Acredito que aquela historinha, tão repetida, de que somos um povo honesto e trabalhador oprimido por uma classe política cretina já foi superada.

Pelo menos em círculos mais esclarecidos, todos parecem concordar que só temos um Congresso com alto percentual de corruptos porque somos um povo com alto percentual de trambiqueiros. A ideia, aliás, foi muito bem sintetizada pela Letícia Duarte em um artigo na Zero Hora.

Ontem, ao voltar do trabalho, dei-me conta, muito tardiamente, de mais uma dimensão da engrenagem que reproduz e legitima o tortuoso “sistema ético” que compõe nosso imaginário popular (digo tardiamente porque não gosto de samba e, por isso, nunca tinha reparado nas letras desse gênero musical tão arquetipicamente brasileiro, tão definidor da identidade nacional).

Madrugada chuvosa em Porto Alegre. No  carro da firma, cinco pessoas semi-silenciosas e um aparelho de GPS tocando uma playlist de samba escolhida pelo motorista. Em silêncio, comecei a reparar no que cantavam aqueles artistas populares, alguns desconhecidos para mim, assim como algumas das canções.

A primeira das músicas, que eu nunca tinha ouvido, se dedicava a falar mal do “caguete”, o cara que dedura à polícia os contraventores do morro, tanto os grandes contraventores (traficantes) quanto os pequenos contraventores (os usuários de drogas ilícitas). Repare, leitor, na ética por trás disso. A contravenção da lei é exaltada; o cara que denuncia a contravenção é o vilão da história.

Depois dessa, vieram duas músicas que eu conhecia, e lá estavam os intérpretes falando mal, outra vez, do caguete.

Assim cantou Bezerra da Silva, no GPS do motorista da firma:

“Mas você não está vendo que a boca tá assim de corujão? Tem dedo de seta adoidado, todos eles a fim de ferrar os irmãos. Malandragem, dá um tempo. Deixa essa pá de sujeira ir embora. E é por isso que eu vou apertar, mas não vou acender agora.”

Encarnando o personagem que aperta um baseado mas tem medo de fumá-lo na frente dos policiais e dos caguetes, o artista se refere aos agentes da lei e aos seus informantes como “pá de sujeira”.

O debate sobre a criminalização do uso de drogas é, por si só, tema para vários outros posts. Aqui, me restrinjo a dizer que não posso apoiar um hábito que, além de ser prejudicial à saúde e ao sistema público de saúde, sustenta (e, por isso, implica em cumplicidade com) uma rede criminosa responsável por milhares de pequenas e grandes atrocidades perpetradas todos os dias.

Voltando ao carro da firma…

Depois de Bezerra apertar seu baseado, foi a vez de Diogo Nogueira repetir, exaustivamente, que “malandro é malandro e mané é mané”. A certa altura, os caguetes voltaram a “sofrer bullying”:

“Já o Mané, ele tem sua meta. Não pode ver nada, que ele cagueta. Mané é um homem que moral não tem.”

Percebemos aqui a inversão moral: na ética do malandro, o vilão não é quem burla a lei estabelecida, mas quem denuncia os que burlam a lei estabelecida.

Todos já passaram por isso na escola ou no trabalho. Existe um código ético tácito, que todos assimilam rapidamente ao começar a participar dos grupos sociais, que diz que não se deve dedurar os colegas que desobedecem às normas de conduta.

A ideia é: não devemos ser leais ao Estado, à empresa ou ao grupo formal de que fazemos parte, mas ao grupo informal formado por nós e nossos iguais. As instituições são vistas como  inimigas, como entidades opressoras, que podem e devem ser ludibriadas pelo malandro e seus amigos.

E todos querem ser malandros ou amigos dos malandros, como me ensinou Diogo Nogueira:

“Malandro é o cara que sabe das coisas. Malandro é aquele que sabe o que quer. Malandro é o cara que tá com dinheiro e não se compara com um Zé Mané. Malandro de fato é um cara maneiro que não se amarra em uma só mulher.”

A riqueza de significado dessa estrofe é impressionante. Renderia teses de Antropologia e Sociologia.

O malandro “tá com dinheiro”. Como um malandro, por definição, não é muito afeito ao trabalho, o que ele faz para conseguir dinheiro? A ideia, tão cara aos políticos corruptos, de se ganhar muito dinheiro sem esforço, mesmo que isso signifique (e quase sempre significa) cometer crimes, está entalhada no DNA do malandro arquetípico, o herói da nossa mitologia, o tipo de pessoa que todo brasileiro quer ser.

Além disso, o malandro “não se amarra em uma só mulher”. Mas as mulheres se amarram nele. Nas canções, nos filmes, nas novelas e na vida real, o malandro sempre se dá muito bem com as mulheres. O verso citado acima, além de fazer apologia ao adultério, retrata uma das recompensas que o malandro ganha por agir com malandragem.

Que homem não lembra do início da adolescência, quando começa a sua “caçada” pelos melhores espécimes do sexo oposto? Na escola ou nas festinhas do seu grupo de amigos, quem eram os preferidos das gurias, leitor? Os malandros.

Nós, homens, aprendemos desde o início da puberdade que ser malandro (com tudo que isso implica) é um dos pré-requisitos para ser bem sucedido no sexo – e até nas amizades.

Já o mané, o vilão da canção de Diogo Nogueira (sim, eu sei que não é ele o compositor nem o primeiro intérprete, mas não faz diferença), sempre se dá mal com as mulheres:

“Mané é um homem que moral não tem. Vai pro samba, paquera e não ganha ninguém“.

Mas a desgraça do mané não se restringe à falta de sorte no amor:

“Está sempre duro. É um cara azarado. E também puxa o saco pra sobreviver.”

Ao contrário do malandro, que sempre dá um jeito de conseguir dinheiro com a sua esperteza e moral flexível (para usar um eufemismo), o mané está sempre duro. E tem de puxar o saco para sobreviver.

Mais uma vez, voltemos à escola, leitor, para exemplificar outro pilar do imaginário brasileiro.

Lembra daquele seu colega que estudava, fazia o dever de casa, prestava atenção às explicações do professor e lhe fazia perguntas? Como esse aluno era chamado pelos colegas? Um dos seus epítetos, certamente, era “Puxa-saco”. E o Puxa-saco é um dos vilões de qualquer grupo, na ética do malandro.

Mais tarde, na empresa, você começou a conviver com alguns colegas de trabalho que cumprem os horários, fazem as tarefas que lhes são pedidas e até algumas que não são pedidas, dão sugestões ao chefe, se oferecem para participar de forças-tarefa e para fazer horas-extras quando necessário. Como eles são chamados? Puxa-sacos, Caxias, Baba-ovos, etc.

Num sistema ético em que, na visão do malandro, a instituição (seja a escola, a empresa, o governo) o oprime, os que agem com honestidade são considerados vilões, são imbecilizados, viram motivo de piada.

E, no contexto da produção artística brasileira “de raiz”, não é só o samba que retrata essa adesão em massa à ética do malandro.

Tomemos, por exemplo, as telenovelas.

Em novela, os mocinhos, manés, que são honestos, trabalhadores, sinceros e abnegados, passam o tempo todo se ferrando. O vilão, malandro, sem escrúpulos, desonesto, se dá bem a maior parte do tempo, e só é punido (e às vezes sequer é punido) no fim. Mas será que essa punição tem impacto sobre a opinião do espectador a respeito de certo e errado?

Numa novela que se desenrole por, digamos, seis meses, o vilão, malandro, passa cinco meses e três semanas ganhando dinheiro, obtendo os melhores cargos no trabalho, ficando com as melhores mulheres, angariando simpatias e rindo das desgraças do mocinho. Tudo parece dar certo para o malandro, como no samba.

Já o mocinho, mané, sofre por cinco meses e três semanas. Perde oportunidades profissionais, sexuais, é vítima de armações, é ridicularizado por todos, em especial pelo malandro. Na semana final, o mané dá a volta por cima, mas será que, aos olhos do espectador, uma semana de felicidade tem mais peso que 23 semanas de infortúnios?

Será que ser mocinho compensa, segundo as telenovelas, o samba e a vida real?

No país do jeitinho, da ética do malandro e da Lei de Gérson, parece que não. É desanimador viver num lugar assim.

Na próxima vez, vou levar um fone de ouvido e ouvir rock and roll no carro da firma.

[O post sofreu ajustes na formatação]

Atualização:

- O amigo jornalista Demétrio Pereira me lembra que não adianta ouvir rock and roll para escapar da apologia à desobediência das leis. Sim, ele tem razão. A opção pelo rock, no texto, funciona apenas como recurso estilístico. A transgressão das leis e a afronta ao “sistema” está presente no rock até mais que no samba – e é um tema recorrente em todas as formas de arte.

- Não estou, como insinuou o Demétrio em seu e-mail, propondo uma “censura artística”. Concordo com ele quando, citando a Escola de Frankfurt, me diz que toda manifestação artística é também política e os produtos culturais influenciam, de um modo ou de outro, os seus consumidores. A saída para evitarmos a sujeição das “massas” (termo tão démodé) aos ditames da indústria cultural está na educação. Só com instrução, “esclarecimento” e consciência crítica as pessoas poderão discernir entre valores benéficos e nocivos e fazer suas escolhas éticas com liberdade e racionalidade.

- De Roma, o padre Luciano Motti escreve que o malandro e o caguete estão no mesmo nível, e que a minha defesa do “dedo-duro” está equivocada. Reconheço que o texto dá margem a essa interpretação. De fato, há indivíduos que usam a “caguetagem” como meio de obter favorecimentos e vantagens pessoais. Estes seres nada mais são que malandros que se valem desse artifício para “se dar bem”. Obviamente, não é desse tipo de pessoa que estou falando quando defendo que se denuncie a contravenção.

- Demétrio e Pedro Heberle tocma em outro ponto interessante: a postura da polícia nos morros cariocas, nascedouro do samba, e nas periferias brasileiras em geral, não é exatamente um exemplo de retidão moral e dá vazão a uma resistência por parte dos moradores dessas comunidades. Mais uma vez, concordo com meus críticos, em parte. Ao defender os policiais como “defensores da lei”, eu estava me referindo apenas aos que realmente agem como tal, e não aos malandros que usam a farda para obter vantagens.

Vivendo no país do medo

Escrito por Eduardo Nunes 0 Comentário

Há pouco, na Avenida Protásio Alves, em uma faixa de pedestres sem sinaleira, uma senhora e um cadeirante, um de cada lado da via, tentavam atravessar.

A mulher fez, com o braço, aquele sinal propagandeado pela prefeitura de Porto Alegre, implorando aos motoristas que parassem e lhe dessem passagem segura.

Os veículos pararam, a senhora começou a atravessar, o deficiente também, mas um pouco mais tarde.

Enquanto eles cruzavam a avenida, um Chevette veio costurando por entre os veículos parados e quase atropelou o cadeirante, freando sobre a faixa.

O homem continuou a travessia que quase lhe custou a vida, enquanto o motorista do Chevette praguejava. Havia uma faixa de pedestres pintada sob o seu carro parado.

Dá medo viver num país assim.

E então você acessa, em 2011, o blogue de uma jornalista de vinte e poucos anos e lá ela diz que é de esquerda.

Ou dá uma olhada na BIO do Twitter de outra jovem jornalista, e ela, mais precisa, se define como socialista.

Isso não é de forma alguma uma caça às bruxas macarthista no meio jornalístico; o fato de serem ambas jovens jornalistas do sexo feminino e se dizerem de esquerda é pura coincidência. Esquerdistas, os encontramos em quase todos os ramos da atividade humana. Direitistas, mais ainda, a diferença é que eles raramente usam a palavra “direita” quando definem a si mesmos.

A pergunta que faço é: ainda faz sentido usar tais expressões?

O que é, hoje,  ser “de esquerda” ou “de direita”? Como saber em qual dos lados nos encaixamos? Só há dois lados possíveis?

A origem dos rótulos, como bem lembram os que prestavam atenção às aulas de história da 7ª série, está na Revolução Francesa, no século 18. Na época, os que sentavam à direita na assembleia dos Estados Gerais eram os girondinos, grupo conservador e comprometido com a defesa dos privilégios dos ricos. À esquerda ficavam os jacobinos, anticlericais e reformistas identificados com as classes trabalhadoras e que almejavam garantir aos mais pobres os direitos mais básicos. E no centro se sentava o equivalente da época ao PMDB.

As expressões se imortalizaram e os partidários de cada seita tornaram-se rivais praticamente inconciliáveis desde então, principalmente depois que Karl Marx deu à distinção entre esquerda e direita estatuto científico.

A dicotomia viveu seu período mais maniqueísta e evidente entre 1917 e 1991, quando ser de direita era defender o capitalismo, a livre iniciativa e o direito de enriquecer e ao mesmo tempo pregar a destruição da União Soviética, enquanto ser de esquerda era basicamente assumir-se como socialista e lutar pela implosão do capitalismo ou, no mínimo, pela distribuição da renda dos mais ricos entre os mais pobres.

A União Soviética entregou os pontos, a China descobriu que ganhar dinheiro é bom para o moral, a bússola ideológica de todo mundo se desregulou… mas os soi disant esquerdistas e direitistas continuam travando seu duelo de morte na arena das ideias.

Às vezes, tenho uma ligeira crise de identidade: sou de esquerda ou de direita?

Difícil dizer.

Em algum ponto da adolescência, vemos como é cool e romântico ser de esquerda, subir na mesa e improvisar um comício, criticar a opressão dos povos e da Natureza pelas corporações malvadas, defender a igualdade das gentes e a liberdade irrestrita.

Nos aprofundamos nos estudos e entramos em contato com autores vanguardistas e chiquérrimos que desconstroem e denunciam como errado tudo em que a civilização ocidental sempre acreditou. Nesse ponto, nós também queremos ser vanguardistas, também queremos ser chiquérrimos, ainda que em nossos círculos o termo “chiquérrimo” tenha uma conotação bem mais minimalista, roots e às vezes feia e malcheirosa.

Por isso, abraçamos e assumimos o papel de desconstrutores pós-tudo e usamos nossa retórica de botequim francês para questionar todo e qualquer determinismo opressor, todo e qualquer vínculo com uma modernidade que consideramos ruim e digna de destruição apenas por ter vindo antes de nós. E acreditamos que isso é ser de esquerda.

Mais tarde, alguns de nós acabam tendo que trabalhar e alguns dos que têm que trabalhar precisam trabalhar para alguém e por isso acabamos nos dando conta de que o nosso emprego e o nosso salário e tudo que ele pode comprar — incluindo livros de autores que desconstroem as relações de trabalho ou caras cervejas artesanais em bares feios e vanguardistas — dependem da aceitação de certas regras.

Acostumamo-nos a seguir essas regras. E a defender a necessidade de termos um emprego que pague nosso direito de morar e de ir e vir e de ter um blogue para falar mal do sistema que nos nutre – e passamos a crer que a manutenção desse emprego depende, também, da saúde financeira da empresa que nos emprega e do patrão que assina nossos contracheques.

E, quando menos esperamos, estamos afirmando em voz alta que o nosso patrão é um empreendedor que faz milagres para manter a empresa competitiva em um país de leis retrógradas e impostos escorchantes e em um mundo globalizado de concorrência voraz. E é então que nossos amigos de esquerda, empregados ou não, dizem que traímos o movimento e nos tornamos direitistas execráveis e porcos capitalistas e lacaios do capital espoliativo internacional.

E de repente aquela nossa ideia de que a esquerda é boa e a direita é ruim se dissolve em multidirecionalismos e em nuances sem fim, e transitamos entre um lado e outro da balança dependendo das circunstâncias e do que está em jogo.

E nos damos conta de que às vezes ser conservador é necessário, dependendo da questão. E que nem tudo precisa ser questionado, negado ou implodido. E que certas coisas que nossos pais nos obrigavam a fazer eram mesmo para “o nosso bem”.

E que o mundo é um lugar muito mais complicado do que nos parecia quando acreditávamos que pichar palavras de ordem em um muro resolveria todos os problemas da sociedade.

Mas é claro que isso não quer dizer que devemos nos tornar o PMDB.

O drama do (possível) desastre nuclear japonês, a que o mundo assiste com a respiração suspensa, é, de certo modo, o drama da humanidade.

Nenhum país – com exceção, talvez, de Israel – representa tão bem a condição atual da espécie humana quanto o Japão.

A área do arquipélago japonês não chega a 380 mil quilômetros quadrados. Se excluirmos as montanhas e os vulcões inabitáveis, talvez reste um território menor que a soma das extensões de Rio Grande do Sul e Santa Catarina – mas no Japão se espremem quase 130 milhões de habitantes, uma densidade de mais de 330 pessoas por quilômetro quadrado. Não é à toa que lá tem gente dormindo em cápsulas pouco maiores que caixões.

O Japão não tem recursos naturais dignos de nota. Nem minérios, nem petróleo, nem grandes rios com grandes quedas d’água para a construção de hidrelétricas. A rigor, o único recurso abundante no país, e que garante a sua riqueza, é o seguinte: japoneses.

Mas, para tocar a terceira maior economia do mundo, até os japoneses são impotentes quando falta o mais importante dos recursos: energia elétrica. Aliás, é impossível tocar qualquer economia moderna sem energia.

Maior arranha-céu japonês, num mundo sem eletricidade

A energia elétrica, como já escrevi alhures, é o que nos separa da Idade Média. Sem eletricidade, o mundo como o conhecemos acaba e voltamos a ser membros sujos e malcheirosos de clãs tribais com horizontes que se estendem apenas até onde os olhos alcançam ou até aonde as pernas nos podem levar em um dia de caminhada.

Os japoneses, mesmo que não queiram ter uma das maiores economias do mundo, mesmo que queiram apenas viver, no mínimo, no século XX, precisam de energia elétrica. E como diabos vão obtê-la? Com energia solar? Eólica? Ora, vamos falar sério.

As tais energias “limpas”, mesmo hoje, no século XXI, ainda engatinham. Experimente abastecer de energia um país de mais de 100 milhões de habitantes dependendo apenas dos caprichos do vento e da luz solar. É inviável hoje e era ainda mais inviável no fim dos anos 60, quando o Japão já despontava como potência industrial e Fukushima começou a ser construída.

A rigor, o Japão tem duas alternativas energéticas viáveis a curto prazo: usinas nucleares ou usinas termelétricas.

A energia nuclear é uma das mais limpas, desde que não haja nenhum acidente que provoque vazamento de combustível – o que é quase um sonho impossível num país que fica sobre a junção de três placas tectônicas e que está condenado a sumir do mapa mais cedo ou mais tarde.

Quanto às termelétricas, nem preciso dizer nada – elas já foram demonizadas o bastante desde que se começou a falar em aquecimento global. Basear uma matriz energética em combustíveis fósseis está (ou deveria estar) fora de questão para qualquer governo minimamente preocupado com a sobrevivência da humanidade.

Aos japoneses (e, até que se descubra uma tecnologia viável, à humanidade), acabam restando quatro opções:

1) Construir suas centrais nucleares nos locais menos propensos a terremotos (de preferência, bem longe do litoral)

2) Investir toda a grana do país para produzir energia com a queima de lixo (filtrando a fumaça, claro), painéis solares e cataventos em cima de todos os prédios, além do uso de dínamos em milhares de bicicletas ergométricas operadas 24h por dia por crianças importadas de Bangladesh.

3) Abandonar o país e ir viver em um lugar onde o chão se comporte como chão.

4) Desistir dessa história de civilização, jogar fora todos os celulares e tamagochis, restabelecer o sistema de castas, fabricar espadas (artesanalmente), jurar lealdade ao Imperador e ressuscitar os samurais.

Letargia seletiva

Escrito por Eduardo Nunes 2 Comentários

A citação abaixo, sobre a escolha de Tiririca para a Comissão de Educação e Cultura a Câmara,  é da escritora Lya Luft e está na coluna da Rosane de Oliveira na Zero Hora desta sexta, 4 de março:

Nos meus 72 anos de vida, assisti a muitas coisas tristes, sombrias ou bizarras neste país. O deputado Tiririca, mais votado do Brasil, declarado alfabetizado depois de errar 80% do ditado a que foi submetido, passou a membro da Comissão de Educação. O Tiririca pode até ser um cara legal, mas se fôssemos um país sério todos os escritores, editores, jornalistas e professores brasileiros entrariam em greve até se resolver o escárnio. Mas não faremos nada disso. Vai haver até quem ache graça. Pêsames.

Tens razão, Lya. Nada será feito, tal é a letargia que acomete o povão e até as classes mais esclarecidas da sociedade brasileira.

Mas estamos falando de uma letargia seletiva, pois esse mesmo povo que faz ouvidos moucos aos absurdos que ocorrem na política sabe ser veemente nas críticas à escolha das garotas-propaganda da cerveja Devassa ou ao comportamento de alguns débeis mentais que estrelam reality shows.

O seu lugar no universo

Escrito por Eduardo Nunes 1 Comentário

No segundo livro da saga O Guia do Mochileiro das Galáxias, o personagem Zaphod Beeblebrox, o presidente da Galáxia foragido, é levado a uma câmara de tortura (ou melhor, de execução) que aniquila a alma de qualquer um que nela entrar: o Vórtex da Perspectiva Total.

A temida engenhoca é capaz de mostrar à vítima toda a grandiosidade do universo, em contraste com a sua pequenez e insignificância diante de tal vastidão.

Recebi, por e-mail, o link para algo bem parecido: A Escala do Universo, simulação feita por Cary Huang que mostra a proporção de tudo que existe, desde o menor tamanho (as teóricas espuma quântica e supercordas) até a extensão do universo inteiro.

No meio de tudo isso, a escala humana, das coisas com que nossos sentidos estão acostumados e que compõem o mundo que vivenciamos diariamente. Com apenas duas setas direcionais, você pode navegar entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, numa experiência fantástica.

Para acessar, clique aqui.

Não aniquila a alma, mas mostra que minha avó  está certa quando diz que “a gente não é nada nesse mundo”…

Ontem, representantes das Nações Unidas protestaram contra possíveis “crimes contra a humanidade” na Líbia.

Parece que os diplomatas não gostaram de saber que o Kadafi mandou a sua força aérea bombardear manifestantes indefesos.

Desde o começo de janeiro, ditadores do mundo árabe (e de outras partes do mundo) têm matado manifestantes e atacado jornalistas. Muitos desses déspotas passaram décadas matando ou prendendo dissidentes, cerceando a imprensa, humilhando as mulheres, e é preciso um bombardeio de MiGs para que a ONU detecte crimes contra a humanidade?

Então, a noção de crimes contra a humanidade é meramente uma questão de números? Quantos exatamente precisam morrer para que a matança seja considerada crime contra a humanidade? Será que só os genocídios merecem ser enquadrados nesta definição?

Eu gosto da expressão “crime contra a humanidade” e acredito que ela deveria ser empregada com mais frequência.

Antes de qualquer coisa, é preciso definir o próprio conceito de “humanidade”.

O que é a humanidade? Só o conjunto das populações de Homo sapiens? Não creio. A humanidade é mais do que um grupo de animais da mesma espécie.

Odeio concordar com Sartre, mas aprecio a sua noção de homem como “projeto”.

“O homem deve ser inventado a cada dia”, disse o Jean-Paul. Perfeito. Nesse sentido, nem todos os Homo sapiens podem ser chamados de “humanos”, só aqueles que fazem por merecer a definição.

A humanidade é uma ideia abstrata, uma construção. É a superação da condição animal, a assunção de uma nova natureza, o que é permitido pela racionalidade e pela vontade – uma nova natureza em que as determinações genéticas e os instintos animais continuam presentes, mas são domados pela vontade racional.

Se adotarmos essa noção de “humanidade”, a ideia de “crime contra a humanidade” se alarga consideravelmente. Crime contra a humanidade passa a ser tudo que impede o ser humano de desenvolver plenamente a sua nova natureza.

Nesse sentido, Kadafi e outros ditadores de opereta cometem crimes contra a humanidade em vários graus, além do genocídio: perseguição de opositores, manipulação de eleições, proibição de partidos políticos, tolerância com doutrinas religiosas que oprimem a mulher, apropriação do Estado por uma família ou uma casta etc.

Mas a ampliação do conceito também desmascara outros criminosos contra a humanidade que atuam bem além dos muros do clube dos ditadores caricatos.

Governantes democraticamente eleitos de nações poderosas que se usam do próprio poderio bélico e econômico para empobrecer ainda mais os países pobres também são criminosos contra a humanidade.

São criminosos contra a humanidade os gestores de empresas que exploram mão-de-obra semi escrava em países pobres e depois superfaturam os preços de produtos que custaram a eles os poucos cents pagos por peça a crianças famintas.

São criminosos contra a humanidade os gestores cujas companhias desmatam, provocam a extinção de espécies inteiras e poluem em nome do lucro, bem como o FDP que joga o seu lixo nas ruas das cidades e transforma o seu habitat e o dos seus filhos numa pocilga.

Os políticos que desviam recursos ou que aumentam astronomicamente os próprios salários enquanto falta dinheiro para a saúde e a educação são criminosos contra a humanidade, tanto quanto o eleitor que os elege e depois reclama da imoralidade na política.

Os manipuladores da informação, os intelectuais e tecnocratas que compactuam e fomentam o desmonte da educação pública brasileira, os que operam e comandam uma Justiça que não funciona, todos eles deveriam ser acusados de crimes contra a humanidade.

Vai faltar espaço  no Tribunal de Haia.

Passei uns dias, nessas férias, na chácara onde vivem meus pais, lá no interior de São Sebastião do Caí.

Pertinho da idílica morada paterna, fica a entrada da não menos idílica (pelo menos, segundo os folders promocionais) Reserva Natural do Caí, um condomínio fechado que se vende, o nome já diz, como um residencial integrado com a natureza.

O site do empreendimento até propagandeia que o condomínio é “o primeiro projeto de desenvolvimento urbano a adotar o ISO 14001 voltado ao sistema de gestão de qualidade e à gestão ambiental”.

Não sei o que raios isso significa, mas os meus olhos e a câmera do meu celular testemunharam como a coisa funciona na prática:

Esta é a placa que indica a entrada do residencial:

A alguns metros da placa, eis o que se vê:

De quem é esse lixo? Ao que tudo indica, pode ser dos moradores da Reserva, pois as casas das imediações têm seus próprios cestos de lixo.

Como foi parar no chão?

Por que diabos é colocado em um depósito tão vagabundo, feito de tábuas mal pregadas?

Será que o ISO 14001 só tem validade do portão para dentro?

Pelo visto, os moradores do condomínio não se importam muito com isso.

A partir de hoje, esta seção manterá o e-leitor informado sobre as desventuras do deputado Tiririca (PR-SP) no Plenário da Câmara dos Deputados. O  nível de excremento na folha corrida do distinto parlamentar será constantemente atualizado, pelos próximos quatro anos.

16.02.2011 – Fogo amigo na votação do salário mínimo

Na votação do salário mínimo na Câmara, o nobre deputado Tiririca votou a favor do destaque dos tucanos que elevava o valor para R$ 600, agindo contra a determinação do seu partido, que compõe a base aliada de Dilma e queria R$ 545.

Estaria Tiririca se rebelando contra a liderança partidária? Teria ele, lembrando-se de suas origens humildes, assumido o compromisso de nunca defender qualquer proposta que não seja a melhor para o trabalhador?

Não. Ele se enganou na hora de votar. A explicação foi dada pela assessoria do parlamentar.

Parece que a diferença entre os botões de SIM e NÃO é sutil demais para ser percebida pelo representante dos paulistas, que foi considerado alfabetizado em exame da Justiça Eleitoral.

Segundo matéria publicada em zerohora.com, o líder do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira, chegou a agradecer o apoio do deputado mais votado do Brasil.

Os 1.353.820 eleitores conscientes que o elegeram também agradecem. Ainda que sem querer, Tiririca apertou o botão que a maioria deles provavelmente apertaria.

[Imagem: Agência Câmara]

Battisti x L

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Você já ficou sentado, de cabeça baixa, em estado de semi-torpor, como se esperasse acordar de um sonho tétrico e surreal?

Bem-vindo ao País da Maravilhas.

Um lugar onde, apesar do nome, as maravilhas se escondem e muito raramente mostram o rosto, envergonhadas e ruborizadas que estão, autoexilando-se nas sombras de escândalos e obscenidades de toda sorte.

A imagem acima, recortada do site do jornal italiano Corriere Della Sera, é um recorte da headline da entrevista concedida àquele veículo pelo ministro da Defesa da Itália, o senhor Ignazio La Russa.

Indignado com a recusa de Lula em libertar o ex-terrorista e assassino condenado Cesare Battisti, La Russa disse que “haverá consequências” e propôs um boicote ao Brasil, alegando que ninguém gostaria de visitar “um país onde você pode, no ônibus, se sentar em frente a um assassino”.

La Russa, seu tolinho, você não viu nada.

Battisti é café pequeno.

A nossa conivência com assassinos é muito mais ampla, geral e irrestrita (com trocadilho) do que você imagina.

Deixamos impunes assassinos de farda que, durante quase 30 anos, mataram alegremente a soldo do governo, pois puni-los prejudicaria o processo de “reconciliação” nacional – mais ou menos como se O Conciliador Max Gehringer colocasse na mesma mesa Champinha e os pais da menina que ele esculachou e o encontro resultasse em um acordo amigável e um convite para almoçar no domingo.

Por falar em Champinha, recentemente rendeu audiência a notícia de que um outro monstro pobre adolescente, um carinha legal que confessou 12 homicídios* (sim, o guri admitiu ter matado 12 pessoas), será solto em março no RS, apenas três anos depois de ir pro xilindró.

Ou melhor, não podemos falar em “prisão” ou em “xilindró”. Aqui, de acordo com o belo e poético Estatuto da Criança e do Adolescente, uma lei amplamente utilizada para acobertar e/ou gerar criminosos, menores de idade não podem ser presos, apenas “apreendidos”, nem ir pra cadeia, apenas para instituições correcionais sem muitas regras nem pesares, apenas medidas socioeducativas, socializantes e recreativas.

E não venham me dizer que aquelas unidades da Fase ou Case são “um inferno” por si. Elas só são um inferno porque estão cheias de delinquentes. Até o Jardim do Éden seria horrível se fosse frequentado por gente (sic) desse tipo.

É por isso que os deuses de todas as religiões fecham as portas para gente da laia de Champinha e de “L.” (aqui, monstros com menos de 18 anos têm a identidade preservada, para que não os reconheçamos quando forem soltos e vierem nos matar). No Brasil, eles recebem todas as honrarias, pois são tratados como vítimas e mimados com a impunidade.

Mesmo depois de crescidos, nossos delinquentes continuam mimados. Nossos presídios, apesar de horríveis, não parecem tão ruins quanto um bom presídio deveria ser. Lá, aparentemente, líderes do crime fazem o que querem, matam quem querem matar, fazem sexo com quem lhes apraz, despacham nos seus escritórios, pedem telentrega de comida, bebida, celulares e armas, e saem facinho facinho.

Na Itália, não exatamente uma Suécia, Battisti foi condenado à prisão perpétua. Aqui, seria nomeado ministro.

Mesmo assim, o senhor La Russa está mal acostumado.

Ministro, mande pra cá todos os seus Battistis! Trocamos pelos nossos menores infratores a 10 por 1!

Todos os seus terroristas perigosos não chegam aos pés de um único pivete de Novo Hamburgo.

[*O número de pessoas que o carinha que vai ser solto confessou ter matado estava errado. O post foi atualizado]