A paternidade e o cuidado

17 de julho de 2017 #paizices, ,

Sempre que um amigo ou conhecido pergunta como está a paternidade, a primeira palavra que me sai da boca é:

— Assustadora…

A pessoa geralmente fica desconcertada e eu logo emendo, pra tranquilizá-la:

— … mas maravilhosa.

Ser pai é mesmo uma experiência maravilhosa (a cada dia mais), mas tem, sim, um quê de assustador. Nada que a gente tenha lido ou vivenciado em terceira pessoa nos prepara para o pavor que dá ter um bebê de dias no colo, chorando a plenos pulmões de madrugada, sem que façamos a menor ideia do que possa haver de errado com ele.

Leva algum tempo até aprendermos a identificar, pela frequência e pela intensidade, o choro correspondente a cada demanda, e, mesmo quando se consegue decifrar as causas mais comuns de desconforto, a experiência mostra que sempre surge algo novo e desconhecido. Será cólica? Será fome? Será dor de ouvido? Ele está com febre? Será que a fralda está muito apertada? Será sono? Frio? Calor? Ou será apenas tédio? Cada vez mais, à medida que o tempo passa e a nossa relação com aquele serzinho se aprofunda, aprendemos a conhecer, pelos sons e pelo próprio semblante, o tipo de cuidado que ele exige em cada momento.

A palavra é esta: cuidado. Ser pai é vestir-se de cuidado, é impregnar-se de cuidado. Desde sempre. Desde que o sinalzinho que indicava o resultado positivo apareceu naquela tira de papel do exame caseiro de gravidez, cuidar do meu filho tornou-se uma das dimensões fundamentais da minha vida.

Foi aí que essa missão de cuidado e proteção se imiscuiu com o medo e com a preocupação – o que, imagino, durará para sempre. Cada consulta do pré-Natal, cada ultrassom em que víamos nosso pedacinho de gente se formando, cada desconforto da Mamãe durante a gestação era um flerte com o medo de que alguma das milhões de coisas que podiam dar errado desse errado.

E, às vezes, as coisas dão errado. Como quando nosso menino, minutos depois de sair do ventre da Mãe, antes mesmo que pudesse vir para o nosso colo, teve uma febre detectada e foi encaminhado com infecção ao CTI Neonatal, onde ficou aos cuidados da equipe médica por treze dias que duraram, para nós, uns treze anos. Mas praticamente tudo, para nós e para o nosso filho, tem dado certo desde então. O Pedrinho foi pra casa, naquele lindo domingo de novembro, encher nosso lar e nossas vidas de incertezas e de medo, mas também, e principalmente, de alegrias e de amor.

A cada dia, muitos aprendizados, e uma das mais importantes lições é que não existe um dia igual ao outro. Fazê-lo dormir, se alimentar ou se distrair não tem receita pronta e às vezes o que parece ser uma técnica infalível, que testamos e comprovamos tantas vezes, simplesmente não funciona. O cuidado precisa ser inteligente. Não existe piloto automático com o Pedrinho: ele exige um cuidado perspicaz, de improviso, que se molde de acordo com seu humor e com seu estado de ânimo em cada momento.

Essa é uma das milhares de coisas que fazem ser tão assustador, mas tão maravilhoso, conviver com o meu filho. E cuidar dele. É cansativo, é desafiador, mas é a única vida que quero viver – desde que descobri, naquele sábado de março de 2016, que eu já podia me considerar um pai.