Um passeio na escola do futuro

Recentes casos de desrespeito e agressão de professores de escolas públicas – com a conivência da Justiça, muitas vezes – não são de maneira nenhuma espasmos isolados. Mostram uma tendência, escancaram as engrenagens ocultas do devir social, constituem-se num vislumbre muito claro do futuro que se avizinha. Futuro a que tive acesso, num momento de delírio – ou de excesso de lucidez… ainda não sei.
No meu transe epifânico, me vi, como num passe de mágica, transportado a um futuro próximo, neste mesmo Brasil que hoje destruímos a marretadas decididas.
Visitei algumas escolas daquele Brasil vindouro. Lá, percebi que a grande maioria dos alunos ia fazer qualquer coisa, menos aprender. Uns eram constrangidos pelos pais a estarem lá, outros só queriam a merenda servida no recreio, outros batiam ponto no educandário para que sua família tivesse acesso ao pagamento de bolsas fornecidas pelo governo, alguns usavam a rede de contatos do mundo escolar para distribuir drogas e uns poucos compareciam às aulas por não terem nada melhor para fazer.
As escolas que vi não se pareciam com escolas, em absoluto. Os prédios assemelhavam-se àqueles das áreas de conflito que aparecem na TV. Prédios de áreas de conflito são característicos. Qualquer que seja a região, é sempre o mesmo o aspecto dos edifícios mostrados. Stalingrado em 1942, Saigon em 1972, Bagdá em 1991, Cabul em 2003. Assim, ou quase assim, eram – ou serão… viagens no tempo sempre geram uma confusão com os verbos – as escolas do futuro que vi. Vidros quebrados, paredes pichadas, portas e janelas arrebentadas, móveis inutilizados.
Em um dos colégios que visitei, perguntei ao zelador que perversos vilões teriam empregado tal quantidade de energia para danificar estabelecimentos públicos de ensino. Visigodos? Cruzados? Nazistas? Marines? Orcs? Stormtroopers?
“Alunos” – respondeu o zelador.
Espiei uma das salas de aula daquela escola para ver com meus próprios olhos o comportamento de tão destrutivos estudantes. Naquele dia, dois professores tinham faltado ao trabalho (um estava de licença-saúde devido a uma síndrome do pânico derivada do quotidiano da profissão, outra entregava currículos em lojas de departamentos, já que tinha decidido trocar o magistério pela cultura de vendas). A falta de dois mestres fazia com que duas turmas precisassem ser atendidas concomitantemente com outras duas. Dois professores faziam o serviço de quatro.
Perguntei a um dos educadores se isso não tornava a aula um inferno naquelas quatro turmas. Ele disse que sempre era um inferno, e que a vantagem de se atender duas turmas ao mesmo tempo é que assim todos podiam ir embora mais cedo.
Os alunos, mesmo nas salas em que havia um professor dedicado exclusivamente a eles, não pareciam se importar muito com o mestre. Conversavam, riam alto, jogavam papéis e pedaços de giz uns nos outros e ocasionalmente no professor, trocavam bilhetinhos e, ao serem repreendidos pelo educador, respondiam com insultos e ameaças de agressão ou de processo judicial.
Numa das salas, um menino de 13 anos levou a cabo uma dessas ameaças e quebrou uma cadeira nas costas de uma professora. Depois de agredida, ela se levantou e perguntou ao agressor se ele tinha acertado a cadeirada exatamente onde queria acertar. Ele respondeu que sua intenção era atingi-la um pouco mais à esquerda, ela se desculpou por ser um mau alvo e pediu-lhe que tentasse de novo. Ele fez isso, ela foi parar na UTI do hospital em estado de coma e, ao acordar, sorriu aliviada ao ser informada que a família do seu algoz tinha decidido não registrar queixa contra ela.
Nesse momento, uma campainha começou a tocar. A professora não pareceu ter ouvido o som, mas eu ouvi, cada vez mais claro, até acordar do terrível pesadelo que tinha perturbado o meu sono. Enquanto me arrumava para ir para uma das escolas em que leciono, pensei no futuro que vislumbrei e dei-me conta de que quase todas aquelas coisas já estão acontecendo.














