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“Blog”, de Hugh Hewitt: a blogosfera merece um historiador melhor

Por Eduardo Nunes em 14 de julho de 2009 | Arquivado em posts

blog-revolucao

Eu sempre achei que aquelas frases de críticos/veículos reproduzidas nas capas de livros ou DVDs eram dignas de algum crédito. Por isso, ao pegar na livraria o livro “Blog; Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”, de Hugh Hewitt, e ler na contracapa a frase “Hugh Hewitt é o historiador não-oficial do movimento blogueiro”, assinada pelo The Wall Street Journal, pensei: “Vou levar!”

Depois de ler a obra (na verdade, li há alguns meses), tenho uma opinião bem definida sobre o jornal de Wall Street: ou eles não leram o livro, ou não entendem lhufas do movimento blogueiro.

E nem estou falando das absurdas convicções políticas e ideológicas do autor. Para mim, na hora da compra, não importava que Hewitt fosse um dos porta-vozes da direita cristã-militarista americana. Nos EUA, a blogosfera é coisa de gente grande, e lá tanto a direita quanto a esquerda descobriram há algum tempo o poder político de um bom blog. Logo, o livro poderia ser bom mesmo se escrito por um radialista fanático que deve ter a frase “I Love Dicky (Cheney)” tatuada na nádega direita.

O problema é que “Blog” quase não  trata do conceito de bl
og. O incensado “historiador” quase nada fala sobre a consolidação dos blogs, sobre o que os diferencia da mídia tradicional e, quando tenta fazer isso, chega a conclusões absurdas. Hewitt usa as mais de 260 páginas do livro tão somente para expor sua visão de mundo e para fazer propaganda dos blogs que aprecia – principalmente do seu.

Tudo de relevante da obra de Hewitt caberia em dez páginas, no máximo. Eu disse “dez”? Cinco! E, mesmo assim, essas páginas seriam destinadas a pessoas que passaram os últimos dez anos congeladas numa câmara criogênica e despertaram, de repente, num mundo onde havia blogs.

Quando Hewitt tenta fazer jus ao rótulo de “historiador” que vem na contracapa, o resultado é sofrível
. Como no capítulo em que compara o movimento blogueiro à Reforma Protestante. A analogia, em que os blogueiros seriam os seguidores de Lutero e a mídia tradicional seria a Igreja Católica, é válida. O problema é que, ao invés de desenvolver essa comparação e explorar suas dobras e nuances, Hewitt, um protestante engajado, passa o capítulo inteiro contando detalhes irrelevantes da vida de Lutero, sua conversão e sua doutrina. Logo, a analogia não foi colocada lá para explicar a blogosfera, e sim para tentar fazer com que os leitores encontrem Jesus.

Isso também é visto nas muitas páginas em que ele cita e indica blogs cristãos. A citação até teria sentido, se o autor, ao invés de colar longos trechos de sermões de pastores (sim, ele faz isso), explicasse como um blog pode ajudar uma igreja a difundir sua mensagem.

Mas o pai-de-todos-os-absurdos vem agora, leitor:

Para Hugh Hewitt, pasme, o grande diferencial dos blogs em relação à grande mídia não é o formato blog, mas sim a não-adesão dos blogueiros à conspiração da imprensa para derrubar o governo Bush. Está lá, repetido e repetido em várias passagens. Hewitt afirma que TODA a grande mídia americana (com exceção da Fox News e de algumas rádios) é uma colossal coalizão de esquerda e, em alguns casos, de extrema-esquerda.

O mais interessante é a justificativa que ele dá para tal “esquerdismo” da imprensa. Para ele, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Não, isso não é uma ilusão de ótica. Está lá, nas páginas de “Blog: Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”. Para não deixar dúvidas, vou repetir:

Para Hugh Hewitt, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Ler isso é o suficiente para queimar um livro, não? Eu venci meus impulsos hitleristas e li até o fim. Não recomendo que você faça o mesmo.

Ao chegar à página 261, estava com três certezas em mente:

1) Hugh Hewitt é um asno.

2) Na próxima vez que a Thomas Nelson quiser editar algo sobre a blogosfera, deveria chamar a Yoani Sánchez ou, vá lá, o Cardoso.

3) O Wall Street Journal me deve uma grana.

[O post foi atualizado (na especulação sobre a frase que Hewitt mandou tatuar na nádega direita)]

[Imagem: divulgação]

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