Laços de Família

Vez que outra aparecem na taimeláine manchetes dizendo, por exemplo, que a esposa do ministro do STF Gilmar Mendes trabalha no escritório de advocacia que defende Eike Batista, o marido da Eliane Cantanhede faz assessoria pro PSDB, a filha do ministro Fux virou desembargadora no Rio, o ministro Marco Aurélio Mello é primo do Collor…

JBS: Joesley é casado com jornalista que apresentou o Jornal da Band. O ex-braço-direito do procurador-geral Janot tá no escritório de advocacia que negociou o acordo de leniência do empresário. Já o ex-braço-direito do próprio Joesley é hoje ministro da Fazenda (e antes de ir pra JBS foi presidente do Banco Central no governo Lula). Por falar em fazenda, a família do Gilmar Mendes vende bois pra JBS. Sabe o Fred, o primo que o Aécio disse que pode matar antes de fazer a delação? O pai dele deu entrevista sobre o áudio e, adivinhe: é desembargador aposentado.

Por aqui, os Três Poderes (e o poder maior, que é o econômico) são uma grande novela do Manoel Carlos. Ou uma Corte típica da nobreza hereditária

Aécio e o pó

Na minha última contagem, Aécio tinha uns 753 mil defeitos como homem público, mas nenhum destes envolvia ele ser (ou não) usuário de drogas.

Vejo amigos progressistas chamando Aécio de “cheirador”, fazendo piada com “carreira”, “pó” etc, e até entendo que alguns talvez façam isso pra contrapor essa suposta conduta privada do senador com o moralismo rasteiro que ele ostenta em público.

Mas, mesmo neste caso, acho que o prejuízo que tais piadas impingem à imagem de Aécio é bem menor que o dano que elas causam ao debate franco e maduro sobre as drogas e à luta por uma política menos repressora.

P.S. Este post trata dos ataques à imagem dele como usuário de drogas, que são os mais recorrentes, e não como suposto participante de redes de tráfico.

Sobre ter lado

O lado à esquerda da polarização usa vários adjetivos pra definir as pessoas de esquerda que não aderem a nenhuma das torcidas no processo contra Lula, e um dos epítetos mais comuns é o já clássico “isentão” (o lado à direita em geral nem consegue ver essas nuances pq pra eles qualquer pessoa que não concorde com a escravidão já é automaticamente comunista).

Bueno, nem é preciso repetir (mentira, é preciso sim pq a galera esquece) que qualquer crítica feita à esquerda por alguém de esquerda já traz pressuposto o repúdio à direita. Criticar posturas petistas não significa defender posturas tucanas ou peemedebistas. Só por dizer que Lula é hoje milionário (e ele é: ganhou milhões de reais como titular de mandato, dirigente e palestrante, e o nome de quem ganha milhões é milionário), isso não quer dizer que considero o Judiciário e o MP os guardiões do povo humilde. Pelo contrário: as carreiras jurídicas públicas e privadas foram colonizadas pelas classes média-alta e alta, são uma de suas capitanias hereditárias. Via de regra, nos processos os principais atores (o promotor que acusa, o advogado que defende e o juiz que julga) foram todos recrutados na mesma casta e muitas vezes são até aparentados em casamentos consanguíneos, como em toda nobreza digna do nome.

É evidente que essa casta opera agora politicamente, como SEMPRE operou, em especial contra réus pobres que não conseguem contratar os advogados mais caros do país para defendê-los em Curitiba. Isso quando esses pobres chegam a virar réus, porque milhares e milhares passam longo tempo encarcerados sem julgamento (e isso, pra muita gente, não parece violar o sacrossanto Estado de Direito, que só é colocado em risco quando milionários são enquadrados).

Li a notícia de que Lula chegou a Curitiba para o depoimento em um jatinho do fundador da Kroton Educacional, Walfrido dos Mares Guia, que, aliás, foi ministro do seu governo. Uma boa síntese desse embate no topo da pirâmide. A empresa, uma das tantas que cresceram de modo obsceno com as políticas educacionais petistas (que tiveram efeito positivo ao aumentar o acesso dos pobres ao ensino superior, mas são passíveis de muitas críticas, como por exemplo a de que continuamos com 92% de analfabetos funcionais, a diferença é que agora muitos destes têm diploma), tem hoje valor de mercado superior a 20 bilhões.

Desculpa, gente, mas, como uma galera tem zoado nas redes, nessa novela aí eu torço pra que Lula e Moro fiquem juntos no final.

Notas aleatórias sobre o trabalho

Em tempos de discussão sobre que é “ser trabalhador”, duas notas aleatórias sobre a relação dos brasileiros com o trabalho:

1. Minha mãe conta que tinha primas que, quando crianças/adolescentes (interior de São Sebastião do Caí-RS, anos 1960), iam trabalhar na roça vestindo casacos, mesmo no verão. O motivo: elas queriam conservar a pele branquinha e evitar o bronzeado que era a marca de quem mourejava sob o sol. Bronzeado era coisa de trabalhador braçal, era coisa de pobre.

(O curioso é que, hoje, a relação se inverteu e há ampla demanda por bronzeamento, inclusive artificial. Ter a pele bronzeada virou indicativo de status, de praia, piscina e ócio – mas, ainda, o importante é: não parecer trabalhador.)

2. Em 2002, eu e a vida seminarística estávamos “dando um tempo” e fui morar e trabalhar numa paróquia da zona norte de Porto Alegre. Num dia de evento no salão da igreja, vieram uns trabalhadores entregar uns materiais e equipamentos.

Eu, que estava lá como “anfitrião”, abri o salão pra eles montarem os trecos e decidi dar uma ajudinha. Cheguei pra um cara bem vestido e que, aparentemente, estava chefiando a equipe e disse, apontando pra uma mesa desmontada: “Tu pega aí nesse lado e eu pego aqui?” Ele fez uma cara de ofendido e me respondeu: “Cara, EU NÃO VOU BOTAR A MÃO!” Dei de ombros, me afastei e ofereci ajuda a um dos trabalhadores braçais.

Sangue do meu sangue

Uma das histórias que minha mãe contava na minha infância, e à qual eu devia ter prestado mais atenção, é que temos uma antepassada “bugra” que teria sido caçada no mato, com uso de cães perdigueiros, para se casar (ou ser casada) com seu futuro marido, que não lembro se é avô ou bisavô do meu avô materno.

Sou descendente direto, portanto, do sequestro, do estupro, do roubo de terras, do assassinato e do esmagamento cultural dos povos indígenas – tanto dos autores quanto das vítimas. Um pedaço de mim estava apanhando da polícia ontem, em Brasília. Outro pedaço de mim estava jogando as bombas e empunhando os cassetetes.

Tenho vergonha da parte de mim que agride, rouba terras e nega à outra parte o direito de existir. Desejo que a parte oprimida se afirme e ganhe força – e isso começará, em mim, pelo resgate dessa ancestralidade que deixei tanto tempo esquecida, na memória nebulosa das histórias que ouvi na infância.

Estou falando de mim, mas também posso estar falando do Brasil. Até porque o Brasil também sou eu.

(a foto é da Mobilização Nacional Indígena)

Ladrões de estimação

“Roubou/deixou roubar, mas foi pra garantir a ~governabilidade~ e fazer inclusão social”

“Rouba, mas tá fazendo o ~ajuste necessário~”

“Rouba, mas pelo menos ajudou a tirar o PT do governo”

“Rouba, mas olha ali, a economia tá começando a dar sinais de melhora, projetam analistas”

A doutrina do “Rouba mas faz” e a do “Our Son Of A Bitch” nunca estiveram tão em voga.

Sintomas de uma sociedade doente

Uma das trinta lojas fechadas pela Multisom ficava em Cachoeirinha, em frente à parada onde desço do ônibus diariamente, ao voltar do trabalho.

O imóvel não ficou muito tempo ocioso: a tradicional loja de, ahn, CDs (que acabou virando um bazarzão de eletrônicos) será substituída por uma farmácia da rede São João, quase pronta pra ser inaugurada.

Chamou minha atenção o fato de JÁ HAVER uma outra São João em funcionamento no mesmo lado da Avenida Flores da Cunha, a menos de cem metros do novo estabelecimento.

Hoje, pus-me a contar. Só naquelas duas quadras da avenida entre as paradas 49 e 49A, os consumidores de Cachoeirinha poderão escolher entre OITO farmácias, assim que a nova São João for inaugurada.

Oito farmácias em duas quadras só podem ser sintoma de uma sociedade cada vez mais doente.

Viagem à Porto Alegre de 2114

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 Continue reading “Viagem à Porto Alegre de 2114” »

Até quando contarei histórias assim?

Era quase 0h de uma fria noite de junho quando o nosso carro chegou ao maior hospital de Porto Alegre e do Estado. Na entrada da emergência pediátrica, dezenas de pessoas vibraram quando viram o logo do jornal na porta do automóvel.

Quando descemos do carro, eu e o fotógrafo Jean Schwarz fomos abordados por vários homens e mulheres, alguns com crianças pequenas no colo, que despejaram sobre nós uma torrente de queixas e protestos, todos gritando ao mesmo tempo. Continue reading “Até quando contarei histórias assim?” »