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Nota sobre um terreno baldio

5 de junho de 2017 ,

Eu morava na Rua Tenente Ary Tarragô (que marcava, no mapa oficial da prefeitura de Porto Alegre, a divisa entre o bairro Itu-Sabará e a “Zona Indefinida 2”) quando concluíram a remoção, para uma área a uns dois quilômetros do meu apê, dos cerca de 700 moradores da famigerada “Vila Chocolatão”.

Aquelas famílias, retiradas de condições de vida e moradia insalubres na região central da cidade, foram transferidas para a altura do número NOVE MIL da Avenida Protásio Alves. Onde antes ficavam seus casebres, viceja hoje, SEIS ANOS depois da remoção, um lindo terreno baldio protegido por corpulentas grades.

Donde concluo que a escolha por assentar aquelas pessoas no Cu da Protásio em vez de reconstruir sua vila no mesmo local onde elas antes residiam se deve menos à necessidade de uso daquele terreno que ao absurdo que é termos favelados morando de graça a menos de dez minutos de caminhada do Gasômetro e pertinho de tudo (sobretudo, perto do trabalho, já que era uma comunidade que vivia basicamente da reciclagem, atividade enormemente dificultada pela mudança forçada de endereço).

Porto Alegre me dói.

Viagem à Porto Alegre de 2114

17 de abril de 2014 ,

Num entardecer de por do sol particularmente lindo, dada a nuvem de poluição de milhares e milhares de carros e ônibus semiparados – como virou praxe no trânsito de Porto Alegre -, uma mistura acidental de gases de escapamento, vapores de churrasquinho de gato e fedor de mijo das calçadas me entra pelas narinas e leva-me ao transe místico. Abro os olhos e descubro que viajei ao futuro. E, como é próprio das epifanias induzidas pelo bodum da cidade, tenho total ciência dos acontecimentos a minha volta.

De repente, me vejo na Porto Alegre de 2114 (mais…)