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Posts com a tag "Educação"

Um passeio na escola do futuro

Por Eduardo Nunes em 15 de outubro de 2009 | Arquivado em escola

Recentes casos de desrespeito e agressão de professores de escolas públicas – com a conivência da Justiça, muitas vezes – não são de maneira nenhuma espasmos isolados. Mostram uma tendência, escancaram as engrenagens ocultas do devir social, constituem-se num vislumbre muito claro do futuro que se avizinha. Futuro a que tive acesso, num momento de delírio – ou de excesso de lucidez… ainda não sei.
No meu transe epifânico, me vi, como num passe de mágica, transportado a um futuro próximo, neste mesmo Brasil que hoje destruímos a marretadas decididas.

Visitei algumas escolas daquele Brasil vindouro. Lá, percebi que a grande maioria dos alunos ia fazer qualquer coisa, menos aprender. Uns eram constrangidos pelos pais a estarem lá, outros só queriam a merenda servida no recreio, outros batiam ponto no educandário para que sua família tivesse acesso ao pagamento de bolsas fornecidas pelo governo, alguns usavam a rede de contatos do mundo escolar para distribuir drogas e uns poucos compareciam às aulas por não terem nada melhor para fazer.

As escolas que vi não se pareciam com escolas, em absoluto. Os prédios assemelhavam-se àqueles das áreas de conflito que aparecem na TV. Prédios de áreas de conflito são característicos. Qualquer que seja a região, é sempre o mesmo o aspecto dos edifícios mostrados. Stalingrado em 1942, Saigon em 1972, Bagdá em 1991, Cabul em 2003. Assim, ou quase assim, eram – ou serão… viagens no tempo sempre geram uma confusão com os verbos – as escolas do futuro que vi. Vidros quebrados, paredes pichadas, portas e janelas arrebentadas, móveis inutilizados.

Em um dos colégios que visitei, perguntei ao zelador que perversos vilões teriam empregado tal quantidade de energia para danificar estabelecimentos públicos de ensino. Visigodos? Cruzados? Nazistas? Marines? Orcs? Stormtroopers?

“Alunos” – respondeu o zelador.

Espiei uma das salas de aula daquela escola para ver com meus próprios olhos o comportamento de tão destrutivos estudantes. Naquele dia, dois professores tinham faltado ao trabalho (um estava de licença-saúde devido a uma síndrome do pânico derivada do quotidiano da profissão, outra entregava currículos em lojas de departamentos, já que tinha decidido trocar o magistério pela cultura de vendas). A falta de dois mestres fazia com que duas turmas precisassem ser atendidas concomitantemente com outras duas. Dois professores faziam o serviço de quatro.

Perguntei a um dos educadores se isso não tornava a aula um inferno naquelas quatro turmas. Ele disse que sempre era um inferno, e que a vantagem de se atender duas turmas ao mesmo tempo é que assim todos podiam ir embora mais cedo.

Os alunos, mesmo nas salas em que havia um professor dedicado exclusivamente a eles, não pareciam se importar muito com o mestre. Conversavam, riam alto, jogavam papéis e pedaços de giz uns nos outros e ocasionalmente no professor, trocavam bilhetinhos e, ao serem repreendidos pelo educador, respondiam com insultos e ameaças de agressão ou de processo judicial.

Numa das salas, um menino de 13 anos levou a cabo uma dessas ameaças e quebrou uma cadeira nas costas de uma professora. Depois de agredida, ela se levantou e perguntou ao agressor se ele tinha acertado a cadeirada exatamente onde queria acertar. Ele respondeu que sua intenção era atingi-la um pouco mais à esquerda, ela se desculpou por ser um mau alvo e pediu-lhe que tentasse de novo. Ele fez isso, ela foi parar na UTI do hospital em estado de coma e, ao acordar, sorriu aliviada ao ser informada que a família do seu algoz tinha decidido não registrar queixa contra ela.

Nesse momento, uma campainha começou a tocar. A professora não pareceu ter ouvido o som, mas eu ouvi, cada vez mais claro, até acordar do terrível pesadelo que tinha perturbado o meu sono. Enquanto me arrumava para ir para uma das escolas em que leciono, pensei no futuro que vislumbrei e  dei-me conta de que quase todas aquelas coisas já estão acontecendo.

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O país em que se aplaude o infrator

Por Eduardo Nunes em 22 de setembro de 2009 | Arquivado em escola

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Dos muitos absurdos capazes de estarrecer qualquer pessoa que não seja brasileira (nós perdemos a capacidade de nos surpreender, tal a profundidade da fossa em que estamos imersos), um dos mais embasbacantes é a indiferença com que o poder público e parte da academia encaram a enorme quantidade de crimes cometidos por adolescentes dentro e fora de nossas escolas.

Não estou falando de furtos, homicídios e colaboração com o narcotráfico. Falo de crimes igualmente previstos em lei, com punições e tal, mas que são tidos por aspones e pedabobos como “coisas normais de adolescente” .

Hoje, a Zerohora.com traz na capa do site a seguinte matéria:

Pais se queixam de punição dada a filho em escola de Viamão

O texto relata um crime ambiental (inafiançável, portanto) praticado em uma escola pública do alvissareiro município de Viamão (não foi na minha! eu juro!), onde um adolescente de 14 anos, aluno da sexta série (sim, da sexta – com essa idade) pichou o muro do estabelecimento. O requinte de crueldade: a superfície pichada pelo menor tinha sido recém pintada pela comunidade, como resultado de meses de campanha para arrecadação do dinheiro empregado na compra da tinta.

Constatada a pichação e identificado o pichador, uma das professoras do educandário tratou de tomar a medida socio-educativa mais branda: mandou-o pintar a área vandalizada. O pecado mortal cometido pela educadora: ela chamou o querido aluno de “bobo da corte” enquanto ele pintava o muro, e isso foi captado pelas câmeras de colegas que filmavam o nobre gesto do pichador. Os pais ficaram sabendo e foram exigir explicações. Afinal, agir como pichador e cometer um crime inafiançável é um ato justo e nobre. Chamar o autor de tal vilania de bobo da corte é a mais hedionda das maldades. Que maldita inversão de valores é essa?

Uma olhadela na lotada caixa de comentários da matéria da ZH mostra que a imensa maioria dos leitores defendem a professora e criticam a permissividade dos pais que acobertam atos como esse.

********

Nossas escolas parecem um beco tirado de um filme policial nova-iorquino dos anos 80. Já mostrei, em um post anterior, o estado das paredes e das carteiras de uma das escolas em que trabalho. Se os vândalos que as picham quiserem fazer isso de novo, precisarão pedir à prefeitura carteiras novas e pintura nova nas paredes, ou usar tinta branca para pichar, pois já não há espaço para novos vandalismos. E por que isso acontece? Porque a pichação não vem sendo tratada como o que é: um crime. Cri-me. C-R-I-M-E.

Não é brincadeira de criança. As leis (e as punições para os que as descumprem) existem para que a vida em sociedade seja possível. Isso não é autoritarismo; é entender que nem toda repressão é má. A repressão aos nossos instintos de destruição é uma condição sine qua non para a coexistência com nossos semelhantes.

Além da pichação, vejo, todos os dias, muitos outros crimes sendo cometidos por adolescentes: agressão, extorsão (que outro nome merece o ato de obter vantagens dos colegas mediante ameaças de agressão?) , desacato a servidores públicos (acredite, isso é crime), atentado ao pudor, assédio sexual, difamação e calúnia, ameaças de todo tipo.

Se um adulto fizer todas essas coisas, ele está sujeito a ser processado, preso, punido com privação da liberdade, multa ou prestação de serviços públicos.

Quando um adolescente faz todas essas coisas (e eles fazem várias vezes por dia), o que acontece? Nada. E ainda temos que ouvir aspones nos dizendo que é preciso “aprender a conviver”, “entender o diferente”, “ouvir o que eles têm a dizer”.

É assim que se perpetua uma estrutura de violência. Façamos de conta que os criminosos não existem, e pode ser que um dia eles deixem de existir.

O Drummond que me perdoe pelo plágio, mas esta vida besta, meu Deus.

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Queixas da escola do professor Belini

Por Eduardo Nunes em 16 de julho de 2009 | Arquivado em escola

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[Essa é uma parede do banheiro da escola a respeito da qual o professor Belini não tem qualquer queixa]

Vejam só: o professor Belini Romanzini, representando a Secretaria Municipal de Educação de Viamão, deu a este blogueiro a honra da sua visita.

Comentou o post sobre a disparidade entre duas escolas da rede municipal, em bom pedagoguês (idioma dos pedagogos) e, como não poderia deixar de ser, fechou com uma citação de auto-ajuda (no caso, o trecho de uma canção da Legião Urbana).

Do comentário do professor Belini, duas frases em especial me deixaram estarrecido:

- Visitei a escola inúmeras vezes e encontrei um ambiente muito acolhedor, fui tratado com respeito e dignidade por todos, inclusive entrei em sala e dialoguei com os alunos.

- Descobri nos alunos um grande potencial e um carinho muito grande pela escola e pelos educadores, não houve nenhuma queixa, nenhuma mesmo.

Será que estamos falando da mesma escola, professor Belini?

Não tiveste nenhuma queixa de lá? Nenhuma mesmo? Well, vamos tratar das queixas, então.

No mês de março (no início do ano, quando tudo devia estar tranquilo e sereno), tivemos na escola uma reunião pedagógica com DUAS assessoras da SME. Enquanto as professoras e a direção despejavam sobre as assessoras dezenas de queixas, fiquei no meu canto, anotando os principais absurdos na agenda.

No fim da reunião, pedi um aparte e recitei para todos o resumo da conversa:

Problemas identificados no mês de março:

- Uma turma está com 47 alunos. Isso numa sala onde cabem, com conforto, no máximo 30.

- A sala onde esta multidão tem ‘aula’ estava, no fim de março, com carteiras faltando, de sorte que duas grandes mesas do refeitório tinham sido transferidas para lá, a fim de acomodar os alunos. (OBS: com o tempo, o problema foi resolvido).

- A construção de uma nova sala de aula, no mínimo, tinha sido prometida em 2008 e ficou só na promessa.

- O laboratório de informática também ficou só na promessa. Até levaram alguns computadores para a biblioteca, mas eles continuam lá, sem funcionar.

- Em função do atrolhamento (tradução: coisas demais guardadas num lugar só), a biblioteca não podia ser usada. (OBS: com o tempo, o problema foi mais ou menos resolvido).

- Não há livros didáticos suficientes para todos os alunos.

- Não tínhamos bibliotecário. (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- Os colchonetes usados nas aulas de Educação Física estão podres, nojentos, se desintegrando.

- O mato estava tomando conta do pátio da escola (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- A escola não tem telefone porque a verba que o governo manda é insuficiente para pagar a taxa.

- A escola estava sem porteiro. (OBS: Com o tempo, o problema foi  resolvido).

- Traficantes de drogas estavam sempre à espreita no portão da escola. (OBS: Com a chegada do porteiro, problema resolvido, eu acho).

- Não há sala para exibir vídeos para os alunos.

- Não havia merenda na escola. (OBS: Com o tempo, o problema foi resolvido).

- A estes problemas de março, acrescente-se o seguinte: as turmas da tarde estão há meses sem professor de Geografia e de Educação Física.

Depois de desfiar todas essas queixas, lembrei às assessoras da SME que, em todo final de ano letivo, a secretaria se estarrece com os altíssimos índices de reprovação e proíbe a escola de reprovar todos os alunos com baixo rendimento (“Deem um jeito de recuperar!”, nos ordenam sempre… e nós “damos um jeito”, transferindo os problemas para o ano seguinte). Pois bem, lá estava eu, no INÍCIO do ano, expondo alguns dos motivos que nos levam, no fim do ano, a ter tantos alunos com baixo rendimento.

**********
Outra coisa que disseste, professor Belini, é que foste tratado com respeito por todos. Mais uma vez, a pergunta: será a mesma escola?

Claro que é!

É muito fácil tratar um visitante com respeito, principalmente quando ele ocupa um cargo importante.

Para sentir a realidade da escola, não basta aparecer por lá em dia de torneio de futebol (dia, aliás, em que um aluno tentou roubar um celular e algumas alunas levaram caipirinha e ficaram bêbadas… tu acompanhaste os casos, não?). É preciso entrar na sala de aula como professor da turma. Se fizesses isso, verias e ouvirias coisas diferentes…

Por exemplo, saberias que a professora Fulana foi ameaçada de morte por um aluno.

Ou que uma aluna ameaçou a professora Beltrana de agressão.

Ou que dois alunos (da 5ª série) já ameaçaram me bater na rua.

Ou que somos, diariamente, desrespeitados, humilhados e agredidos verbalmente pelas pessoas que tentamos (pode acreditar, nós tentamos) educar.

Pode ser que tu digas agora, professor Belini, que os alunos nos tratarão com respeito se nós os respeitarmos também. Ora, eu sempre trato os alunos com respeito. Sempre tento mostrar-lhes que o respeito e a educação são um diferencial que eles devem ter e que pode ajudá-los a conquistar um lugar ao sol.
Convido-te a assistir às minhas aulas, se quiseres comprovar.

Um abraço, professor Belini, e obrigado pela audiência.

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Duas escolas. Dois mundos

Por Eduardo Nunes em 9 de julho de 2009 | Arquivado em escola

As duas escolas em que trabalho, apesar de ficarem a menos de dois quilômetros uma da outra, parecem estar em dois mundos diferentes – e são a prova de que a educação só é possível com organização e disciplina da parte de todos os atores envolvidos no processo.

O ambiente: Vilas Esmeralda e São Jorge, em Viamão, cidade-dormitório da periferia de Porto Alegre. Um lugar mais ou menos assim:

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São comunidades parecidas, formadas por pessoas de baixo poder aquisitivo, com elevados índices de violência e criminalidade, forte e notável presença do tráfico de drogas etc, como acontece em tantas outras periferias brasileiras.

Num lugar desses, este é o aspecto normal de um posto de saúde, por exemplo:

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Pois bem. Em uma das referidas escolas, essa realidade de violência, permissividade e desorganização é reproduzida e até aprimorada. Na outra, a maioria desses problemas é barrada no portão de entrada.

EMEF Território do Caos

O nome é fictício, mas tem excepcional valor descritivo. Observe, por exemplo, o cemitério de carteiras e cadeiras quebradas que fica nos fundos da escola:

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Você já tentou quebrar uma cadeira ou uma carteira, leitor? Eu nunca tentei, mas imagino que a tarefa não seja das mais fáceis.

Tantos móveis inutilizados só podem significar duas coisas: ou a escola recebeu a visita de uma manada de búfalos, ou os alunos que a frequentam não têm muita intimidade com normas de conduta.

O mobiliário não é a única vítima da violência nesse educandário. Os alunos também quebram portas, vidros, divisórias de banheiro, canos; picham paredes e carteiras.

À noite, um dos passatempos dos moradores da vila parece ser apedrejar a escola, quebrando telhas e vidraças:

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Pelo vidro quebrado, podemos ver o rosto de Paulo Freire, num banner em que está escrito:

“…Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima…”

Meu amigo Paulo Feire, você já visitou esta escola? Se visitasse, veria coisas como essas:

- Uma das salas de aula passou quase todo o ano de 2008 sem porta. As dobradiças foram simplesmente arrebentadas por impacto (s) de natureza ignorada. Quem quebrou a porta? Não se sabe. Que medida socioeducativa foi tomada? Nenhuma.


- Numa tarde deste ano, estávamos na sala dos professores no fim do recreio, quando uma aluna bateu na porta. Ao ser atendida pela vice-diretora, a menina foi logo gritando: “Sôra, tão batendo no Fulano!” Que atitude tomou a educadora? Apenas disse: “Tá, já vou dar o sinal, pra vocês irem pra sala”. E simplesmente encerrou o recreio, como se o espancamento não tivesse ocorrido, como se não fosse necessário identificar e punir os culpados.

- Num sábado letivo (desses em que nada se faz, apenas para o presidente poder se gabar de ter 200 dias no calendário escolar), alunos vieram correndo informar que um colega tinha dado um pontapé em uma porta e arrebentado o marco, tornando inútil a fechadura. Adivinhe o que foi feito… Nada. A porta continua inutilizada e o infrator, que sequer foi identificado (ou, se identificado foi, não sofreu punição), aprendeu as maravilhas da impunidade.

Como uma escola chega a tal nível de degradação?

Quando cheguei lá, no início de 2008, percebi que a direção e o grupo de professores estavam em guerra. Intrigas e ranços pessoais geram um clima de má vontade de ambos os lados, o que impossibilita qualquer pacto, qualquer trabalho integrado.

Não há referencial, não há regras claras e unívocas, não há diálogo entre os segmentos da comunidade escolar. Em caso de problemas, não há a quem recorrer e, quando se recorre à equipe diretiva, ouve-se respostas desse tipo:

“Eduardo, os nossos alunos são filhos de traficantes, são irmãos de presidiários. Nós não podemos bater de frente com essa gente.” (dito pela diretora, que, aliás, entrou em licença-saúde e provavelmente não voltará ao cargo)

“Eu não vou fazer mais nada em relação ao Fulano (aluno com graves problemas de conduta)”. (dito pela orientadora, em reunião pedagógica).

O leitor corajoso que chegou até aqui pode estar se perguntando: “Por que raios esse cara não sai dessa escola?”

Ora, pergunte ao secretário de Educação.

Pedi transferência no final do ano passado. A Secretaria não me deixou sair totalmente; apenas reduziu a minha carga horária lá em 10 horas, mandando-me cumprir esses períodos em outra escola, tão perto e tão distante da EMEF Território do Caos.

EMEF São Jorge

É comum que as pessoas que visitam a escola São Jorge exclamem coisas como “Nem parece escola pública!” ou “Parece escola particular!”

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A vila São Jorge também é pobre e problemática, mas as paredes e móveis da sua escola não estão pichados, os banheiros estão bem conservados, têm espelhos intactos, azulejos brilhando nas paredes e, pasmem, sabonetes nas pias!

As portas e janelas estão intactas e não há uma montanha de carteiras e cadeiras quebradas nos fundos. Não há espancamentos no recreio.

Será a escola freqüentada por anjos? Não. Lá também há alunos agitados e mal-educados, também há problemas, mas a diferença é que esses problemas são imediatamente identificados e tratados.

A equipe diretiva, professores, funcionários, pais e alunos trabalham juntos em prol do bem comum. Não por boa vontade e abnegação, mas porque as normas de conduta foram definidas em conjunto e são constantemente lembradas. Todos os segmentos da comunidade escolar são orientados a seguir as regras.

Na EMEF São Jorge, diferente de outras escolas, foi estabelecido o seguinte pacto: o normal é que as coisas funcionem bem. Os problemas são exceção. Por exemplo, todos os alunos sabem que as carteiras têm de estar limpas. Quando uma é pichada, todos sabem que isso foge à normalidade – e o pichador é localizado e sofre a medida socioeducativa prevista nas normas de conduta.

Quando um professor, aluno ou funcionário é agredido verbalmente, todos sabem que isso é um desrespeito às normas de conduta – e o infrator já sabe que o deslize não vai passar em branco. Lá não existe a cultura do “Não dá nada.”

Os alunos da São Jorge também têm parentes e/ou amigos traficantes e presidiários, mas lá ninguém da equipe diretiva diz “Não podemos bater de frente”, pois a lógica é outra: o infrator é que está batendo de frente com a instituição chamada escola. Assim, a agressão a um colega é tratada como uma agressão à escola. A pichação é tratada como uma agressão à escola. Matar aulas é tratado como uma agressão à escola. Portar celular na sala de aula é tratado como uma agressão à escola.

Os professores da São Jorge também têm regras rígidas de conduta. Por exemplo, todos os dias dois mestres passam o recreio no pátio, fiscalizando o comportamento dos alunos. Em outras escolas, tal medida geraria um motim. “O meu intervalo é sagrado!”, já ouvi uma professora bradar, alhures. Pois bem, na São Jorge a norma foi sacramentada no Projeto Político Pedagógico e, graças a ela, os alunos sabem que estão sendo observados e não se comportam como uma manada de búfalos.

Infelizmente, uma escola assim é exceção na rede pública. Mas o seu exemplo mostra que ainda há esperança para a educação no Brasil.

[Para ver um slideshow com fotos das duas escolas, clique aqui]

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Minha vida de mestre

Por Eduardo Nunes em 30 de junho de 2009 | Arquivado em escola

(onde são narrados catorze minutos da rotina diária de um trabalhador da Educação – com nomes fictícios)

Entro na sala. Dou o “bom dia” mais cordial de que sou capaz. Ponho o caderno de chamadas na minha mesa e fico de pé, observando – só observando. Mais da metade da turma parece nem ter notado a minha presença. A balbúrdia duraria a manhã inteira, se os mais puxa-sacos não começassem a gritar: “Senta, senta, o Eduardo taí!”.

Quando há condições mínimas de me fazer ouvir, sento pra fazer a chamada. Na minha cadeira desenharam um pênis bem grande, e não posso deixar de notar uns sorrisinhos sacanas em alguns rostos, como se fosse uma grande coisa fazer o professor sentar num cacete.

Sempre fui contra as chamadas, pois acredito que as aulas deveriam ser para quem quisesse aprender, mas quem sou eu pra contrariar a Direção, os pais e a Secretaria de Educação? Alguns nomes já estão nessa mesma lista há anos. Muitos vêm à escola só pra ter direito às Bolsas do governo federal, ou para evitar problemas com o Conselho Tutelar. Maldito Conselho Tutelar… Eu queria que um conselheiro tutelar ficasse só uma hora tentando ensinar as Grandes Navegações pra minha sexta série.

Levanto e vou pro quadro. Lá encontro um coração desenhado, enorme, com o texto “Jéssica y Maurício: 100% Amor Eterno”. Amor eterno… Logo a Jéssica, que já amou tanta gente desde o início do trimestre…

Mando abrirem os cadernos. Alguns abrem. Tenho que ensinar a essas crianças que os burgueses precisavam de especiarias pra poderem vender carne estragada, aromatizada artificialmente. Eu pretendia também mostrar como desde aquela época os comerciantes fazem de bobos os consumidores; mas não consigo, pois primeiro tenho que mandar o Jéferson parar de chamar o Thiago (com TH) de Dumbo. Ele pára, mas aí tenho que correr pra evitar que a Cíntia e o Jonatan se matem. Que guriazinha insuportável! E o Jonatan é pior ainda. Mando os dois pra Orientação, onde não acontecerá nada com nenhum deles, a menos que desta vez a Orientadora faça algo que não seja passar um sermão inócuo.

Bem, vamos ao conteúdo. Vocês lembram onde os europeus buscavam especiarias? Como ninguém ouviu, peço silêncio e pergunto mais alto. Continuam não ouvindo. Só o Fernando, o nerd da turma, sabe a resposta. Os demais esqueceram, ou então acham que não precisam aprender essas coisas. E talvez tenham razão. Pra que mesmo eu aprendi isso? No fim das contas, só pra passar no vestibular e depois tentar ensinar esse mesmo conteúdo a pessoas que não querem aprendê-lo.

Olho o relógio, com medo do que vou ver. Faltam trinta e um minutos para o recreio. Como o tempo passa devagar na sexta série! Bem, o jeito é apertar o botão de “Foda-se”, dar as costas para a turma, pegar o giz e escrever, escrever, escrever, até que toque o sinal ou que eu morra de exaustão, o que vier primeiro.

[Texto publicado originalmente no meu blogue antigo, em dezembro de 2006. É triste dizer, mas de lá para cá as coisas só pioraram]

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Alguns sintomas da deseducação

Por Eduardo Nunes em 30 de junho de 2009 | Arquivado em escola

O Brasil é mesmo o país das maravilhas. Temos uma educação progressista e libertadora, mas nossos alunos saem da escola na condição de analfabetos.

Para entendermos como é que se faz essa mágica, a de se ensinar sem que se aprenda, imaginemos como seria uma simples ida ao médico, se o bom exemplo das escolas de Ensino Fundamental e Médio (dessas que engordam as entusiasmantes estatísticas) fosse seguido por todas as instituições de ensino, inclusive as faculdades de Medicina.

Numa cidadezinha pacata, no recém-instalado consultório do único médico do município, o paciente aguarda a sua chamada. Trata-se de um desses tipos ligeiramente hipocondríacos, leitores vorazes das bulas de remédio, e que encaram cada tosse atravessada como o prenúncio da Grande Pandemia.

O médico finalmente o chama:

– Sr. Lopes?

– Sou eu, Doutor.

– Pode entrar. Sente-se.

– Obrigado, Doutor. Nossa, como o senhor é jovem…

– Ora, agora a gente se forma bem mais cedo, depois que a Reforma do Ensino cortou a Residência… O que o senhor tem?

– Olha, Doutor, desde ontem que estou com uma tosse seca, e uma pontada nas costas. Será que é pulmão?

– Bem, o senhor vai ter que me desculpar, mas na faculdade eu colei em todas as provas da cadeira de Pneumo. Infelizmente, não posso ajudá-lo nessa área…

– Ah… Bom, mas eu também ando me sentindo meio mal depois do almoço. Umas náuseas, vômitos. O que será, Doutor?

– Ai, Sr. Lopes, nessa área eu também não sou muito forte, pois naquele semestre tinham baixado a média pra cinco, e como a gente fez um trabalho em grupo e eu já tava com cinco e meio na cadeira de Gastro, eu nem quis estudar pra prova, pois com essa nota já tinha passado…

– Tudo bem, a Maria me faz um chá de boldo, então… Doutor, e o que será que é essa descamação que tá começando no meu braço esquerdo?

– Bah, Sr. Lopes… Eu rodei em Dermato, mas como muita gente também repetiu naquele semestre, eles decidiram aprovar os que só tinham sido reprovados nessa cadeira…

– Doutor, o senhor não entende de doença nenhuma? E essas erupções aqui? Elas me aparecem de vez em quando. A Maria diz que é sangue sujo. O que eu posso tomar, Doutor?

– Bem, o senhor me desculpe, mas eu não pude estudar pra prova sobre sangue, e só passei porque o professor deixou fazer com consulta. Acabei não aprendendo nada.

– Olha, Doutor, isso é um absurdo! O senhor não pode atender pacientes num consultório, se não sabe nada de Medicina! Vou agora mesmo ao advogado, saber como posso denunciá-lo!

– Que advogado? O Freitas, do outro lado da rua?

– Esse mesmo!

– Ih, o senhor se deu mal. O Freitas se formou em Direito lá na minha Faculdade. Como ele era um terror e bagunçava muito, os professores o empurraram direto pro último semestre, pra se livrarem dele…

[texto publicado originalmente em 2006, no meu primeiro blog]

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