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O clique

5 de setembro de 2017 ,

Lembro que, antes de me tornar pai, pegar um bebê no colo era algo que me dava medo. Medo de não saber segurar direito, de derrubar, de não saber como amparar a cabeça, medo de apertar demais e machucá-lo… e outros mil receios que me passavam pela cabeça toda vez que surgia a oportunidade de tomar um pequenino nos braços, nas casas de amigos ou parentes.

Quando meu menininho nasceu, o que aconteceu com esse medo? Um clique na minha cabeça eliminou instantaneamente qualquer receio e, desde o primeiro instante, pegá-lo no colo com segurança e carinho foi algo natural, simples, espontâneo e instintivo. Foi assim na sala de pesagem da Maternidade, foi assim quando ele foi levado para o CTI Neonatal para tratar uma infecção, foi assim após a vinda para casa, treze dias depois.

De um instante para outro, eu estava tirando selfies com ele, fazendo-o dormir em meus braços, dando mamadeira, embalando, trocando fraldas, brincando, sendo pai com uma desenvoltura que só a Natureza é capaz de assegurar, em milhões de anos de evolução. Ninguém ensina, é algo automático, espontâneo, natural. É maravilhoso ver como a paternidade nos transforma.

Meu filho: meu passado, presente e futuro

13 de agosto de 2017 ,

Um dos mais gratos “efeitos colaterais” da experiência de ser pai é constatar diariamente que a chegada do meu filho me reconciliou com minha própria história, zerou meus arrependimentos.

Eu sempre pensava no passado em termos de “o que eu poderia ter feito diferente?” Costumava revisitar situações entalhadas nos corredores da memória e ficar imaginando o que eu mudaria se pudesse reviver aqueles instantes.

Desde que o Pedrinho chegou, deixei de me perder nessas divagações e cristalizou-se em mim a convicção de que, se me fosse dada a oportunidade de voltar ao passado e escolher outro rumo, eu faria tudo exatamente do mesmo jeito. Pois cada palavra, cada gesto, cada escolha que eu mudasse poderia me desviar na direção de um futuro alternativo sem o meu filho, e este não é um risco que eu estaria disposto a correr.

A soma de todos os meus erros, acertos, escolhas e ações do passado me trouxe a um presente com o Pedrinho, e isso faz com que eu me alegre e seja grato por todas as coisas que já vivenciei, mesmo as que antes me desgostavam.

Obrigado, filho amado, por dar propósito e sentido a cada dimensão do meu passado. Que possamos, juntos, de mãos dadas com a Mamãe, viver o presente com serenidade e construir um futuro radiante.

Sobre a exaltação dos “Paizões”

11 de agosto de 2017 ,

Eu sou um pai presente. Muito. Preparo as refeições do meu filho, participo de todos os banhos (só perdi uns dois, e por razões profissionais, desde que ele veio pra casa, há nove meses), troco fraldas, visto, distraio, faço dormir, brinco, passeio, ajudo a escolher roupinhas na loja, passo meus dias em função dele.

MAAAAAS…. estou bem ciente de que [1] não faço nada além da minha OBRIGAÇÃO e, [2] mesmo dispendendo uma substancial parcela de tempo do meu dia para cuidar dele, meu fardo é muito, mas muito mais leve que o da Mamãe.

Sei que vivemos num país em que tantas pessoas sequer sabem quem são seus pais e outras tantas, mesmo conhecendo o sujeito e/ou morando na mesma casa, não sabem o que é ter um pai envolvido e dedicado. Mas é muito machismo a gente transformar em case e tratar como um ato de heroísmo quando um pai decide simplesmente agir como pai – sendo que não damos nem 0,5% desse Ibope quando uma mãe faz o mesmo ou (quase sempre) mais.

Temos de elogiar e mostrar exemplos de pais que vestem a camisa, até para estimular mais e mais homens a assumirem seu papel. Mas tenhamos sempre presentes os pontos [1] e [2] ali do segundo parágrafo.

A paternidade e o cuidado

17 de julho de 2017 ,

Sempre que um amigo ou conhecido pergunta como está a paternidade, a primeira palavra que me sai da boca é:

— Assustadora…

A pessoa geralmente fica desconcertada e eu logo emendo, pra tranquilizá-la:

— … mas maravilhosa.

Ser pai é mesmo uma experiência maravilhosa (a cada dia mais), mas tem, sim, um quê de assustador. Nada que a gente tenha lido ou vivenciado em terceira pessoa nos prepara para o pavor que dá ter um bebê de dias no colo, chorando a plenos pulmões de madrugada, sem que façamos a menor ideia do que possa haver de errado com ele.

Leva algum tempo até aprendermos a identificar, pela frequência e pela intensidade, o choro correspondente a cada demanda, e, mesmo quando se consegue decifrar as causas mais comuns de desconforto, a experiência mostra que sempre surge algo novo e desconhecido. Será cólica? Será fome? Será dor de ouvido? Ele está com febre? Será que a fralda está muito apertada? Será sono? Frio? Calor? Ou será apenas tédio? Cada vez mais, à medida que o tempo passa e a nossa relação com aquele serzinho se aprofunda, aprendemos a conhecer, pelos sons e pelo próprio semblante, o tipo de cuidado que ele exige em cada momento.

A palavra é esta: cuidado. Ser pai é vestir-se de cuidado, é impregnar-se de cuidado. Desde sempre. Desde que o sinalzinho que indicava o resultado positivo apareceu naquela tira de papel do exame caseiro de gravidez, cuidar do meu filho tornou-se uma das dimensões fundamentais da minha vida.

Foi aí que essa missão de cuidado e proteção se imiscuiu com o medo e com a preocupação – o que, imagino, durará para sempre. Cada consulta do pré-Natal, cada ultrassom em que víamos nosso pedacinho de gente se formando, cada desconforto da Mamãe durante a gestação era um flerte com o medo de que alguma das milhões de coisas que podiam dar errado desse errado.

E, às vezes, as coisas dão errado. Como quando nosso menino, minutos depois de sair do ventre da Mãe, antes mesmo que pudesse vir para o nosso colo, teve uma febre detectada e foi encaminhado com infecção ao CTI Neonatal, onde ficou aos cuidados da equipe médica por treze dias que duraram, para nós, uns treze anos. Mas praticamente tudo, para nós e para o nosso filho, tem dado certo desde então. O Pedrinho foi pra casa, naquele lindo domingo de novembro, encher nosso lar e nossas vidas de incertezas e de medo, mas também, e principalmente, de alegrias e de amor.

A cada dia, muitos aprendizados, e uma das mais importantes lições é que não existe um dia igual ao outro. Fazê-lo dormir, se alimentar ou se distrair não tem receita pronta e às vezes o que parece ser uma técnica infalível, que testamos e comprovamos tantas vezes, simplesmente não funciona. O cuidado precisa ser inteligente. Não existe piloto automático com o Pedrinho: ele exige um cuidado perspicaz, de improviso, que se molde de acordo com seu humor e com seu estado de ânimo em cada momento.

Essa é uma das milhares de coisas que fazem ser tão assustador, mas tão maravilhoso, conviver com o meu filho. E cuidar dele. É cansativo, é desafiador, mas é a única vida que quero viver – desde que descobri, naquele sábado de março de 2016, que eu já podia me considerar um pai.

O racismo em mim

2 de junho de 2017 ,

Estou acostumado a ver o debate do racismo perpassar meu newsfeed como uma competição de dedos apontados para racistas que são sempre o Outro. Tanto que, a julgar pela amostra representada por meus contatos do Facebook e do Twitter, a impressão que fica é a de que não há, no Brasil, um único racista. Todos ou consideram o racismo abominável ou se gabam de ter amigos negros. Vivemos num país racista que não tem cidadãos racistas, veja só.

Eu olhei para o espelho das minhas memórias e não gostei nada do que vi. Vi o meu próprio reflexo e enxerguei um racista. (mais…)

Sobre a Friboi e uma noite em Cabeceira de Tocas

2 de junho de 2017 ,

Ter vivido por seis anos no Seminário me permitiu experimentar algumas coisas que, provavelmente, não teria conseguido de outro modo. Duas delas foram:

– conhecer grotões escondidos nas entranhas do Rio Grande.
– me hospedar nas casas de inúmeras pessoas desconhecidas.

Dos cafundós (sem qualquer intenção de ser pejorativo) em que já me meti, acho que o que tinha mais cara – e nome – de cafundó era (mais…)

A fortuna que perdi e pretendo reaver

4 de fevereiro de 2017 ,

Depois de passar décadas dizendo dizendo que não gostava de abacate sem nunca ter sequer provado o fruto, provei, gostei e tô numas de comer com alguma frequência, seja puro (de colher) ou do meu jeito preferido: como base para um delicioso guacamole.

Dia desses, comprei um único abacate no súper aqui de perto de casa, para o guacamole da janta, e reparei no preço da etiqueta: R$ 2,00 exatos. “Só dois pila por um abacate! Que barato pra algo que serve de base pro jantar de duas pessoas”, pensei.

Aí lembrei do abacateiro que tínhamos em casa, lá em (mais…)

Nasce um filho. Nasce um pai

13 de novembro de 2016 ,

Todos aqueles clichês são verdade. Todos.

Tornar-se pai é uma experiência transformadora, te faz ver o mundo com outros olhos, te faz mudar de opinião sobre o que é importante.

Principalmente quando teu filho é levado para um CTI Neonatal antes que tu possa segurá-lo no colo. E quando as longas noites longe dele e o medo de que algo ruim aconteça te deixam com aquela angústia tão grande. É aí que tu entende que a única coisa que importa na vida é ter o teu filho nos braços.

É aí que tu te vê capaz de fazer qualquer coisa por ele. Pode ser só o meu cérebro inundado de substâncias que me fazem querer preservar a prole a qualquer custo, pelo bem da espécie, mas eu levaria um tiro numa boa, se fosse pra proteger esse pedacinho de gente.

Outro clichê: ter um filho te faz querer ser melhor. Te faz querer deixar o mundo melhor pra ele. Junto com meu filho, nasceu o eu-pai, um pai que crescerá junto com ele, que aprenderá com ele a viver a vida.

Hoje, depois de duas semanas, Pedrinho veio pra casa. Seja bem-vindo, meu amado. Vamos juntos, de mãos dadas com a mamãe, melhorar esse mundo, nem que seja só um pouquinho.