#paizices

O clique

5 de setembro de 2017 ,

Lembro que, antes de me tornar pai, pegar um bebê no colo era algo que me dava medo. Medo de não saber segurar direito, de derrubar, de não saber como amparar a cabeça, medo de apertar demais e machucá-lo… e outros mil receios que me passavam pela cabeça toda vez que surgia a oportunidade de tomar um pequenino nos braços, nas casas de amigos ou parentes.

Quando meu menininho nasceu, o que aconteceu com esse medo? Um clique na minha cabeça eliminou instantaneamente qualquer receio e, desde o primeiro instante, pegá-lo no colo com segurança e carinho foi algo natural, simples, espontâneo e instintivo. Foi assim na sala de pesagem da Maternidade, foi assim quando ele foi levado para o CTI Neonatal para tratar uma infecção, foi assim após a vinda para casa, treze dias depois.

De um instante para outro, eu estava tirando selfies com ele, fazendo-o dormir em meus braços, dando mamadeira, embalando, trocando fraldas, brincando, sendo pai com uma desenvoltura que só a Natureza é capaz de assegurar, em milhões de anos de evolução. Ninguém ensina, é algo automático, espontâneo, natural. É maravilhoso ver como a paternidade nos transforma.

A Doutora Andreia, o cuidado e Beatles de ninar na sala de parto

15 de agosto de 2017

Ouvindo relatos de amigos e colegas, fico pensando em como tivemos sorte por termos a Doutora Andreia conosco no pré-natal e no parto do nosso filho.

Pois nos dizem cada coisa! Por exemplo, relatos de mães e pais que tiveram suas vontades e anseios quanto ao parto ignorados por médicos ou médicas, alguns profissionais até sendo grosseiros e inconvenientes nas colocações.

Conosco, a escolha ocorreu ao natural: a Dra. Andreia já era a ginecologista da Adriana e, quando decidimos engravidar, iniciamos o pré-natal automaticamente com ela. Desde o início, ela já nos confortou ao demonstrar predileção pelo parto natural, que sempre foi a nossa intenção.

Acompanhei todas as consultas do pré-natal e sempre me senti muito seguro com as orientações e cuidados que ela prescrevia para Mamãe e Pedro. Montamos juntos o plano de parto e ela sempre foi bem respeitosa com as nossas vontades, ao mesmo tempo em que era sempre solícita para explicar cada dimensão da gravidez e do momento do nascimento.

Quando o Pedrinho decidiu que estava na hora de vir nos conhecer, era madrugada de domingo para segunda-feira. Avisamos a Doutora Andreia que estávamos indo para o hospital e, para minha agradável surpresa, ela chegou ao Centro Obstétrico apenas uns poucos minutos depois de nós.

Quando me livrei dos trâmites burocráticos da baixa e pude enfim me juntar à Adriana na Sala de Parto, lá estava a Doutora Andreia, já preparando a chegada do Pedro. E lá ela ficou, quase todo o tempo conosco na sala, até a metade da manhã de segunda-feira, quando ouvimos, enfim, o primeiro chorinho do nosso menino.

Nossa médica passou horas conversando conosco, orientando, tranquilizando, monitorando, até colocando o seu próprio smartphone para reproduzir uma playlist de versões de ninar de clássicos dos Beatles para embalar a chegada ao mundo do nosso menininho.

Éramos um casal de pais de primeira viagem, ansiosos e cheios de medos, e a presença serena e reconfortante da nossa médica foi decisiva para que o nascimento do nosso filho ocorresse com harmonia e paz. Desejo que todos os pais e mães recebam um acompanhamento tão cuidadoso e tão carinhoso quanto o que tivemos. Faz toda a diferença.

Meu filho: meu passado, presente e futuro

13 de agosto de 2017 ,

Um dos mais gratos “efeitos colaterais” da experiência de ser pai é constatar diariamente que a chegada do meu filho me reconciliou com minha própria história, zerou meus arrependimentos.

Eu sempre pensava no passado em termos de “o que eu poderia ter feito diferente?” Costumava revisitar situações entalhadas nos corredores da memória e ficar imaginando o que eu mudaria se pudesse reviver aqueles instantes.

Desde que o Pedrinho chegou, deixei de me perder nessas divagações e cristalizou-se em mim a convicção de que, se me fosse dada a oportunidade de voltar ao passado e escolher outro rumo, eu faria tudo exatamente do mesmo jeito. Pois cada palavra, cada gesto, cada escolha que eu mudasse poderia me desviar na direção de um futuro alternativo sem o meu filho, e este não é um risco que eu estaria disposto a correr.

A soma de todos os meus erros, acertos, escolhas e ações do passado me trouxe a um presente com o Pedrinho, e isso faz com que eu me alegre e seja grato por todas as coisas que já vivenciei, mesmo as que antes me desgostavam.

Obrigado, filho amado, por dar propósito e sentido a cada dimensão do meu passado. Que possamos, juntos, de mãos dadas com a Mamãe, viver o presente com serenidade e construir um futuro radiante.

Sobre a exaltação dos “Paizões”

11 de agosto de 2017 ,

Eu sou um pai presente. Muito. Preparo as refeições do meu filho, participo de todos os banhos (só perdi uns dois, e por razões profissionais, desde que ele veio pra casa, há nove meses), troco fraldas, visto, distraio, faço dormir, brinco, passeio, ajudo a escolher roupinhas na loja, passo meus dias em função dele.

MAAAAAS…. estou bem ciente de que [1] não faço nada além da minha OBRIGAÇÃO e, [2] mesmo dispendendo uma substancial parcela de tempo do meu dia para cuidar dele, meu fardo é muito, mas muito mais leve que o da Mamãe.

Sei que vivemos num país em que tantas pessoas sequer sabem quem são seus pais e outras tantas, mesmo conhecendo o sujeito e/ou morando na mesma casa, não sabem o que é ter um pai envolvido e dedicado. Mas é muito machismo a gente transformar em case e tratar como um ato de heroísmo quando um pai decide simplesmente agir como pai – sendo que não damos nem 0,5% desse Ibope quando uma mãe faz o mesmo ou (quase sempre) mais.

Temos de elogiar e mostrar exemplos de pais que vestem a camisa, até para estimular mais e mais homens a assumirem seu papel. Mas tenhamos sempre presentes os pontos [1] e [2] ali do segundo parágrafo.

A (re)descoberta do sabor

25 de julho de 2017 , ,

A (RE)DESCOBERTA DO SABOR

Assim que a Doutora Alesandra anunciou que o Pedrinho poderia começar a comer, fiquei todo animado. Lá em casa, desde antes mesmo de eu e a Mamãe nos casarmos, a cozinha é a minha parte da divisão de tarefas, pois eu adoro cozinhar. E já estava ansioso pela oportunidade de preparar o papá do meu bebê.

Para nossa alegria (que esperamos que dure, hein, filhão?), o Pedro revelou-se um entusiasmado gourmandzinho desde a primeira colherada de banana esmagada (o primeiro alimento recomendado pela pediatra).

Um agradável e inesperado efeito colateral dessa minha experiência de chef de papinhas é que estou redescobrindo o sabor dos alimentos.

Venho de um contexto familiar em que se exagera nos condimentos, e vivo eu mesmo carregando a comida no sal e nos temperos, mais do que deveria. Já as comidinhas do Pedro são preparadas completamente sem sal; quando muito uso um pouco de cebola e ervas pra dar um gostinho.

E, depois de pronta a comida dele, quando provo, sempre me surpreendo com o gosto das coisas. As fibras de músculo desfiado, que cozinho na pressão com nada além de água e cebola, são deliciosas! Não é à toa que o Pedrinho gosta tanto. O mesmo posso dizer do sabor delicado e estimulante da moranga (abóbora), das batatas, do inhame, da cenoura, da beterraba, de praticamente tudo que preparo pra ele. Que sal, que nada, viva o poder dos bons ingredientes!

Ser pai é redescobrir o gosto da vida.

A paternidade e o cuidado

17 de julho de 2017 ,

Sempre que um amigo ou conhecido pergunta como está a paternidade, a primeira palavra que me sai da boca é:

— Assustadora…

A pessoa geralmente fica desconcertada e eu logo emendo, pra tranquilizá-la:

— … mas maravilhosa.

Ser pai é mesmo uma experiência maravilhosa (a cada dia mais), mas tem, sim, um quê de assustador. Nada que a gente tenha lido ou vivenciado em terceira pessoa nos prepara para o pavor que dá ter um bebê de dias no colo, chorando a plenos pulmões de madrugada, sem que façamos a menor ideia do que possa haver de errado com ele.

Leva algum tempo até aprendermos a identificar, pela frequência e pela intensidade, o choro correspondente a cada demanda, e, mesmo quando se consegue decifrar as causas mais comuns de desconforto, a experiência mostra que sempre surge algo novo e desconhecido. Será cólica? Será fome? Será dor de ouvido? Ele está com febre? Será que a fralda está muito apertada? Será sono? Frio? Calor? Ou será apenas tédio? Cada vez mais, à medida que o tempo passa e a nossa relação com aquele serzinho se aprofunda, aprendemos a conhecer, pelos sons e pelo próprio semblante, o tipo de cuidado que ele exige em cada momento.

A palavra é esta: cuidado. Ser pai é vestir-se de cuidado, é impregnar-se de cuidado. Desde sempre. Desde que o sinalzinho que indicava o resultado positivo apareceu naquela tira de papel do exame caseiro de gravidez, cuidar do meu filho tornou-se uma das dimensões fundamentais da minha vida.

Foi aí que essa missão de cuidado e proteção se imiscuiu com o medo e com a preocupação – o que, imagino, durará para sempre. Cada consulta do pré-Natal, cada ultrassom em que víamos nosso pedacinho de gente se formando, cada desconforto da Mamãe durante a gestação era um flerte com o medo de que alguma das milhões de coisas que podiam dar errado desse errado.

E, às vezes, as coisas dão errado. Como quando nosso menino, minutos depois de sair do ventre da Mãe, antes mesmo que pudesse vir para o nosso colo, teve uma febre detectada e foi encaminhado com infecção ao CTI Neonatal, onde ficou aos cuidados da equipe médica por treze dias que duraram, para nós, uns treze anos. Mas praticamente tudo, para nós e para o nosso filho, tem dado certo desde então. O Pedrinho foi pra casa, naquele lindo domingo de novembro, encher nosso lar e nossas vidas de incertezas e de medo, mas também, e principalmente, de alegrias e de amor.

A cada dia, muitos aprendizados, e uma das mais importantes lições é que não existe um dia igual ao outro. Fazê-lo dormir, se alimentar ou se distrair não tem receita pronta e às vezes o que parece ser uma técnica infalível, que testamos e comprovamos tantas vezes, simplesmente não funciona. O cuidado precisa ser inteligente. Não existe piloto automático com o Pedrinho: ele exige um cuidado perspicaz, de improviso, que se molde de acordo com seu humor e com seu estado de ânimo em cada momento.

Essa é uma das milhares de coisas que fazem ser tão assustador, mas tão maravilhoso, conviver com o meu filho. E cuidar dele. É cansativo, é desafiador, mas é a única vida que quero viver – desde que descobri, naquele sábado de março de 2016, que eu já podia me considerar um pai.