25 de abril de 2012

Hoje, dia em que o Supremo Tribunal Federal julga a constitucionalidade das cotas sociais e raciais em universidades públicas, eu não pretendia escrever sobre o tema, a respeito do qual tanto já se falou e se discutiu.

Mas tive a infelicidade de ler alguns comentários postados por leitores oriundos da ~classe média sofrida~ em uma matéria de zerohora.com e não pude conter o impulso de dizer algumas coisinhas para contrapor os seus ~argumentos~ contra as cotas  (era isso ou mandar todos à merda pessoalmente):

1) A falácia da defesa da igualdade

Os inimigos do sistema de cotas adoram invocar a causa da igualdade. Brandindo o artigo 5 da Constituição (que não se constrangem em desprezar noutras ocasiões), esses neo-Voltaires afirmam que as cotas são excludentes e que todos os candidatos devem ter igualdade de condições, pois a universidade pública deve ser para todos e todos são iguais por lei e blá blá blá.

Será que acabar com as cotas aumenta a igualdade?

Eu, que me formei em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (tendo entrado lá antes da adoção das cotas, para não dizerem que falo em causa própria), sei o quão ~igual~ é o corpo discente daquela instituição.

Devo ter tido, em oito semestres de estudos e dezenas de cadeiras cursadas, uns três ou quatro colegas negros, no máximo. E, dentre os brancos, quantos eram pobres? Pouquíssimos.

Qual é a “igualdade de condições” de uma competição em que pessoas que estudaram em colégios de ponta (e, o que é mais importante, em cursinhos preparatórios de ponta) disputam vagas com rivais oriundos de escolas públicas sucateadas?

É como uma corrida entre uma Ferrari F-50 e um Fusca com um pneu furado, ou uma luta entre Anderson Silva e um velhote reumático com o braço quebrado.

Um Estado que pretenda melhorar as condições de vida das parcelas historicamente desfavorecidas da sua população (e, se você vier com aquele ~argumento~ de que só é pobre quem não se esforça para mudar de vida, pedirei gentilmente que pegue suas coisas e vá embora desse blogue) tem o dever de desenvolver ações afirmativas para facilitar o acesso dessas pessoas ao ensino superior.

2) A falácia do “É preciso melhorar a educação pública”

A galera anti-cotas adora afirmar: “Não devemos estabelecer cotas; devemos é melhorar a educação pública”. Com isso, eles querem dizer que, se melhoradas, as escolas municipais e estaduais formarão vestibulandos capazes de competir de igual para igual com os rivais oriundos das classes média e alta.

“Melhorar a educação pública” seria a solução mágica que encheria de pobres e de negros as universidades públicas. Ledo engano.

Se assim fosse, os pais dos jovens de classe média e alta que estudam em colégios de ponta não precisariam gastar milhares de reais em cursinhos pré-vestibular.

É claro que devemos melhorar a educação pública. Mas mesmo uma escola pública de excelência não bastaria para aterrar  o abismo que há entre os pobres e aqueles que podem pagar mais pelo adestramento necessário para passar no vestibular (o que temos de fazer, além de melhorar o ensino público, é repensar a forma de seleção das universidades, mas isso é assunto para outro post).

3) A falácia da meritocracia

Darwinistas sociais de boutique afirmam que o vestibular é a seleção natural em sua forma mais pura, que os primeiros colocados conseguem as vagas porque tiveram mais mérito e que as cotas pioram o pool genético do corpo discente da universidade, pois garantem vagas a pessoas menos preparadas, que não merecem estar lá, que “perderiam se a luta fosse mano a mano”.

Mérito.

Palavrinha interessante.

Se  aceitarmos que os aprovados num vestibular sem cotas são os que têm mais mérito e dermos uma olhada nos listões dos cursos mais concorridos, chegaremos à seguinte definição de mérito (com raras exceções):

Mérito. s.m. 1. Qualidade daquele ou daquela que tem pais com dinheiro suficiente para pagar um bom cursinho pré-vestibular. 2. (popular) Costas quentes.

4) A falácia do “Dar cotas para negros é racismo”

Além das cotas sociais, há cotas raciais. E isso emputece muita gente. Dizem os anti-cotas que reservar vagas para negros é racismo, pois institucionaliza a ideia de que os negros não conseguem vaga sem as cotas etc.

Eles adoram dizer que escravidão é coisa do passado, que essas chagas já se fecharam, que no Brasil não há racismo, que a situação dos negros pobres e dos brancos pobres é a mesma e que todos têm as mesmas chances na disputa por um lugar ao sol.

Uma olhada na fila de matrícula das universidades e outra na fila do Bolsa Família mostra que a nossa realidade social é bem diferente. Numa dessas filas há muito menos negros que na outra.

Para entendermos o tamanho da dívida histórica em questão aqui, imaginemos que todos os negros brasileiros são uma única pessoa e que todos os brancos são outra pessoa (claro que o exemplo é imperfeito e a vida real tem muitas nuances, mas façamos esse esforço de generalização).

A pessoa branca (bem alimentada, com acesso a médicos, uma boa casa e, o que é mais importante, com armas modernas) sequestra a pessoa negra, a leva para uma terra distante da sua e, durante anos, bate nela, a estupra, amedronta, aprisiona, explora, mutila, desfigura.

Um dia, a pessoa branca diz à negra: “Você está livre. Agora somos iguais. Vá em paz. ”

E essa pessoa negra, desdentada, desnutrida, nua, mutilada, desnorteada, sem teto, sem instrução, passa a ser vizinha da pessoa branca, que agora se diz sua igual.

Qual das duas pessoas vai prosperar mais? Qual das duas pessoas vai passar no vestibular?

As cotas raciais existem para tentar reduzir um pouco esse abismo de séculos.

Conclusões

a) Numa coisa, os detratores das cotas têm razão. Elas não deveriam existir. Mas são uma medida necessária para equilibrar um pouco mais a disputa tão desigual pelas portas de acesso aos melhores  postos de trabalho.

As cotas devem ser uma medida temporária, até que cheguemos a uma sociedade um pouco mais justa, com uma educação pública de maior qualidade, com mais vagas na universidade pública e com um método de seleção menos imperfeito que o vestibular.

b) O sistema de cotas é imperfeito? É. Mas, com ele, pobres e negros estão entrando na universidade pública, o que não acontecia antes (ou acontecia muitíssimo menos). O bônus supera, com larga vantagem, o ônus.

c) Não basta reservar vagas aos pobres e negros e achar que seus problemas estão resolvidos. Pobres e negros que passam no vestibular não podem ser jogados à própria sorte. É claro que eles terão deficiências em relação aos seus colegas que cresceram viajando para a Europa e lendo Harry Potter em inglês.

A ação afirmativa deve continuar depois do ingresso na universidade. As instituições públicas devem pensar em maneiras de recuperar o déficit cultural dos alunos cotistas, dar-lhes bolsas, oportunizar monitorias e/ou aulas de reforço, abrir mais turmas para não penalizar os que precisam trabalhar.

d) Estou decidido. Vou estabelecer nas minhas relações pessoais uma reserva de vagas para gente com uma visão mais solidária e menos elitista de mundo.

24 de fevereiro de 2012


Ontem, a Cassia Zanon postou, no Twitter e no Facebook, a seguinte observação:

O link que acompanha a ponderação da Cassia leva a um post (para ler, clique aqui) sobre o Fórum Mundial de Bicicletas, realizado de 23 a 26 de fevereiro em Porto Alegre.

Vem sendo discutida, há algum tempo (antes mesmo do fórum), a necessidade de alternativas para salvar do caos o trânsito de Porto Alegre e das grandes cidades em geral – e a bicicleta é apontada por muita gente como um bom substituto para os veículos de combustão interna.

Pragmático que sou, acredito que as boas ideias são aquelas que funcionam, e por isso discordo de quem acha que a bicicleta seja uma alternativa viável em larga escala e que encher a cidade de ciclovias terá impacto significativo na melhoria do trânsito.

Primeiro porque, como bem colocou a Cassia, Porto Alegre não é o lugar mais adequado do mundo para a disseminação de ciclovias. E nem estou falando de ladeiras como a General Câmara, a Carlos Trein Filho ou a Lucas de Oliveira. Experimente subir pedalando artérias importantes como a Avenida Protásio Alves ou a Antônio de Carvalho ou a Cavalhada e concorde comigo.

“OK”, você dirá. “Vamos deixar as vias muito íngremes de lado e construir ciclovias nos lugares onde o relevo colabora. Ainda é um bom pedaço da cidade e isso ajudará a melhorar o trânsito em grandes regiões”.

Será?

Se espalhássemos ciclovias pela Assis Brasil, Sertório, Ipiranga, Bento Gonçalves, João Pessoa, Praia de Belas, Farrapos, etc, as pessoas utilizariam essas vias em larga escala fora dos finais de semana e feriados?

Não!

As pessoas iriam para o trabalho de bicicleta? Para a faculdade? Para um encontro romântico? As empresas e instituições de ensino não têm bicicletários, nem vestiários para os funcionários/estudantes ciclistas tomarem banho e se vestirem, nem armários para que eles guardem suas roupas, nem horários flexíveis o bastante para acomodar o tempo de banho e de troca de roupa.

Isso é uma questão fulcral nesse debate.

Ou você acha que todas essas moças que vão trabalhar ou estudar bem vestidas, bem maquiadas e bem calçadas vão trocar sua bela indumentária por trajes de ciclista, sua maquiagem por protetor solar, seus sapatos por tênis, seus penteados por capacetes e sua elegância por suor? Sem falar nos homens que precisam usar “roupa social”.

Como ir trabalhar de bicicleta numa cidade com um clima desses, onde, seja no verão escaldante, seja no inverno gelado e chuvoso, até sair de carro ou de ônibus é por vezes um suplício?

E, vá lá, mesmo que os patrões instalassem toda essa infraestrutura para garantir aos funcionários ciclistas o direito ao banho e à troca de roupa, mesmo que as jornadas de trabalho passassem a incluir o tempo necessário para o asseio pós suor ciclístico, você acha que as pessoas estariam dispostas a isso?

Muito dificilmente.

As ciclovias, se disseminadas pela cidade, seriam utilizadas por algumas pessoas durante a semana, tanto para lazer quanto para locomoção, nos finais de semana provavelmente seriam muito mais frequentadas, mas não são uma alternativa eficaz para desatar o nó górdio do trânsito porto-alegrense e das grandes cidades em geral.

Acredito que essas vias devam ser construídas assim mesmo. Não para salvar o mundo, mas para serem mais uma alternativa “verde” de mobilidade, necessariamente integrada a um sistema bem maior, com outros modelos.

Nada tenho contra bicicletas e ciclovias. Mas achar que isso funciona como meio de transporte de massa é ingenuidade.

7 de fevereiro de 2012

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Nos últimos dias, a paralisação dos policiais militares baianos tem ocupado um grande espaço na mídia.

Uma das vedetes da cobertura é a atualização constante, em rádios, TVs, jornais e sites, do número de homicídios registrados em Salvador desde o início da greve, numa mal disfarçada tomada de posição que deixa bem claro o recado: indiretamente (será?), parte da culpa por essas mortes está sendo atribuída aos policiais grevistas.

(Para a classe média de todo o Brasil, a sensação de insegurança na Bahia se torna uma questão ainda mais grave com a proximidade do Carnaval, que por sinal já deixou de ser uma festa “popular”, como mostram os preços dos abadás dos principais blocos de Salvador.)

Outro ponto alto da cobertura da paralisação é o suposto clima de guerra nas cercanias da Assembleia Legislativa do Estado, ocupada por policiais grevistas e sitiada por tropas do Exército. A casa legislativa tomada por PMs e familiares tornou-se o símbolo do movimento e o desfecho da ocupação, ao que parece, representará também o desfecho da greve.

Em meio a essas questões, a pauta de reivindicação dos policiais revoltosos passa quase à margem das pautas dos jornais. Nas matérias, a maioria dos veículos de comunicação evita se aprofundar nas exigências dos grevistas e quase nenhum deles diz quanto ganha um policial militar na Bahia. Ou no resto do Brasil.

Mesmo em colunas de opinião, a mídia evita entrar no âmago da questão: que é um absurdo um agente da lei ganhar R$ 1,8 mil mensais (isso na Bahia, pois há Estados que pagam até menos) .

Duas das categorias profissionais mais importantes para a sociedade (os policiais e os professores) estão entre as menos valorizadas pelo Estado e pelos cidadãos.

Com salários tão baixos, quem vai querer ser policial? Quem vai querer ser professor? Só as pessoas menos qualificadas. E mesmo estas acabarão arranjando “bicos”  para as horas vagas (caso de tantos policiais que também atuam como seguranças privados) ou tendo uma carga horária desumana (caso de tantos professores que trabalham 60 horas semanais ou mais) para complementar a renda.

Deixamos nossa segurança e nossa educação (ou melhor, “nossa” não, pois as classes média e alta cada vez mais buscam segurança e educação privadas) nas mãos de pessoas mal pagas e mal preparadas.

A quem isso interessa? Quem se beneficia com o sucateamento da polícia e da educação públicas? Isso também poderia constar nas coberturas jornalísticas.

P.S.: O governador da Bahia, Jaques Wagner, tem dado entrevistas afirmando que não pode conceder mais de 6,5% de reajuste aos PMs. Ora, governador, 6,5% não é reajuste; é reposição da inflação do ano, é o direito mais básico de qualquer trabalhador.

Mesmo estando limitado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o mínimo que o senhor poderia fazer, como homem que se diz de esquerda, seria assumir a causa da valorização dos profissionais de áreas essenciais e mobilizar um grupo de trabalho para pensar em maneiras de economizar dinheiro público desperdiçado em outros setores do governo (ou seja, MUITA grana) para conceder aumento real a policiais e professores.


Acredito que aquela historinha, tão repetida, de que somos um povo honesto e trabalhador oprimido por uma classe política cretina já foi superada.

Pelo menos em círculos mais esclarecidos, todos parecem concordar que só temos um Congresso com alto percentual de corruptos porque somos um povo com alto percentual de trambiqueiros. A ideia, aliás, foi muito bem sintetizada pela Letícia Duarte em um artigo na Zero Hora.

Ontem, ao voltar do trabalho, dei-me conta, muito tardiamente, de mais uma dimensão da engrenagem que reproduz e legitima o tortuoso “sistema ético” que compõe nosso imaginário popular (digo tardiamente porque não gosto de samba e, por isso, nunca tinha reparado nas letras desse gênero musical tão arquetipicamente brasileiro, tão definidor da identidade nacional).

Madrugada chuvosa em Porto Alegre. No  carro da firma, cinco pessoas semi-silenciosas e um aparelho de GPS tocando uma playlist de samba escolhida pelo motorista. Em silêncio, comecei a reparar no que cantavam aqueles artistas populares, alguns desconhecidos para mim, assim como algumas das canções.

A primeira das músicas, que eu nunca tinha ouvido, se dedicava a falar mal do “caguete”, o cara que dedura à polícia os contraventores do morro, tanto os grandes contraventores (traficantes) quanto os pequenos contraventores (os usuários de drogas ilícitas). Repare, leitor, na ética por trás disso. A contravenção da lei é exaltada; o cara que denuncia a contravenção é o vilão da história.

Depois dessa, vieram duas músicas que eu conhecia, e lá estavam os intérpretes falando mal, outra vez, do caguete.

Assim cantou Bezerra da Silva, no GPS do motorista da firma:

“Mas você não está vendo que a boca tá assim de corujão? Tem dedo de seta adoidado, todos eles a fim de ferrar os irmãos. Malandragem, dá um tempo. Deixa essa pá de sujeira ir embora. E é por isso que eu vou apertar, mas não vou acender agora.”

Encarnando o personagem que aperta um baseado mas tem medo de fumá-lo na frente dos policiais e dos caguetes, o artista se refere aos agentes da lei e aos seus informantes como “pá de sujeira”.

O debate sobre a criminalização do uso de drogas é, por si só, tema para vários outros posts. Aqui, me restrinjo a dizer que não posso apoiar um hábito que, além de ser prejudicial à saúde e ao sistema público de saúde, sustenta (e, por isso, implica em cumplicidade com) uma rede criminosa responsável por milhares de pequenas e grandes atrocidades perpetradas todos os dias.

Voltando ao carro da firma…

Depois de Bezerra apertar seu baseado, foi a vez de Diogo Nogueira repetir, exaustivamente, que “malandro é malandro e mané é mané”. A certa altura, os caguetes voltaram a “sofrer bullying”:

“Já o Mané, ele tem sua meta. Não pode ver nada, que ele cagueta. Mané é um homem que moral não tem.”

Percebemos aqui a inversão moral: na ética do malandro, o vilão não é quem burla a lei estabelecida, mas quem denuncia os que burlam a lei estabelecida.

Todos já passaram por isso na escola ou no trabalho. Existe um código ético tácito, que todos assimilam rapidamente ao começar a participar dos grupos sociais, que diz que não se deve dedurar os colegas que desobedecem às normas de conduta.

A ideia é: não devemos ser leais ao Estado, à empresa ou ao grupo formal de que fazemos parte, mas ao grupo informal formado por nós e nossos iguais. As instituições são vistas como  inimigas, como entidades opressoras, que podem e devem ser ludibriadas pelo malandro e seus amigos.

E todos querem ser malandros ou amigos dos malandros, como me ensinou Diogo Nogueira:

“Malandro é o cara que sabe das coisas. Malandro é aquele que sabe o que quer. Malandro é o cara que tá com dinheiro e não se compara com um Zé Mané. Malandro de fato é um cara maneiro que não se amarra em uma só mulher.”

A riqueza de significado dessa estrofe é impressionante. Renderia teses de Antropologia e Sociologia.

O malandro “tá com dinheiro”. Como um malandro, por definição, não é muito afeito ao trabalho, o que ele faz para conseguir dinheiro? A ideia, tão cara aos políticos corruptos, de se ganhar muito dinheiro sem esforço, mesmo que isso signifique (e quase sempre significa) cometer crimes, está entalhada no DNA do malandro arquetípico, o herói da nossa mitologia, o tipo de pessoa que todo brasileiro quer ser.

Além disso, o malandro “não se amarra em uma só mulher”. Mas as mulheres se amarram nele. Nas canções, nos filmes, nas novelas e na vida real, o malandro sempre se dá muito bem com as mulheres. O verso citado acima, além de fazer apologia ao adultério, retrata uma das recompensas que o malandro ganha por agir com malandragem.

Que homem não lembra do início da adolescência, quando começa a sua “caçada” pelos melhores espécimes do sexo oposto? Na escola ou nas festinhas do seu grupo de amigos, quem eram os preferidos das gurias, leitor? Os malandros.

Nós, homens, aprendemos desde o início da puberdade que ser malandro (com tudo que isso implica) é um dos pré-requisitos para ser bem sucedido no sexo – e até nas amizades.

Já o mané, o vilão da canção de Diogo Nogueira (sim, eu sei que não é ele o compositor nem o primeiro intérprete, mas não faz diferença), sempre se dá mal com as mulheres:

“Mané é um homem que moral não tem. Vai pro samba, paquera e não ganha ninguém“.

Mas a desgraça do mané não se restringe à falta de sorte no amor:

“Está sempre duro. É um cara azarado. E também puxa o saco pra sobreviver.”

Ao contrário do malandro, que sempre dá um jeito de conseguir dinheiro com a sua esperteza e moral flexível (para usar um eufemismo), o mané está sempre duro. E tem de puxar o saco para sobreviver.

Mais uma vez, voltemos à escola, leitor, para exemplificar outro pilar do imaginário brasileiro.

Lembra daquele seu colega que estudava, fazia o dever de casa, prestava atenção às explicações do professor e lhe fazia perguntas? Como esse aluno era chamado pelos colegas? Um dos seus epítetos, certamente, era “Puxa-saco”. E o Puxa-saco é um dos vilões de qualquer grupo, na ética do malandro.

Mais tarde, na empresa, você começou a conviver com alguns colegas de trabalho que cumprem os horários, fazem as tarefas que lhes são pedidas e até algumas que não são pedidas, dão sugestões ao chefe, se oferecem para participar de forças-tarefa e para fazer horas-extras quando necessário. Como eles são chamados? Puxa-sacos, Caxias, Baba-ovos, etc.

Num sistema ético em que, na visão do malandro, a instituição (seja a escola, a empresa, o governo) o oprime, os que agem com honestidade são considerados vilões, são imbecilizados, viram motivo de piada.

E, no contexto da produção artística brasileira “de raiz”, não é só o samba que retrata essa adesão em massa à ética do malandro.

Tomemos, por exemplo, as telenovelas.

Em novela, os mocinhos, manés, que são honestos, trabalhadores, sinceros e abnegados, passam o tempo todo se ferrando. O vilão, malandro, sem escrúpulos, desonesto, se dá bem a maior parte do tempo, e só é punido (e às vezes sequer é punido) no fim. Mas será que essa punição tem impacto sobre a opinião do espectador a respeito de certo e errado?

Numa novela que se desenrole por, digamos, seis meses, o vilão, malandro, passa cinco meses e três semanas ganhando dinheiro, obtendo os melhores cargos no trabalho, ficando com as melhores mulheres, angariando simpatias e rindo das desgraças do mocinho. Tudo parece dar certo para o malandro, como no samba.

Já o mocinho, mané, sofre por cinco meses e três semanas. Perde oportunidades profissionais, sexuais, é vítima de armações, é ridicularizado por todos, em especial pelo malandro. Na semana final, o mané dá a volta por cima, mas será que, aos olhos do espectador, uma semana de felicidade tem mais peso que 23 semanas de infortúnios?

Será que ser mocinho compensa, segundo as telenovelas, o samba e a vida real?

No país do jeitinho, da ética do malandro e da Lei de Gérson, parece que não. É desanimador viver num lugar assim.

Na próxima vez, vou levar um fone de ouvido e ouvir rock and roll no carro da firma.

[O post sofreu ajustes na formatação]

Atualização:

- O amigo jornalista Demétrio Pereira me lembra que não adianta ouvir rock and roll para escapar da apologia à desobediência das leis. Sim, ele tem razão. A opção pelo rock, no texto, funciona apenas como recurso estilístico. A transgressão das leis e a afronta ao “sistema” está presente no rock até mais que no samba – e é um tema recorrente em todas as formas de arte.

- Não estou, como insinuou o Demétrio em seu e-mail, propondo uma “censura artística”. Concordo com ele quando, citando a Escola de Frankfurt, me diz que toda manifestação artística é também política e os produtos culturais influenciam, de um modo ou de outro, os seus consumidores. A saída para evitarmos a sujeição das “massas” (termo tão démodé) aos ditames da indústria cultural está na educação. Só com instrução, “esclarecimento” e consciência crítica as pessoas poderão discernir entre valores benéficos e nocivos e fazer suas escolhas éticas com liberdade e racionalidade.

- De Roma, o padre Luciano Motti escreve que o malandro e o caguete estão no mesmo nível, e que a minha defesa do “dedo-duro” está equivocada. Reconheço que o texto dá margem a essa interpretação. De fato, há indivíduos que usam a “caguetagem” como meio de obter favorecimentos e vantagens pessoais. Estes seres nada mais são que malandros que se valem desse artifício para “se dar bem”. Obviamente, não é desse tipo de pessoa que estou falando quando defendo que se denuncie a contravenção.

- Demétrio e Pedro Heberle tocma em outro ponto interessante: a postura da polícia nos morros cariocas, nascedouro do samba, e nas periferias brasileiras em geral, não é exatamente um exemplo de retidão moral e dá vazão a uma resistência por parte dos moradores dessas comunidades. Mais uma vez, concordo com meus críticos, em parte. Ao defender os policiais como “defensores da lei”, eu estava me referindo apenas aos que realmente agem como tal, e não aos malandros que usam a farda para obter vantagens.

Vivendo no país do medo

Escrito por Eduardo Nunes 0 Comentário

Há pouco, na Avenida Protásio Alves, em uma faixa de pedestres sem sinaleira, uma senhora e um cadeirante, um de cada lado da via, tentavam atravessar.

A mulher fez, com o braço, aquele sinal propagandeado pela prefeitura de Porto Alegre, implorando aos motoristas que parassem e lhe dessem passagem segura.

Os veículos pararam, a senhora começou a atravessar, o deficiente também, mas um pouco mais tarde.

Enquanto eles cruzavam a avenida, um Chevette veio costurando por entre os veículos parados e quase atropelou o cadeirante, freando sobre a faixa.

O homem continuou a travessia que quase lhe custou a vida, enquanto o motorista do Chevette praguejava. Havia uma faixa de pedestres pintada sob o seu carro parado.

Dá medo viver num país assim.

E então você acessa, em 2011, o blogue de uma jornalista de vinte e poucos anos e lá ela diz que é de esquerda.

Ou dá uma olhada na BIO do Twitter de outra jovem jornalista, e ela, mais precisa, se define como socialista.

Isso não é de forma alguma uma caça às bruxas macarthista no meio jornalístico; o fato de serem ambas jovens jornalistas do sexo feminino e se dizerem de esquerda é pura coincidência. Esquerdistas, os encontramos em quase todos os ramos da atividade humana. Direitistas, mais ainda, a diferença é que eles raramente usam a palavra “direita” quando definem a si mesmos.

A pergunta que faço é: ainda faz sentido usar tais expressões?

O que é, hoje,  ser “de esquerda” ou “de direita”? Como saber em qual dos lados nos encaixamos? Só há dois lados possíveis?

A origem dos rótulos, como bem lembram os que prestavam atenção às aulas de história da 7ª série, está na Revolução Francesa, no século 18. Na época, os que sentavam à direita na assembleia dos Estados Gerais eram os girondinos, grupo conservador e comprometido com a defesa dos privilégios dos ricos. À esquerda ficavam os jacobinos, anticlericais e reformistas identificados com as classes trabalhadoras e que almejavam garantir aos mais pobres os direitos mais básicos. E no centro se sentava o equivalente da época ao PMDB.

As expressões se imortalizaram e os partidários de cada seita tornaram-se rivais praticamente inconciliáveis desde então, principalmente depois que Karl Marx deu à distinção entre esquerda e direita estatuto científico.

A dicotomia viveu seu período mais maniqueísta e evidente entre 1917 e 1991, quando ser de direita era defender o capitalismo, a livre iniciativa e o direito de enriquecer e ao mesmo tempo pregar a destruição da União Soviética, enquanto ser de esquerda era basicamente assumir-se como socialista e lutar pela implosão do capitalismo ou, no mínimo, pela distribuição da renda dos mais ricos entre os mais pobres.

A União Soviética entregou os pontos, a China descobriu que ganhar dinheiro é bom para o moral, a bússola ideológica de todo mundo se desregulou… mas os soi disant esquerdistas e direitistas continuam travando seu duelo de morte na arena das ideias.

Às vezes, tenho uma ligeira crise de identidade: sou de esquerda ou de direita?

Difícil dizer.

Em algum ponto da adolescência, vemos como é cool e romântico ser de esquerda, subir na mesa e improvisar um comício, criticar a opressão dos povos e da Natureza pelas corporações malvadas, defender a igualdade das gentes e a liberdade irrestrita.

Nos aprofundamos nos estudos e entramos em contato com autores vanguardistas e chiquérrimos que desconstroem e denunciam como errado tudo em que a civilização ocidental sempre acreditou. Nesse ponto, nós também queremos ser vanguardistas, também queremos ser chiquérrimos, ainda que em nossos círculos o termo “chiquérrimo” tenha uma conotação bem mais minimalista, roots e às vezes feia e malcheirosa.

Por isso, abraçamos e assumimos o papel de desconstrutores pós-tudo e usamos nossa retórica de botequim francês para questionar todo e qualquer determinismo opressor, todo e qualquer vínculo com uma modernidade que consideramos ruim e digna de destruição apenas por ter vindo antes de nós. E acreditamos que isso é ser de esquerda.

Mais tarde, alguns de nós acabam tendo que trabalhar e alguns dos que têm que trabalhar precisam trabalhar para alguém e por isso acabamos nos dando conta de que o nosso emprego e o nosso salário e tudo que ele pode comprar — incluindo livros de autores que desconstroem as relações de trabalho ou caras cervejas artesanais em bares feios e vanguardistas — dependem da aceitação de certas regras.

Acostumamo-nos a seguir essas regras. E a defender a necessidade de termos um emprego que pague nosso direito de morar e de ir e vir e de ter um blogue para falar mal do sistema que nos nutre – e passamos a crer que a manutenção desse emprego depende, também, da saúde financeira da empresa que nos emprega e do patrão que assina nossos contracheques.

E, quando menos esperamos, estamos afirmando em voz alta que o nosso patrão é um empreendedor que faz milagres para manter a empresa competitiva em um país de leis retrógradas e impostos escorchantes e em um mundo globalizado de concorrência voraz. E é então que nossos amigos de esquerda, empregados ou não, dizem que traímos o movimento e nos tornamos direitistas execráveis e porcos capitalistas e lacaios do capital espoliativo internacional.

E de repente aquela nossa ideia de que a esquerda é boa e a direita é ruim se dissolve em multidirecionalismos e em nuances sem fim, e transitamos entre um lado e outro da balança dependendo das circunstâncias e do que está em jogo.

E nos damos conta de que às vezes ser conservador é necessário, dependendo da questão. E que nem tudo precisa ser questionado, negado ou implodido. E que certas coisas que nossos pais nos obrigavam a fazer eram mesmo para “o nosso bem”.

E que o mundo é um lugar muito mais complicado do que nos parecia quando acreditávamos que pichar palavras de ordem em um muro resolveria todos os problemas da sociedade.

Mas é claro que isso não quer dizer que devemos nos tornar o PMDB.

O drama do (possível) desastre nuclear japonês, a que o mundo assiste com a respiração suspensa, é, de certo modo, o drama da humanidade.

Nenhum país – com exceção, talvez, de Israel – representa tão bem a condição atual da espécie humana quanto o Japão.

A área do arquipélago japonês não chega a 380 mil quilômetros quadrados. Se excluirmos as montanhas e os vulcões inabitáveis, talvez reste um território menor que a soma das extensões de Rio Grande do Sul e Santa Catarina – mas no Japão se espremem quase 130 milhões de habitantes, uma densidade de mais de 330 pessoas por quilômetro quadrado. Não é à toa que lá tem gente dormindo em cápsulas pouco maiores que caixões.

O Japão não tem recursos naturais dignos de nota. Nem minérios, nem petróleo, nem grandes rios com grandes quedas d’água para a construção de hidrelétricas. A rigor, o único recurso abundante no país, e que garante a sua riqueza, é o seguinte: japoneses.

Mas, para tocar a terceira maior economia do mundo, até os japoneses são impotentes quando falta o mais importante dos recursos: energia elétrica. Aliás, é impossível tocar qualquer economia moderna sem energia.

Maior arranha-céu japonês, num mundo sem eletricidade

A energia elétrica, como já escrevi alhures, é o que nos separa da Idade Média. Sem eletricidade, o mundo como o conhecemos acaba e voltamos a ser membros sujos e malcheirosos de clãs tribais com horizontes que se estendem apenas até onde os olhos alcançam ou até aonde as pernas nos podem levar em um dia de caminhada.

Os japoneses, mesmo que não queiram ter uma das maiores economias do mundo, mesmo que queiram apenas viver, no mínimo, no século XX, precisam de energia elétrica. E como diabos vão obtê-la? Com energia solar? Eólica? Ora, vamos falar sério.

As tais energias “limpas”, mesmo hoje, no século XXI, ainda engatinham. Experimente abastecer de energia um país de mais de 100 milhões de habitantes dependendo apenas dos caprichos do vento e da luz solar. É inviável hoje e era ainda mais inviável no fim dos anos 60, quando o Japão já despontava como potência industrial e Fukushima começou a ser construída.

A rigor, o Japão tem duas alternativas energéticas viáveis a curto prazo: usinas nucleares ou usinas termelétricas.

A energia nuclear é uma das mais limpas, desde que não haja nenhum acidente que provoque vazamento de combustível – o que é quase um sonho impossível num país que fica sobre a junção de três placas tectônicas e que está condenado a sumir do mapa mais cedo ou mais tarde.

Quanto às termelétricas, nem preciso dizer nada – elas já foram demonizadas o bastante desde que se começou a falar em aquecimento global. Basear uma matriz energética em combustíveis fósseis está (ou deveria estar) fora de questão para qualquer governo minimamente preocupado com a sobrevivência da humanidade.

Aos japoneses (e, até que se descubra uma tecnologia viável, à humanidade), acabam restando quatro opções:

1) Construir suas centrais nucleares nos locais menos propensos a terremotos (de preferência, bem longe do litoral)

2) Investir toda a grana do país para produzir energia com a queima de lixo (filtrando a fumaça, claro), painéis solares e cataventos em cima de todos os prédios, além do uso de dínamos em milhares de bicicletas ergométricas operadas 24h por dia por crianças importadas de Bangladesh.

3) Abandonar o país e ir viver em um lugar onde o chão se comporte como chão.

4) Desistir dessa história de civilização, jogar fora todos os celulares e tamagochis, restabelecer o sistema de castas, fabricar espadas (artesanalmente), jurar lealdade ao Imperador e ressuscitar os samurais.

Letargia seletiva

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A citação abaixo, sobre a escolha de Tiririca para a Comissão de Educação e Cultura a Câmara,  é da escritora Lya Luft e está na coluna da Rosane de Oliveira na Zero Hora desta sexta, 4 de março:

Nos meus 72 anos de vida, assisti a muitas coisas tristes, sombrias ou bizarras neste país. O deputado Tiririca, mais votado do Brasil, declarado alfabetizado depois de errar 80% do ditado a que foi submetido, passou a membro da Comissão de Educação. O Tiririca pode até ser um cara legal, mas se fôssemos um país sério todos os escritores, editores, jornalistas e professores brasileiros entrariam em greve até se resolver o escárnio. Mas não faremos nada disso. Vai haver até quem ache graça. Pêsames.

Tens razão, Lya. Nada será feito, tal é a letargia que acomete o povão e até as classes mais esclarecidas da sociedade brasileira.

Mas estamos falando de uma letargia seletiva, pois esse mesmo povo que faz ouvidos moucos aos absurdos que ocorrem na política sabe ser veemente nas críticas à escolha das garotas-propaganda da cerveja Devassa ou ao comportamento de alguns débeis mentais que estrelam reality shows.

O seu lugar no universo

Escrito por Eduardo Nunes 1 Comentário

No segundo livro da saga O Guia do Mochileiro das Galáxias, o personagem Zaphod Beeblebrox, o presidente da Galáxia foragido, é levado a uma câmara de tortura (ou melhor, de execução) que aniquila a alma de qualquer um que nela entrar: o Vórtex da Perspectiva Total.

A temida engenhoca é capaz de mostrar à vítima toda a grandiosidade do universo, em contraste com a sua pequenez e insignificância diante de tal vastidão.

Recebi, por e-mail, o link para algo bem parecido: A Escala do Universo, simulação feita por Cary Huang que mostra a proporção de tudo que existe, desde o menor tamanho (as teóricas espuma quântica e supercordas) até a extensão do universo inteiro.

No meio de tudo isso, a escala humana, das coisas com que nossos sentidos estão acostumados e que compõem o mundo que vivenciamos diariamente. Com apenas duas setas direcionais, você pode navegar entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, numa experiência fantástica.

Para acessar, clique aqui.

Não aniquila a alma, mas mostra que minha avó  está certa quando diz que “a gente não é nada nesse mundo”…

Ontem, representantes das Nações Unidas protestaram contra possíveis “crimes contra a humanidade” na Líbia.

Parece que os diplomatas não gostaram de saber que o Kadafi mandou a sua força aérea bombardear manifestantes indefesos.

Desde o começo de janeiro, ditadores do mundo árabe (e de outras partes do mundo) têm matado manifestantes e atacado jornalistas. Muitos desses déspotas passaram décadas matando ou prendendo dissidentes, cerceando a imprensa, humilhando as mulheres, e é preciso um bombardeio de MiGs para que a ONU detecte crimes contra a humanidade?

Então, a noção de crimes contra a humanidade é meramente uma questão de números? Quantos exatamente precisam morrer para que a matança seja considerada crime contra a humanidade? Será que só os genocídios merecem ser enquadrados nesta definição?

Eu gosto da expressão “crime contra a humanidade” e acredito que ela deveria ser empregada com mais frequência.

Antes de qualquer coisa, é preciso definir o próprio conceito de “humanidade”.

O que é a humanidade? Só o conjunto das populações de Homo sapiens? Não creio. A humanidade é mais do que um grupo de animais da mesma espécie.

Odeio concordar com Sartre, mas aprecio a sua noção de homem como “projeto”.

“O homem deve ser inventado a cada dia”, disse o Jean-Paul. Perfeito. Nesse sentido, nem todos os Homo sapiens podem ser chamados de “humanos”, só aqueles que fazem por merecer a definição.

A humanidade é uma ideia abstrata, uma construção. É a superação da condição animal, a assunção de uma nova natureza, o que é permitido pela racionalidade e pela vontade – uma nova natureza em que as determinações genéticas e os instintos animais continuam presentes, mas são domados pela vontade racional.

Se adotarmos essa noção de “humanidade”, a ideia de “crime contra a humanidade” se alarga consideravelmente. Crime contra a humanidade passa a ser tudo que impede o ser humano de desenvolver plenamente a sua nova natureza.

Nesse sentido, Kadafi e outros ditadores de opereta cometem crimes contra a humanidade em vários graus, além do genocídio: perseguição de opositores, manipulação de eleições, proibição de partidos políticos, tolerância com doutrinas religiosas que oprimem a mulher, apropriação do Estado por uma família ou uma casta etc.

Mas a ampliação do conceito também desmascara outros criminosos contra a humanidade que atuam bem além dos muros do clube dos ditadores caricatos.

Governantes democraticamente eleitos de nações poderosas que se usam do próprio poderio bélico e econômico para empobrecer ainda mais os países pobres também são criminosos contra a humanidade.

São criminosos contra a humanidade os gestores de empresas que exploram mão-de-obra semi escrava em países pobres e depois superfaturam os preços de produtos que custaram a eles os poucos cents pagos por peça a crianças famintas.

São criminosos contra a humanidade os gestores cujas companhias desmatam, provocam a extinção de espécies inteiras e poluem em nome do lucro, bem como o FDP que joga o seu lixo nas ruas das cidades e transforma o seu habitat e o dos seus filhos numa pocilga.

Os políticos que desviam recursos ou que aumentam astronomicamente os próprios salários enquanto falta dinheiro para a saúde e a educação são criminosos contra a humanidade, tanto quanto o eleitor que os elege e depois reclama da imoralidade na política.

Os manipuladores da informação, os intelectuais e tecnocratas que compactuam e fomentam o desmonte da educação pública brasileira, os que operam e comandam uma Justiça que não funciona, todos eles deveriam ser acusados de crimes contra a humanidade.

Vai faltar espaço  no Tribunal de Haia.