9 de fevereiro de 2012

Aviso: este post contém spoilers. Isso quer dizer que, se continuar lendo, você pode descobrir acidentalmente que Don Vito Corleone morre no final de Godfather, entre outras coisas.

Ainda não vi a oitava temporada de House, M.D., mas esta deve ser a última. A Fox e a equipe de produção acabam de anunciar o fim do seriado.

Apesar de ser um grande fã do Greg e de sua trupe, considero esta uma morte natural. A última temporada a que assisti, a sétima, já mostrava claros sinais de exaustão da fórmula e me permite afirmar que a causa mortis da série é insuficiência criativa crônica (sem contar que o Hugh Laurie há tempos vem dando entrevistas, todo lépido e faceiro, querendo largar o personagem que o consagrou e alçar novos voos em outras áreas – sem a bengala).

Mesmo não tendo gostado muito da sétima temporada, considero as seis primeiras fantásticas. E a melhor de todas é, na minha opinião, a sexta. Pelos seguintes motivos:

1) Um episódio de abertura magistral

Dr. Nolan: finalmente um antagonista macho o bastante pra enfrentar  House

Depois de ter alucinações provocadas por seu vício em Vicodin (é como acaba a quinta temporada), House inicia a temporada seguinte em um hospício hospital psiquiátrico. O episódio, muito mais longo que os demais e sem a participação dos atores do núcleo principal da série, é uma obra de arte. No hospital, depois de passar com sucesso pela desintoxicação, Greg acaba enfrentando um antagonista que mudará sua vida: o Dr. Nolan.

O chefe do hospital chantageia House para obrigá-lo a fazer um tratamento psiquiátrico. A princípio, Greg tenta seguir sua estratégia de sempre: o confronto direto com a autoridade e a trapaça.  Mas descobrimos que Nolan é ainda mais durão e obstinado que House.

Depois de vários acontecimentos e várias experiências socializantes e humanizantes em meio a pacientes e à equipe do hospital (com direito a uma amostra grátis de romance com a cunhada de uma paciente), ocorre o que ninguém esperava: o cabeça-dura mais teimoso da história dos seriados sobre médicos que usam bengala acaba passando por uma transformação real e efetiva. House realmente percebe que precisa mudar e, o mais incrível, TENTA fazer isso. E a série de tentativas de se tornar uma pessoa melhor permeia todos os episódios da temporada.

2) House e Wilson

Entre uma tirada sarcástica e outra, nasce um grande chef de cozinha

Depois de ter alta no hospital, House vai morar com Wilson. E a relação entre os dois amigos, que já era um dos pontos altos das temporadas anteriores, se aprofunda na sexta e garante alguns dos melhores momentos da história da série.

3) A temporada mais engraçada de todas

“Eu enxergo algo na geladeira. Algo como o fim do seu relacionamento”

O humor sempre foi um dos componentes que garantiam o sucesso de House, M.D. Na sexta temporada, os roteiristas capricharam nas tiradas e situações cômicas.

A competição de House com Lucas pelo amor de Cuddy, o quotidiano da convivência com Wilson, House e o colega de apê figindo serem um casal gay para tentar levar a vizinha Nora para a cama, os esforços de House para tentar separar Wilson e Sam, entre outras sequências engraçadíssimas, fazem desta temporada a minha preferida também do ponto de vista do humor.

Exemplo:

WILSON: Everyone in our building thinks we’re gay.
HOUSE: We’re grown men, over the age of 30, who moved in together. We’re two tigers away from an act in Vegas.

4) Um House mau, pero no mucho

Um chefe que mente, trapaceia e manipula… para unir dois irmãos

House tenta ser uma pessoa melhor. Esse é o mote da sexta temporada. Mudar a maneira de agir e pensar é difícil, como todos sabemos. Gregory House faz, nessa temporada, um esforço genuíno para ser menos egoísta e se importar com os outros. É óbvio que ele nem sempre consegue.

Mas essa busca rende histórias belíssimas, como o episódio em que House aproxima Foreman de seu irmão ex-presidiário Marcus (claro que o nosso herói faz isso ao estilo Gregory House, um jeito bem atrapalhado, mas eficaz, de fazer o bem).

5) Episódios “temáticos”

Lisa, por favor, não insista. Sou casado.

A sexta temporada tem alguns episódios com estrutura narrativa diferenciada, que fogem da tradicional fórmula House-e-sua-equipe-tentando-diagnosticar-pacientes.

Há pelo menos três episódios “alternativos” muito bons, um que mostra um dia típico da Dra. Cuddy à frente do hospital Princeton Plainsboro, permitindo um outro olhar sobre questões que passam batidas nos capítulos tradicionais da série; outro que entra mais fundo no dia-a-dia de Wilson; e outro em que o desaparecimento de um bebê obriga Cuddy a trancar todos os compartimentos estanques do hospital, deixando os principais personagens presos com pessoas com as quais eles não costumam conviver, o que gera conflitos interessantes.

6) Um desfecho glorioso

“House, tu é muito foda”frase da Cuddy, mas em tradução livre

Se o episódio inicial da temporada é uma Aula Magna, o último não merece outra definição senão a de Gran Finale.

Ao longo da temporada, House vai tentando fazer o bem -  e consegue. Ele ajuda seus subordinados e pacientes, trata melhor as pessoas, deixa de interferir no namoro de Cuddy e Lucas e no de Wilson e Sam. O resultado, como geralmente ocorre quando fazemos o bem, é que as vidas das pessoas à volta de Greg melhoram. Mas ele ainda se sente vazio e infeliz.

O fabuloso episódio final resume a temporada inteira ao apresentar uma situação-limite em que House mostra toda a sua fodalhice.

Um desabamento em Trenton deixa várias pessoas soterradas. House faz um esforço colossal para salvar uma mulher que está presa aos escombros -  e para isso ele enfrenta a autoridade dos bombeiros e Cuddy. Depois de sofrer uma amputação em meio a montanhas de concreto, poeira e metal retorcido, a paciente acaba morrendo a caminho do hospital – e a culpa não é de House, que fez tudo certo.

É nesse ponto que a temporada atinge o seu clímax. Em uma sequência de incrível intensidade dramática, House se desespera. Ele fez tudo certo e, mesmo assim, sua paciente morreu.

Foreman tenta consolar o chefe, dizendo precisamente isso: que ele fez tudo certo. House, então, grita que o problema é justamente esse: se ele fez tudo certo, a paciente não deveria ter morrido.

É um resumo da sexta temporada: ao longo de todos os episódios, House faz a coisa certa, mas já estamos no último capítulo da jornada e o nosso herói continua solitário, sem o amor de Cuddy.

Ele corre para o seu apartamento para tentar se consolar tomando Vicodin, no que seria uma volta ao vício que o tinha destruído nas temporadas anteriores. É então que o protagonista é salvo por um pequeno deus ex-macchina, porque nenhum roteirista é de ferro: Cuddy aparece no apartamento de House no instante decisivo e confessa que o ama.

E o episódio e a temporada acabam e nós dizemos: House, tu é foda.

[Obs: O texto foi atualizado com a inserção do tópico 5), que não constava na postagem original]

O rock and roll, a despeito de ter bebido em fontes americanas como o blues, o country e o folk, é uma invenção inglesa.

Ponto.

Ao contrário do futebol, uma criação dos bretões que foi roubada por outros povos com mais jeito para a coisa, no rock os ingleses são imbatíveis.

As melhores bandas de todos os gêneros (e os próprios gêneros, é claro) foram fundadas por súditos da Rainha — com exceção de nichos muito específicos como, por exemplo, o metal melódico, típico dos países nórdicos.

Os Estados Unidos, o maior mercado consumidor de rock, têm, incrivelmente, poucas bandas aptas a figurar em um Top 50 roqueiro. Claro que eles têm bandas incensadas pela mídia, como Guns N’ Roses, Nirvana e Aerosmith, mas a qualidade de tais ícones é deveras discutível.

O Nirvana, por exemplo, tornou-se famoso por inaugurar um gênero (o grunge) que é justamente a celebração da própria tosquice: a ruindade elevada a virtude, como bem diz o meu amigo Demétrio.

Falando de música de verdade, quais seriam as melhores bandas dos Estados Unidos?

#5 – Creedence Clearwater Revival

Não há quem não conheça o clássico Have You Ever Seen The Rain. Você pode fazer a enquete. Todos os 6 (ou já são 7?) bilhões de habitantes do planeta conhecem essa música, com exceção, talvez, dos norte-coreanos.

Mas a banda liderada pelos irmãos John e Tom Fogerty é muito maior que essa canção. Seu rock visceral, tão típico da década de 60, produziu outras obras de arte, como Travelin’ Band, Proud Mary, a melhor versão de Susie Q. e a fantástica Fortunate Son:

#4 – Van Halen

OK, eles são posers, eu sei.

Sabe aquela história toda de Guns N’Roses, Skid Row, Mötley Crue e outras bichices? Pois é, a culpa é dos caras acima. O Van Halen praticamente inventou o rock pesado dos anos 80, tanto a sonoridade quanto a pose.

A sonoridade se deve, principalmente, ao guitarrista Eddie Van Halen, um dos mais importantes de todos os tempos. O mundo da música mudou depois que isso foi ouvido pela primeira vez:

Já a pose deve ser creditada a Dave Lee Roth, o vocalista-protótipo do showman oitentista: acrobático, teatral e ligeiramente gay. Para entender do que estou falando, veja o vídeo abaixo:

Roth podia não ter tanta técnica e alcance vocal quanto Sammy Hagar, que o substituiu na banda depois do rompimento em 1984, mas tinha, no palco e no estúdio, um desempenho muito mais rock and roll que o sucessor.

A saída de Roth custou ao Van Halen 90% do seu “mojo” (ouça isso e entenda). Eles até fizeram coisas legais depois, como a bonitinha Right Now, mas perderam algo que nunca mais foi encontrado.

#3 – The Doors

Peraí, quem são esses caras e por que estão com o Jim Morrison?

Os “conhecedores amadores” de The Doors costumam ter três choquesquando se aprofundam um pouco mais na história da banda e descobrem que

a) O Jim Morrison não é o Val Kilmer.

b) Eles têm outras músicas além de Light My Fire.

c) Tem outros caras na banda além do Jim.

O preconceito c) é uma puta falta de sacanagem. Pô, a grandeza do Doors vai muito além da aparência e do talento do Jim Morrison. Muito da beleza da música desta banda se deve ao tecladista Ray Manzarek e ao guitarrista Rob Krieger.

O Doors tem uma sonoridade única, que marcou uma época. O que seria do começo do filme Apocalypse Now se não fosse a canção The End?

Entre outros clássicos que colocam a banda no panteão do rock, minhas preferidas são Roadhouse Blues, People Are Strange e Break On Through:

#2 – Lynyrd Skynyrd

Os embaixadores do Redneck Pride

O Lynyrd Skynyrd é o expoente máximo do Southern Rock, gênero de bandas sulistas que fundem o hardão setentista com o country.

Um verdadeiro cabide de empregos, foi a primeira grande banda a ter três guitarristas. No currículo, eles têm clássicos conhecidíssimos como Free Bird, Sweet Home Alabama e Simple Man.

Outras músicas que servem como uma boa amostra do estilo e da qualidade dos caras são What’s Your Name, Call Me The Breeze, Gimme Three Steps e a fabulosa That Smell:

O Lynyrd Skynyrd é outra daquelas bandas profundamente marcadas pela tragédia. Em 1977, um acidente aéreo matou o vocalista Ronnie Van Zant, o guitarrista Steve Gaines e sua irmã, a backing vocal Cassie Gaines, além de membros da equipe técnica.

Em 1987, o irmão de Ronnie, Johnny Van Zant, assumiu os vocais e a banda voltou a fazer turnês, tocando principalmente os clássicos dos anos de ouro.

#1 – Grand Funk Railroad

A melhor das bandas de rock americanas é hoje, paradoxalmente, uma das menos conhecidas do grande público.

O power trio formado em 1968 pelo guitarrista/vocalista Mark Farmer, pelo baterista/vocalista Don Brewer e pelo magnífico baixista Mel Schacher produzia um som à  frente do seu tempo, na linha de outros power trios como Jimi Hendrix Experience e Cream. Eles já eram setentistas desde antes dos anos 70.

Clique aqui, veja o vídeo e concorde.

O peso absurdo para a época ajudou a definir os rumos do hard rock da década seguinte. No circuito roqueiro americano, que começava a receber as gigantescas turnês de supergrupos britânicos como Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, o Grand Funk era um dos principais expoentes nativos.

O vídeo abaixo expressa muito bem o espírito da melhor banda americana de todos os tempos:

AVISO: Este post contém spoilers, o que significa que, se continuar lendo, você poderá descobrir acidentalmente que o Kevin Spacey é o Keyser Söze em “Os Suspeitos”, entre outras coisas.

2012

Num dia ligeiramente fora do comum, pelo menos para os limitados padrões dos habitantes do Himalaia, o mar revolto inunda quase todos os picos da cordilheira – e uma arca transportando 400 mil pessoas é jogada contra o Monte Everest pela força das águas. De repente, na ponte de comando da colossal embarcação, um nerd gordo solta um urro de regozijo, só porque um par de hélices minúsculas (em termos relativos) conseguiu reverter, em segundos, o movimento de uma massa metálica de centenas de milhares de toneladas, evitando a colisão e salvando todos a bordo.

Nesse momento, você suspira e

a) fica feliz e toma mais um gole de refrigerante, pois, afinal de contas, é só mais um filme-catástrofe; ou

b) fica puto da cara e vai embora do cinema, jurando nunca mais ver um filme-catástrofe, pelo menos não um do Roland Emmerich.

De qualquer modo, aquelas deviam ser mesmo boas hélices.

Filmes-catástrofe, como 2012, de onde foi recortada a sequência acima descrita, são sempre um bom programa para quem gosta de cenas grandiosas, roteiros bobinhos e finais felizes.

Depois de analisar exaustivamente as mais representativas obras do gênero, desenvolvi uma receita simples para que você possa fazer os seus próprios filmes-catástrofe.

INGREDIENTES

- ROLLAND EMMERICH NA DIREÇÃO

Filme-catástrofe que se preze tem que ser dirigido por este alemão que introjetou muito bem o american way of cinema. No currículo, ele tem 2012, Godzilla, O Dia Depois de Amanhã e Independence Day. Emmerich é tão bom nisso que, até quando não faz um filme-catástrofe, o resultado acaba sendo… uma catástrofe. Vide O Patriota.

Se este ingrediente estiver em falta, você pode substituí-lo pelo Michael Bay, sem grandes prejuízos.

- UM ORÇAMENTO DE PELO MENOS NOVE DÍGITOS

A textura e o sabor inconfundíveis dos filmes-catástrofe se devem principalmente aos efeitos especiais computadorizados, e o preço de qualquer tornado mixuruca feito nos servidores da Industrial Light & Magic está pela hora da morte. Imagine então o trabalho dos engenheiros de som da THX. Tempestades, ondas gigantes, explosões solares e terremotos de 10 graus na escala Richter custam muita grana. Prepare-se para abrir a carteira.

- ATORES DE SEGUNDA LINHA

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Não adianta. Você não conseguirá fazer um bom filme-catástrofe se quiser escalar Anthony Hopkins e Meryl Streep para os papéis principais. A receita EXIGE canastrões, ex-astros decadentes, talentos que nunca engrenaram ou, no máximo, iniciantes promissores. Bruce Willis é sempre uma boa pedida. Se ele não puder, ligue para o Dennis Quaid.

- BUROCRATAS MALVADOS

Teoria da conspiração e filmes-catástrofe andam juntos. O governo dos EUA (com exceção do presidente) sempre sabe de tudo que vai acontecer e muitas vezes esconde informações que poderiam ser valiosas nas mãos certas. O vilão do filme geralmente é um alto funcionário ou político do governo.

- UM PRESIDENTE AMERICANO BONZINHO

O presidente dos EUA, nesse tipo de filme, é sempre bondoso, correto, incorruptível, justo e nobre – e, se for negro, melhor. Na condição de líder mundial, ele sempre faz de tudo para salvar a Terra e/ou a civilização (e sempre consegue, mesmo que às vezes morra como mártir).

- UM PROTAGONISTA LOSER

O herói do filme-catástrofe nunca será aquele musculoso capitão das forças especiais que consegue matar 10 terroristas com um único tiro e que pega a Megan Fox (a de verdade) nas horas vagas. Será sempre um fracassado genial que tem um cargo de subalterno numa agência de segundo escalão. Eventualmente, ele até pode pegar a Megan Fox no filme, mas só se ela estiver intepretando uma cientista linda e genial que tem uma quedinha por losers. Via de regra, o protagonista é divorciado e aproveita a destruição iminente da Terra pra se reconciliar com a ex-mulher, que está sempre casada com um yuppie bem-sucedido. O herói também é um mau pai e salva a relação com os filhos ao mesmo tempo em que salva o mundo (mas há um problema: eles sempre adoram o padrasto).

A mensagem é óbvia: os protagonistas são losers para que o espectador, geralmente loser, se identifique com eles e pense: “Eu também poderia salvar o mundo!”

- UM INIMIGO INVENCÍVEL

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Não teria graça fazer um filme em que o inimigo pudesse ser vencido por qualquer Jack Bauer. Os heróis precisam necessariamente lutar contra algo grande e poderoso de verdade – uma mudança climática global, um meteoro do tamanho do Texas, um bombardeio de neutrinos oriundos das últimas explosões solares, naves gigantes que não podem ser destruídas, etc.

- MUITAS BANDEIRAS DOS EUA

Como se diz na minha terra, “quem paga a conta do filme tem o direito de levar o crédito pela salvação do mundo”. E os americanos são muito bons nisso (levar o crédito).

MODO DE PREPARO

- PRIMEIRO LOUVE A CIÊNCIA. DEPOIS, CUSPA NA CIÊNCIA

armageddon SPLASH

Não se faz filme-catástrofe místico, a não ser que você seja adventista-do-sétimo-dia e queira assustar os seus fiéis mostrando o que vai acontecer quando o Chefe voltar pra acertar as contas. As premissas são sempre rigorosamente (mesmo que sem muito rigor) científicas e racionais.

Mesmo em 2012, baseado em uma profecia maia, a destruição tem causa cientificamente comprovada: os neutrinos que bombardeiam a Terra se transmutaram em microondas (what the fuck?) e estão aquecendo demais o núcleo do planeta. Outros títulos seguem a tendência cientificista: em Armageddon e Impacto Profundo, o inimigo é um asteróide ou um cometa. Em Independence Day e Guerra dos Mundos, ETs bons de briga. Em Godzilla, um monstro engordado por explosões nucleares. Em O Dia Depois de Amanhã, o derretimento das calotas polares mudou a dinâmica das correntes marinhas e a Gulfstream parou de levar água quentinha para as cercanias da Europa. Você assobia e diz: “Uau, faz sentido!”

O problema é que, depois de usar a ciência para justificar as causas, os roteiristas desdenham do bom senso do espectador e fazem coisas absurdas. O que dizer de 2012, por exemplo, em que os protagonistas estão no parque de Yellowstone no momento em que o supervulcão explode e… sobrevivem? O escritor Bill Bryson dedica a este supervulcão um capítulo inteiro de Breve História de Quase Tudo. Se os cientistas estiverem certos, a explosão seria tão poderosa que dificilmente alguém que estivesse a alguns milhares de quilômetros poderia sobreviver – muito menos fugir calmamente em um avião bimotor.

E o que dizer de pessoas usando celulares num momento em que a magnetosfera certamente estaria em frangalhos?

Mudando de filme, que tal Armageddon, em que um bando de perfuradores de poços de petróleo doidões se tornou uma eficiente tripulação de astronautas em menos de duas semanas de treinamento?

Outros absurdos são vistos em todas as obras do gênero. É só procurar.

- O ALTO COMANDO É UMA CASA DA MÃE JOANA

O protagonista, como vimos acima, é um loser. No entanto, esse loser sempre consegue entrar de penetra na sala dos generais, na ponte de comando, no avião presidencial, etc, e SEMPRE É OUVIDO PELOS MANDA-CHUVAS.

Em Independence Day, Jeff Goldblum e o pai conseguem embarcar no Air Force One e depois entrar na Área 51 – e o nosso herói diz aos generais o que fazer.

Em 2012, John Cusack, um autor de livros semi-esotéricos que venderam 500 cópias, acaba na ponte de comando de uma das poucas arcas de salvação e dá ordens a alguns dos homens mais poderosos do mundo.

Seja qual for o filme, o protagonista loser e seus amigos sempre conseguem se infiltrar no Alto Comando e dar as cartas.

- EM DISCURSO, O PRESIDENTE AMERICANO ABENÇOA O MUNDO

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O discurso televisionado do presidente americano é um dos pontos altos do filme. O bom líder explica ao mundo as dificuldades e jura fazer o que puder para salvar a humanidade – sempre com uma trilha comovente ao fundo. O discurso é transmitido para todos os países e todas as pessoas de todas as culturas param o que estiverem fazendo para acompanhar a empolgante retórica do comandante-em-chefe.

- TODO MUNDO OPTA POR FUGIR NA ÚLTIMA HORA

Não importa se as autoridades emitiram o alerta há duas semanas, um mês, duas horas. As pessoas sempre evacuarão as cidades a poucos minutos do fim.

Uma onda gigante provocada pela queda de um cometa vem em sua direção? Tudo bem, tome seu café com calma, jogue um pouco de GTA, tire uma soneca e só depois pegue a estrada. Afinal, ela estará vazia, não é mesmo? Não! TODOS os seus vizinhos e conterrâneos fizeram a mesma coisa que você e todos tentam fugir ao mesmo tempo, parando o trânsito e impossibilitando a fuga.

- DESTRUA O MÁXIMO POSSÍVEL DE SÍMBOLOS DA CULTURA OCIDENTAL

independence-day

Desde que o Charlton Heston achou uma Estátua da Liberdade semi-enterrada em O Planeta dos Macacos (ou desde antes, quando o King Kong original escalou o Empire State Building), Hollywood percebeu que as pessoas adoram ver símbolos da civilização sendo destruídos.

Por isso, mesmo que a humanidade vença no final (e nós sempre vencemos!), é de bom tom destruir a Casa Branca, derrubar um ou dois arranha-céus em Nova York, jogar um meteorito na Champs-Élysées. Pra dar um tom de espetáculo, sabe?

- ALGUÉM IMPORTANTE TEM QUE MORRER

Seria ótimo se apenas anônimos morressem, mas algum membro da casta de protagonistas sempre precisa morrer no seu filme-catástrofe. Se for uma morte heróica pra salvar o mundo, melhor ainda.

- NO FINAL, A HUMANIDADE TRIUNFA

É isso aí, parece que somos mesmo uns motherfuckers de difícil extermínio.

RENDIMENTO

Muitas porções. Sua receita será vista por milhões de pessoas em todo o mundo. Eventualmente, seu filme poderá ser indicado a um Oscar de efeitos visuais ou de efeitos sonoros. Mas cuidado, pois também é possível que ele conquiste várias Framboesas de Ouro.

[Postei este texto há muito tempo, numa galáxia muito distante, em um blog que deixou de existir]