
Dos muitos absurdos capazes de estarrecer qualquer pessoa que não seja brasileira (nós perdemos a capacidade de nos surpreender, tal a profundidade da fossa em que estamos imersos), um dos mais embasbacantes é a indiferença com que o poder público e parte da academia encaram a enorme quantidade de crimes cometidos por adolescentes dentro e fora de nossas escolas.
Não estou falando de furtos, homicídios e colaboração com o narcotráfico. Falo de crimes igualmente previstos em lei, com punições e tal, mas que são tidos por aspones e pedabobos como “coisas normais de adolescente” .
Hoje, a Zerohora.com traz na capa do site a seguinte matéria:
Pais se queixam de punição dada a filho em escola de Viamão
O texto relata um crime ambiental (inafiançável, portanto) praticado em uma escola pública do alvissareiro município de Viamão (não foi na minha! eu juro!), onde um adolescente de 14 anos, aluno da sexta série (sim, da sexta – com essa idade) pichou o muro do estabelecimento. O requinte de crueldade: a superfície pichada pelo menor tinha sido recém pintada pela comunidade, como resultado de meses de campanha para arrecadação do dinheiro empregado na compra da tinta.
Constatada a pichação e identificado o pichador, uma das professoras do educandário tratou de tomar a medida socio-educativa mais branda: mandou-o pintar a área vandalizada. O pecado mortal cometido pela educadora: ela chamou o querido aluno de “bobo da corte” enquanto ele pintava o muro, e isso foi captado pelas câmeras de colegas que filmavam o nobre gesto do pichador. Os pais ficaram sabendo e foram exigir explicações. Afinal, agir como pichador e cometer um crime inafiançável é um ato justo e nobre. Chamar o autor de tal vilania de bobo da corte é a mais hedionda das maldades. Que maldita inversão de valores é essa?
Uma olhadela na lotada caixa de comentários da matéria da ZH mostra que a imensa maioria dos leitores defendem a professora e criticam a permissividade dos pais que acobertam atos como esse.
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Nossas escolas parecem um beco tirado de um filme policial nova-iorquino dos anos 80. Já mostrei, em um post anterior, o estado das paredes e das carteiras de uma das escolas em que trabalho. Se os vândalos que as picham quiserem fazer isso de novo, precisarão pedir à prefeitura carteiras novas e pintura nova nas paredes, ou usar tinta branca para pichar, pois já não há espaço para novos vandalismos. E por que isso acontece? Porque a pichação não vem sendo tratada como o que é: um crime. Cri-me. C-R-I-M-E.
Não é brincadeira de criança. As leis (e as punições para os que as descumprem) existem para que a vida em sociedade seja possível. Isso não é autoritarismo; é entender que nem toda repressão é má. A repressão aos nossos instintos de destruição é uma condição sine qua non para a coexistência com nossos semelhantes.
Além da pichação, vejo, todos os dias, muitos outros crimes sendo cometidos por adolescentes: agressão, extorsão (que outro nome merece o ato de obter vantagens dos colegas mediante ameaças de agressão?) , desacato a servidores públicos (acredite, isso é crime), atentado ao pudor, assédio sexual, difamação e calúnia, ameaças de todo tipo.
Se um adulto fizer todas essas coisas, ele está sujeito a ser processado, preso, punido com privação da liberdade, multa ou prestação de serviços públicos.
Quando um adolescente faz todas essas coisas (e eles fazem várias vezes por dia), o que acontece? Nada. E ainda temos que ouvir aspones nos dizendo que é preciso “aprender a conviver”, “entender o diferente”, “ouvir o que eles têm a dizer”.
É assim que se perpetua uma estrutura de violência. Façamos de conta que os criminosos não existem, e pode ser que um dia eles deixem de existir.
O Drummond que me perdoe pelo plágio, mas esta vida besta, meu Deus.

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Tens razão, meu estimado amigo!!! Por essas atitudes permissivas dos pais que as unidades da Faseestão superlotadas!!! Começa aí…
O diagnóstico é terrível, o prognóstico é catastrófico. E isso não é só uma questão de educação, é uma questão de cultura, é um câncer generalizado em uma nação sem a mínima disposição para lutar contra a doença.
A gente sabe que está fodido quando acreditar em uma pequena melhora – por menor que seja ela – nos parece utópico demais.
Só matando!
p.s. já era hora de atualizar essa bagaça.
“Só matando!”? Como assim?
Concordo com muita coisa aqui, especialmente no que se refere a eximir por completo a culpa de quem já faz merda desde cedo. Mas tu, Edu, que convives com o problema diariamente, deves saber que aplicar uma lei rigorosa não muda o cenário. Nossas periferias são fábricas de delinquentes. O que fazer? Prender todos? MATAR todos?
Penso que parte desse olhar relativista apregoado pela academia – o qual repudio, mas não por completo – se justifica por lembrar que somos parte do problema, porque somos peças da mesma máquina que cria empreendedores e blogueiros aqui e delinquentes lá.
Mais uma vez: concordo que não deve ser feita vista grossa. A cobertura jornalística desse caso pode se tornar um desserviço, porque pode incentivar o aluno a fazer mais do que já vinha fazendo: desrespeitar o outro e o que é do outro. Mas não é apenas via violência estatal – embora ela faça, sim, parte da solução – que se resolve um problema social.
Cara, o que temos que fazer é, em primeiro lugar, tratar delitos e crimes como delitos e crimes: algo inaceitável e passível de punição – tanto os cometidos pelo joão ninguém quanto os praticados pelos políticos e milionários.
Aplique-se a medida socioeducativa apropriada, como, por exemplo, a adotada pela professora de Viamão: pintar a parede vandalizada.
O que não se pode é reproduzir o ambiente de permissividade que se instalou por aqui como resistência à antiga ordem ditatorial pré-1985.
É evidente que o “só matando” que eu disse não foi sério. Aliás, foi só uma sujestão que me deram enquanto postava o comentário – né, Dudu?.
Matar – por mais que às vezes isso até pareça pouco – não é a solução. Concordo com o Eduardo quando ele diz que o delito deve ser encarado como delito e que deve-se aplicar a punição correta a ele.
Aplicar a medida socioeducativa apropriada é o correto a se fazer, e é justamente esse o ponto a que me refiro quando digo que não estamos dispostos – ou não somo capazes – de lutar contra a doença. A discordância entre quais são as medidas corretas é que nos afundam ainda mais nessa fossa.