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[Essa é uma parede do banheiro da escola a respeito da qual o professor Belini não tem qualquer queixa]

Vejam só: o professor Belini Romanzini, representando a Secretaria Municipal de Educação de Viamão, deu a este blogueiro a honra da sua visita.

Comentou o post sobre a disparidade entre duas escolas da rede municipal, em bom pedagoguês (idioma dos pedagogos) e, como não poderia deixar de ser, fechou com uma citação de auto-ajuda (no caso, o trecho de uma canção da Legião Urbana).

Do comentário do professor Belini, duas frases em especial me deixaram estarrecido:

- Visitei a escola inúmeras vezes e encontrei um ambiente muito acolhedor, fui tratado com respeito e dignidade por todos, inclusive entrei em sala e dialoguei com os alunos.

- Descobri nos alunos um grande potencial e um carinho muito grande pela escola e pelos educadores, não houve nenhuma queixa, nenhuma mesmo.

Será que estamos falando da mesma escola, professor Belini?

Não tiveste nenhuma queixa de lá? Nenhuma mesmo? Well, vamos tratar das queixas, então.

No mês de março (no início do ano, quando tudo devia estar tranquilo e sereno), tivemos na escola uma reunião pedagógica com DUAS assessoras da SME. Enquanto as professoras e a direção despejavam sobre as assessoras dezenas de queixas, fiquei no meu canto, anotando os principais absurdos na agenda.

No fim da reunião, pedi um aparte e recitei para todos o resumo da conversa:

Problemas identificados no mês de março:

- Uma turma está com 47 alunos. Isso numa sala onde cabem, com conforto, no máximo 30.

- A sala onde esta multidão tem ‘aula’ estava, no fim de março, com carteiras faltando, de sorte que duas grandes mesas do refeitório tinham sido transferidas para lá, a fim de acomodar os alunos. (OBS: com o tempo, o problema foi resolvido).

- A construção de uma nova sala de aula, no mínimo, tinha sido prometida em 2008 e ficou só na promessa.

- O laboratório de informática também ficou só na promessa. Até levaram alguns computadores para a biblioteca, mas eles continuam lá, sem funcionar.

- Em função do atrolhamento (tradução: coisas demais guardadas num lugar só), a biblioteca não podia ser usada. (OBS: com o tempo, o problema foi mais ou menos resolvido).

- Não há livros didáticos suficientes para todos os alunos.

- Não tínhamos bibliotecário. (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- Os colchonetes usados nas aulas de Educação Física estão podres, nojentos, se desintegrando.

- O mato estava tomando conta do pátio da escola (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- A escola não tem telefone porque a verba que o governo manda é insuficiente para pagar a taxa.

- A escola estava sem porteiro. (OBS: Com o tempo, o problema foi  resolvido).

- Traficantes de drogas estavam sempre à espreita no portão da escola. (OBS: Com a chegada do porteiro, problema resolvido, eu acho).

- Não há sala para exibir vídeos para os alunos.

- Não havia merenda na escola. (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- A estes problemas de março, acrescente-se o seguinte: as turmas da tarde estão há meses sem professor de Geografia e de Educação Física.

Depois de desfiar todas essas queixas, lembrei às assessoras da SME que, em todo final de ano letivo, a secretaria se estarrece com os altíssimos índices de reprovação e proíbe a escola de reprovar todos os alunos com baixo rendimento (“Deem um jeito de recuperar!”, nos ordenam sempre… e nós “damos um jeito”, transferindo os problemas para o ano seguinte). Pois bem, lá estava eu, no INÍCIO do ano, expondo alguns dos motivos que nos levam, no fim do ano, a ter tantos alunos com baixo rendimento.

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Outra coisa que disseste, professor Belini, é que foste tratado com respeito por todos. Mais uma vez, a pergunta: será a mesma escola?

Claro que é!

É muito fácil tratar um visitante com respeito, principalmente quando ele ocupa um cargo importante.

Para sentir a realidade da escola, não basta aparecer por lá em dia de torneio de futebol (dia, aliás, em que um aluno tentou roubar um celular e algumas alunas levaram caipirinha e ficaram bêbadas… tu acompanhaste os casos, não?). É preciso entrar na sala de aula como professor da turma. Se fizesses isso, verias e ouvirias coisas diferentes…

Por exemplo, saberias que a professora Fulana foi ameaçada de morte por um aluno.

Ou que uma aluna ameaçou a professora Beltrana de agressão.

Ou que dois alunos (da 5ª série) já ameaçaram me bater na rua.

Ou que somos, diariamente, desrespeitados, humilhados e agredidos verbalmente pelas pessoas que tentamos (pode acreditar, nós tentamos) educar.

Pode ser que tu digas agora, professor Belini, que os alunos nos tratarão com respeito se nós os respeitarmos também. Ora, eu sempre trato os alunos com respeito. Sempre tento mostrar-lhes que o respeito e a educação são um diferencial que eles devem ter e que pode ajudá-los a conquistar um lugar ao sol.
Convido-te a assistir às minhas aulas, se quiseres comprovar.

Um abraço, professor Belini, e obrigado pela audiência.

Categories: Educação

One Response so far.

  1. André says:

    Sou professor na rede estadual e não vejo a hora de CAIR FORA!