7 de fevereiro de 2012

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Nos últimos dias, a paralisação dos policiais militares baianos tem ocupado um grande espaço na mídia.

Uma das vedetes da cobertura é a atualização constante, em rádios, TVs, jornais e sites, do número de homicídios registrados em Salvador desde o início da greve, numa mal disfarçada tomada de posição que deixa bem claro o recado: indiretamente (será?), parte da culpa por essas mortes está sendo atribuída aos policiais grevistas.

(Para a classe média de todo o Brasil, a sensação de insegurança na Bahia se torna uma questão ainda mais grave com a proximidade do Carnaval, que por sinal já deixou de ser uma festa “popular”, como mostram os preços dos abadás dos principais blocos de Salvador.)

Outro ponto alto da cobertura da paralisação é o suposto clima de guerra nas cercanias da Assembleia Legislativa do Estado, ocupada por policiais grevistas e sitiada por tropas do Exército. A casa legislativa tomada por PMs e familiares tornou-se o símbolo do movimento e o desfecho da ocupação, ao que parece, representará também o desfecho da greve.

Em meio a essas questões, a pauta de reivindicação dos policiais revoltosos passa quase à margem das pautas dos jornais. Nas matérias, a maioria dos veículos de comunicação evita se aprofundar nas exigências dos grevistas e quase nenhum deles diz quanto ganha um policial militar na Bahia. Ou no resto do Brasil.

Mesmo em colunas de opinião, a mídia evita entrar no âmago da questão: que é um absurdo um agente da lei ganhar R$ 1,8 mil mensais (isso na Bahia, pois há Estados que pagam até menos) .

Duas das categorias profissionais mais importantes para a sociedade (os policiais e os professores) estão entre as menos valorizadas pelo Estado e pelos cidadãos.

Com salários tão baixos, quem vai querer ser policial? Quem vai querer ser professor? Só as pessoas menos qualificadas. E mesmo estas acabarão arranjando “bicos”  para as horas vagas (caso de tantos policiais que também atuam como seguranças privados) ou tendo uma carga horária desumana (caso de tantos professores que trabalham 60 horas semanais ou mais) para complementar a renda.

Deixamos nossa segurança e nossa educação (ou melhor, “nossa” não, pois as classes média e alta cada vez mais buscam segurança e educação privadas) nas mãos de pessoas mal pagas e mal preparadas.

A quem isso interessa? Quem se beneficia com o sucateamento da polícia e da educação públicas? Isso também poderia constar nas coberturas jornalísticas.

P.S.: O governador da Bahia, Jaques Wagner, tem dado entrevistas afirmando que não pode conceder mais de 6,5% de reajuste aos PMs. Ora, governador, 6,5% não é reajuste; é reposição da inflação do ano, é o direito mais básico de qualquer trabalhador.

Mesmo estando limitado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o mínimo que o senhor poderia fazer, como homem que se diz de esquerda, seria assumir a causa da valorização dos profissionais de áreas essenciais e mobilizar um grupo de trabalho para pensar em maneiras de economizar dinheiro público desperdiçado em outros setores do governo (ou seja, MUITA grana) para conceder aumento real a policiais e professores.