Aquele olhar

21 de maio de 2019 #paizices,

Acompanhar o meu filho (hoje com dois anos e meio) na sua jornada de descoberta do mundo e da vida é uma experiência maravilhosa, cheia de bons momentos que compensam todo o cansaço e todos os medos.

Como imagino que aconteça com todo pai digno do nome, alegram-me as alegrias do meu menino e me doem as suas dores. Falando por mim, posso dizer que minha resistência fica mais blindada e resiliente a cada dodói e a cada choro que enfrento junto com ele, mas preciso confessar que ainda não sei lidar muito bem com AQUELE OLHAR.

Meu filho, mesmo não estando ainda na escolinha (ele costuma ficar em casa com a avó), é em geral sociável e dócil com outras crianças. Ocorre, como bem sabem os pais e mães, que nem todas as crianças são assim. Várias se comportam desde cedo com truculência e violência, pelas mais variadas razões, e sempre que isso acontece e estou por perto, o Pedrinho me olha com um semblante que me corta o coração. Aquele olhar, misto de perplexidade e pedido de ajuda, tem me deixado sem chão.

Tento sempre acolhê-lo e deixar claro, pelas minhas palavras e atitudes: “Filho, o papai está contigo e vai ficar tudo bem”, mas como fazer isso sem prejudicar a jornada dele de aprendizado da arte de viver? Como defendê-lo sem parecer aquele pai valentão e super protetor que tenta interferir na criação dos filhos dos outros para defender o seu?

Sei que a vida em sociedade jamais será livre de conflitos e choques de interesses, necessidades e vontades, sei que as crianças pequenas que tiram os brinquedos de outras e às vezes batem nos amiguinhos não têm ainda estrutura para lidar com os sentimentos e muitas vezes apenas reproduzem o ambiente de violência e truculência que vivenciam em casa, mas, porra, como dizer isso para o meu filho quando ele me dirige aquele olhar?

Como prepará-lo para enfrentar a violência e a falta de cordialidade das outras pessoas? Dia desses, uma amiga da minha esposa disse que ouviu do seu pai: “Filha, faltou que eu te ensinasse a ser má com as pessoas, quando necessário”. Essa frase calou fundo em mim. Um dia, meu filho será um adolescente, um jovem, um adulto convivendo, e sem que eu esteja por perto, com pessoas das mais diversas índoles e temperamentos. Várias delas serão egoístas, desonestas, às vezes perigosas, por razões que não vêm ao caso aqui, mas o ponto é: como prepará-lo para lidar com isso? Como se tornar uma pessoa gentil, leal e de bom convívio sem ser alguém que é explorado, machucado ou feito de bobo pelos outros? Onde está a justa medida entre ser legal e ser otário, entre ser cordial e ser submisso? E como se ensina uma criança a saber a diferença?

Por enquanto, não tenho essas respostas. Ainda não sei qual é a resposta mais adequada àquele olhar do meu filho. Tudo que posso fazer é seguir ao lado dele, aprendendo com ele e com suas vivências, que também são minhas vivências e meus aprendizados como pai.