem casal de agricultores cujos nomes, infelizmente, acabei esquecendo.

Fui, como sempre era nessas situações, muito bem recebido. As pessoas costumavam nos oferecer o que tinham de melhor e, assim, nosso jantar de sábado à noite foi uma deliciosa sopa de galinha caipira com pão caseiro.

Pela manhã, quando levantei, encontrei meu anfitrião chegando à cozinha com o leite recém ordenhado, carregado em uma daquelas latas que se usava para embalar óleo de soja antes da disseminação das garrafas plásticas. Depois do café, ele me levou para conhecer a pequena propriedade.

No terreno de morro, ele e a esposa criavam sua vaquinha leiteira, suas galinhas e porcos, tinham uma bela horta e árvores frutíferas, o milharal que lhes garantia o grosso da renda, acho que dois bois para engorda e, lá em cima, no pequeno platô a que chegamos com algum esforço, o agricultor mostrou seu então mais recente orgulho: um açude para a criação de peixes.

Estive, nos meus anos de Seminário, em muitas propriedades assim, em lugares como Arroio do Meio, Marques de Souza, Tupandi, Imigrante, São José do Inhacorá, Roca Sales, Caraá. Convivi diariamente com filhos de agricultores como aquele casal, trabalhei eu mesmo nas terras de alguns deles, bebi muitos vinhos caseiros, comi muitos queijos, pães, biscoitos, massas, frutas, torresmos, chimias, linguiças, copas e salames artesanais da “Colônia” – sem contar os churrascos de carne bovina e suína produzida e abatida em casa.

Todos esses alimentos, provavelmente, seriam apreendidos e jogados fora se caíssem na vista das autoridades sanitárias, por não terem a bênção oficial para a produção e por serem ‘impróprios para o consumo humano’.

Michael Pollan escreveu que todas as dietas tradicionais (até mesmo a dos Inuits, baseada em gordura de foca, ou a dos Masai, baseada em sangue de boi) são saudáveis, pois, se não fossem, seus adeptos não teriam sobrevivido para continuar comendo isso até hoje, e que a única dieta comprovadamente nociva à saúde é a que ele chama de “ocidental”, baseada em excesso de sódio e açúcar e no uso massivo de ultraprocessados. Uma bomba química que ele se recusa a chamar de “comida” e prefere chamar de “substâncias comestíveis com aparência de comida”.

Por aqui, essa dieta também é uma bomba em termos de sustentabilidade e de modelo econômico. É um sistema produtivo industrial e predatório, que destrói o meio ambiente, rouba terras, escraviza trabalhadores, assassina índios e pessoas de qualquer etnia que se atrevam a criticar essa lógica. É uma estrutura que compra apoio político e recebe, desde sempre, pesado financiamento estatal para sufocar e dominar o mercado. E para vender carne podre disfarçada de comida.

Faz algum tempo que abandonei os ultraprocessados e passei a priorizar a comida de verdade. Mas sei que esse hábito ainda tá longe de poder ser adotado por todos. Tanto por falta de tempo (ontem, domingo, passei quase o dia todo envolvido com o preparo dos pães e das marmitas que consumiremos nesta semana; quem está disposto ou pode passar o seu parco tempo livre assim?), quanto de dinheiro quanto de informação, e até por falta de oferta.

Imaginem como estaria o país agora se o grupo político que assumiu a Presidência em 2003 tivesse governado por 13 anos com políticas de valorização e incentivo mais aos pequenos produtores, como aquele casal de Cabeceira de Tocas, e menos às máfias monopolistas do modelo industrial-escravocrata, combinando com ações de estímulo à demanda. Ou se tivessem mantido políticas de transferência de renda mais emancipatórias e descentralizadas, como o Fome Zero, que foi abandonado por ser menos eficaz na geração de votos e na manutenção da rede de clientelismo político.

Como estaríamos hoje, se tivéssemos tido 13 anos de educação para a nutrição acompanhando a assistência social? Provavelmente, teríamos menos pessoas saltando direto das estatísticas da fome para as de obesidade e doenças nutricionais, como temos hoje.

Provavelmente, as pessoas que realmente produzem comida de verdade, em pequenas propriedades autossuficientes, teriam mais condições de oferecer seus produtos a consumidores mais conscientes, sem precisarem se sujeitar à cadeia industrial de produção, em que ganham uns tostões vendendo às corporações comida que será transformada em algo que não é comida, para enriquecer uns poucos doadores de campanha dos partidos e retroalimentar o sistema.

Bom, é bem provável que um governo que tivesse começado algo assim lá em 2003 nem tivesse ficado 13 anos no Palácio. O impeachment teria sido encomendado pela JBS e pela BRF bem antes de 2016.

Eu queria achar uma frase otimista pra terminar esse texto, mas não consigo. Talvez, o que resta a dizer seja: procure comprar comida sem registro de procedência