18 de agosto de 2011

O professor, músico e blogueiro Conrado escreveu um post (para ler, clique aqui) criticando meu artigo sobre “má escolaridade”, publicado na Zero Hora e também postado neste blogue.

Postei, na caixa de comentários do Conrado, algumas ideias que reproduzo aqui, pois elas contêm muito do que eu devia ter dito em outros artigos e não disse:

Conrado

Acho que cometi um erro ao definir o que aqui se estabelece como “disputa retórica”.

Vamos deixar a retórica de lado.

O nosso objetivo aqui não é, ou não deveria ser, apenas vencer uma disputa, no sentido da disputatio que se travava na Idade Média ou dos embates entre oradores na Grécia Antiga.

O nosso objetivo deveria ser, mais do que derrotar quem conosco debate, buscar juntos um diagnóstico e um tratamento para um problema crônico da nossa educação.

Vamos falar de problemas concretos e verificáveis, que estão aí, gritantes, nas nossas escolas?

1) As crianças estão saindo da escola (formadas) sem aprender quase nada. Isso é grave. Gravíssimo. Nem sempre foi assim. Acredito que esse problema deve ser encarado e resolvido. Alguns pedagogos dizem que reprovar não resolve. Pode ser. Mas hoje quase não se reprova e o aprendizado está cada vez pior.

Vou contar uma história real: uma vez, passamos o ano inteiro tentando fazer com que um aluno da sétima série estudasse. Envolvemos os pais, tentamos conscientizá-lo, não adiantou. Dissemos que se ele continuasse sem interesse pelo estudo, acabaria perdendo o ano, etc. No fim do ano, ele foi empurrado para a série seguinte, mesmo sem aprender – porque a secretaria de educação nos pressionava, sempre, a reduzir o índice de reprovação a qualquer custo, mesmo que no canetaço. No ano seguinte, lá estava esse aluno na oitava série, e novamente sem qualquer interesse. Dissemos que, se ele pretendia se formar, teria de aprender o que estávamos ensinando. Sabe o que ele disse? “Foi isso que vocês me disseram no ano passado, e eu tô aqui”.

Não sei se a reprovação é o melhor caminho para evitar a diplomação de analfabetos funcionais. Talvez não seja. Mas aprovar qualquer um, de qualquer jeito, como se faz na maioria das escolas gaúchas, NÃO TEM FUNCIONADO. Temos de achar uma outra solução.

Uma das saídas que proponho é tratar o conhecimento e o aprendizado  com mais seriedade. Aprovar todo mundo, independente do aprendizado, demonstra grave desrespeito, por parte da escola, pelo conhecimento. O que fica, na mente do aluno? Ao ver colegas que não aprenderam e não se interessaram serem aprovadas, a criança percebe que a própria escola não se importa muito com o conhecimento.

2) Você dizer que tem dúvidas quanto ao fato de a interpretação de textos ser uma habilidade que se deva aprender no ensino fundamental me deixa deveras chocado. Claro que não espero que um aluno de primeiro grau tenha como livro de cabeceira a Crítica da Razão Pura de Kant. Mas estou falando em interpretação mínima, em raciocínio lógico, em saber perceber o fio da meada em um texto minimamente inteligível…

É isso que os alunos de hoje não aprendem mais. É verificável. Pegue uma turma de oitava série dê um texto. Como disse no artigo, eu não podia usar os livros didáticos porque os alunos não conseguiam entender os textos. Isso nem sempre foi assim… quando eu estudava no primeiro grau, em uma escola pública, de 1988 a 1995, nós éramos capazes de entender os textos, porque tivemos uma alfabetização sólida e efetiva.

Sei que a minha querida professora Roseana, que me alfabetizou, seria hoje queimada como herege nas faculdades de Pedagogia. Mas ela conseguiu, isso é FATO, nos alfabetizar. E bem. Devo a ela boa parte da minha capacidade de interpretar e de construir um texto.

Quando eu entrei nas duas faculdades que concluí, eu sabia pontuar um texto. Aprendi já no ensino fundamental, e aperfeiçoei no ensino médio. Não que todos devam fazer o mesmo caminho. Nunca é tarde para se aprender, nada impede que se aprenda em qualquer momento da vida. Mas o nosso sistema educacional não tem gerado condições para que isso aconteça, simplesmente porque está se disseminando a cultura de que isso (saber ler e escrever BEM) sequer é necessário.

3) Seus calafrios ao ouvir a expressão “mercado de trabalho” me enchem de calafrios. Me entristece saber que ainda temos essa visão negativa da preparação para o trabalho. Sim, nossa sociedade neoeuropeia (como lembraste) tem no trabalho um de seus pilares, e não precisamos (nem podemos) fugir disso. Aliás, os próprios alunos têm uma opinião bem séria sobre isso. Eles SABEM que terão de se integrar à ciranda do mercado de trabalho. Nem todos têm a consciência de que os conhecimentos obtidos na escola poderiam lhes ser muito úteis nessa ciranda, mas o que vamos lhes dizer se há até setores da pedagogia e do magistério reforçando essa descrença na preparação para o trabalho?

Já ouvi muitos dizerem que não devemos preparar os alunos para o trabalho e sim para a vida. Como se fosse possível separar uma coisa e outra. O que vejo é que muitos querem “libertar os oprimidos” mas não percebem que esse é um discurso retrógrado, de um tempo em que as teorias pedagógicas progressistas eram feitas com o objetivo de conscientizar o povo contra a a opressão da ditadura.

Hoje, ser oprimido é não ter condições de lutar por um lugar ao sol. Lembra daquele aluno que nós empurramos para a oitava série e que jogou isso na nossa cara? Nós o condemamos à falta de qualificação. Nós, professores, com a nossa conivência, o condenamos a não poder ser mais do que servente de pedreiro. Claro que ele poderá fazer um EJA, estudar à noite, se dedicar e conseguir algo melhor. Mas ele não fez isso. Talvez nunca faça. Porque, quando ele estava com o caráter em formação, quando deveria estar aprendendo que o conhecimento é coisa séria e de muito valor para a vida, as pessoas que deveriam lhe ensinar isso apenas lhe deram um certificado de conclusão, sem que ele tivesse aprendido sequer um terço do que deveria aprender para merecê-lo.

Categories: Educação

2 Responses so far.

  1. Ivalino Scanagata says:

    Caro colega Eduardo, permita que meta minha colher neste angu, sempre com o respeito e a admiração que tenho por você.Li o texto de Conrado e devo dizer que sou obrigado a concordar com ele. Aliás, ele disse exatamente o que eu gostaria de ter dito.Não vou entrar numa discussão técnica ou aprofundada como a de vocês. Quero apenas expor um pouco da experiência que acumulei nos meus 35 anos de magistério. Entendo e acho válida tua preocupação pela aprendizagem que deveria vir junto ao certificado. Tenho certeza que essa preocupação não existe nas escolas militares, por exemplo. Entendo que lá os alunos aprendem “na marra”. Por isso, lembrei que eu e você temos a mesma experiência, embora em épocas bem diferentes: estudamos em seminário. Lá estudei no Primário, Ginásio e Médio.Estudava-se praticamente em tempo integral: todas as manhãs, duas tardes e estudo livre à noite e sábados ( às vezes até domingos… ).O importante é que o estudo era quase uma obsessão.A média para aprovação era 70(embora isso não diga muito). Quem não entrasse no esquema era reprovado, embora a média de reprovação ficasse em 1 ou 2%.E, mais, quem não se ajustasse seria convidado a “ir à mussa”, ou seja ir embora para a casa dos pais (literalmente, “pegar a mula e ir-se”).Além da sala de aula, haviatempo para teatro, música, coral… Por que retomo essa época? Não por saudosismo, mas porque me parece que a qualidade na aprovação que alegas só seria alcançada numa escola que reproduzzise o seminário ou a escola militar. Se não vejamos: quando comecei a trabalhar na Frei Pacífico ( ainda não era administrada pela Prefeitura), éramos 6 ex-seminaristas e implantamos um regime semelhante ao que havíamos tido no internato. Para exemplificar: iníco da aula 12:30h; final 17:45m, sendo que o último período era sempre Ed.Física. Afirmo-te que a reprovação era mínima ( oitava série 1 ou 2, às vezes nenhum) e não se aprovava por outra razão que não fosse aproveitamento. O que houve então? O governo FHC ( e o fez em boa hora)aprovou a tal lei que obriga a frequência à escola a todos com idade até 16 anos, sob pena de prisão dos pais, diretor da escola ou autoridade responsável pela educação… Outras providências foram tomadas: livro didático gratuito,FUNDEF… e aí? Todos para a escola. Todos sabem que esse ambiente não é dos mais apreciados. Não fosse assim, as reações, em vez de festa seriam de lamentações diante de feriados ou dia sem aula. E a maioria dos que a escola não lhes diz nada, o que iriam fazer lá? Não tendo nada a perder fariam tudo, menos estudar ou deixar que estudem. ( É o caso daquele aluno que citaste, aprovado sem condições…) A conclusão é simples: escolas cheias sem as m´nimas condições deu no que deu. Além disso, o ECA que foi interpretado como “o vale tudo em favor do aluno” inverteu a ordem da palavra.E não adianta culpar o desinteresse dos professores porque esse veio, em geral, diante da quase impossibilidade de bons resultados. E não me venham com “analfabetos funcionais”, porque, você mesmo, que não é um deles, colheu bons resultados nas suas disciplinas? A reprovação em massa tornaria as escolas como presídios, pois cada 100 alunos que entram, saem com o curso concluído, 20. Nos últimos anos em que trabalhei ( 2007,2008) quase enlouqueci. Perguntava-me: “o que é que eu estou fazendo aqui?” ( Obviamente, no ensino fundamental, não no médio).Por isso, meu caro colega, parece-me que a solução para uma aprendizagem não está apenas na reprovação e não adianta dizer que a SEC obriga reprovar, porque o professor é autônomo nese quesito… Outro detalhe,você ouviu falar alguma vez em agressão e ameaças de alunos a professores antes disso?
    Um abraço e parabéns pela atuação como jornalista. Aí não corres o perigo de enlouquecer.

  2. [...] mas na maioria dos casos, eu era impotente para lutar sozinho contra a estrutura. Como eu disse no post anterior, melhorar a situação só será possível com um pacto que comprometa muitos atores de todos os [...]