Sangue do meu sangue

Uma das histórias que minha mãe contava na minha infância, e à qual eu devia ter prestado mais atenção, é que temos uma antepassada “bugra” que teria sido caçada no mato, com uso de cães perdigueiros, para se casar (ou ser casada) com seu futuro marido, que não lembro se é avô ou bisavô do meu avô materno.

Sou descendente direto, portanto, do sequestro, do estupro, do roubo de terras, do assassinato e do esmagamento cultural dos povos indígenas – tanto dos autores quanto das vítimas. Um pedaço de mim estava apanhando da polícia ontem, em Brasília. Outro pedaço de mim estava jogando as bombas e empunhando os cassetetes.

Tenho vergonha da parte de mim que agride, rouba terras e nega à outra parte o direito de existir. Desejo que a parte oprimida se afirme e ganhe força – e isso começará, em mim, pelo resgate dessa ancestralidade que deixei tanto tempo esquecida, na memória nebulosa das histórias que ouvi na infância.

Estou falando de mim, mas também posso estar falando do Brasil. Até porque o Brasil também sou eu.

(a foto é da Mobilização Nacional Indígena)

O Amor nos Tempos do Socialismo

Sobre a nostalgia de viver e se apaixonar no lado de lá da Cortina de Ferro

[Texto publicado originalmente em 2009, na revista Sextante, publicação temática do curso de Jornalismo da UFRGS. Naquela edição, o tema era Nostalgia]

Naquela tarde de domingo, o tramvaï percorria velozmente os trilhos que atravessavam a cidade de Volgogrado, importante centro industrial soviético. Viajando de pé no silencioso bonde elétrico, a estudante Ana Maliuk, que tinha aproveitado o dia de folga para visitar a irmã, não pôde deixar de notar os três rapazes que não conversavam em russo. Continue reading “O Amor nos Tempos do Socialismo” »