A baixa escolaridade média dos aspirantes ao mercado de trabalho é apontada como um entrave ao desenvolvimento do Brasil, uma economia em ascensão e cada vez mais carente de mão de obra qualificada. Mas, se fizermos uma criteriosa avaliação dos jovens que saem das nossas escolas, veremos que a falta de alguns anos a mais de estudo está longe de ser o principal problema a retardar o crescimento do país. Muito pior que a baixa escolaridade é a má escolaridade.
A má escolaridade é tão nociva porque incapacita até mesmo aquelas pessoas que alcançam, pelo menos no papel, uma alta escolaridade. Um exemplo significativo é a tragédia dos exames da Ordem dos Advogados do Brasil, em que a imensa maioria dos postulantes, todos bacharéis que passaram pelo menos 15 anos em bancos escolares, é reprovada. E a “culpa” pelo fracasso não pode ser imputada apenas às faculdades de Direito. As raízes do problema só serão desenterradas se retrocedermos alguns anos no histórico escolar dos candidatos até chegarmos ao ensino fundamental, quando eles certamente deixaram de aprender muitas coisas que deviam ter aprendido.
O saudoso jornalista Fausto Wolff, homem de erudição e argúcia notáveis, costumava dizer que devia quase todo o conhecimento que tinha a suas queridas professoras do primário, com quem aprendeu a ler, escrever e pensar, em sua infância pobre na Porto Alegre dos anos 40. Ele estava certo. A base de tudo o que sabemos, as fundações sobre as quais edificamos nosso conhecimento são estabelecidas nos primeiros anos de escola, com a alfabetização, com as quatro operações matemáticas, com o desenvolvimento do raciocínio lógico. Esses alicerces, se bem trabalhados, garantem aprendizado efetivo e maduro pelo resto de nossas vidas. Se mal trabalhados, fazem com que todo o aprendizado posterior seja carente e incompleto.
Fui professor da rede pública por sete anos, nas séries finais do ensino fundamental, e testemunhei a gritante falta de preparo com que os alunos saem dos anos iniciais. Eu não podia usar a maior parte dos textos dos livros didáticos enviados pelo MEC, simplesmente porque os alunos eram, quase todos, incapazes de entender o que estava escrito. A capacidade de interpretação de texto e de escrita vem decaindo ano após ano.
As professoras de matemática da quinta série também não podiam trabalhar os conteúdos próprios dessa etapa, porque eram obrigadas a ensinar as quatro operações básicas, que seus alunos deviam ter aprendido pelo menos três anos antes.
E o que fazíamos com esses estudantes? Éramos pressionados, pela secretaria de educação e pelos pais, a aprovar o maior número possível, independente do desempenho. Aprender, para eles, não é importante. O importante é o avanço.
Uma das causas da disseminação da praga da má escolaridade, além do já conhecido sucateamento da rede escolar e da falta de suporte do Estado, é o nível dos professores das escolas públicas, que está cada vez mais baixo.
Em parte, porque a carreira no magistério, tão mal remunerada, atrai principalmente aquelas pessoas que não conseguem colocação melhor, em parte pela proliferação de cursos de licenciatura caça-níqueis sem qualquer excelência, em parte porque o ciclo da má escolaridade se fechou: empurrado pelo regime de aprovação quase automática, aquele aluno que saiu da escola sem aprender já concluiu seu curso superior, voltou à escola como professor e hoje é (mal) pago para fazer de conta que ensina.
Além disso, há docentes que ensinam mal por opção, fundamentados em teorias pedagógicas messiânicas formuladas por gurus que se dizem progressistas e acreditam que ministrar “conteúdos” é “obedecer à lógica utilitarista e tecnicista do mercado”. Ouvi, em um seminário de educação, um palestrante dizer que, na sala de aula, o conteúdo é o menos importante. Para ele, o importante é “ensinar o aluno a se fazer a pergunta que liberta”. Com isso, ele queria dizer que a formação crítica e política deve preceder o ensino dos conhecimentos básicos. Com ideias assim sendo (mal) implementadas nas escolas, é fácil saber por que diplomamos, ano após ano, tantos analfabetos funcionais.
Enquanto isso, os secretários de educação e a sociedade comemoram o progressivo aumento da escolaridade média e a redução da evasão escolar, mas poucos parecem notar que as crianças e jovens que estão na escola não estão aprendendo.


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Não discordo do post original, contudo acho que é necessário acrescentar um ponto de vista que ouvi, pela primeira vez na TV cultura, da Secretária da Educação de uma das cidades do ABC (não gravei o nome dela B^( ):
nos últimos 20(?) anos a população do ensino fundamental passou de algo como 20 milhões para algo como 60 milhões de alunos. Do ponto de vista de quem provê o serviço [é, eu sei que é uma idéia esquisita] estamos falando de uma operação da mesma proporção proporção que mobilizar exércitos para lutar a segunda guerra mundial. Então, o ensino fudamental está uma bosta? Está, sim, mas a quantidade de trabalho necessária para triplicar a população servida não é trivial e nem pode ser resolvida instantaneamente, dadas todas as restrições políticas e econômicas que devem ser superadas para –real, completa e efetivamente– atender a 40 milhões de novos alunos. Note que este número é maior que a população da maioria dos países do planeta. Dá trabalho, leva tempo, custa, demora, MESMO com governos que estejam comprometidos com melhorar a qualidade de vida dos “de baixo”.
Roberto, essa é uma reflexão interessante, mas a questão está longe de ser apenas de ordem quantitativa.
Sim, há MUITO mais gente na escola agora do que havia há 30, 40, 50 anos. Mas o problema da educação é agravado pela falta de rumo e falta de metas objetivas e verificáveis.
Em nome de uma pretensa “libertação dos oprimidos”, de uma tentativa de conscientização que não funciona do jeito que está sendo feita, abriu-se mão de ensinar os conteúdos básicos, que são IMPRESCINDÍVEIS para formar o alicerce dos conhecimentos e até para conscientizar.
O problema é, principalmente, de postura perante o conhecimento e perante o futuro dos jovens. Para os norteadores de rumos da educação (acadêmicos das universidades e burocratas das secretarias de educação), o importante para o aluno não é estar qualificado para o mercado de travalho; é “ser consciente do seu lugar no mundo”… mas acabamos não fazendo uma coisa nem outra: o aluno sai da escola sem os conhecimentos básicos que qualificam E sem a consciência crítica, pois não é possível conscientizar uma cabeça desorganizada cognitivamente…
Um abraço
Eduardo:
No meu blogue (http://cabreux.blogspot.com/) faço um comentário crítico do teu artigo, que li primeiro em ZH na sexta-feira passada.
Vai lá conferir, se puderes e/ou quiseres, e manda a tua lenha, amigo!
Abraço,
Conrado
conferido, conrado