14 de setembro de 2011

Saiu ontem a notícia (para ler, clique aqui) de que o ministro da Educação, Fernando Haddad, quer aumentar o número de dias do ano letivo de 200 para 220.

A ideia parece ser: quanto mais tempo a criança passa na sala de aula, mais ela aprende – o que é uma grande falácia, pois o importante não é quanto tempo se passa na escola, e sim o que se faz lá.

Quando eu entrei, como aluno, no ensino fundamental, em 1987, o ano letivo tinha 180 dias. E se aprendia, naquela época, muito mais do que se aprende hoje.

Na segunda série, pelo menos 90% da minha turma dominava a tabuada. Na quarta série, resolvíamos expressões matemáticas complexas (aquelas com chaves e colchetes) e já flertávamos com as frações.

Hoje, com um ano letivo de 200 dias, muitíssimos alunos chegam à quinta, à sexta, às vezes à oitava série sem saber a tabuada e sem condições de entender ou de produzir um texto em nível de segunda série.

Parece que esses 20 dias a mais não melhoraram muita coisa. E o novo acréscimo de 20 dias proposto pelo MEC tampouco melhorará, enquanto não mudarmos o rumo da pedagogia adotada nas escolas.

[Pequena digressão:

É preciso ressaltar, também, a malandragem dos professores e das direções das escolas no uso dos dias letivos a mais. Uma das estratégias adotadas pelas instituições (pelo menos as públicas) de ensino para conseguir cumprir o ano de 200 dias são os famigerados sábados letivos. Que de "letivos" só têm o nome. Via de regra, o que se faz nesses sábados é matar tempo. Atividades lúdicas, recreativas, torneios esportivos, festinhas para as mães/pais, feiras de artesanato, concursos de música e dança - quase sempre com presença facultativa dos alunos. São raros os educandários que usam os sábados letivos para ensinar alguma coisa.

Fim da digressão]

Se continuarmos assim, no futuro próximo o ano letivo terá 365 dias e, em seguida, superará o número de dias do ano regular. Será que o MEC tem poder para aumentar o número de dias do calendário para, digamos, 400 dias? Será que resolveria o problema da educação?

22 de agosto de 2011

O ex-colega de magistério Ivalino, comentando minha postagem anterior, apresentou algumas questões interessantes sobre o caos na educação, que merecem, mais que uma resposta na caixa de comentários, um novo post.

Vamos por partes:

Salas de aula abarrotadas

Ivalino lembra que a universalização obrigatória da educação básica trouxe às salas de aula uma torrente de crianças e jovens que antes estava fora da escola. Isso levou a uma superlotação das salas , o que sobrecarregou os professores e piorou muito a qualidade das condições de trabalho.

Certíssimo.

Já trabalhei em turmas de quase 40 alunos e em turmas pequenas, e constatei que a possibilidade de se fazer um bom trabalho é inversamente proporcional ao número de alunos por sala.

Turmas com mais de 20 alunos deveriam ser proibidas em todo o país. Até existe um movimento pela fixação do teto de 25 estudantes por classe. Claro que tal medida implicaria na construção de mais salas de aula e na contratação de mais professores. Isso explica por que a regra não é adotada. Para maracutaias, sobra dinheiro no governo. Para melhorar as condições de trabalho nas escolas, sempre falta.

OBS.:

Sempre surge um gaiato para citar o exemplo de turmas grandes, gigantescas, onde o trabalho funciona -  em outros países, em outro nível de ensino, em outra época.

Meu amigo gaiato, se você aparecer para levantar essa ideia, experimente encher uma sala pequena com 40 alunos sem referenciais de valores e normas de conduta, quase todos eles indo para a escola empurrados pelos pais, por medo do Conselho Tutelar, e coloque nessa sala um professor com apenas um quadro negro e uma barra de giz para se defender, sem qualquer respaldo legal para coibir as agressões verbais e às vezes físicas que sofre, e ainda sujeito a ser réu de um processo judicial se disser qualquer coisa que possa ser interpretada pelos alunos e/ou seus pais como uma “humilhação”.

Um professor contra o mundo

Ivalino também pergunta como foram meus resultados nas turmas em que lecionei.

Ele sabe que foram, na maioria dos anos, um desastre.

Em outros artigos, citei as dificuldades para trabalhar os conteúdos num universo em que 90% dos alunos sequer estavam alfabetizados. Consegui alguns bons resultados com alguns alunos de  algumas turmas, mas na maioria dos casos, eu era impotente para lutar sozinho contra a estrutura. Melhorar a situação só será possível com um pacto que comprometa professores, pais, direção, alunos e governo…

Imagine se lá na escola eu decidisse, por minha conta e risco, adotar os “padrões de excelência” que proponho e aprovar apenas os que tivessem alcançado os objetivos… Eu seria contrariado e desautorizado pela direção, escorraçado pela Secretaria de Educação, demonizado pelos alunos e apedrejado pelos pais.

No ano em que deixei de ser professor (2010), eu estava matutando umas ideias de mudança. Cansado de ter de ensinar Geografia e História a alunos que sequer estavam alfabetizados, eu estava bolando um plano para alfabetizá-los.

Em suma, eu pretendia fazer, por conta própria, nas séries finais do ensino fundamental, o que as professoras das séries iniciais deviam fazer e não faziam. Como? Trabalhando com textos mais simples, me focando mais na forma (escrita e na leitura) do que no conteúdo, fazendo “ditados” sobre as palavras estudadas, treinando a formação de frases básicas sobre os assuntos abordados, etc. Coisa de 1ª e 2ª séries, como você vê.

Acabei mudando de profissão antes de conseguir implementar essas ideias, mas agora penso, distante da escola no tempo e no espaço, que eu não teria sucesso. Aposto que a equipe diretiva me questionaria sobre tal prática e exigiria que eu parasse de fazer isso para ministrar os conteúdos previstos no plano de ensino. Não sei. Talvez essa minha ideia seja um caminho a ser tentado por professores que queiram lutar contra os moinhos de vento.

A Reprovação, esse demônio

Meu ex-colega também diz que a minha cruzada pela reprovação dos alunos que não aprendem está longe de ser a saída para a educação.

Concordo com ele. Reprovar não resolve nada. Pelo contrário, só a APROVAÇÃO é sinônimo de aprendizado… desde que os aprovados realmente tenham aprendido.

Não acho que a reprovação, sozinha, resolva qualquer coisa. A reprovação dos que não atingem os objetivos é, antes, um símbolo da excelência que proponho: a escola deve consolidar a cultura de que lá o conhecimento é levado a sério. E que o conhecimento é condição para a aprovação.

Quando eu estudava no ensino fundamental, entre o fim dos anos 80 e a metade da década de 90, morríamos de medo da reprovação. Naquela época, nossos professores só aprovavam quem atingisse, pelo menos, 60% dos objetivos, e atingir esses 60% não era tão fácil como hoje. Por isso, por saber que para ser aprovado era preciso saber, estudávamos muito mais do que hoje estudam os alunos das escolas onde lecionei.

De uns tempos pra cá, a aprovação tornou-se quase automática. Já vi alunos atingirem menos de 40% dos objetivos em Português E em Matemática e serem empurrados para a série seguinte pelo conselho de classe.

Em que a falta de reprovação transformou a escola? Na Casa da Mãe Joana. Não há mais seriedade no trato com o conhecimento. A maioria dos alunos está pouco se importando com os conteúdos estudados porque sabe que será aprovada mesmo que não aprenda.

Num Seminário de Educação, o então secretário de Educação de Viamão, que também era vice-prefeito, cobrou dos professores uma redução no índice de reprovação, que ele considerava muito alto. A justificativa dele: reprovação implica em gastos para o município. É essa a visão dos burocratas.

O absurdo da situação é que ele considerava o índice alto, enquanto nós, professores, sabíamos o quão baixo era. Se reprovássemos todos os alunos que não tinham atingido os objetivos naquele ano, a porcentagem de reprovação bateria na casa dos 90%.

Claro que esses 90% cairiam nos anos seguintes, pois a inércia da falta de interesse e de respeito pelo conhecimento certamente diminuiria na medida em que as escolas acabassem com essa suruba e parassem de dar diplomas a analfabetos.

18 de agosto de 2011

O professor, músico e blogueiro Conrado escreveu um post (para ler, clique aqui) criticando meu artigo sobre “má escolaridade”, publicado na Zero Hora e também postado neste blogue.

Postei, na caixa de comentários do Conrado, algumas ideias que reproduzo aqui, pois elas contêm muito do que eu devia ter dito em outros artigos e não disse:

Conrado

Acho que cometi um erro ao definir o que aqui se estabelece como “disputa retórica”.

Vamos deixar a retórica de lado.

O nosso objetivo aqui não é, ou não deveria ser, apenas vencer uma disputa, no sentido da disputatio que se travava na Idade Média ou dos embates entre oradores na Grécia Antiga.

O nosso objetivo deveria ser, mais do que derrotar quem conosco debate, buscar juntos um diagnóstico e um tratamento para um problema crônico da nossa educação.

Vamos falar de problemas concretos e verificáveis, que estão aí, gritantes, nas nossas escolas?

1) As crianças estão saindo da escola (formadas) sem aprender quase nada. Isso é grave. Gravíssimo. Nem sempre foi assim. Acredito que esse problema deve ser encarado e resolvido. Alguns pedagogos dizem que reprovar não resolve. Pode ser. Mas hoje quase não se reprova e o aprendizado está cada vez pior.

Vou contar uma história real: uma vez, passamos o ano inteiro tentando fazer com que um aluno da sétima série estudasse. Envolvemos os pais, tentamos conscientizá-lo, não adiantou. Dissemos que se ele continuasse sem interesse pelo estudo, acabaria perdendo o ano, etc. No fim do ano, ele foi empurrado para a série seguinte, mesmo sem aprender – porque a secretaria de educação nos pressionava, sempre, a reduzir o índice de reprovação a qualquer custo, mesmo que no canetaço. No ano seguinte, lá estava esse aluno na oitava série, e novamente sem qualquer interesse. Dissemos que, se ele pretendia se formar, teria de aprender o que estávamos ensinando. Sabe o que ele disse? “Foi isso que vocês me disseram no ano passado, e eu tô aqui”.

Não sei se a reprovação é o melhor caminho para evitar a diplomação de analfabetos funcionais. Talvez não seja. Mas aprovar qualquer um, de qualquer jeito, como se faz na maioria das escolas gaúchas, NÃO TEM FUNCIONADO. Temos de achar uma outra solução.

Uma das saídas que proponho é tratar o conhecimento e o aprendizado  com mais seriedade. Aprovar todo mundo, independente do aprendizado, demonstra grave desrespeito, por parte da escola, pelo conhecimento. O que fica, na mente do aluno? Ao ver colegas que não aprenderam e não se interessaram serem aprovadas, a criança percebe que a própria escola não se importa muito com o conhecimento.

2) Você dizer que tem dúvidas quanto ao fato de a interpretação de textos ser uma habilidade que se deva aprender no ensino fundamental me deixa deveras chocado. Claro que não espero que um aluno de primeiro grau tenha como livro de cabeceira a Crítica da Razão Pura de Kant. Mas estou falando em interpretação mínima, em raciocínio lógico, em saber perceber o fio da meada em um texto minimamente inteligível…

É isso que os alunos de hoje não aprendem mais. É verificável. Pegue uma turma de oitava série dê um texto. Como disse no artigo, eu não podia usar os livros didáticos porque os alunos não conseguiam entender os textos. Isso nem sempre foi assim… quando eu estudava no primeiro grau, em uma escola pública, de 1988 a 1995, nós éramos capazes de entender os textos, porque tivemos uma alfabetização sólida e efetiva.

Sei que a minha querida professora Roseana, que me alfabetizou, seria hoje queimada como herege nas faculdades de Pedagogia. Mas ela conseguiu, isso é FATO, nos alfabetizar. E bem. Devo a ela boa parte da minha capacidade de interpretar e de construir um texto.

Quando eu entrei nas duas faculdades que concluí, eu sabia pontuar um texto. Aprendi já no ensino fundamental, e aperfeiçoei no ensino médio. Não que todos devam fazer o mesmo caminho. Nunca é tarde para se aprender, nada impede que se aprenda em qualquer momento da vida. Mas o nosso sistema educacional não tem gerado condições para que isso aconteça, simplesmente porque está se disseminando a cultura de que isso (saber ler e escrever BEM) sequer é necessário.

3) Seus calafrios ao ouvir a expressão “mercado de trabalho” me enchem de calafrios. Me entristece saber que ainda temos essa visão negativa da preparação para o trabalho. Sim, nossa sociedade neoeuropeia (como lembraste) tem no trabalho um de seus pilares, e não precisamos (nem podemos) fugir disso. Aliás, os próprios alunos têm uma opinião bem séria sobre isso. Eles SABEM que terão de se integrar à ciranda do mercado de trabalho. Nem todos têm a consciência de que os conhecimentos obtidos na escola poderiam lhes ser muito úteis nessa ciranda, mas o que vamos lhes dizer se há até setores da pedagogia e do magistério reforçando essa descrença na preparação para o trabalho?

Já ouvi muitos dizerem que não devemos preparar os alunos para o trabalho e sim para a vida. Como se fosse possível separar uma coisa e outra. O que vejo é que muitos querem “libertar os oprimidos” mas não percebem que esse é um discurso retrógrado, de um tempo em que as teorias pedagógicas progressistas eram feitas com o objetivo de conscientizar o povo contra a a opressão da ditadura.

Hoje, ser oprimido é não ter condições de lutar por um lugar ao sol. Lembra daquele aluno que nós empurramos para a oitava série e que jogou isso na nossa cara? Nós o condemamos à falta de qualificação. Nós, professores, com a nossa conivência, o condenamos a não poder ser mais do que servente de pedreiro. Claro que ele poderá fazer um EJA, estudar à noite, se dedicar e conseguir algo melhor. Mas ele não fez isso. Talvez nunca faça. Porque, quando ele estava com o caráter em formação, quando deveria estar aprendendo que o conhecimento é coisa séria e de muito valor para a vida, as pessoas que deveriam lhe ensinar isso apenas lhe deram um certificado de conclusão, sem que ele tivesse aprendido sequer um terço do que deveria aprender para merecê-lo.


A baixa escolaridade média dos aspirantes ao mercado de trabalho é apontada como um entrave ao desenvolvimento do Brasil, uma economia em ascensão e cada vez mais carente de mão de obra qualificada. Mas, se fizermos uma criteriosa avaliação dos jovens que saem das nossas escolas, veremos que a falta de alguns anos a mais de estudo está longe de ser o principal problema a retardar o crescimento do país. Muito pior que a baixa escolaridade é a má escolaridade.

A má escolaridade é tão nociva porque incapacita até mesmo aquelas pessoas que alcançam, pelo menos no papel, uma alta escolaridade. Um exemplo significativo é a tragédia dos exames da Ordem dos Advogados do Brasil, em que a imensa maioria dos postulantes, todos bacharéis que passaram pelo menos 15 anos em bancos escolares, é reprovada. E a “culpa” pelo fracasso não pode ser imputada apenas às faculdades de Direito. As raízes do problema só serão desenterradas se retrocedermos alguns anos no histórico escolar dos candidatos até chegarmos ao ensino fundamental, quando eles certamente deixaram de aprender muitas coisas que deviam ter aprendido.

O saudoso jornalista Fausto Wolff, homem de erudição e argúcia notáveis, costumava dizer que devia quase todo o conhecimento que tinha a suas queridas professoras do primário, com quem aprendeu a ler, escrever e pensar, em sua infância pobre na Porto Alegre dos anos 40. Ele estava certo. A base de tudo o que sabemos, as fundações sobre as quais edificamos nosso conhecimento são estabelecidas nos primeiros anos de escola, com a alfabetização, com as quatro operações matemáticas, com o desenvolvimento do raciocínio lógico. Esses alicerces, se bem trabalhados, garantem aprendizado efetivo e maduro pelo resto de nossas vidas. Se mal trabalhados, fazem com que todo o aprendizado posterior seja carente e incompleto.

Fui professor da rede pública por sete anos, nas séries finais do ensino fundamental, e testemunhei a gritante falta de preparo com que os alunos saem dos anos iniciais. Eu não podia usar a maior parte dos textos dos livros didáticos enviados pelo MEC, simplesmente porque os alunos eram, quase todos, incapazes de entender o que estava escrito. A capacidade de interpretação de texto e de escrita vem decaindo ano após ano.

As professoras de matemática da quinta série também não podiam trabalhar os conteúdos próprios dessa etapa, porque eram obrigadas a ensinar as quatro operações básicas, que seus alunos deviam ter aprendido pelo menos três anos antes.

E o que fazíamos com esses estudantes? Éramos pressionados, pela secretaria de educação e pelos pais, a aprovar o maior número possível, independente do desempenho. Aprender, para eles, não é importante. O importante é o avanço.

Uma das causas da disseminação da praga da má escolaridade, além do já conhecido sucateamento da rede escolar e da falta de suporte do Estado, é o nível dos professores das escolas públicas, que está cada vez mais baixo.

Em parte, porque a carreira no magistério, tão mal remunerada, atrai principalmente aquelas pessoas que não conseguem colocação melhor, em parte pela proliferação de cursos de licenciatura caça-níqueis sem qualquer excelência, em parte porque o ciclo da má escolaridade se fechou:  empurrado pelo regime de aprovação quase automática, aquele aluno que saiu da escola sem aprender já concluiu seu curso superior, voltou à escola como professor e hoje é (mal) pago para fazer de conta que ensina.

Além disso, há docentes que ensinam mal por opção, fundamentados em teorias pedagógicas messiânicas formuladas por gurus que se dizem progressistas e acreditam que ministrar “conteúdos” é “obedecer à lógica utilitarista e tecnicista do mercado”. Ouvi, em um seminário de educação, um palestrante dizer que, na sala de aula, o conteúdo é o menos importante. Para ele, o importante é “ensinar o aluno a se fazer a pergunta que liberta”. Com isso, ele queria dizer que a formação crítica e política deve preceder o ensino dos conhecimentos básicos. Com ideias assim sendo (mal) implementadas nas escolas, é fácil saber por que diplomamos, ano após ano, tantos analfabetos funcionais.

Enquanto isso, os secretários de educação e a sociedade comemoram o progressivo aumento da escolaridade média e a redução da evasão escolar, mas poucos parecem notar que as crianças e jovens que estão na escola não estão aprendendo.

Crianças, ouçam o Professor Balboa

Eu via filmes legendados na escola, quando estudava no ensino fundamental e no ensino médio.

(Eu ainda não sabia o que só fui descobrir ao me tornar professor: levar um filme para os alunos é um dos recursos que o educador usa quando está de saco cheio e não quer dar aula)

Alguns filmes que nos passavam tinham objetivos elevados, mas outros eram apenas para diversão, mesmo.

Lembro, por exemplo, de quando a professora Cláudia, de matemática, organizou uma”sessão de cinema” para a minha 5ª série, em 1992, e chegou à sala com a fita de VHS (sou do tempo do VHS) de O Exterminador do Futuro 2. Legendado. Toda a turma viu e acompanhou a história sem pestanejar. Aliás, aquele foi, por muitos anos, o meu filme preferido.

Os anos passaram, eu virei professor e chegou a minha vez de ficar de saco cheio e matar três períodos exibindo um filme para os alunos. Ou, de vez em quando, de levar filmes para ilustrar os conteúdos estudados (o que era relativamente fácil, pois eu lecionava História).

Na hora de exibir os filmes, notei que os alunos sempre pediam para ver a versão dublada, o que não acontecia no meu tempo de estudante (o DVD facilitou as coisas, pois é possível selecionar áudio e/ou legendas em português).

No começo, por julgar que se tratasse de simples preguiça de ler os diálogos, eu resistia à vontade deles e os obrigava a ver os filmes legendados. Em pouco tempo, desisti. Percebi que eles não pediam filmes dublados por comodismo, mas por serem incapazes de ler todas as legendas.

Isso mesmo: os alunos das escolas públicas onde trabalhei não conseguiam acompanhar um filme legendado. Eram incapazes de ler e ainda mais incapazes de compreender o texto das legendas.

Comentei a minha “descoberta” com uma colega que lecionava em outras escolas e ela me disse que costumava, todos os anos, passar para os alunos o filme Sociedade dos Poetas Mortos e depois fazer uma reflexão com a turma. Nos últimos anos, os resultados foram tão desastrosos que ela decidiu parar de levar o filme. Os alunos da “nova geração” não conseguiam mais entender a história, mesmo em cópia dublada.

Sabendo disso, não estranhei o dado apontado nesta semana por uma matéria do Segundo Caderno de Zero Hora que mostra o aumento da procura por filmes dublados nos cinemas.

O que estranhei é que, em meio às discussões sobre as causas do fenômeno, nenhuma das fontes ouvidas na matéria tenha mencionado o que considero a principal razão da rejeição às legendas: a geração que saiu da escola pública na condição de analfabetismo funcional está com grana para ir ao cinema, mas é incapaz de acompanhar um filme se os atores não falarem português.

Tristes tempos.

[Troca de e-mails entre o editor deste blogue e o seu amigo André Ribeiro, professor de Filosofia na UCS]

de André Ribeiro
para Eduardo Nunes
data 16 de maio de 2011 09:43
assunto lomba abaixo…
assinado por yahoo.com.br

Pronto! Agora tentar ensinar alguém a falar corretamente é, oficialmente, manifestação de “preconceito linguístico”!!!!!!!!!!!!!!!
Não existe erro!!!!!!!!!!!!!
O papinho-palha pós-modernoso vai nos fazer voltar para a pré-história! Logo estaremos buscando o almoço usando tacapes!!
Porque não se fecham as escolas de uma vez????

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/mec+defende+uso+de+livro+didatico+com+linguagem+popular/n1596949085987.html

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de Eduardo Nunes
para André Ribeiro
data 16 de maio de 2011 09:54
assunto Re: lomba abaixo…
enviado por eduardonunes.org

é o que eu digo.

e sou chamado de (ai ai ai) conservador

por isso que eu gosto da Hannah Arendt. Ela diz que a escola TEM QUE SER conservadora, pois é à escola que cabe preservar a civilização que construímos

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de André Ribeiro
para Eduardo Nunes
data 16 de maio de 2011 11:28
assunto Res: lomba abaixo…
assinado por yahoo.com.br

Não existe aprendizagem sem esforço. É superando obstáculos que as pessoas deixam de ser crianças e se tornam adultas. Esse “ensino” vai produzir algumas gerações de brasileiros ignorantes, burros e infantilizados.
Fico imaginando a auto-estima desses jovens, sendo passados para frente sem saber nada, e sabendo disso…
Esses pedabobos e suas boas intenções deviam é ser processados por crime contra a humanidade. Uma pessoa sem vocabulário para se expressar corretamente também não consegue pensar corretamente. A linguagem nos faz humanos; uma linguagem truncada significa seres humanos truncados.
Tô pensando em mudar de país.

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Sem mais.


Eis o produto acabado da nossa educação humanista, progressista e libertadora

Quem via esse rapaz na Escolinha já sabia que ele iria longe

Causou um certo estardalhaço, no fim da semana passada, a notícia de que o nobre deputado Tiririca foi indicado pelo seu partido, o PR, para ocupar uma vaga na Comissão de Educação e Cultura da Câmara.

Como sempre, pessoas conscientizadas ou nem tanto xingaram muito no Twitter, esbravejando ou ridicularizando a decisão do PR. Eu mesmo disse, na ocasião, que merecemos um bombardeio nuclear.

Merecemos mesmo, mas não exatamente por esse episódio. Nenhum absurdo protagonizado por Tiririca durante o mandato superará o absurdo-mor de ele ter sido eleito e, depois de eleito, diplomado, a despeito da prova de que é tão alfabetizado quanto os avós do Jeca Tatu.

E, convenhamos, a presença de um analfabeto na comissão de Educação talvez ajude um pouco. Afinal, todos os que até hoje ditaram os rumos do ensino no Brasil eram graduados, pós-graduados etc e a nossa educação é certamente uma das piores do mundo – apesar das sucessivas comemorações de bons resultados por parte do governo.

O assassinato do ensino brasileiro

A atual educação brasileira, vivo dizendo, é tão ruim por ser boa demais. A pedagogia reinante no MEC e nas secretarias estaduais e municipais é linda, poética, emocionante. As bandeiras principais são a inclusão dos pobres excluídos na sociedade, a formação do ser humano integral, a conscientização para a leitura crítica do contexto em que se vive.

[Pausa para pegar o lenço e enxugar as lágrimas]

Sabe quando essas diretrizes se tornaram norteadoras de rumos, leitor? Foi no fim da década de 80, quando a ditadura brasileira se rendeu e os “progressistas” assumiram o controle da educação.

A partir daí, os pedabobos e antropólogos trataram de “mudar o Brasil” implantando as teorias que tinham defendido com tanto ardor em suas monografias e poemas.

Aquela escola que tínhamos no Brasil (professoras ensinando, alunos aprendendo e sendo reprovados quando não aprendiam) antes de 1990 foi satanizada e associada à ditadura. A partir de então, muitos pedabobos passaram a denunciar os crimes da educação: a reprovação que exclui, a padronização do ensino, o “tecnicismo” etc.

Para eles, educação de verdade é a que liberta, a que inclui, a que forma o “ser humano integral”.

Eles conseguiram. Eles mudaram o Brasil.

Hoje, o bê-a-bá, os ditados, a memorização da tabuada, a repetição de palavras desconhecidas e a exaltação do mérito dos que aprendem foram banidos da grande maioria das escolas públicas.

Essas técnicas, identificadas com o “autoritarismo da ditadura”, foram substituídas por paternalismo, lazer, artesanato com material reciclado, brincadeiras de roda e atividades destinadas a desenvolver a afetividade e a “INCLUSÃO”.

Hoje, graças a esses pedabobos “progressistas” e suas teorias de m.i.e.r.d.a, nossas escolas públicas concedem, todos os anos, diplomas e certificados a analfabetos. Milhões de pessoas sem condições de entender esse post ou de resolver um problema matemático de 4ª série estão aí, jogadas na selva de pedra do capitalismo selvagem sem um canivete sequer para se defender.

Eis o “ser humano integral” almejado pelos pedabobos: um semi-analfabeto. Aqui reside o grande paradoxo da educação brasileira: preocupados em libertar o ser humano, em prepará-lo para a vida, em incluí-lo na sociedade, os educadores “progressistas” o condenaram à escravidão da falta de qualificação, o excluíram da competição por bons empregos e por um lugar ao sol.

Vamos importar escravos para fazer o trabalho intelectual

Um dirigente de empresa brasileira em formação

Já virou lugar-comum dizer que o Brasil vai se tornar uma das grandes potências mundiais nos próximos anos. Mas todos fazem uma ressalva: para isso, será preciso investir em educação.

E não estamos falando no salto da educaçao sonhado pelos pedabobos “progressistas”. A educação que o Brasil precisa ter para crescer e se desenvolver é a educação de antigamente: aquela voltada para o conhecimento de verdade. E por “conhecimento”, entenda-se: leitura e escrita, matemática, ciências, história e geografia, e não blá-blá-blá masturbatório.

Já dizia um antigo slogan da Unisinos: “Só o conhecimento garante a sua liberdade”.

Se lessem isso, os “progressistas” e “libertadores” me acusariam usando seus adjetivos detratórios favoritos. Me chamariam de “tradicional”, de “conteudista”,  de “utilitarista”, de “tecnicista”. Ora, considero tais epítetos um elogio.

Sou tecnicista, com orgulho. É a técnica que nos distingue dos gibões e dos lêmures. Também sou libertador, por saber que só os resultados libertam.

A revolução educacional de que necessitamos é uma que forme pessoas aptas a assumir os postos de comando de uma potência, mais ou menos como a protagonizada pela Coreia do Sul: um ensino técnico, voltado para a eficiência e os resultados, como bem lembrou o Cardoso neste post.

Se não dermos esse salto, o nosso crescimento econômico só será possível se mandarmos uma frota de aviões cargueiros à China, à Índia e à Coreia, para importar mão-de-obra qualificada a granel.

Para que nos preocuparmos em formar pessoas com conhecimento se é mais barato importar nerds indianos já formados?

No fim do ano passado, em uma mesa de bar, meu amigo equatoriano Andrés Lasso previu, erroneamente, que em breve o Brasil estará importando trabalhadores de outros países para fazer os serviços mais abjetos, como ocorre com os latinos nos EUA.

Olhei pra ele e disse:

— É o contrário, Andrés. O Brasil vai importar estrangeiros para os melhores empregos e os brasileiros ficarão com os cargos mais baixos.

Entraremos para os anais de economia e de educação mundiais: seremos o primeiro país do mundo a se tornar uma superpotência com os nativos virando boias-frias e os imigrantes se tornando gerentes.

Defender a formação do “ser humano integral” em detrimento do aprendizado de verdade deveria dar cadeia.

A educação brasileira só será séria e eficaz quando for dirigida por pessoas que não considerem “eficaz” um xingamento.

E quando a máxima  mais citada nos fóruns de educação for aquela de Rob Lowe em The West Wing, também citada pelo Cardoso:

Escolas deveriam ser palácios. A competição pelos melhores professores deveria ser selvagem; eles deveriam ganhar salários de  6 dígitos. Escolas deveriam ser incrivelmente caras para o Governo e absolutamente gratuitas para os cidadãos, como a Defesa Nacional.

Imagem: Agência de Fotos da Secretaria da Educação do RS

Guarde bem o rosto dos caras acima. Especialmente o do meio, ministro Fernando Haddad, e o da direita, secretário José Clovis de Azevedo. Eles estão ajudando a destruir a educação do Brasil e do Rio Grande do Sul, respectivamente.

No fim do ano passado, na calada da noite do governo Lula, o Ministério da Educação, comandado há anos por Haddad, homologou uma rec0mendação do Conselho Nacional de Educação para que as escolas não reprovem alunos até o 3º ano do Ensino Fundamental. Nesta semana, foi a vez da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul fazer o mesmo.

Antes de qualquer coisa, fica a pergunta: por que diabos dizemos “3º ano” e não mais “3ª série”?

Quando você e eu, pessoas bem alfabetizadas, obrigado, estávamos na escola, o Ensino Fundamental (que na época se chamava “1º grau”) ia da 1ª  à 8ª série. Talvez você seja ainda mais velho e tenha estudado nos áureos tempos em que havia “Primário” e “Ginásio” e nossos estudantes aprendiam Latim e Grego na escola pública…

Pois bem, agora, diante da catástrofe da educação, os nossos tecnocratas concluíram que um ano é pouco para alguém ser alfabetizado e acrescentaram mais uma série ao Ensino Fundamental, um ano antes da antiga 1ª série. Por isso, agora esse nível tem nove “anos”, sendo o 2º ano equivalente à antiga 1ª série, o 3º ano equivalente à antiga 2ª série etc.

Ora, leitor alfabetizado, de quanto tempo você precisou para aprender a ler? Eu, que tive a sorte de entrar na 1ª série de uma escola pública em 1988 e não em 2008, fui alfabetizado em menos de um ano, assim como 99% dos meus amigos e colegas. Naquela época, a possibilidade de alfabetização em um ano era um credo inabalável graças ao trabalho competente de professoras comprometidas com métodos que funcionam e não com quimeras e devaneios de gurus “progressistas”.

Os anos passaram e as crianças começaram a ter mais dificuldade para aprender a ler na escola. Sabe por quê? Eu vou dizer por quê. Hoje, nossas crianças não aprendem a ler na escola porque passam a maior parte do tempo fazendo coisas que pouco ou nada têm a ver com alfabetização.

Fui professor de escola pública por sete anos, trabalhei em quatro escolas de realidades diferentes e o que se via em todas elas era sempre o mesmo: o que os alunos dos primeiros anos mais fazem é recortar e colar figurinhas, colar palitinhos e pedaços de EVA, pintar desenhos que ganham prontos (no meu tempo, pelo menos, nós desenhávamos antes de pintar), aprender a cantar e dançar musiquinhas de programas infantis, fazer artesanato e brinquedos com material reciclado.

Eles não escrevem mais; recebem fotocópias de textos prontos. Eles não fazem ditados nem exercícios de repetição de grafia de palavras: isso “deforma a consciência”, segundo os educadores “progressistas”.

Resultado: não se aprende mais a ler. E quase todos os que aprendem viram analfabetos funcionais, incapazes de entender 10% deste post. Fui professor de História e Geografia nas séries finais do Ensino Fundamental e constatei, assombrado, que eu não podia usar os livros didáticos enviados pelo MEC porque os alunos eram incapazes de entender os textos. E isso, como você bem sabe, é um fenômeno recente, pois você e eu entendíamos o que estava nos livros do Ensino Fundamental.

Acreditem, ministro e secretário, o problema da educação não é o índice de reprovação, que, aliás, é irrisório. Se se reprovasse todos os alunos que não atingem os objetivos da sua série, o percentual de reprovados ficaria acima de 70%, com certeza. Hoje, por pressão dos órgãos governamentais, faz-se com esses alunos algo muito pior: eles são aprovados sem que tenham aprendido.

Em entrevista à Zero Hora, o secretário Azevedo, que, aliás, é meu conterrâneo de São Sebastião do Caí, disse:

— Quem tem vivência em escola pública sabe que o investimento na criança por mais tempo permite que ela siga em frente. Reprovar no início afasta o aluno.

A frase final traduz o espírito do nosso tempo na educação: “reprovar afasta”. A palavra da moda, nos círculos “progressistas”, é INCLUSÃO. É preciso incluir. Reprovar, para eles, é feio, é exclusão. Aprovar inclui, dizem. O objetivo desses caras é manter o aluno na escola, mesmo que ele nada aprenda. O importante é estar lá, de corpo presente.

O que o secretário e os progressistas não percebem é que a verdadeira exclusão é aprovar um analfabeto funcional. Dar um certificado de conclusão de Ensino Fundamental ou de Ensino Médio para alguém sem as mínimas condições, isso é a verdadeira exclusão.

Quer incluir os pobres na sociedade competitiva, secretário? Quer fazer com que todos tenham chances de competir por um lugar ao sol? Então, certifique-se de que eles não sairão da escola sem aprender o máximo.

Facilitar o avanço de alunos sem base de aprendizado servirá apenas para marginalizá-los ainda mais. Inclusão de verdade é ser aprovado em uma seleção de emprego, é passar no vestibular, é ter condições de entender os papéis que se assina, é saber ler a vida e não ser passado pra trás.

O saudoso Fausto Wolff dizia que a imensa maioria de tudo que ele sabia tinha sido aprendido nos cinco anos do primário, nos longínquos anos 40, quando as professoras eram mulheres distintas e respeitadas e os alunos não eram aprovados se não aprendessem.

A alfabetização, a interpretação de um texto, as quatro operações matemáticas, a capacidade de raciocínio lógico e de compreensão são (ou eram) objetivos próprios dos primeiros anos do Ensino Fundamental (que não é chamado de “fundamental” por acaso).

A recomendação de acabar com a reprovação nestes anos, ao invés de incluir, vai aprofundar ainda mais a exclusão de alunos condenados a viver do lado de lá do abismo da qualificação.

’ACUSE!

Escrito por Eduardo Nunes 0 Comentário

Recebi nesta manhã, por e-mail, o manifesto abaixo transcrito, assinado pelo advogado e professor Igor Pantuzza Wildmann.

Não sei onde ele vive e leciona e, francamente, não faz diferença. Sua crítica e sua indignação são universais e podiam ser de qualquer brasileiro, de qualquer habitante deste país que está sendo devorado por uma monstruosa inversão de valores que se faz sentir em muitos lugares, mas principalmente na escola.

Antes de reproduzir o texto do professor Igor (cujas ideias, ipsis literis, eu subscrevo e ecoo), acrescento que a inversão de valores denunciada pelo texto desse advogado indignado é perpetuada e incessantemente reproduzida, basicamente, por quatro (ou cinco) tipos de pessoas:

a) políticos e burocratas que buscam prestígio e votos por meio da manipulação de dados e estatísticas educacionais, sem se importar em saber se os milhões de analfabetos funcionais que todos os anos  saem das nossas escolas com certificados embaixo do braço realmente aprenderam alguma coisa;

b) pedagogos e antropólogos que se dizem de esquerda, que se dizem humanistas, que se dizem libertadores e, em nome disso, vivem na mais absoluta cegueira (voluntária) ante o fato de que suas lindas e poéticas teorias pedagógicas não funcionam na prática e não libertam ninguém; pelo contrário, escravizam milhões de pessoas condenadas ao antes referido analfabetismo funcional;

c) pedagogos e professores semi-analfabetos (sim, o círculo se fechou!) que, por não terem tido uma boa formação na Educação Básica e nas faculdades caça-níqueis que frequentaram, acabam caindo na conversa de qualquer guru “libertador” e/ou não sabem ensinar e avaliar os próprios alunos. Convém apontar, também, os professores acomodados, que, por causa dos baixos salários e más condições de trabalho, desistem de buscar uma boa práxis e continuam, por anos a fio, desempenhando a função no piloto automático, à espera da aposentadoria longínqua;

d) mercadores e vendilhões que transformaram a educação em produto (e produto barato) e deformam mentes apenas para ganhar uns trocados, a granel, por atacado.

Agora, vamos ao texto do professor Igor:

(Eu acuso !)

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.
(Émile Zola)

Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (…)
(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que… estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando…

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente…

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente, deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos” e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos-clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário.

Recentes casos de desrespeito e agressão de professores de escolas públicas – com a conivência da Justiça, muitas vezes – não são de maneira nenhuma espasmos isolados. Mostram uma tendência, escancaram as engrenagens ocultas do devir social, constituem-se num vislumbre muito claro do futuro que se avizinha. Futuro a que tive acesso, num momento de delírio – ou de excesso de lucidez… ainda não sei.
No meu transe epifânico, me vi, como num passe de mágica, transportado a um futuro próximo, neste mesmo Brasil que hoje destruímos a marretadas decididas.

Visitei algumas escolas daquele Brasil vindouro. Lá, percebi que a grande maioria dos alunos ia fazer qualquer coisa, menos aprender. Uns eram constrangidos pelos pais a estarem lá, outros só queriam a merenda servida no recreio, outros batiam ponto no educandário para que sua família tivesse acesso ao pagamento de bolsas fornecidas pelo governo, alguns usavam a rede de contatos do mundo escolar para distribuir drogas e uns poucos compareciam às aulas por não terem nada melhor para fazer.

As escolas que vi não se pareciam com escolas, em absoluto. Os prédios assemelhavam-se àqueles das áreas de conflito que aparecem na TV. Prédios de áreas de conflito são característicos. Qualquer que seja a região, é sempre o mesmo o aspecto dos edifícios mostrados. Stalingrado em 1942, Saigon em 1972, Bagdá em 1991, Cabul em 2003. Assim, ou quase assim, eram – ou serão… viagens no tempo sempre geram uma confusão com os verbos – as escolas do futuro que vi. Vidros quebrados, paredes pichadas, portas e janelas arrebentadas, móveis inutilizados.

Em um dos colégios que visitei, perguntei ao zelador que perversos vilões teriam empregado tal quantidade de energia para danificar estabelecimentos públicos de ensino. Visigodos? Cruzados? Nazistas? Marines? Orcs? Stormtroopers?

“Alunos” – respondeu o zelador.

Espiei uma das salas de aula daquela escola para ver com meus próprios olhos o comportamento de tão destrutivos estudantes. Naquele dia, dois professores tinham faltado ao trabalho (um estava de licença-saúde devido a uma síndrome do pânico derivada do quotidiano da profissão, outra entregava currículos em lojas de departamentos, já que tinha decidido trocar o magistério pela cultura de vendas). A falta de dois mestres fazia com que duas turmas precisassem ser atendidas concomitantemente com outras duas. Dois professores faziam o serviço de quatro.

Perguntei a um dos educadores se isso não tornava a aula um inferno naquelas quatro turmas. Ele disse que sempre era um inferno, e que a vantagem de se atender duas turmas ao mesmo tempo é que assim todos podiam ir embora mais cedo.

Os alunos, mesmo nas salas em que havia um professor dedicado exclusivamente a eles, não pareciam se importar muito com o mestre. Conversavam, riam alto, jogavam papéis e pedaços de giz uns nos outros e ocasionalmente no professor, trocavam bilhetinhos e, ao serem repreendidos pelo educador, respondiam com insultos e ameaças de agressão ou de processo judicial.

Numa das salas, um menino de 13 anos levou a cabo uma dessas ameaças e quebrou uma cadeira nas costas de uma professora. Depois de agredida, ela se levantou e perguntou ao agressor se ele tinha acertado a cadeirada exatamente onde queria acertar. Ele respondeu que sua intenção era atingi-la um pouco mais à esquerda, ela se desculpou por ser um mau alvo e pediu-lhe que tentasse de novo. Ele fez isso, ela foi parar na UTI do hospital em estado de coma e, ao acordar, sorriu aliviada ao ser informada que a família do seu algoz tinha decidido não registrar queixa contra ela.

Nesse momento, uma campainha começou a tocar. A professora não pareceu ter ouvido o som, mas eu ouvi, cada vez mais claro, até ser acordado, pelo despertador, do terrível pesadelo que tinha perturbado o meu sono. Enquanto me arrumava para ir para uma das escolas em que leciono, pensei no futuro que vislumbrei e  dei-me conta de que quase todas aquelas coisas já estão acontecendo.