blog-revolucao

Eu sempre achei que aquelas frases de críticos/veículos reproduzidas nas capas de livros ou DVDs eram dignas de algum crédito. Por isso, ao pegar na livraria o livro “Blog; Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”, de Hugh Hewitt, e ler na contracapa a frase “Hugh Hewitt é o historiador não-oficial do movimento blogueiro”, assinada pelo The Wall Street Journal, pensei: “Vou levar!”

Depois de ler a obra (na verdade, li há alguns meses), tenho uma opinião bem definida sobre o jornal de Wall Street: ou eles não leram o livro, ou não entendem lhufas do movimento blogueiro.

E nem estou falando das absurdas convicções políticas e ideológicas do autor. Para mim, na hora da compra, não importava que Hewitt fosse um dos porta-vozes da direita cristã-militarista americana. Nos EUA, a blogosfera é coisa de gente grande, e lá tanto a direita quanto a esquerda descobriram há algum tempo o poder político de um bom blog. Logo, o livro poderia ser bom mesmo se escrito por um radialista fanático que deve ter a frase “I Love Dicky (Cheney)” tatuada na nádega direita.

O problema é que “Blog” quase não  trata do conceito de bl
og. O incensado “historiador” quase nada fala sobre a consolidação dos blogs, sobre o que os diferencia da mídia tradicional e, quando tenta fazer isso, chega a conclusões absurdas. Hewitt usa as mais de 260 páginas do livro tão somente para expor sua visão de mundo e para fazer propaganda dos blogs que aprecia – principalmente do seu.

Tudo de relevante da obra de Hewitt caberia em dez páginas, no máximo. Eu disse “dez”? Cinco! E, mesmo assim, essas páginas seriam destinadas a pessoas que passaram os últimos dez anos congeladas numa câmara criogênica e despertaram, de repente, num mundo onde havia blogs.

Quando Hewitt tenta fazer jus ao rótulo de “historiador” que vem na contracapa, o resultado é sofrível
. Como no capítulo em que compara o movimento blogueiro à Reforma Protestante. A analogia, em que os blogueiros seriam os seguidores de Lutero e a mídia tradicional seria a Igreja Católica, é válida. O problema é que, ao invés de desenvolver essa comparação e explorar suas dobras e nuances, Hewitt, um protestante engajado, passa o capítulo inteiro contando detalhes irrelevantes da vida de Lutero, sua conversão e sua doutrina. Logo, a analogia não foi colocada lá para explicar a blogosfera, e sim para tentar fazer com que os leitores encontrem Jesus.

Isso também é visto nas muitas páginas em que ele cita e indica blogs cristãos. A citação até teria sentido, se o autor, ao invés de colar longos trechos de sermões de pastores (sim, ele faz isso), explicasse como um blog pode ajudar uma igreja a difundir sua mensagem.

Mas o pai-de-todos-os-absurdos vem agora, leitor:

Para Hugh Hewitt, pasme, o grande diferencial dos blogs em relação à grande mídia não é o formato blog, mas sim a não-adesão dos blogueiros à conspiração da imprensa para derrubar o governo Bush. Está lá, repetido e repetido em várias passagens. Hewitt afirma que TODA a grande mídia americana (com exceção da Fox News e de algumas rádios) é uma colossal coalizão de esquerda e, em alguns casos, de extrema-esquerda.

O mais interessante é a justificativa que ele dá para tal “esquerdismo” da imprensa. Para ele, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Não, isso não é uma ilusão de ótica. Está lá, nas páginas de “Blog: Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”. Para não deixar dúvidas, vou repetir:

Para Hugh Hewitt, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Ler isso é o suficiente para queimar um livro, não? Eu venci meus impulsos hitleristas e li até o fim. Não recomendo que você faça o mesmo.

Ao chegar à página 261, estava com três certezas em mente:

1) Hugh Hewitt é um asno.

2) Na próxima vez que a Thomas Nelson quiser editar algo sobre a blogosfera, deveria chamar a Yoani Sánchez ou, vá lá, o Cardoso.

3) O Wall Street Journal me deve uma grana.

[O post foi atualizado (na especulação sobre a frase que Hewitt mandou tatuar na nádega direita)]

[Imagem: divulgação]

Categories: Comunicação

8 Responses so far.

  1. Marcio Dolzan says:

    Eu sou jornalista (agora posso assumir, caiu a obrigatoriedade do diploma) mal pago e sou fã dos Democratas. Não digo que tenha inveja dos burocratas, mas sim dos seus salários. Em tempo: creio que o melhor lugar para se encontrar bom material impresso sobre blogs sejam as bibliotecas de monografias, dissertações e teses…

  2. Sabe que tem uma frase que começou bem promissora sobre o conteúdo do livro: “o grande diferencial dos blogs em relação à grande mídia não é o formato blog, mas sim a não-adesão dos blogueiros (…)”. Proponho substituir o final catastrófico por algo como: “(…) aos compromissos que a mídia comercial, por suas características comerciais, é obrigada a aderir. Eles não (necessariamente) têm compromissos com o senso comum, nem com (a chatice do) bem-estar social, nem com (a tentativa de) equilíbrio de posições representadas, por exemplo.”

    • Eduardo Nunes says:

      Na real, eu quis dizer praticamente a mesma coisa que tu, xará.

      Com “formato blog”, eu não quis dizer “site de posts e comentários”. Eu quis dizer “veículo que disponibiliza conteúdo gerado ou recomendado pelo próprio dono, em tom pessoal e de interação direta com os leitores”.

  3. André HP says:

    Salve rapaz! Agradeço a visita no meu blog. Compartilhamos o gosto por Paulo Freire, só discordo com a parte do Jesus Cristo.

    Sobre o Post
    Incrível como, agora, a academia está levando a sério a cibercultura. Começaram a surgir livros nesse estilo.

    Forte Abraço!

  4. Tatiane says:

    Isso me fez lembrar que outro dia quase comprei um livro (não era esse do Hugh Hewitt). Em vez de comprar, anotei título e autor para perguntar a alguns conhecidos o que achavam. Depois de algumas boas referências sobre “Uma Breve História do Século XX” (Geoffrey Blainey), vou comprá-lo na próxima visita a uma livraria.

  5. Pedro Heberle says:

    “I love Dicky” foi impagável!!

    Não basta ser na nádega; tem que ser na direita, claro.

  6. Lucho says:

    Meu Deus. Que lixo de livro. E no submarino tem uma comentarista que disse mais ou menos tudo isso que você disse.

    Duas coisas que me chamaram a atenção no texto:

    “O mais interessante é a justificativa que ele dá para tal “esquerdismo” da imprensa. Para ele, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.”

    Segundo os meus parcos conhecimentos da política americana, o partido republicano é o partido mais popular. O partido democrata é o partido dos grandes industriais e fazendeiros.

    “Para Hugh Hewitt, pasme, o grande diferencial dos blogs em relação à grande mídia não é o formato blog, mas sim a não-adesão dos blogueiros à conspiração da imprensa para derrubar o governo Bush. Está lá, repetido e repetido em várias passagens. Hewitt afirma que TODA a grande mídia americana (com exceção da Fox News e de algumas rádios) é uma colossal coalizão de esquerda e, em alguns casos, de extrema-esquerda.”

    Pelo visto ele deve ser o Olavo de Carvalho dos americanos, que também acha que a mídia só tem comunista. Será que nos EUA tem um site semelhante ao Mídia Sem Máscara?

    E foi interessante ele ter ignorado a Fox (notório canal republicano e conservador) do tirano bilionário Rupert Murdoch (republicano, e dos mais conservadores).

    E o pior é que eu estava pensando em comprar esse livro. Mas depois da resenha.

    Se era para ter falado da blogosfera americana, poderia ter pedido para o cara do BoingBoing, ou do The Huffington Post, ou o Markos Moulitsas (a melhor alternativa), ou o Darren Rowse (que cunhou o termo problogger).