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Sobre a dificuldade de presentear uma menina que gosta de heroínas

7 de dezembro de 2017 ,

Entro na enorme loja de brinquedos e sou abordado por uma vendedora.

— Oi, posso ajudar?

— Oi. Tô procurando um presente pra uma menininha de quatro anos. Ela gosta de jogo da memória, quebra-cabeças e Mulher Maravilha. Se desse pra unir tudo, seria perfeito.

—  Por aqui, senhor.

Ela me guia até um corredor lateral.

— Olha, pra essa idade tenho esse aqui, do Frozen.

—  Mas ela gosta de Mulher Maravilha…

— Tem esses da Disney também, ela não gosta?

— A mãe dela foi bem específica: ela gosta da Mulher Maravilha.

— De herói, eu tenho esses aqui, senhor.

Olho para a prateleira. Alguns quebra-cabeças dos Vingadores, tanto em bando quanto de heróis individuais: Hulk,Thor, Capitão América e Homem de Ferro, alguns do Batman, do Super-Homem, do Homem Aranha. Nenhuma mulher. Aí vejo, num canto, um belo quebra-cabeças da Liga da Justiça com todos os heróis, incluindo a Mulher Maravilha.

— Tem esse! — comemoro — Ah, mas esse é de 500 peças, eu queria algo mais lúdico… Vou procurar noutra loja, tá?

Entro em outra loja e o contexto e o diálogo são idênticos, com a diferença de que lá a vendedora me ofereceu um produto da Lady Bug depois que eu recusei as princesas. Acabo achando, enfim, um quebra-cabeças de 60 peças do filme da Liga da Justiça, com a Gal Gadot paramentada ao lado de cinco colegas homens.

Precisamos de heroínas. De filmes, quadrinhos, brinquedos, games, roupas de heroínas. Se os manda-chuvas indústria cultural não se sensibilizam com ideais vagos como “representatividade” e “igualdade”, que meditem uns instantes sobre a fortuna que estão perdendo ao excluir (ou pelo menos desencorajar bastante) do consumo de super-heróis  metade da população.