Acredito que aquela historinha, tão repetida, de que somos um povo honesto e trabalhador oprimido por uma classe política cretina já foi superada.
Pelo menos em círculos mais esclarecidos, todos parecem concordar que só temos um Congresso com alto percentual de corruptos porque somos um povo com alto percentual de trambiqueiros. A ideia, aliás, foi muito bem sintetizada pela Letícia Duarte em um artigo na Zero Hora.
Ontem, ao voltar do trabalho, dei-me conta, muito tardiamente, de mais uma dimensão da engrenagem que reproduz e legitima o tortuoso “sistema ético” que compõe nosso imaginário popular (digo tardiamente porque não gosto de samba e, por isso, nunca tinha reparado nas letras desse gênero musical tão arquetipicamente brasileiro, tão definidor da identidade nacional).
Madrugada chuvosa em Porto Alegre. No carro da firma, cinco pessoas semi-silenciosas e um aparelho de GPS tocando uma playlist de samba escolhida pelo motorista. Em silêncio, comecei a reparar no que cantavam aqueles artistas populares, alguns desconhecidos para mim, assim como algumas das canções.
A primeira das músicas, que eu nunca tinha ouvido, se dedicava a falar mal do “caguete”, o cara que dedura à polícia os contraventores do morro, tanto os grandes contraventores (traficantes) quanto os pequenos contraventores (os usuários de drogas ilícitas). Repare, leitor, na ética por trás disso. A contravenção da lei é exaltada; o cara que denuncia a contravenção é o vilão da história.
Depois dessa, vieram duas músicas que eu conhecia, e lá estavam os intérpretes falando mal, outra vez, do caguete.
Assim cantou Bezerra da Silva, no GPS do motorista da firma:
“Mas você não está vendo que a boca tá assim de corujão? Tem dedo de seta adoidado, todos eles a fim de ferrar os irmãos. Malandragem, dá um tempo. Deixa essa pá de sujeira ir embora. E é por isso que eu vou apertar, mas não vou acender agora.”
Encarnando o personagem que aperta um baseado mas tem medo de fumá-lo na frente dos policiais e dos caguetes, o artista se refere aos agentes da lei e aos seus informantes como “pá de sujeira”.
O debate sobre a criminalização do uso de drogas é, por si só, tema para vários outros posts. Aqui, me restrinjo a dizer que não posso apoiar um hábito que, além de ser prejudicial à saúde e ao sistema público de saúde, sustenta (e, por isso, implica em cumplicidade com) uma rede criminosa responsável por milhares de pequenas e grandes atrocidades perpetradas todos os dias.
Voltando ao carro da firma…
Depois de Bezerra apertar seu baseado, foi a vez de Diogo Nogueira repetir, exaustivamente, que “malandro é malandro e mané é mané”. A certa altura, os caguetes voltaram a “sofrer bullying”:
“Já o Mané, ele tem sua meta. Não pode ver nada, que ele cagueta. Mané é um homem que moral não tem.”
Percebemos aqui a inversão moral: na ética do malandro, o vilão não é quem burla a lei estabelecida, mas quem denuncia os que burlam a lei estabelecida.
Todos já passaram por isso na escola ou no trabalho. Existe um código ético tácito, que todos assimilam rapidamente ao começar a participar dos grupos sociais, que diz que não se deve dedurar os colegas que desobedecem às normas de conduta.
A ideia é: não devemos ser leais ao Estado, à empresa ou ao grupo formal de que fazemos parte, mas ao grupo informal formado por nós e nossos iguais. As instituições são vistas como inimigas, como entidades opressoras, que podem e devem ser ludibriadas pelo malandro e seus amigos.
E todos querem ser malandros ou amigos dos malandros, como me ensinou Diogo Nogueira:
“Malandro é o cara que sabe das coisas. Malandro é aquele que sabe o que quer. Malandro é o cara que tá com dinheiro e não se compara com um Zé Mané. Malandro de fato é um cara maneiro que não se amarra em uma só mulher.”
A riqueza de significado dessa estrofe é impressionante. Renderia teses de Antropologia e Sociologia.
O malandro “tá com dinheiro”. Como um malandro, por definição, não é muito afeito ao trabalho, o que ele faz para conseguir dinheiro? A ideia, tão cara aos políticos corruptos, de se ganhar muito dinheiro sem esforço, mesmo que isso signifique (e quase sempre significa) cometer crimes, está entalhada no DNA do malandro arquetípico, o herói da nossa mitologia, o tipo de pessoa que todo brasileiro quer ser.
Além disso, o malandro “não se amarra em uma só mulher”. Mas as mulheres se amarram nele. Nas canções, nos filmes, nas novelas e na vida real, o malandro sempre se dá muito bem com as mulheres. O verso citado acima, além de fazer apologia ao adultério, retrata uma das recompensas que o malandro ganha por agir com malandragem.
Que homem não lembra do início da adolescência, quando começa a sua “caçada” pelos melhores espécimes do sexo oposto? Na escola ou nas festinhas do seu grupo de amigos, quem eram os preferidos das gurias, leitor? Os malandros.
Nós, homens, aprendemos desde o início da puberdade que ser malandro (com tudo que isso implica) é um dos pré-requisitos para ser bem sucedido no sexo – e até nas amizades.
Já o mané, o vilão da canção de Diogo Nogueira (sim, eu sei que não é ele o compositor nem o primeiro intérprete, mas não faz diferença), sempre se dá mal com as mulheres:
“Mané é um homem que moral não tem. Vai pro samba, paquera e não ganha ninguém“.
Mas a desgraça do mané não se restringe à falta de sorte no amor:
“Está sempre duro. É um cara azarado. E também puxa o saco pra sobreviver.”
Ao contrário do malandro, que sempre dá um jeito de conseguir dinheiro com a sua esperteza e moral flexível (para usar um eufemismo), o mané está sempre duro. E tem de puxar o saco para sobreviver.
Mais uma vez, voltemos à escola, leitor, para exemplificar outro pilar do imaginário brasileiro.
Lembra daquele seu colega que estudava, fazia o dever de casa, prestava atenção às explicações do professor e lhe fazia perguntas? Como esse aluno era chamado pelos colegas? Um dos seus epítetos, certamente, era “Puxa-saco”. E o Puxa-saco é um dos vilões de qualquer grupo, na ética do malandro.
Mais tarde, na empresa, você começou a conviver com alguns colegas de trabalho que cumprem os horários, fazem as tarefas que lhes são pedidas e até algumas que não são pedidas, dão sugestões ao chefe, se oferecem para participar de forças-tarefa e para fazer horas-extras quando necessário. Como eles são chamados? Puxa-sacos, Caxias, Baba-ovos, etc.
Num sistema ético em que, na visão do malandro, a instituição (seja a escola, a empresa, o governo) o oprime, os que agem com honestidade são considerados vilões, são imbecilizados, viram motivo de piada.
E, no contexto da produção artística brasileira “de raiz”, não é só o samba que retrata essa adesão em massa à ética do malandro.
Tomemos, por exemplo, as telenovelas.
Em novela, os mocinhos, manés, que são honestos, trabalhadores, sinceros e abnegados, passam o tempo todo se ferrando. O vilão, malandro, sem escrúpulos, desonesto, se dá bem a maior parte do tempo, e só é punido (e às vezes sequer é punido) no fim. Mas será que essa punição tem impacto sobre a opinião do espectador a respeito de certo e errado?
Numa novela que se desenrole por, digamos, seis meses, o vilão, malandro, passa cinco meses e três semanas ganhando dinheiro, obtendo os melhores cargos no trabalho, ficando com as melhores mulheres, angariando simpatias e rindo das desgraças do mocinho. Tudo parece dar certo para o malandro, como no samba.
Já o mocinho, mané, sofre por cinco meses e três semanas. Perde oportunidades profissionais, sexuais, é vítima de armações, é ridicularizado por todos, em especial pelo malandro. Na semana final, o mané dá a volta por cima, mas será que, aos olhos do espectador, uma semana de felicidade tem mais peso que 23 semanas de infortúnios?
Será que ser mocinho compensa, segundo as telenovelas, o samba e a vida real?
No país do jeitinho, da ética do malandro e da Lei de Gérson, parece que não. É desanimador viver num lugar assim.
Na próxima vez, vou levar um fone de ouvido e ouvir rock and roll no carro da firma.
[O post sofreu ajustes na formatação]
Atualização:
- O amigo jornalista Demétrio Pereira me lembra que não adianta ouvir rock and roll para escapar da apologia à desobediência das leis. Sim, ele tem razão. A opção pelo rock, no texto, funciona apenas como recurso estilístico. A transgressão das leis e a afronta ao “sistema” está presente no rock até mais que no samba – e é um tema recorrente em todas as formas de arte.
- Não estou, como insinuou o Demétrio em seu e-mail, propondo uma “censura artística”. Concordo com ele quando, citando a Escola de Frankfurt, me diz que toda manifestação artística é também política e os produtos culturais influenciam, de um modo ou de outro, os seus consumidores. A saída para evitarmos a sujeição das “massas” (termo tão démodé) aos ditames da indústria cultural está na educação. Só com instrução, “esclarecimento” e consciência crítica as pessoas poderão discernir entre valores benéficos e nocivos e fazer suas escolhas éticas com liberdade e racionalidade.
- De Roma, o padre Luciano Motti escreve que o malandro e o caguete estão no mesmo nível, e que a minha defesa do “dedo-duro” está equivocada. Reconheço que o texto dá margem a essa interpretação. De fato, há indivíduos que usam a “caguetagem” como meio de obter favorecimentos e vantagens pessoais. Estes seres nada mais são que malandros que se valem desse artifício para “se dar bem”. Obviamente, não é desse tipo de pessoa que estou falando quando defendo que se denuncie a contravenção.
- Demétrio e Pedro Heberle tocma em outro ponto interessante: a postura da polícia nos morros cariocas, nascedouro do samba, e nas periferias brasileiras em geral, não é exatamente um exemplo de retidão moral e dá vazão a uma resistência por parte dos moradores dessas comunidades. Mais uma vez, concordo com meus críticos, em parte. Ao defender os policiais como “defensores da lei”, eu estava me referindo apenas aos que realmente agem como tal, e não aos malandros que usam a farda para obter vantagens.


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