Arquivos da tag: livros

[Citação] Comida, de Michael Pollan: o sabor da escassez

6 de fevereiro de 2018 , ,

“‘Isto aqui é comida para quando se está pobre’, Samin comentou certa tarde, enquanto preparávamos uma paleta de cordeiro particularmente ruim. ‘O assado de panela é uma forma maravilhosa de cozinhar, porque resulta numa comida saborosíssima feita a partir de ingredientes relativamente baratos.’ Na verdade, os assados de panela e os guisados mais deliciosos são feitos com os ‘piores’ cortes. Quanto mais velho o animal, mais apetitosa é a carne. Os cortes mais duros vêm de músculos que trabalharam mais e contêm, por isso mesmo, uma quantidade maior de tecidos conjuntivos que, depois de um longo período na panela, se dissolvem na forma de uma suculenta gelatina.

A panela tampada — coberta para conservar a umidade e o calor por um longo período — simboliza a modéstia e a economia desse tipo de culinária. Por comparação, grelhar um grande pedaço de carne no fogo — no melhor estilo de Homero — parece uma extravagância: uma forma conspícua de exibir riqueza, generosidade ou habilidades como caçador. E assim tem sido, pelo menos até a chegada da nossa era de carne extravagantemente barata. Os britânicos, famosos por tostarem imponentes peças de carne no fogo, costumavam esnobar as ‘humildes panelas’ dos franceses, com seus cortes plebeus escondidos sob molhos suspeitos. Prósperos e abençoados com bons pastos para a criação de vacas e ovelhas o ano inteiro, os ingleses desfrutavam de carnes de alta qualidade que precisavam de pouco mais do que fogo para se tornarem saborosas. Enquanto isso, os franceses, menos prósperos e não tão abastecidos, dependiam da sua criatividade na cozinha e desenvolviam técnicas que lhes permitiam tirar o máximo proveito de sobras de carne, raízes e qualquer líquido que estivesse à mão.

O fato de hoje tratarmos essa comida dos camponeses como sofisticada ou elitizada e vermos filés caros jogados na grelha como comida simples para as massas representa a completa inversão de uma situação histórica. Sempre existiu uma espécie de equilíbrio na cozinha entre o tempo e a técnica, de um lado, e a qualidade dos ingredientes crus, de outro. Quanto melhores os últimos, menos necessários para se comer bem são os primeiros. Porém o contrário também é verdade. Com um pouco de técnica e algum tempo a mais na cozinha, podemos preparar a comida mais saborosa a partir dos ingredientes mais modestos. Essa fórmula que vem resistindo ao tempo sugere que aprender a se virar na cozinha — aproveitar um corte ruim de carne, fazer um mirepoix e usar uma caçarola — ainda pode ser uma boa receita para comer bem sem gastar muito. São habilidade que nos conferem alguma independência.

Entretanto, há também implicações éticas no modo como encaramos o fato de comer animais — e as questões ambientais que essa prática suscita. Se vamos comer apenas os cortes de primeira dos animais jovens, então teremos que criar e matar um número muito maior. E, de fato, isso vem se tornando a regra, com resultados desastrosos tanto para os animais quanto para a terra. Hoje em dia, já não existe um mercado para galinhas poedeiras velhas, já que pouquíssimas pessoas sabem cozinhá-las, e, em consequência, grande parte dessa carne é transformada em ração para animais de estimação ou acaba em aterros sanitários. Se vamos comer animais, compete a nós desperdiçar o menor número possível deles, o que a tradição da humilde panela permite.”

Michael POLLAN. Cozinhar: uma história natural da transformação. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. pp. 141-2

[Citação] Comida, de Michael Pollan: o churrasco e o ritual comunitário de sacrifício

1 de fevereiro de 2018 , ,

“Não sei de vocês, mas sempre pulei os trechos de Homero em que são descritos banquetes. Nunca me perguntei por que existiam tantas dessas cenas, ou por que ele se deu ao trabalho de enumerar tantos detalhes aparentemente triviais: todas as etapas ao se desmembrar um animal (‘Eles arrancaram a pele da carcaça… e a dividiram em peças’), o manejo do fogo (‘Quando as chamas se apagaram, [Pátroclo] espalhou as brasas e colocou os espetos sobre elas’), a divisão das porções (‘Aquiles serviu a carne’), os modos à mesa (‘Cara a cara com seu nobre convidado Odisseu… ele disse para o amigo fazer o sacrifício aos deuses’) e assim por diante. Porém, de acordo com The Cuisine of Sacrifice among the Greeks, havia um bom motivo para que ele se demorasse nos pormenores sobre essas refeições rituais. O ato de compartilhar a carne cozida era o ato comunal entre os gregos antigos, assim como num grande número de outras culturas antes e depois deles. E fazer isso da forma correta exigia algum cuidado. Além do significado espiritual, o sacrifício ritual apresentava três outros propósitos mundanos, que soarão familiares a qualquer um que tenha feito um churrasco:

> Incutir ordem na atividade potencialmente selvagem que é comer carne,

> Reunir as pessoas numa comunidade,

> Conferir apoio e prestígio à classe dos sacerdotes que dele se encarregavam.

Comer animais, pelo menos para os seres humanos, raramente não é considerado uma grande ocasião. Sendo a um só tempo algo desejável e difícil de se obter, a carne está associada a questões de status e prestígio, e, como envolve o ato de matar, comer é uma atividade impregnada de certa ambiguidade moral e ética. Cozinhar a carne só faz aumentar essa complexidade. Antes do advento do costume de cozinhar com o fogo, o que consideramos ‘refeição’ provavelmente ainda não existia, pois o ser humano que saía em busca de alimentos crus se alimentava ao sabor das suas andanças e sozinho — ou sozinha —, de forma bem semelhante à dos animais. Os alimentos excedentes deviam ser compartilhados, mas o que você encontrava era seu, e você comia aquilo quando estivesse com fome. No entanto, a possibilidade de cozinhar com fogo mudaria tudo isso.

‘O ato culinário é, desde o começo, um projeto’, de acordo com a arqueóloga francesa Catherine Perlès: ‘Cozinhar implica o fim da autossuficiência individual’. Os que dão início ao processo têm necessidade de colaboradores, no mínimo para impedir que o fogo se apague. O próprio fogo com que se cozinha acaba fazendo com que as pessoas se aproximem umas das outras e abre espaço para a complexidade social e política da refeição compartilhada, que exige um grau inédito de autocontrole: paciência enquanto a carne está sendo preparada e cooperação quando está pronta para ser dividida. A competição pela carne cozida precisa ser regulamentada com atenção.

Isso pode explicar por que, tanto na Grécia Antiga quanto no Antigo Testamento, o único momento em que se come carne é como parte de uma determinação religiosa, obedecida rigorosamente. A opção era: ou um sacrifício ritual ou mais nozes e amoras para o jantar. E, ainda que as regras que regem esse ritual variem de cultura para cultura, e até mesmo de ocasião para ocasião, uma delas é universal. E é, simplesmente, a que determina que devem existir regras para cozinhar e comer carne — de preferência, um monte de regras. Regras, como o sal, são um acompanhamento adequando para a carne, pois, como uma sombra, paira sempre sobre o ato de comer carne a imagem terrível de animais comendo animais: a inexistência de leis, a ganância desmedida, a selvageria e, o mais aterrorizante de tudo, o canibalismo,

Escrevendo sobre o kashrut, ou regras kosher, o médico e filósofo Leon R. Kass observa que ‘ainda que nem toda carne seja proibida, tudo o que é proibido é carne’. As regras explicitam quais tipos de animais não devem ser comidos, quais partes dos animais permitidos não podem ser comidas e quais alimentos não podem ser comidos com as partes autorizadas. Sim, há regras kosher que regem o consumo de alimentos de origem vegetal, mas nenhuma chega a constituir uma proibição categórica. Do mesmo modo, os gregos também obedeciam a uma série de leis quando se tratava de comer carne: apenas espécies domésticas podiam ser sacrificadas, era proibido o consumo de sangue (como ocorre no kashrut) e protocolos complexos determinavam a distribuição dos diferentes pedaços.

Além de evitar várias formas de selvageria, as regras que regem o sacrifício ritual são concebidas para promover o sentido de comunidade. The Cuisine of Sacrifice among the Greeks descreve o ritual grego como um ato de ‘comunhão alimentar’Comer do mesmo animal, preparado segundo as regras acordadas no interior da comunidade, fortalece os vínculos que mantêm o grupo unido9. O ato de compartilhar está no próprio cerne da noção de sacrifício ritual, como acontece, na verdade, com a maioria das formas de cozinhar.

Muitos, se não a maior parte, dos estudiosos do Antigo Testamento consideram as regras específicas que constituem o kashrut como mais ou menos arbitrárias; a mesma opinião é sustentadas pelos antropólogos. Contrariando o que me ensinaram quando criança, a carne de porco não apresenta mais perigo para os que a comem do que qualquer outro tipo de carne. Mesmo assim, por mais arbitrárias que sejam essas proibições, elas detêm o poder de nos manter juntos, de ajudar a forjar uma unidade coletiva: nós somos o povo que não come carne de porco. Muitas das regras que regulam o sacrifício no Levítico não fazem muito sentido a não ser quando vistas sob esse ângulo — como formas de aglutinação social. Num tipo de sacrifício, por exemplo, é especificado que toda a carne deve ser comida antes que se passe um segundo dia, uma imposição que garante que será partilhada entre um grupo, em vez de ser apossada por qualquer indivíduo.

Talvez seja esse o ângulo mais apropriado para vermos sentido na interminável e intrincada rede de regulamentos das várias linhas em que se divide o churrasco sulista: as regras que regem ‘atos de comunhão alimentar’ e ajudam a definir e fortalecer a comunidade. Churrascos de porcos inteiros se destacam como uma forma particularmente poderosa de comunhão, na qual a carne é dividida entre os comensais de acordo com um protocolo sem dúvida democrático. Todos podem provar de todas as partes daquele animal, tanto das mais quanto das menos procuradas. Porém, no fundo, todas as regras do churrasco que especificam o que é ou não aceitável, em termos de espécie do animal, partes do animal, molho, combustível e fogo, são tão arbitrárias como o kashrut, consistindo em regras aleatórias e sem qualquer outro propósito racional além do de definir uma comunidade ao definir suas diferenças em relação às outras. Nós somos o povo que só assa paleta suína sobre fogo ateado em lenha de nogueira e que bota mostarda no molho de churrasco. As proibições se multiplicam como ervas daninhas. Nada de propano, nada de carvão, nada de tomate, nada de costelas, nada de frango, nada de carne bovina. 

‘Então quer dizer que o churrasco é basicamente algo como um kashrut para góis’, resumiu um amigo quando tentei lhe explicar as sutis diferenças entre as várias denominações do churrasco sulista. A frase que mais escutei dos churrasqueiros que entrevistei, das Carolinas ao Texas e ao Tennessee, era a que sempre usavam quando se referiam aos ritos culinários de outra tribo: ‘OK, mas isso não é churrasco’. Seja lá o que fosse a comida em questão, ela não se enquadrava nas regras tradicionais daquele grupo. Não era kosher. 

A terceira função do sacrifício ritual é elevar e apoiar a classe de sacerdotes ou nobres que o realizam. Nesse aspecto, o ritual não é diferente de qualquer outra instituição política. Diz respeito, antes de mais nada, à perpetuação do próprio poder. Um grande prestígio é concedido ao homem que celebra o sacrifício ritual, mata o animal, cozinha-o e reparte a carne. Na Grécia Antiga, mulheres e escravos se encarregavam da maior parte do trabalho de cozinhar no dia a dia. Quando a ocasião exigia um sacrifício ritual, fosse para marcar o início ou a conclusão de uma campanha militar, a chegada de um convidado ilustre ou um dia que adquiriu importância histórica cabia aos homens fazer as honras da comunidade. Odisseu, Pátroclo e mesmo Aquiles se ocupam pessoalmente do fogo, sem que seu prestígio seja diminuído; ao contrário, ele é fortalecido por esse tipo de banquete festivo. Todas as regras no Levítico servem para enfatizara autoridade do sacerdote que realiza o sacrifício, tendo o cuidado particular de especificar precisamente quais porções do animal deveriam caber ao sacerdote. Os estudiosos sugerem que a exigência de que todo banquete com carne fosse acompanhado de um ritual era, entre outras coisas, um modo de se certificar de que a comunidade apoiava sua classe de sacerdotes — alimentando-a.

O mestre churrasqueiro que tempera seu churrasco no altar da tábua — na verdade, até mesmo o marido que opera sua grelha no quintal — se vale do que quer que tenha sobrado desse capital cultural milenar. Parece-me ao mesmo tempo maravilhoso e ligeiramente absurdo que ainda tenha restado tamanho patrimônio depois de mais de dois milênios. E é por essa razão que temos de delegá-lo a esses modernos mestres do fogo, da fumaça, da carne e da comunidade. Os homens do churrasco fizeram um trabalho magnífico ao manterem a máxima de que o antigo espetáculo não pode parar.

====

9 Em grande medida, o mesmo pode ser dito a respeito da eucaristia cristã, na qual a comunidade simbolicamente come o corpo e bebe o sangue de Cristo.

Michael POLLAN. Cozinhar – Uma história natural da Transformação. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. pp. 95-99

 

[Citação] O fim do homem soviético – por que não julgamos Stálin

29 de janeiro de 2018 ,

“Por que não julgamos Stalin? Eu vou te responder. Para julgar Stalin, teríamos que julgar nossos parentes, nossos conhecidos. As pessoas mais próximas. Vou te contar da minha família…

Meu pai foi preso em 1937; graças a Deus ele voltou, mas passou dez anos preso. Voltou e queria muito viver… Ele mesmo ficava surpreso com isso, de querer viver depois de tudo que ele tinha visto… Isso não acontecia com todos, nem de longe… A minha geração cresceu com pais que tinham voltado ou dos campos, ou da guerra. As únicas coisas que eles conseguiam nos contar era sobre a violência. Sobre a morte. Eles raramente riam, ficavam sempre calados. E bebiam, bebiam, bebiam… No final das contas, morriam de tanto beber.

A segunda possibilidade… Era daqueles que não tinham sido presos, mas que tinham medo de serem presos. E isso não foi um mês ou dois, durou anos! E se não fosse preso, ficava a pergunta: por que todo mundo foi preso, e eu não? O que foi que eu não fiz?

Podiam prender, mas podiam mandar para trabalhar para o NKVD… O que o Partido pede é uma ordem. É uma escolha desagradável, mas muitos tinham de fazê-la…

Agora, os carrascos… Eram comuns, não eram assustadores… Quem denunciou o meu pai foi o nosso vizinho… tio Iura… Por uma bobagem, como dizia a minha mãe. Eu tinha sete anos. O tio Iura levava os filhinhos para pescar, me levava também, para andar a cavalo. Consertava nossa cerca. Entendeu? O retrato é totalmente diferente: é uma pessoa comum, até mesmo boa… Normal…

Prenderam meu pai e depois de alguns meses pegaram o irmão do meu pai. Na época do Iéltsin, me deram o arquivo do inquérito, e lá tinha mais de uma denúncia, uma delas escrita pela tia Ólia, sobrinha dele… Uma mulher bonita, alegre… Cantava bem… Ela já estava velha, e eu perguntei: ‘Tia Ólia, me conte do ano de 1937…’ ‘Foi o ano mais feliz da minha vida. Eu estava apaixonada’, ela respondeu… O irmão do meu pai não voltou para casa. Sumiu​. Na prisão ou no campo, ninguém sabe.

Foi difícil, mas mesmo assim eu fiz a pergunta que me atormentava: ‘Tia Ólia, por que você fez isso?’ ‘Onde é que você viu uma pessoa honrada na época de Stalin?’ (Silêncio) E tinha também o tio Pável, que serviu na Sibéria, nas tropas do NKVD… Entendeu, não existe o mal quimicamente puro… Não foram só o Stalin e o Beria… Foi também o tio Iura, a bela tia Ólia…”

(Svetlana ALEKSIEVICH, O fim do homem soviético)

[Citação] O fim do homem soviético – “Eu vi Deus”

29 de janeiro de 2018 ,

“Agora começaram a dizer: a culpa é do socialismo… do Stálin… como se o Stálin tivesse o poder de Deus. Cada um teve o seu Deus. Por que ele se calou? A minha tia… o nosso vilarejo… Eu também me lembro de Maria Petrovna Áristova, uma professora dedicada, que visitava a nossa Vládia no hospital em Moscou. Uma estranha… mas foi ela que a levou para o nosso vilarejo, trouxe nos braços… a Vládia nem conseguia mais andar.

A Maria Petróvna me mandava lápis, bombons. Escrevia cartas. E lá no centro de recepção de crianças, onde me lavaram e desinfetaram… Eu estava em um banco alto, toda coberta de espuma. Podia escorregar, me arrebentar no chão de cimento. Fui escorregando, deslizando. Uma estranha… uma enfermeira… me segurou e apertou com força: ‘Meu passarinho’.

Eu vi Deus.”

Svetlana ALEKSIEVICH. O fim do homem soviético.

[Citação] O fim do homem soviético – vítimas e carrascos

29 de janeiro de 2018 ,

“O Tamerlão, o Gengis Khan, quem eles eram? Quem? E tem milhões de cópias deles… pequenas cópias… esses também fizeram coisas horríveis, e só uns poucos ficaram loucos.

Todos os demais viveram normalmente: beijaram suas mulheres, jogaram xadrez, compraram brinquedos para seus filhos… Cada um deles pensava: não fui eu. Não fui eu que pendurei a pessoa ‘empinada’ e bati com ‘os miolos no teto’, e não fui eu que enfiei um lápis apontado nos mamilos de uma mulher. Não fui eu, foi o sistema.

O próprio Stálin… até ele falava: não sou eu que decido, é o Partido… Ensinava para o filho: você acha que o Stálin sou eu. Não! O Stálin é ele! E apontava para o próprio retrato na parede. Não para si mesmo, mas para o retrato!

A máquina da morte… A máquina trabalhou sem parar… por dezenas de anos… A lógica era genial: a vítima é o carrasco, e no fim o carrasco também é vítima. Como se isso não tivesse sido inventado por um ser humano… Algo tão perfeito assim só existe na natureza. A roda gira, mas não há culpados. Não há! Todos querem que tenham pena deles. Todos são vítimas. No fim da cadeia, todos. Pois é!

Na época, por conta da juventude, fiquei assustado, paralisado, hoje eu teria feito mais perguntas… Preciso saber… Por quê? Tenho medo… Depois de tudo que eu aprendi das pessoas, tenho medo de mim.”

Svetlana ALEKSIEVICH. O fim do homem soviético.

[Citação] O fim do homem soviético – o lugar dos pobres na nova Rússia

29 de janeiro de 2018 ,

“As pessoas ficaram cansadas da pobreza, todos queriam viver bem. Enquanto isso eu mais uma vez não sabia o que dar de comer para elas, até a batata tinha acabado. O macarrão também. Não tinha nem para a passagem de trólebus. Depois do colegial técnico, ela entrou na faculdade de pedagogia, para estudar psicologia, estudou um ano, mas não tinha mais dinheiro para pagar. Foi desligada.

A aposentadoria da minha mãe era de cem dólares, a minha também era de cem dólares. Lá em cima… Eles bombeiam petróleo e gás, mas esses dólares não escorrem na nossa direção, vai tudo para o bolso deles.

As pessoas simples, como nós, vão ao mercado e só ficam olhando, é como se fosse um museu. Mas no rádio, como uma espécie de sabotagem, eles ficam: amem os ricos! Os ricos vão nos salvar! Vão nos dar trabalho… Ficam mostrando as férias deles, o que eles comem… As casas com piscinas… O jardineiro, o cozinheiro… Como era antes com os grandes senhores de terras, na época do tsar…
(…)
Esqueceram a gente. As pessoas são como pó… grãos de poeira… O povo se virou de novo para os comunistas. Na época deles, ninguém tinha bilhões, todo mundo tinha um pouco, era o suficiente para todo mundo. Todo mundo se sentia ser humano. Eu era como todos.”

Svetlana ALEKSIEVICH. O fim do homem soviético.

[Citação] O fim do homem soviético – repressão a protesto em Minsk

29 de janeiro de 2018 ,

“Vários rapazes espadaúdos. Verdadeiros bonitões! Mas como assim eles iriam começar a nos bater? A me bater? Eram da minha idade, eram meus admiradores. É fato! Entre eles tinha meninos conhecidos da minha cidade, é claro que eles estavam ali. Muitos dos nossos tinham ido para Minsk servir na polícia: Kolka Latuchka, Alik Kaznatchêiev… Um pessoal normal. Eram como a gente, só usavam farda. E eles nos atacariam? Não dava para acreditar… De jeito nenhum…

Eu tinha rido, tinha flertado com eles. Tentamos convencê-los: ‘Como é, pessoal, vão guerrear contra o povo?’. E a neve caindo sem parar. E aí… Foi como nos desfiles… Ouvimos a voz de comando: ‘Dispersar a multidão! Manter a formação!’ O cérebro não assimilou a realidade, não de imediato… porque aquilo não podia ser… ‘Dispersar a multidão…’

Por um momento, ficou tudo em silêncio. E aí veio o estrondo dos escudos… o estrondo ritmado dos escudos… Eles avançaram… Avançaram em filas, batendo com os cassetetes nos escudos, como fazem os caçadores no encalço de um animal. De uma presa. Avançaram e continuaram avançando. Nunca tinha visto uma quantidade tão grande de militares, só na televisão.

Depois fiquei sabendo pelo pessoal da minha cidade… Eles são ensinados: ‘A pior coisa é vocês verem os manifestantes como pessoas’. São adestrados, como cães. (Silêncio.) Gritos… choro… Gritos: ‘Estão batendo! Estão batendo!’ Aí eu vi que estavam batendo, mesmo. Sabe, eles batiam com vontade. Com satisfação… como se fosse um treinamento… Ouvi o berro de uma menina: ‘O que você está fazendo, seu monstro?!’ Uma voz muito, muito aguda. Sobressaindo. Foi tão terrível que por um momento eu fechei os olhos. Eu estava com um casaco branco, com um chapéu branco. Estava toda de branco.
‘Fuça na neve, sua puta!'”

(Svetlana ALEKSIEVICH, O fim do homem soviético)

[Citação] Cozinhar, de Michael Pollan: o paradoxo

29 de janeiro de 2018 , ,

“…comecei a tentar elucidar um curioso paradoxo que me chamara a atenção enquanto eu assistia à TV: por que justamente no momento da história em que os americanos estavam abandonando a cozinha e delegando à indústria de alimentos o preparo da maior parte das refeições começamos a passar tanto tempo pensando sobre comida e assistindo a outras pessoas cozinharem na TV? Parecia que, quanto menos cozinhávamos no nosso dia a dia, mais a comida e seu preparo por mãos alheias despertavam o nosso fascínio.

(…)

Vivemos numa era em que cozinheiros profissionais se tornaram celebridades, alguns deles tão famosos quanto atletas ou estrelas de cinema. A mesma atividade que muitas pessoas encaram como um trabalho enfadonho acabou sendo, de alguma forma, elevada à categoria de esporta popular com público próprio.

(…)

Desenvolvi algumas teorias para explicar o que chamei de Paradoxo do Cozinhar. A primeira e mais óbvia é a de que assistir a outras pessoas cozinhando não chefa a ser exatamente um novo comportamento para os seres humanos. Mesmo na época em que ‘todos’ ainda cozinhavam, muitos de nós se limitavam a observar: os homens, em sua maioria, e as crianças. Quase todo mundo conserva lembranças felizes de quando via a mãe na cozinha, fazendo proezas que às vezes mais pareciam feitiçaria e que costumavam resultar em iguarias saborosas. Na Grécia Antiga, a palavra para ‘cozinheiro’, ‘açougueiro’ e ‘sacerdote’ era a mesma – mageiros, cuja raiz é igual à de ‘magia’.

(…)

Talvez o motivo de gostarmos de ver culinária na TV e de ler a esse respeito seja que cozinhar envolve coisas das quais sentimos muita falta. Podemos achar que não dispomos do tempo ou da energia (ou do conhecimento) para fazer aquilo pessoalmente todos os dias, mas não estamos preparados para ver isso desaparecer de vez de nossas vidas. Se cozinhar é, como dizem os antropólogos, uma atividade que nos define enquanto seres humanos – o ato com o qual, segundo o filósofos e antropólogo Claude Lévi-Strauss, a cultura surge -, então talvez não devêssemos nos surpreender com o fato de que assistir ao desenrolar desses processos desperte emoções tão profundas.”

Michael POLLAN. Cozinhar – Uma história natural da transformação. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. pp. 11-13

[Citações] A Nomenklatura – uma espiral de fisiologismo

29 de janeiro de 2018 ,

“Imagine o leitor que é um cidadão soviético. Procura-se, através de discursos, transmissões de rádio, cartazes, convencê-lo de que deve ‘despertar em si mesmo um sentimento de proprietário’; deste modo, você é obrigado a trabalhar sem descanso para enriquecer o Estado soviético. Mas você não nasceu ontem e sabe, desde criança, que não é o proprietário, que o redator daqueles apelos não acredita, ele próprio, no que diz, e que só os redige para receber seus honorários, e prosseguir sua carreira. Ele tem os seus interesses e você, os seus. Por falar nisso, qual é o seu interesse? Você não tem necessidade de refletir para saber que consiste em trabalhar o menos possível para ganhar o mais possível.

Naturalmente, a norma que lhe é prescrita impõe a seu desejo certos limites. Mas o que acontecerá, se você não os respeitar? Nada de mais: não há desemprego, em todo lugar se precisa de mão de obra, ninguém vai suspendê-lo. Mesmo assim, se isso ocorrer, a fábrica ao lado o empregará imediatamente. Seus superiores também o sabem e não lhe imporão normas que você não poderia cumprir.

Imagine agora que você é chefe de serviço, diretor ou engenheiro-chefe de uma empresa. Quais são, nesse caso, seus interesses? É claro que, quando das assembleias do Partido, você relatará o desenvolvimento da sua empresa, coisa que você sabe de cor. Mas está realmente convencido disso? Seu interesse é de receber prêmios e subir na hierarquia. Você não tem nenhuma compaixão pelos trabalhadores, e estaria pronto a exortá-los ao trabalho para favorecer sua meta. Mas, por outro lado, sabe o que pensam aqueles indivíduos, e entende que a força acarretará dificuldades para a empresa, que atrairá implacavelmente sobre você a cólera de seus superiores hierárquicos. O que resta, então, a fazer? É muito simples: não se exige de um dirigente de empresa um máximo de lucro(além do mais, na ausência de qualquer livre concorrência, ele não pode ser fixado), mas simplesmente a satisfação, fácil de controlar, dos objetivos do plano. Basta ultrapassá-los, ainda que ligeiramente, para que lhe sejam assegurados felicitações e prêmios. Uma ultrapassagem excessiva e imprevista só poderia trazer-lhe inconvenientes: o descontentamento dos seus colegas, dos outros diretores, as autoridades poderiam suspeitar que, até então, você ‘forçou a mão’ ou escondeu reservas. Suas metas seriam aumentadas, e tudo isso só poderia prejudicar sua carreira.

Eis por que o seu interesse é o de procurar atingir o que é mais fácil de conseguir, ou seja, um plano mínimo. Você se esforçará, por todos os meios, para convencer as autoridades de que sua empresa atingiu os limites de suas possibilidades. Além disso, em geral, é você quem fixa as obrigações da sua empresa, pois nem a administração, nem o ministério, nem mesmo a comissão de planificação têm ideia de sua situação real, e estão quase sempre prontos a assinar o projeto que você lhes enviar.

Para que esse processo ande direitinho, você precisa estabelecer seu plano, segundo uma receita muito simples: retome as cifras de produção do período precedente, tais como figuram nas contas, e acrescente a elas uma pequena percentagem de aumento. Entretanto, é preciso destacar bastante que o cumprimento deste novo plano exige a mobilização de todas as suas forças e das reservas disponíveis.

Mas por que a administração principal e o ministério aceitam tais planos?

Imagine que seja um dirigente da administração principal ou mesmo ministro. Em que os seus interesses diferem dos de um diretor de fábrica? Em nada. Você também quer manter seu lugar de dirigente, deseja conseguir uma condecoração, quer que o considerem como um dirigente eficaz no Comitê Central do Partido. Naturalmente, você não manifesta o menor interesse por todos aqueles trabalhadores e chefes de serviço que você só vê por ocasião de seus giros de inspeção, e que demonstram grande respeito por sua pessoa. Se sua carreira exigir, estará pronto a mandá-los para o inferno. Mas sua carreira exige outra coisa de você. Por exemplo, pode acontecer, talvez, que você puna um chefe de serviço desagradável ou um diretor que não pode contar com o apoio do comitê regional do Partido, a fim de que as instâncias mais elevadas fiquem persuadidas de sua vigilância. Porém, é ainda mais importante que elas observem outra coisa: as empresas que dependem da administração principal ou do ministério atingem regularmente os objetivos fixados, estão à testa da produção e recebem bandeiras vermelhas como recompensas por seus sucessos no cumprimento do plano. Deste modo, você não vai assinar um plano impossível de realizar, mas simplesmente aporá sua assinatura, a fisionomia grave, naquele que lhe será apresentado. Não irá também se entregar à tarefa penosa de verificar se as contas apresentadas são exatas. A única coisa de que você tem necessidade é de que os planos estejam conformes, e que as comissões de verificação não possam encontrar nada para censurar. É claro que nos congressos, nas assembleias do Partido, nas conferências, você fará longos discursos sobre a necessidade de estimular as energias e de contribuir para com todas as reservas disponíveis. Mas, seu interesse é que todas as empresas apresentem provas de que seus planos foram cumpridos, e mesmo ultrapassados, e que planos muito fáceis de ser satisfeitos, quer dizer, mínimos, sejam previstos para o futuro.

O plano é, em seguida, entregue pelo ministério à comissão estatal da planificação, ao Gosplan. Imagine agora que você está na situação de um dos dirigentes do Gosplan, até mesmo do vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS. Você vê desfilar documentos secretos assinados pelos ministros e cheios de planos. Você sabe que nenhum ministro assinou os planos correspondentes a seu ministério sem a concordância da comissão competente do Comitê Central do Partido. Não lhe interessa saber se as comissões examinaram efetivamente esta massa espantosa de cifras ou se, simplesmente, o ministro se pôs de acordo com o dirigente da comissão durante uma caçada ou desfrutando uma garrafa de conhaque importado: o dirigente da comissão tem suas responsabilidades, ele não é seu subordinado; pode mesmo, quem sabe, tonar-se um dia Secretário do Comitê Central. Você não tem a intenção, por causa de algumas cifras estúpidas, de atrair a hostilidade de um homem influente. Além do mais, o seu aparelho já o informou de que as cifras são exatas; em relação ao ano anterior, houve um aumento. Você está, pois, a coberto, e vai assinar uma massa de planos que se perderão num oceano de cifras que ninguém tem possibilidade de verificar, muito menos um membro do Politburo.

Mas, no momento em que você assina os planos, já sabe que tudo acabou. Rapidamente, receberá as primeiras propostas de modificação, e isto continuará até o primeiro quarto do período referido. Seu papel não é o de exigir com severidade o respeito de cada uma das diretivas do plano, nem de punir cada um daqueles que falharam nisso. A sorte desses homens lhe é, evidentemente, indiferente, mas, se um grande número de planos não são satisfeitos, você corre o risco de ter a responsabilidade por isso. Você aprovou um plano que se verifica destituído de fundamento.  Para fornecer a prova da sua firmeza e manifestar a famosa ‘intolerância bolchevista’ para com todos os insuficientes, você vai sacrificar alguns daqueles que pecaram. Mas, na imensa maioria dos casos, vai introduzir ao longo do período do plano modificações que só tem como objetivo fazer baixar as cifras indicadas.

Somente um observador estranho e ingênuo poderia acreditar numa palavra das afirmações ameaçadoras que asseveram que o plano é a lei, e que deve ser cumprido a qualquer preço. Um funcionário da economia, na União Soviética, sabe que o plano é, na maioria das vezes, revisado, e que finalmente corresponde a performances muito inferiores àquelas que tinham sido previstas originalmente. Coloque-se agora no lugar de um membro do Politburo, ou mesmo do Secretário-Geral. Você acredita que vai berrar: ‘Mudem tudo isso e modifiquem completamente os planos!’ Você não o fará, ainda que todos aqueles chefes de serviço, diretores de fábricas, dirigentes de administrações centrais e membros do Gosplan , que lhe parecem formigas agitadas, não sejam levados em consideração. Não, e isto porque você tem também os seus interesses particulares, que, em geral, coincidem com os interesses da classe da Nomenclatura. É claro que seria desejável procurar tirar o maior proveito do trabalho daquelas formigas, mas o essencial é nada autorizar que possa, por menor que seja, ameaçar seu poder ilimitado, em particular, e o da Nomenclatura, em geral. Esta exigência absoluta está acima de tudo. Naturalmente, seria possível eliminar alguns preguiçosos que não cumprem suas tarefas, e não lhes dar trabalho, ou aumentar as metas. Mas, então, surge o problema dos desempregados. Pode-se, entretanto, seguir o exemplo dos revisionistas iugoslavos que autorizam seus desempregados a trabalhar no exterior; quando voltam ao país, tornam-se elementos perigosos, nos quais não se pode confiar. Dever-se-ia deixá-los no mesmo lugar, vegetando na miséria? Outro perigo para o poder. Enviar todos para os campos de concentração? Os tempos mudaram.

Assim, mesmo Secretário-Geral do Comitê Central, você não tem alternativa. Seus interesses lhe ditam: tudo deve ficar como está. Você pode exigir, ordenar, proclamar palavras de ordem, pode mesmo anunciar uma reforma econômica; na realidade, não deve haver nela nenhuma modificação.

O círculo está fechado. Um plano burocrático concebido no ultramonopólio do ‘socialismo real’ leva a um resultado inevitável: é consequência de um campo de forças, que age sobre toda a hierarquia, do aprendiz ao Secretário-Geral, e que, obstinadamente, vai no sentido da minimização do próprio plano. Este campo não é o produto de uma conspiração; pelo contrário, a sorte de cada um é absolutamente indiferente aos outros. Este campo de forças repousa sobre uma base das mais sólidas: o interesse comum de todos os participantes.”

Mikhail VOSLENSKY. Tradução de Edgar de Brito Chaves Junior. Rio de Janeiro: Record, 1980 – pp. 159-163

[Citação] 1984 – trabalhando com autocensura

29 de janeiro de 2018 ,

“O trabalho era o maior prazer na vida de Winston. Em geral, não passava duma rotina aborrecida, mas incluía às vezes trabalhos tão difíceis e intrincados que neles se podia perder como nas profundidades de um problema matemático – falsificações delicadas, sem coisa alguma para servir de orientação, além do conhecimento dos princípios do IngSoc e um cálculo do que o Partido desejava que fosse dito”.

George ORWELL. 1984. pág. 44