
Ainda é comum ouvirmos perguntas sobre o que é o Twitter.
Nada mais natural, uma vez que os usos para esta ferramenta continuam sendo, pelo próprio uso, inventados e reinventados.
O problema é que, reducionistas incorrigíveis que somos, gostamos de rotular tudo com uma única definição, o que, no caso do Twitter, não apenas é impossível, mas também acaba limitando o seu uso e alcance.
Depois de muito titubear, a grande mídia escolheu o seu rótulo: microblog. Agora, praticamente toda matéria sobre o Twitter o define como microblog, palavra que está longe de dar conta das inúmeras potencialidades do nosso querido pássaro azul.
Os semileigos em internet também acharam a sua própria definição de Twitter: é perda de tempo. Todo mundo que abre o Twitter no trabalho já recebeu dos colegas um olhar de reprovação ou um comentário sarcástico, como se fosse um canal de jogos eróticos e não uma ferramenta de comunicação. Isso se deve, talvez, ao rótulo de “rede social”, que tem uma forte conotação pejorativa por aqui. No Brasil, sempre que alguém fala em “rede social”, a imagem que vem à cabeça é a de uma miguxa de 13 anos postando fotos provocantes no álbum do Orkut.
Outra coisa que se constata ao usar o Twitter é que os próprios tuiteiros ainda não têm uma noção clara a respeito do que se deve fazer lá. É comum ler tweets admoestatórios conclamando a Twittosfera a usar o serviço “adequadamente”.
Assim, aparecem na timeline censuras do tipo:
- “Twitter não é chat!”
- “Vão conversar no MSN, seus malas”
- “Pô, só se fala de futebol e CQC aqui. Vão falar de outra coisa”
- “Parem de falar de O Aprendiz”
- “Tem gente que acha que isso aqui é pra conversar”
É um microblog, na medida em que você posta o que quiser (em 140 caracteres) e o seu post fica armazenado, disponível na sua página inicial e sujeito a comentários e “trackbacks” dos leitores. Mas o Twitter tem uma enorme vantagem sobre os blogs normais: ninguém precisa acessar a sua página para receber suas postagens. Os tweets são distribuídos, automaticamente, para todos os seus “seguidores”, o que nos leva à segunda definição:
RSS (sigla para Really Simple Syndication), como você bem sabe, é aquele sistema maravilhoso que nos permite assinar vários sites/blogs e receber o conteúdo de todos eles em uma única página. Basicamente, é isso que o Twitter faz: agrega todos os tweets de todas as pessoas que seguimos em uma única timeline. Logo, o Twitter se assemelha a um blog com serviço de RSS embutido. Mas é muito mais que isso.
A conversa é, sim, o ponto alto do Twitter. Conversa-se sobre qualquer coisa. E com qualquer pessoa. Graças ao sistema de linkagem (colocando uma arroba na frente de um nome de usuário, ele se transforma num link), posso conversar com qualquer pessoa da Twittosfera, mesmo que ela não me siga. Assim, o debate não fica restrito a “seguidos” e “seguidores”. Qualquer interagente cadastrado no Twitter pode ser incluído na conversa a qualquer momento e entrar no debate.
Isso é a manifestação daquela propriedade da inteligência coletiva que Pierre Lévy chama de “escuta”. O Twitter possibilita a conversa da inteligência coletiva consigo mesma. Permite que a coletividade torne-se autoconsciente pela escuta de si mesma.
Links para páginas úteis e inúteis são tuitadas e retuidas o tempo todo. É um espaço perfeito para o compartilhamento de informação, diversão, curiosidades. Graças a serviços de compactação de URLs (como o Migre.me ou o TinyURL), é possível acomodar os permalinks longos demais no ínfimo espaço de 140 caracteres, numa boa.
Empresas inteligentes usam o Twitter de maneira inteligente. Graças às ferramentas de busca da Twittosfera, uma companhia pode monitorar, em tempo real, tudo que é dito a seu respeito, tendo, assim, um mapa de aceitação/rejeição, podendo responder a críticas e elogios quase na hora em que estes são postados.
Isso já é ótimo, mas o alcance empresarial do Twitter vai ainda mais longe. Quer ver um exemplo? No dia em que o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma para exercício do jornalismo, eu, estudante de jornalismo que sou, tuitei algo como “agora, vou largar o curso e fazer Corte e Costura”. Minutos depois, recebi, na minha timeline, a seguinte resposta do Instituto Universal Brasileiro (que sequer está entre os meus followers):
Como isso aconteceu? O @IUB faz uma busca dos termos relacionados aos cursos que oferece, e envia os links desses cursos a quem possa interessar. Genial, não? No ano passado, o blog PensaRics descreveu uma ação semelhante do Carrefour.
Quem usa o Twitter regularmente já percebeu que o teor das conversas muda de horário para horário. Na hora da novela, do CQC, do programa O Aprendiz, dos seriados, whatever, aparecem muitos tweets sobre isso. Em dia de jogo de futebol, parece que só se fala disso. O Twitter torna-se, nessas horas, um fórum sobre o que está acontecendo na TV (o tal “encadeamento midiático” de que fala o Alex Primo).
Há, também, temas que fazem o caminho inverso: só aparecem na TV depois de serem debatidos exaustivamente no Twitter. Como escrevi no post sobre o Twitter e a morte de Michael Jackson, a reação instintiva que os tuiteiros têm quando ouvem um boato é correr para o Twitter a fim de “apurar a história”. Foi assim no caso de Jackson, no caso dos rumores sobre a morte de Sílvio Santos etc.
Existe uma ferramenta virtual, chamada Twitterfall, que agrega, em tempo real, todos os tweets (do mundo) sobre o termo que se seleciona no campo de busca. Assim, pode-se saber das novidades (caso haja, é claro) no momento em que elas são postadas, além de se ter um panorama de como determinado assunto está repercutindo no mundo.
Um recurso do próprio Twitter, chamado “Trending Topics”, permite que se saiba quais são os temas mais comentados na Twittosfera.
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Assim, chegamos a uma definição (preliminar, pois novos usos surgem a cada dia) de Twitter:
Twitter = rede social + microblog + RSS + superchat + disseminador de links + SAC virtual + fórum global… Não necessariamente nessa ordem.
[A imagem dos passarinhos foi gentilmente cedida pelo Smashing Magazine]