A morte de um secretário de Saúde é coisa séria, principalmente quando se trata de assassinato. E a cobertura um fato de tal magnitude é sempre um desafio para a imprensa.
O jornalismo online, diferente do impresso, não tem deadlines nem prazos. As informaçõess podem ser publicada quase ao mesmo tempo em que são apuradas.
Há várias maneiras de se fazer uma cobertura “minuto-a-minuto”. No caso do assassinato de Eliseu Santos, titular da pasta da Saúde de Porto Alegre, a Zerohora.comoptou, pelo menos no início, pela seguinte ferramenta de atualização:
Ao clicar na chamada “Confira a cobertura em tempo real”, o leitor era remetido para o Twitter da jornalista Rosane Oliveira:
Posso ser suspeito para falar, pois sou um fã confesso do passarinho azul, mas a grande vantagem do Twitter sobre outras ferramentas usadas em coberturas ao vivo é que ele é mais do que um fórum pontual ou que um amontoado de informação se sobrepondo em ordem cronológica – é uma rede social viva e conectada com (virtualmente) infinitos pontos de interação.
Já era tempo de esse “poder de fogo” começar a ser usado de maneira inteligente pela grande imprensa.

Ainda é comum ouvirmos perguntas sobre o que é o Twitter.
Nada mais natural, uma vez que os usos para esta ferramenta continuam sendo, pelo próprio uso, inventados e reinventados.
O problema é que, reducionistas incorrigíveis que somos, gostamos de rotular tudo com uma única definição, o que, no caso do Twitter, não apenas é impossível, mas também acaba limitando o seu uso e alcance.
Depois de muito titubear, a grande mídia escolheu o seu rótulo: microblog. Agora, praticamente toda matéria sobre o Twitter o define como microblog, palavra que está longe de dar conta das inúmeras potencialidades do nosso querido pássaro azul.
Os semileigos em internet também acharam a sua própria definição de Twitter: é perda de tempo. Todo mundo que abre o Twitter no trabalho já recebeu dos colegas um olhar de reprovação ou um comentário sarcástico, como se fosse um canal de jogos eróticos e não uma ferramenta de comunicação. Isso se deve, talvez, ao rótulo de “rede social”, que tem uma forte conotação pejorativa por aqui. No Brasil, sempre que alguém fala em “rede social”, a imagem que vem à cabeça é a de uma miguxa de 13 anos postando fotos provocantes no álbum do Orkut.
Outra coisa que se constata ao usar o Twitter é que os próprios tuiteiros ainda não têm uma noção clara a respeito do que se deve fazer lá. É comum ler tweets admoestatórios conclamando a Twittosfera a usar o serviço “adequadamente”.
Assim, aparecem na timeline censuras do tipo:
- “Twitter não é chat!”
- “Vão conversar no MSN, seus malas”
- “Pô, só se fala de futebol e CQC aqui. Vão falar de outra coisa”
- “Parem de falar de O Aprendiz”
- “Tem gente que acha que isso aqui é pra conversar”
É um microblog, na medida em que você posta o que quiser (em 140 caracteres) e o seu post fica armazenado, disponível na sua página inicial e sujeito a comentários e “trackbacks” dos leitores. Mas o Twitter tem uma enorme vantagem sobre os blogs normais: ninguém precisa acessar a sua página para receber suas postagens. Os tweets são distribuídos, automaticamente, para todos os seus “seguidores”, o que nos leva à segunda definição:
RSS (sigla para Really Simple Syndication), como você bem sabe, é aquele sistema maravilhoso que nos permite assinar vários sites/blogs e receber o conteúdo de todos eles em uma única página. Basicamente, é isso que o Twitter faz: agrega todos os tweets de todas as pessoas que seguimos em uma única timeline. Logo, o Twitter se assemelha a um blog com serviço de RSS embutido. Mas é muito mais que isso.
A conversa é, sim, o ponto alto do Twitter. Conversa-se sobre qualquer coisa. E com qualquer pessoa. Graças ao sistema de linkagem (colocando uma arroba na frente de um nome de usuário, ele se transforma num link), posso conversar com qualquer pessoa da Twittosfera, mesmo que ela não me siga. Assim, o debate não fica restrito a “seguidos” e “seguidores”. Qualquer interagente cadastrado no Twitter pode ser incluído na conversa a qualquer momento e entrar no debate.
Isso é a manifestação daquela propriedade da inteligência coletiva que Pierre Lévy chama de “escuta”. O Twitter possibilita a conversa da inteligência coletiva consigo mesma. Permite que a coletividade torne-se autoconsciente pela escuta de si mesma.
Links para páginas úteis e inúteis são tuitadas e retuidas o tempo todo. É um espaço perfeito para o compartilhamento de informação, diversão, curiosidades. Graças a serviços de compactação de URLs (como o Migre.me ou o TinyURL), é possível acomodar os permalinks longos demais no ínfimo espaço de 140 caracteres, numa boa.
Empresas inteligentes usam o Twitter de maneira inteligente. Graças às ferramentas de busca da Twittosfera, uma companhia pode monitorar, em tempo real, tudo que é dito a seu respeito, tendo, assim, um mapa de aceitação/rejeição, podendo responder a críticas e elogios quase na hora em que estes são postados.
Isso já é ótimo, mas o alcance empresarial do Twitter vai ainda mais longe. Quer ver um exemplo? No dia em que o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma para exercício do jornalismo, eu, estudante de jornalismo que sou, tuitei algo como “agora, vou largar o curso e fazer Corte e Costura”. Minutos depois, recebi, na minha timeline, a seguinte resposta do Instituto Universal Brasileiro (que sequer está entre os meus followers):
Como isso aconteceu? O @IUB faz uma busca dos termos relacionados aos cursos que oferece, e envia os links desses cursos a quem possa interessar. Genial, não? No ano passado, o blog PensaRics descreveu uma ação semelhante do Carrefour.
Quem usa o Twitter regularmente já percebeu que o teor das conversas muda de horário para horário. Na hora da novela, do CQC, do programa O Aprendiz, dos seriados, whatever, aparecem muitos tweets sobre isso. Em dia de jogo de futebol, parece que só se fala disso. O Twitter torna-se, nessas horas, um fórum sobre o que está acontecendo na TV (o tal “encadeamento midiático” de que fala o Alex Primo).
Há, também, temas que fazem o caminho inverso: só aparecem na TV depois de serem debatidos exaustivamente no Twitter. Como escrevi no post sobre o Twitter e a morte de Michael Jackson, a reação instintiva que os tuiteiros têm quando ouvem um boato é correr para o Twitter a fim de “apurar a história”. Foi assim no caso de Jackson, no caso dos rumores sobre a morte de Sílvio Santos etc.
Existe uma ferramenta virtual, chamada Twitterfall, que agrega, em tempo real, todos os tweets (do mundo) sobre o termo que se seleciona no campo de busca. Assim, pode-se saber das novidades (caso haja, é claro) no momento em que elas são postadas, além de se ter um panorama de como determinado assunto está repercutindo no mundo.
Um recurso do próprio Twitter, chamado “Trending Topics”, permite que se saiba quais são os temas mais comentados na Twittosfera.
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Assim, chegamos a uma definição (preliminar, pois novos usos surgem a cada dia) de Twitter:
Twitter = rede social + microblog + RSS + superchat + disseminador de links + SAC virtual + fórum global… Não necessariamente nessa ordem.
[A imagem dos passarinhos foi gentilmente cedida pelo Smashing Magazine]
Vídeo no Youtube mostra como a morte de Michael Jackson influenciou o surgimento de trends nos tweets:
(via @andrelemos)
Apesar do esperneio de gente que ainda não entendeu como o Twitter funciona (ou de quem entendeu mas não sabe/não quer se expressar em 140 caracteres), não dá mais para pensar o compartilhamento de informações em tempo real sem o auxílio do nosso querido pássaro azul.
A cobertura da morte de Michael Jackson é um exemplo paradigmático.
No fim da tarde do dia 25 de junho, eu estava no trabalho quando ouvi, de relance, alguém perguntar:
- ‘Tão dizendo que o Michael Jackson morreu! Será que é verdade?
Minha reação foi automática, reflexa: corri para o Twitter. Milhares (quiçá, milhões) de pessoas ao redor do mundo fizeram a mesma coisa, pois o nome e/ou as iniciais de Michael Jackson já apareciam nos Trending Topics.
Naquele momento, a cascata de updates (tanto na timeline do Twitter quanto nos resultados de busca no Twiterfall) trazia, como de praxe, mais perguntas que respostas. A grande dúvida era: ele tinha mesmo morrido ou não? Aparentemente, todos os que noticiavam a morte do cantor se baseavam em UMA ÚNICA FONTE: o site TMZ.
Comecei a acessar sites de notícias do Brasil e dos EUA. Todos eles citavam o TMZ e adotavam aquela clássica postura defensiva: manchetes do tipo “Michael Jackson teria morrido, segundo site”.
Busquei ajuda, então, nas agências de notícias, esses bastiões do jornalismo, tão amadas pelos defensores do jornal impresso. Veja só em quem a Reuters se baseou para redigir o seu primeiro despacho:
Impossível, nessa hora, não estabelecer um paralelo com o episódio da “morte de Sílvio Santos”, boato que, após uma invasão hacker n’O Fuxico, se espalhou via Twitter e ganhou espaço nos sites de notícias. Não seria a “notícia” da morte de Jackson uma pegadinha de proporções globais? Foi aí que o pássaro azul do Twitter mostrou, mais uma vez, a que veio.
As updates relacionadas a Michael Jackson dominaram a timeline do Twitter e quase monopolizaram os Trending Topics:
O Twitter se converteu, por força da auto-organização, num fórum global sobre o estado de Michael Jackson. As informações e opiniões eram tuitadas e retuitadas em tempo real, e pelos links postados se podia ter uma noção geral da apuração dos sites de notícias, jornais e TVs. Além disso, os tweets eram a expressão de como os membros da twittosfera assimilavam a morte do cantor e refletiam as impressões de cada um sobre a vida e a obra de Jackson. Observemos, por exemplo, toda a riqueza de informação e significado deste pequeno segmento da timeline:
Temos, aí, compartilhamento de links mostrando em tempo real o progresso da apuração (3, 4 e 5), a indicação de que a grande mídia havia endossado a notícia (4 e 5), a expressão de opiniões sobre a vida e obra do artista e o que elas representaram para o imaginário individual e coletivo (6 e 7), encadeamento de mídias (1 e 3), tentativa de transformação do twitter em meio de entrega direta da notícia (8) e até a expressão de indiferença em relação ao tópico mais em voga no momento (o número 2, em que o tuiteiro convoca a twittosfera a falar de outra coisa… será que alguém topou?).
Numa palestra da semana acadêmica da Fabico, o Alex Primo falou sobre a inserção do Twitter no encadeamento midiático. Observem, neste tweet, como até os participantes ativos da twittosfera usam a informação da mídia tradicional como “voto de Minerva“, como veredicto: “se a CNN confirmou, então é verdade”.
Well, a verdade é que “Michael Jackson morreu na CNN 45 minutos depois de ter morrido no Twitter”, para usar uma frase que foi tuitada e retuitada à exaustão: