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Sintomas de uma sociedade doente

14 de fevereiro de 2017

Uma das trinta lojas fechadas pela Multisom ficava em Cachoeirinha, em frente à parada onde desço do ônibus diariamente, ao voltar do trabalho.

O imóvel não ficou muito tempo ocioso: a tradicional loja de, ahn, CDs (que acabou virando um bazarzão de eletrônicos) será substituída por uma farmácia da rede São João, quase pronta pra ser inaugurada.

Chamou minha atenção o fato de JÁ HAVER uma outra São João em funcionamento no mesmo lado da Avenida Flores da Cunha, a menos de cem metros do novo estabelecimento.

Hoje, pus-me a contar. Só naquelas duas quadras da avenida entre as paradas 49 e 49A, os consumidores de Cachoeirinha poderão escolher entre OITO farmácias, assim que a nova São João for inaugurada.

Oito farmácias em duas quadras só podem ser sintoma de uma sociedade cada vez mais doente.

A fortuna que perdi e pretendo reaver

4 de fevereiro de 2017 ,

Depois de passar décadas dizendo dizendo que não gostava de abacate sem nunca ter sequer provado o fruto, provei, gostei e tô numas de comer com alguma frequência, seja puro (de colher) ou do meu jeito preferido: como base para um delicioso guacamole.

Dia desses, comprei um único abacate no súper aqui de perto de casa, para o guacamole da janta, e reparei no preço da etiqueta: R$ 2,00 exatos. “Só dois pila por um abacate! Que barato pra algo que serve de base pro jantar de duas pessoas”, pensei.

Aí lembrei do abacateiro que tínhamos em casa, lá em (mais…)

Anos

29 de dezembro de 2016

Anos

Estamos malhando e lamentando os horrores de 2016, quando perdemos Carrie Fisher e Umberto Eco e David Bowie e Dom Paulo Evaristo Arns – e tivemos a tragédia da Chapecoense e a tragédia dos governos criminosos de Temer e Sartori e um bispo da Igreja Universal se elegendo prefeito na capital cultural do país e Trump nos EUA etc.

Mas, olhando pra trás, talvez estejamos melhor do que em muitos outros anos. Eu, por exemplo, nasci em 1981, ano em que o mundo perdeu Bob Marley e Glauber Rocha e Jacques Lacan e até o Mazzaropi. Reagan iniciava o primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos e havia o risco bem real de ele e o líder soviético Brejnev se desentenderem em conversa no telefone vermelho e explodirem o mundo inteiro por isso.

E, naquele ano, tinha um general comandando o Brasil e milicos lunáticos planejando explodir uma bomba em um show no Riocentro e muita gente morrendo de fome e diarreia por esse país afora – e não se podia nem postar textão pra reclamar, primeiro porque era proibido reclamar, segundo porque não existia internet e terceiro porque, mesmo se existisse, éramos pobres e não teríamos computador.

E o que dizer do começo dos anos 1990, quando eu ia com minha mãe ao supermercado no dia seguinte à chegada dos cheques-salário do meu pai e corríamos pro caixa torcendo pra que os preços não fossem reajustados antes que tivéssemos tempo de descarregar o carrinho no balcão? Época em que tínhamos que voltar a pé da “Faixa Nova” (a RS-122) carregando sacolas pesadas porque éramos de uma comunidade pobre em que quase ninguém tinha carro e onde o sonho de ascensão profissional dos meninos era ser caminhoneiro.

Vivo hoje em um Brasil e em um mundo bem melhores e, mesmo com as tentativas de retrocesso promovidas pelos governos com o apoio do empresariado e da imprensa, vejo um povo com muito mais força e instrumentos pra resistir e construir alternativas.
E, se reclamamos das mortes de ídolos das artes em 2016, lembremos que nossos heróis roqueiros dos anos 60, 70 e 80 estão todos ficando septuagenários e a mortandade MAL COMEÇOU.

E eu, particularmente, ando cheio de razões pra sorrir em 2016, ano em que me tornei pai de um filho lindo, que me enche de esperança e de vontade de melhorar o mundo.

Pode vir, 2017. Seguiremos caminhando.

Nasce um filho. Nasce um pai

13 de novembro de 2016 ,

Todos aqueles clichês são verdade. Todos.

Tornar-se pai é uma experiência transformadora, te faz ver o mundo com outros olhos, te faz mudar de opinião sobre o que é importante.

Principalmente quando teu filho é levado para um CTI Neonatal antes que tu possa segurá-lo no colo. E quando as longas noites longe dele e o medo de que algo ruim aconteça te deixam com aquela angústia tão grande. É aí que tu entende que a única coisa que importa na vida é ter o teu filho nos braços.

É aí que tu te vê capaz de fazer qualquer coisa por ele. Pode ser só o meu cérebro inundado de substâncias que me fazem querer preservar a prole a qualquer custo, pelo bem da espécie, mas eu levaria um tiro numa boa, se fosse pra proteger esse pedacinho de gente.

Outro clichê: ter um filho te faz querer ser melhor. Te faz querer deixar o mundo melhor pra ele. Junto com meu filho, nasceu o eu-pai, um pai que crescerá junto com ele, que aprenderá com ele a viver a vida.

Hoje, depois de duas semanas, Pedrinho veio pra casa. Seja bem-vindo, meu amado. Vamos juntos, de mãos dadas com a mamãe, melhorar esse mundo, nem que seja só um pouquinho.

O Amor nos Tempos do Socialismo

2 de novembro de 2016 , ,

Sobre a nostalgia de viver e se apaixonar no lado de lá da Cortina de Ferro

[Texto publicado originalmente em 2009, na revista Sextante, publicação temática do curso de Jornalismo da UFRGS. Naquela edição, o tema era Nostalgia]

Naquela tarde de domingo, o tramvaï percorria velozmente os trilhos que atravessavam a cidade de Volgogrado, importante centro industrial soviético. Viajando de pé no silencioso bonde elétrico, a estudante Ana Maliuk, que tinha aproveitado o dia de folga para visitar a irmã, não pôde deixar de notar os três rapazes que não conversavam em russo. (mais…)

Viagem à Porto Alegre de 2114

17 de abril de 2014 ,

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 (mais…)

Até quando contarei histórias assim?

14 de agosto de 2012 , ,

Era quase 0h de uma fria noite de junho quando o nosso carro chegou ao maior hospital de Porto Alegre e do Estado. Na entrada da emergência pediátrica, dezenas de pessoas vibraram quando viram o logo do jornal na porta do automóvel.

Quando descemos do carro, eu e o fotógrafo Jean Schwarz fomos abordados por vários homens e mulheres, alguns com crianças pequenas no colo, que despejaram sobre nós uma torrente de queixas e protestos, todos gritando ao mesmo tempo. (mais…)

Duas escolas. Dois mundos

9 de julho de 2009 ,

As duas escolas em que trabalho, apesar de ficarem a menos de dois quilômetros uma da outra, parecem estar em dois mundos diferentes – e são a prova de que a educação só é possível com organização e disciplina da parte de todos os atores envolvidos no processo. (mais…)