DF mexicano

[Do DF mexicano, um narrador bêbado e não confiável escreve sobre seus antepassados. Imagem: Google Earth]

Por que alguém leria e recomendaria uma história de faroeste narrada por um bêbado mexicano e escrita por um porto-alegrense de 25 anos que nunca esteve no México?

Resposta: porque o livro é bom demais.

Areia nos Dentes foi lançado em 2008, pela Não-Editora. O não-autor, Antônio Xerxenesky (site | blog| twitter), não-sócio da não-empresa, sempre foi apaixonado pela cultura mexicana, por histórias de faroeste e de zumbis e um dia decidiu juntar tudo isso em um livro.

É o primeiro romance de Xerxenesky, o que significa que pode ser um pouco cedo pra puxar com tanta veemência o saco do autor, mas acredito que o risco de engano seja mínimo: o cara já é um grande contador de histórias e um grande escritor. Ou seja, ele não apenas consegue envolver o leitor com sua história, mas também sabe juntar as palavras com maestria, resultando numa prosa quase poética.

A história do povoado de Mavrak, uma quase cidade-fantasma perdida no meio do deserto, num lugar e numa época em que não fazia muito sentido perguntar se era Estados Unidos ou México, é narrada por Juan, um velho bêbado e nem um pouco confiável que vive em um apartamento perdido na selva urbana do Distrito Federal mexicano. Enquanto reflete sobre o vazio da sua vida, Juan decide contar (ou seja, inventar) a história de seus antepassados de Mavrak. Graças a esse recurso de metalinguagem, sabemos o tempo todo que tudo não passa de ficção contada a partir dos dias atuais – mas, mesmo assim, avançamos página após página para saber o que vem em seguida, tal a intensidade com que o enredo nos atinge.

Por falar em linguagem, o livro é uma mescla de gêneros narrativos que se complementam. Por meio do seu narrador/alter ego Juan, Xerxenesky brinca com diferentes estilos, contando sua história ora no formato de roteiro cinematográfico, ora como fluxo de consciência, ora bisbilhotando no diário de um dos personagens, ora traçando um paralelo entre o que dois personagens pensam ao mesmo tempo, ora perdendo um capítulo inteiro por causa de um vírus de computador.

O livro é tão bem amarrado que até o que não está nele funciona bem, como no caso do capítulo que, na vida real e não no romance,  foi suprimido sem querer na hora de diagramar e acabou ficando de fora na impressão (não faz falta na comp䁲ensão da trama e prova que Xerxenes䁫y é tão confiável quanto Juan, como ele mesmo conta neste post do seu blogue).

“Não tem como ser ruim”
Areia nos Dentes traz muitos dos deliciosos clichês que imortalizaram o gênero: a ética da valentia e da honra, a guerra entre dois clãs rivais (no caso, os Marlowes e os Ramírez), o deserto, os duelos, os índios, o xerife austero e o saloon com suas prostitutas, seus bêbados, seus jogos de pôquer e suas brigas que começam por uma besteira e acabam com um cara sendo morto a tiros.

Ah, e os zumbis.

Já na orelha do livro, Daniel Galera diz: “Se tem zumbis no meio, só pode ser bom”. Quando falei de Areia nos Dentes ao colega e amigo Diogo Pereira, sua resposta foi muito parecida: “Bah, faroeste com zumbis? Não tem como ser ruim!” Realmente, não tem mesmo.

Os cadáveres que saem das entranhas da terra para se intrometer na guerra entre Marlowes e Ramírez acabam por encerrar a guerra dos mavrakianos contra o ambiente hostil em que teimavam em viver. Uma comunidade que vivia tão longe de tudo e tão perto do Nada estava condenada à morte. Nada mais justo que fossem os mortos os executores da sentença.

E nada mais real do que um final de romance em que carrascos se tornam réus e réus se tornam carrascos. A fantasia de estarem mastigando cérebros é só uma licença poética.

blog-revolucao

Eu sempre achei que aquelas frases de críticos/veículos reproduzidas nas capas de livros ou DVDs eram dignas de algum crédito. Por isso, ao pegar na livraria o livro “Blog; Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”, de Hugh Hewitt, e ler na contracapa a frase “Hugh Hewitt é o historiador não-oficial do movimento blogueiro”, assinada pelo The Wall Street Journal, pensei: “Vou levar!”

Depois de ler a obra (na verdade, li há alguns meses), tenho uma opinião bem definida sobre o jornal de Wall Street: ou eles não leram o livro, ou não entendem lhufas do movimento blogueiro.

E nem estou falando das absurdas convicções políticas e ideológicas do autor. Para mim, na hora da compra, não importava que Hewitt fosse um dos porta-vozes da direita cristã-militarista americana. Nos EUA, a blogosfera é coisa de gente grande, e lá tanto a direita quanto a esquerda descobriram há algum tempo o poder político de um bom blog. Logo, o livro poderia ser bom mesmo se escrito por um radialista fanático que deve ter a frase “I Love Dicky (Cheney)” tatuada na nádega direita.

O problema é que “Blog” quase não  trata do conceito de bl
og. O incensado “historiador” quase nada fala sobre a consolidação dos blogs, sobre o que os diferencia da mídia tradicional e, quando tenta fazer isso, chega a conclusões absurdas. Hewitt usa as mais de 260 páginas do livro tão somente para expor sua visão de mundo e para fazer propaganda dos blogs que aprecia – principalmente do seu.

Tudo de relevante da obra de Hewitt caberia em dez páginas, no máximo. Eu disse “dez”? Cinco! E, mesmo assim, essas páginas seriam destinadas a pessoas que passaram os últimos dez anos congeladas numa câmara criogênica e despertaram, de repente, num mundo onde havia blogs.

Quando Hewitt tenta fazer jus ao rótulo de “historiador” que vem na contracapa, o resultado é sofrível
. Como no capítulo em que compara o movimento blogueiro à Reforma Protestante. A analogia, em que os blogueiros seriam os seguidores de Lutero e a mídia tradicional seria a Igreja Católica, é válida. O problema é que, ao invés de desenvolver essa comparação e explorar suas dobras e nuances, Hewitt, um protestante engajado, passa o capítulo inteiro contando detalhes irrelevantes da vida de Lutero, sua conversão e sua doutrina. Logo, a analogia não foi colocada lá para explicar a blogosfera, e sim para tentar fazer com que os leitores encontrem Jesus.

Isso também é visto nas muitas páginas em que ele cita e indica blogs cristãos. A citação até teria sentido, se o autor, ao invés de colar longos trechos de sermões de pastores (sim, ele faz isso), explicasse como um blog pode ajudar uma igreja a difundir sua mensagem.

Mas o pai-de-todos-os-absurdos vem agora, leitor:

Para Hugh Hewitt, pasme, o grande diferencial dos blogs em relação à grande mídia não é o formato blog, mas sim a não-adesão dos blogueiros à conspiração da imprensa para derrubar o governo Bush. Está lá, repetido e repetido em várias passagens. Hewitt afirma que TODA a grande mídia americana (com exceção da Fox News e de algumas rádios) é uma colossal coalizão de esquerda e, em alguns casos, de extrema-esquerda.

O mais interessante é a justificativa que ele dá para tal “esquerdismo” da imprensa. Para ele, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Não, isso não é uma ilusão de ótica. Está lá, nas páginas de “Blog: Entenda a Revolução que Vai Mudar Seu Mundo”. Para não deixar dúvidas, vou repetir:

Para Hugh Hewitt, os jornalistas ganham mal e, por isso, têm inveja dos executivos e burocratas bem pagos, motivo que os leva a trabalhar pela destruição do partido dos ricos: o Partido Republicano.

Ler isso é o suficiente para queimar um livro, não? Eu venci meus impulsos hitleristas e li até o fim. Não recomendo que você faça o mesmo.

Ao chegar à página 261, estava com três certezas em mente:

1) Hugh Hewitt é um asno.

2) Na próxima vez que a Thomas Nelson quiser editar algo sobre a blogosfera, deveria chamar a Yoani Sánchez ou, vá lá, o Cardoso.

3) O Wall Street Journal me deve uma grana.

[O post foi atualizado (na especulação sobre a frase que Hewitt mandou tatuar na nádega direita)]

[Imagem: divulgação]