Notas aleatórias sobre o trabalho

Em tempos de discussão sobre que é “ser trabalhador”, duas notas aleatórias sobre a relação dos brasileiros com o trabalho:

1. Minha mãe conta que tinha primas que, quando crianças/adolescentes (interior de São Sebastião do Caí-RS, anos 1960), iam trabalhar na roça vestindo casacos, mesmo no verão. O motivo: elas queriam conservar a pele branquinha e evitar o bronzeado que era a marca de quem mourejava sob o sol. Bronzeado era coisa de trabalhador braçal, era coisa de pobre.

(O curioso é que, hoje, a relação se inverteu e há ampla demanda por bronzeamento, inclusive artificial. Ter a pele bronzeada virou indicativo de status, de praia, piscina e ócio – mas, ainda, o importante é: não parecer trabalhador.)

2. Em 2002, eu e a vida seminarística estávamos “dando um tempo” e fui morar e trabalhar numa paróquia da zona norte de Porto Alegre. Num dia de evento no salão da igreja, vieram uns trabalhadores entregar uns materiais e equipamentos.

Eu, que estava lá como “anfitrião”, abri o salão pra eles montarem os trecos e decidi dar uma ajudinha. Cheguei pra um cara bem vestido e que, aparentemente, estava chefiando a equipe e disse, apontando pra uma mesa desmontada: “Tu pega aí nesse lado e eu pego aqui?” Ele fez uma cara de ofendido e me respondeu: “Cara, EU NÃO VOU BOTAR A MÃO!” Dei de ombros, me afastei e ofereci ajuda a um dos trabalhadores braçais.

Sangue do meu sangue

Uma das histórias que minha mãe contava na minha infância, e à qual eu devia ter prestado mais atenção, é que temos uma antepassada “bugra” que teria sido caçada no mato, com uso de cães perdigueiros, para se casar (ou ser casada) com seu futuro marido, que não lembro se é avô ou bisavô do meu avô materno.

Sou descendente direto, portanto, do sequestro, do estupro, do roubo de terras, do assassinato e do esmagamento cultural dos povos indígenas – tanto dos autores quanto das vítimas. Um pedaço de mim estava apanhando da polícia ontem, em Brasília. Outro pedaço de mim estava jogando as bombas e empunhando os cassetetes.

Tenho vergonha da parte de mim que agride, rouba terras e nega à outra parte o direito de existir. Desejo que a parte oprimida se afirme e ganhe força – e isso começará, em mim, pelo resgate dessa ancestralidade que deixei tanto tempo esquecida, na memória nebulosa das histórias que ouvi na infância.

Estou falando de mim, mas também posso estar falando do Brasil. Até porque o Brasil também sou eu.

(a foto é da Mobilização Nacional Indígena)