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Um Top 10 com as melhores músicas do Iron Maiden: as condições de possibilidade

17 de Abril de 2018

Organizar uma coletânea no estilo Top 10 com as melhores músicas do Iron Maiden seria uma empreitada possível? Dia desses, eu e meu irmão falávamos sobre isso e o papo resultou numa controvérsia ligeiramente sangrenta.

Uma lista de apenas 10 melhores músicas da banda parece inviável não apenas por aquela clássica (e meio esnobe) desculpa de que “cada canção tem seu contexto e não se pode desconsiderar a proposta de cada álbum e de cada fase etc”, mas também por uma outra questão de ordem mais pragmática: o Iron Maiden gravou uma quantidade absurdamente alta de boas músicas e seria deveras difícil definir uma lista tão diminuta.

No chat, tentamos fazer um escrutínio do repertório da banda, pinçando apenas as músicas espetaculares de cada disco e estouramos o limite de 10 faixas antes da metade do quarto álbum de estúdio. E eles já lançaram dezesseis.

Fechar essa coletânea, portanto, não seria uma tarefa das mais fáceis. A própria banda, claro, já lançou compilações, mas todas elas com mais de 10 canções e quase sempre repetindo alguns cacoetes inexplicáveis, como selecionar Wasted Years como a representante do álbum Somewhere In Time e menosprezar a fase inicial, que tinha Paul Di’Anno no vocal. O primeiro projeto desse tipo, Best Of The Beast, de 1996 (pelo menos a inexplicável versão brasileira lançada pela EMI, pois no Exterior a compilação foi mais gordinha), chegou ao cúmulo de colocar uma música de Di’Anno (Running Free) em versão ao vivo cantada por Bruce Dickinson (sem contar que esta canção está longe de ser a melhor dessa fase, por qualquer critério que se utilize na escolha).

Meu irmão afirma que não é possível fazer um Top 10 de Iron Maiden. Segundo ele, o máximo que se pode fazer sem cometer grandes injustiças é um Top 16, uma coletânea com uma música de cada álbum.

Bueno, se o Steve Harris me chamasse pra tomar uma cerveja e dissesse: “Eddie, meu velho, vem cá que tenho uma tarefa pra ti: montar o álbum Top 10 do Iron Maiden”, eu responderia a ele: “Façamos”.

E diria mais: o material é tão farto que poderíamos fazer não apenas um, mas vários Top 10 sem qualquer perda de qualidade. O ponto é: a banda tem tantas músicas boas no repertório que não importa quais a gente escolha; a lista sempre fica boa. Minha única regra seria: cada álbum poderia ter no máximo 01 representante na coletânea. Imagina comigo, Stevie, quanta grana tilintando nas caixas registradoras.

Poderíamos abrir os trabalhos com uma primeira coletânea das melhores músicas do Iron Maiden de todos os tempos:

1 Phantom Of The Opera
2 Killers
3 Hallowed Be Thy Name
4 The Trooper
5 Rime Of The Ancient Mariner
6 Alexander The Great
7 Seventh Son Of a Seventh Son
8 The Thin Line Between Love And Hate
9 Paschendale
10 When The Wild Wind Blows (live do DVD ‘En Vivo’)

(Sim, deixei de fora a fase Blaze por motivos de: porque sim).

Depois dessa, seria a hora de lançar um Top 10 mais light/pop, pra fazer um agrado a um público mais amplo:

1 Strange World
2 Prodigal Son
3 Children Of The Damned
4 Flight Of Icarus
5 Stranger In A Strange Land
6 Infinite Dreams
7 Wasting Love (aqui, choveriam críticas de que essa música é quase Bon Jovi, que é babinha pop pra tocar na MTV etc, e eu apenas mandaria todos os críticos pegarem o solo do Janick Gers e enfiarem… nos ouvidos)
8 The Clansman (pra não dizerem que não coloco o Blaze ao lado dos bons de vez em quando)
9 Blood Brothers
10 No More Lies

E por que não um Top 10 Salada Mista?

1 Idles Of March + Wrathchild (aqui, quebro minha própria regra de uma música por álbum, mas só porque essas duas funcionam como se fossem uma só)
2 22, Acacia Avenue
3 Where Eagles Dare
4 Powerslave
5 Caught Somewhere In Time
6 The Clairvoyant
7 Out Of The Silent Planet
8 Dance Of Death
9 Brighter Than A Thousand Suns
10 The Final Frontier

O Harris olharia os guardanapos rabiscados e diria: “Cara, o que foi que colocaram na tua cerveja? Já lançamos várias coletâneas e nunca com essas músicas aí. Cadê b? Cadê The Number Of The Beast? Cadê Fear Of The Dark? Cadê Wasted Years e The Evil That Men Do?”

Eu diria para ele ouvir os próprios discos e entender que não apenas nenhuma das listadas por mim – ok, Wasting Love sim – está abaixo dessas por ele citadas, como várias estão muitíssimo acima.

Poderiam ainda, eu diria ao Steve, surgir outras coletâneas: Top 10 Músicas Pra Galera Solfejar Junto Ao Vivo, Top 10 Músicas Sobre Temas Históricos, Top 10 Músicas Com Inspiração Na Literatura, Top 10 Músicas Sobre A Guerra etc. Todas as listas, quaisquer que fossem as escolhas, manter-se-iam, no mínimo, muito acima da média do material produzido por outras bandas. Isso é que é ter “um problema bom” nas mãos.

Sobre a dificuldade de presentear uma menina que gosta de heroínas

7 de dezembro de 2017 ,

Entro na enorme loja de brinquedos e sou abordado por uma vendedora.

— Oi, posso ajudar?

— Oi. Tô procurando um presente pra uma menininha de quatro anos. Ela gosta de jogo da memória, quebra-cabeças e Mulher Maravilha. Se desse pra unir tudo, seria perfeito.

—  Por aqui, senhor.

Ela me guia até um corredor lateral.

— Olha, pra essa idade tenho esse aqui, do Frozen.

—  Mas ela gosta de Mulher Maravilha…

— Tem esses da Disney também, ela não gosta?

— A mãe dela foi bem específica: ela gosta da Mulher Maravilha.

— De herói, eu tenho esses aqui, senhor.

Olho para a prateleira. Alguns quebra-cabeças dos Vingadores, tanto em bando quanto de heróis individuais: Hulk,Thor, Capitão América e Homem de Ferro, alguns do Batman, do Super-Homem, do Homem Aranha. Nenhuma mulher. Aí vejo, num canto, um belo quebra-cabeças da Liga da Justiça com todos os heróis, incluindo a Mulher Maravilha.

— Tem esse! — comemoro — Ah, mas esse é de 500 peças, eu queria algo mais lúdico… Vou procurar noutra loja, tá?

Entro em outra loja e o contexto e o diálogo são idênticos, com a diferença de que lá a vendedora me ofereceu um produto da Lady Bug depois que eu recusei as princesas. Acabo achando, enfim, um quebra-cabeças de 60 peças do filme da Liga da Justiça, com a Gal Gadot paramentada ao lado de cinco colegas homens.

Precisamos de heroínas. De filmes, quadrinhos, brinquedos, games, roupas de heroínas. Se os manda-chuvas indústria cultural não se sensibilizam com ideais vagos como “representatividade” e “igualdade”, que meditem uns instantes sobre a fortuna que estão perdendo ao excluir (ou pelo menos desencorajar bastante) do consumo de super-heróis  metade da população.

 

O PEN em 2018: um microconto

8 de novembro de 2017 ,

2017. Brasileiro desperta em câmara criogênica, sai para ver o que perdeu nos últimos anos, ouve que o PARTIDO ECOLÓGICO NACIONAL vem forte pra 2018 e pergunta, animado:

— E aí, quais as pautas? Salvar a Amazônia? Despoluir rios? Reforma urbana? Redução de emissões?

Respondem:

— Pena de morte, combate à igualdade de gênero, liberação de armas, retirada de direitos dos gays, extração de nióbio.

Ele volta a deitar na câmara.

— Não me acordem, por favor.

O cardeal e o marqueteiro

20 de outubro de 2017

Eu cresci dentro da igreja; era um ratinho de sacristia. Vivi a experiência católica dos anos 80 e 90, com o legado das Comunidades Eclesiais de Base, da resistência à ditadura e da “opção preferencial pelos pobres” ainda bem fresco no imaginário da assembleia que se reunia – e as músicas que cantávamos nas missas e encontros citavam diversas vezes as palavras “opressão”, “povo”, “repartir”, “irmãos”, “pão”, “caminhar”, “comunhão”, “participar”.

Fui seminarista por seis anos e pude ajudar a planejar e participar de diversas ações que enfatizavam o coletivo, o desprendimento, a melhoria das condições materiais das pessoas que viviam à margem do sistema.

Mas, lá pelo início dos anos 2000, escuras sombras começaram a surgir no seio da igreja, grupos uniformizados (que, no Seminário, chamávamos jocosamente de “os homens de preto”) passaram a ganhar cada vez mais espaço – com as bênçãos do ultraconservador João Paulo II e do seu general Joseph Ratzinger – e uma mudança de visão de mundo tanto dos seminaristas e padres quanto dos fiéis das paróquias tornou-se paulatinamente perceptível.

Hoje, cada vez menos se canta as palavras “opressão”, “nós”, “irmãos”, “povo” e “pão”; estas foram substituídas por “adorar”, “louvar”, “eu”, “meu”, “cura”, “coração”. A ideia de “Povo de Deus” foi substituída por “Deus e Eu”. Tipo um neopentecostalismo fiel a Roma e bem aceito nos círculos dominantes.

E vemos, cada vez mais, aqueles grupos organizados que vestem preto elegerem políticos.

E vemos o cardeal arcebispo de São Paulo, um homem que ocupa a cadeira que já foi do saudoso Dom Paulo Evaristo Arns, aliar-se a um pulha como João Dória em um nebuloso esquema que usa a desumanização dos pobres para transferir recursos públicos para amigos do prefeito.

Tempos sombrios.

Nota sobre um terreno baldio

5 de junho de 2017 ,

Eu morava na Rua Tenente Ary Tarragô (que marcava, no mapa oficial da prefeitura de Porto Alegre, a divisa entre o bairro Itu-Sabará e a “Zona Indefinida 2”) quando concluíram a remoção, para uma área a uns dois quilômetros do meu apê, dos cerca de 700 moradores da famigerada “Vila Chocolatão”.

Aquelas famílias, retiradas de condições de vida e moradia insalubres na região central da cidade, foram transferidas para a altura do número NOVE MIL da Avenida Protásio Alves. Onde antes ficavam seus casebres, viceja hoje, SEIS ANOS depois da remoção, um lindo terreno baldio protegido por corpulentas grades.

Donde concluo que a escolha por assentar aquelas pessoas no Cu da Protásio em vez de reconstruir sua vila no mesmo local onde elas antes residiam se deve menos à necessidade de uso daquele terreno que ao absurdo que é termos favelados morando de graça a menos de dez minutos de caminhada do Gasômetro e pertinho de tudo (sobretudo, perto do trabalho, já que era uma comunidade que vivia basicamente da reciclagem, atividade enormemente dificultada pela mudança forçada de endereço).

Porto Alegre me dói.

O racismo em mim

2 de junho de 2017 ,

Estou acostumado a ver o debate do racismo perpassar meu newsfeed como uma competição de dedos apontados para racistas que são sempre o Outro. Tanto que, a julgar pela amostra representada por meus contatos do Facebook e do Twitter, a impressão que fica é a de que não há, no Brasil, um único racista. Todos ou consideram o racismo abominável ou se gabam de ter amigos negros. Vivemos num país racista que não tem cidadãos racistas, veja só.

Eu olhei para o espelho das minhas memórias e não gostei nada do que vi. Vi o meu próprio reflexo e enxerguei um racista. (mais…)

Sobre a Friboi e uma noite em Cabeceira de Tocas

2 de junho de 2017 ,

Ter vivido por seis anos no Seminário me permitiu experimentar algumas coisas que, provavelmente, não teria conseguido de outro modo. Duas delas foram:

– conhecer grotões escondidos nas entranhas do Rio Grande.
– me hospedar nas casas de inúmeras pessoas desconhecidas.

Dos cafundós (sem qualquer intenção de ser pejorativo) em que já me meti, acho que o que tinha mais cara – e nome – de cafundó era (mais…)

Laços de Família

29 de Maio de 2017 ,

Vez que outra aparecem na taimeláine manchetes dizendo, por exemplo, que a esposa do ministro do STF Gilmar Mendes trabalha no escritório de advocacia que defende Eike Batista, o marido da Eliane Cantanhede faz assessoria pro PSDB, a filha do ministro Fux virou desembargadora no Rio, o ministro Marco Aurélio Mello é primo do Collor…

JBS: Joesley é casado com jornalista que apresentou o Jornal da Band. O ex-braço-direito do procurador-geral Janot tá no escritório de advocacia que negociou o acordo de leniência do empresário. Já o ex-braço-direito do próprio Joesley é hoje ministro da Fazenda (e antes de ir pra JBS foi presidente do Banco Central no governo Lula). Por falar em fazenda, a família do Gilmar Mendes vende bois pra JBS. Sabe o Fred, o primo que o Aécio disse que pode matar antes de fazer a delação? O pai dele deu entrevista sobre o áudio e, adivinhe: é desembargador aposentado.

Por aqui, os Três Poderes (e o poder maior, que é o econômico) são uma grande novela do Manoel Carlos. Ou uma Corte típica da nobreza hereditária

Aécio e o pó

23 de Maio de 2017

Na minha última contagem, Aécio tinha uns 753 mil defeitos como homem público, mas nenhum destes envolvia ele ser (ou não) usuário de drogas.

Vejo amigos progressistas chamando Aécio de “cheirador”, fazendo piada com “carreira”, “pó” etc, e até entendo que alguns talvez façam isso pra contrapor essa suposta conduta privada do senador com o moralismo rasteiro que ele ostenta em público.

Mas, mesmo neste caso, acho que o prejuízo que tais piadas impingem à imagem de Aécio é bem menor que o dano que elas causam ao debate franco e maduro sobre as drogas e à luta por uma política menos repressora.

P.S. Este post trata dos ataques à imagem dele como usuário de drogas, que são os mais recorrentes, e não como suposto participante de redes de tráfico.

Sobre ter lado

11 de Maio de 2017 ,

O lado à esquerda da polarização usa vários adjetivos pra definir as pessoas de esquerda que não aderem a nenhuma das torcidas no processo contra Lula, e um dos epítetos mais comuns é o já clássico “isentão” (o lado à direita em geral nem consegue ver essas nuances pq pra eles qualquer pessoa que não concorde com a escravidão já é automaticamente comunista).

Bueno, nem é preciso repetir (mentira, é preciso sim pq a galera esquece) que qualquer crítica feita à esquerda por alguém de esquerda já traz pressuposto o repúdio à direita. Criticar posturas petistas não significa defender posturas tucanas ou peemedebistas. Só por dizer que Lula é hoje milionário (e ele é: ganhou milhões de reais como titular de mandato, dirigente e palestrante, e o nome de quem ganha milhões é milionário), isso não quer dizer que considero o Judiciário e o MP os guardiões do povo humilde. Pelo contrário: as carreiras jurídicas públicas e privadas foram colonizadas pelas classes média-alta e alta, são uma de suas capitanias hereditárias. Via de regra, nos processos os principais atores (o promotor que acusa, o advogado que defende e o juiz que julga) foram todos recrutados na mesma casta e muitas vezes são até aparentados em casamentos consanguíneos, como em toda nobreza digna do nome.

É evidente que essa casta opera agora politicamente, como SEMPRE operou, em especial contra réus pobres que não conseguem contratar os advogados mais caros do país para defendê-los em Curitiba. Isso quando esses pobres chegam a virar réus, porque milhares e milhares passam longo tempo encarcerados sem julgamento (e isso, pra muita gente, não parece violar o sacrossanto Estado de Direito, que só é colocado em risco quando milionários são enquadrados).

Li a notícia de que Lula chegou a Curitiba para o depoimento em um jatinho do fundador da Kroton Educacional, Walfrido dos Mares Guia, que, aliás, foi ministro do seu governo. Uma boa síntese desse embate no topo da pirâmide. A empresa, uma das tantas que cresceram de modo obsceno com as políticas educacionais petistas (que tiveram efeito positivo ao aumentar o acesso dos pobres ao ensino superior, mas são passíveis de muitas críticas, como por exemplo a de que continuamos com 92% de analfabetos funcionais, a diferença é que agora muitos destes têm diploma), tem hoje valor de mercado superior a 20 bilhões.

Desculpa, gente, mas, como uma galera tem zoado nas redes, nessa novela aí eu torço pra que Lula e Moro fiquem juntos no final.